19 fevereiro 2009

Dark Was The Night - Vários - 2009


Dark Was The Night

Um título soberbo: uma causa nobre: um disco inesquecível: canções que não se limitam a fazer parte da galeria de grandes temas musicais deste ano: perdurarão muito para além dele.

Aos irmãos Dessner - Aaron e Bryce - não lhes é suficiente estar na base de um dos mais estimulantes projectos musicais que podemos escutar actualmente - The National - da mesma forma que não foi apenas importante elaborar álbuns tremendos como "The National", "Sad Songs for Dirty Lovers", "Alligator" "Boxer", assim como "The Virgínia EP".

A discografia com edições nos anos ímpares deste século, repleta de grandes canções, permitiu-lhes soltar o brilhantismo que possuem em concertos inesquecíveis em Portugal: Aula Magna; Lisboa - Maio de 2008; e Centro Cultural de Vila Flor; Guimarães - Julho de 2008, para além da presença nos Festivais de Paredes de Coura, Sudoeste e Optimus Alive.

Possuem o fantástico defeito de serem esmagados pela inércia e essa hiper-actividade, faz com que desta vez sejam notícia por coordenarem a elaboração de um disco ao serviço de uma causa nobre - A organização Red Hot que procura através de actividades de índole musical, angariar fundos para permitir o combate ao HIV em todas as suas vertentes.

Sob o signo da mítica 4AD - que nos anos 80 e 90 reunia alguns dos mais interesantes nomes do panorama musical de então ( Bauhaus, Dead Can Dance, Pixies, Cocteau Twins, This Mortal Coil, Breeders, Throwing Muses ou Lisa Germano) - e que presentemente recupera esse estatuto ao assinar autores como Beirut, Blonde Redhead, Department of Eagles, Mountain Goats, TV on Radio, Bon Iver, Deerhunter e , claro está, The National, surge a edição de um álbum de eleição, muito por causa da escolha de um naipe de canções que esperavam a explosão que por vezes a realização de uma versão depurada permite.

Tudo isto para serem notificados da existência de "Dark Was The Night", um conjunto de canções impressionante, que poderão saber muito mais sobre elas a partir daqui: http://www.4ad.com/news/dark-was-the-ni/ , mas que gostava de muito de vos referenciar algumas que se destacam imenso, atingindo um altíssimo nível de beleza e qualidade, proporcionando momentos inesquecíveis, como são o caso de:

Cello Song - The Books and José Gonzaléz; So Far Around the Bend - The National; Tightrope -Yeasayer; Feeling Good - My Brighest Diamond; I Was Young When I Left Home - Antony and Bryce Dessner; Sleepless - Decemberists; Lenin - Arcade Fire; Mimizan - Beirut; Gentle Hour - Young La Tengo; Love vs. Porn - Kevin Drew.

Incríveis: confirmem e sem demora.

Há mais uma vintena de músicas à vossa espera, para audição atenta e apreciação, de preferência de modo a que possam acrescentar outros títulos à "short list" que vos deixei, o que só confirmaria esta obra como uma das grandes referências que este ano vai dar a conhecer: apenas há que ousar a sua escuta.

Penso que para além dos agradecimentos de a quem se destinam os fundos recolhidos com esta edição, também quem escutar alguns destes sons, os poderá lançar: o meu desde já aqui fica: obrigado.

14 fevereiro 2009

Tindersticks @ Coliseu dos Recreios 13.02.2009

The Other Side of the World!

Nos dias estranhos que vivemos, tornou-se apenas possível a um habitante do Porto, um bilhete para os Tindersticks no Coliseu dos Recreios em Lisboa, com a Casa da Música há um mês esgotada - Globalização regionalizada ou ditaduras de contexto?

Numa insustentável teoria da conspiração, um brutal e cruel exemplo, se mostrava implacável: a ausência a mais uma apresentação em palco - de quem há tanto acompanho - na ferocidade da sua plenitude.

Assistir a este concerto dos Tindersticks não era uma mera questão de curriculum, uma vez que na bagagem traziam um álbum soberbo, pelo que as expectativas estavam perfeitamente ao nível do que permitiram os Portishead, Nick Cave e Sigur Rós, nas aparições em palcos portugueses em 2008: Grandes trabalhos / Imensos concertos.

No meio de tudo isto houve a devoção a Young Marble Giants e Fall, mas as atenções agora são para os "Magnificent Seven" que acostaram em Lisboa @ 13-2-2009.

Os Tindersticks fizeram de "The Hungry Saw" uma obra-prima: a claustrofobia da sua obra tornava-se um peso demasiado difícil de lidar: uma das suas mais fantásticas características ameaçava ser o seu maior veneno, rumo à desintegração existencial, porque em relação à emocional estamos entendidos, certo?

A fasquia estava num ponto elevadíssimo, assente na crença que o concerto a apresentar não se tornasse mais uma desilusão das que enchem estes dias.

O tremor aparecia: a excitação e o receio ocupavam estrategicamente terrenos entre eles, sem permitirem fronteiras perceptíveis.

Mr. Staples rodeou-se dos seus cúmplices, infalíveis nas teclas e guitarras, mais um punhado de outros músicos fabulosos: metais, cordas e percussão: no plano onde se move a perfeição.

O resultado? - um dos mais memoráveis momentos musicais que pude assistir até hoje, que valeu cada km do Porto a Lisboa e volta ao Porto: som irrepreensível, Stuart numa forma soberba, sete músicos em palco numa cumplicidade a rasar o impossível.

Execuções tremendas; canções respiradas até à ultima gota: silêncios rendidos e a fazer brilhar um leque de títulos históricos, em conjunto com outros que o vão passar a ser.

Um último trabalho demonstrado de forma merecidamente exaustiva, na marca condutora da sua única matéria conceptual: a beleza; complementado por algumas das mais brilhantes canções que atravessaram o século passado e, contribuíram para fazer dele, um período de que a História da Música Popular se orgulha.

Dois regressos ao palco pela exigência de um público que lançou a ambiguidade de se recolher em veneração; saber escutar; ou desconhecimento para evitar a classificação de ignorância - talvez demasiada azeda para uma noite inesquecível - é que as explosões no final dos temas, pareceram tão contidas, como o desfile daquelas peças extraordinárias.

Foram poucos e leves os gritos de manifestação pelo que se escutou; muitos os aplausos: estariam as vozes demasiado embargadas?

O fecho, após o comentário de "so many songs"; mão a deslizar sobre a cabeça- fizeste por isso Stuart!, esse, ficou para o sonhado Tiny Tears, ex-libris da beleza que os Tindersticks transportam na sua música.

Enumerar todos os passos que fizeram alto este momento, num banal alinhamento, daria mais um milhar de caracteres, pelo que fica a referência a My Sister, She's Gone, Dying Slowly, Say Goodbye to the City, My Oblivion, de outras eras, para a confirmação absoluta de The Hungry Saw, como um dos enormes álbuns de 2008, ao nível dos seus melhores trabalhos, contribuindo para o rol de clássicos, sempre que Stuart Staples fizer o favor de nos entregar nas mãos, abertas no agradecimento dessa dádiva.

The Other Side of the World, Yesterdays Tomorrows, Boobar Come Back To Me e All the Love serão pérolas para recordar sempre.

Qual a pena por arrombar as portas da Casa Música hoje à noite? - seja ela qual for, seria sempre demasiado leve: desde que permitisse a repetição de momentos como o de ontem.

Os Tindersticks concederam um concerto memorável, agradeceram sentirem-se em casa, devíamos ter pedido para ficarem para o resto da noite, eu pelo menos só tinha comboio de volta ao Porto pela manhã.