29 março 2009

Mão Morta @ S. Mamede Centro de Artes e Espectáculos, Guimarães, 27.03.2009


Mais do mesmo: afortunadamente.

Travessia Porto-Guimarães cumprida, rumo a um Teatro desconhecido, a permitir o primeiro bom momento da noite: encontrar uma sala alta, palco vasto, balcões adivinhados, a genialidade de uma plateia com bar incluído, acústica prometedora e a cumprir, mais tarde, em toda a sua integridade.

Aquecimento com os Cratera e os Pornography, com a sala à espera da invasão, dos corpos vivos - ou não - empurrados pela Mão Morta para mais um noite de vendaval, a uma hora tão incrivelmente adequada.

Atirados a um alinhamento que foi preparado ao milímetro, que funciona de uma forma incrível, como foi demonstrado no Porto, no Teatro Sá da Bandeira e comprovado em absoluto nesta sala agora descoberta: algumas alterações à sequência então sistematizada; novos contributos; peças subtraídas: sempre a gerar um todo ainda superior à soma das valiosíssimas partes.

Uma discografia de alto quilate, contendo canções tocadas de forma soberba e uma entrega de Adolfo Luxúria Canibal, no seu melhor.
As memórias de 6.03-2009 estão bem presentes e estão condenadas a prisão perpétua - em nós - e Guimarães permitiu mostrar que o que aconteceu no Porto não foi obra do acaso.

Tudo o que foi permitido ver, escutar e sentir repetiu-se de forma avassaladora, num mês que me concedeu tantos concertos como nos últimos anos, desta banda que está a tocar a um nível quase inacreditável:

1 - Ventos Animais
2 - Budapeste
3 - As Tetas da Alienação
4 - E se Depois
5 - Arrastando o Seu Cadáver
6 - Tu Disseste
7 - É um Jogo
8 - Charles Manson
9 - Em Directo para a Televisão
10 - Penso que Penso
11 - Amesterdão
12 - 1º de Novembro
13 - Barcelona
14 - Quero Morder-te as Mãos
15 - Vamos Fugir
16 - Lisboa
17 - Cão da Morte

1º encore
18 - Chabala
19 - Anarquista Duval

2º encore
20 - Oub'lá

A falta de cerveja ocorreu, como no Porto, desta vez não por ruptura de stock, mas por avaria mecânica. Provavelmente esta digressão poderia estar ao abrigo do mecenato de quem possuísse um camião cisterna, para evitar a falta de tão precioso bem, que até se torna dispensável quando assistimos a apresentações imensas, como estas.

Em Guimarães, Adolfo socorreu-se de um humor provocante para o descanso entre os temas, apelou à ironia, deixou agradecimentos - sinceros - por aqui ficam excertos escapados à memória não diluída:

- "Adoro vir a Espanha e, gosto de ver que em Espanha se está a investir em cultura": rivalidade minhota em toda a sua genuinidade.

- "Espero que não tenham levado a mal o que disse, porque gostamos muito de aqui tocar": quanto mais explicações mais cagalhões, meu caro.

- "Não percebo nada de futebol": em resposta aos gritos "insane guys" de Vitóooria!

- "Aqui há comboios?": respondendo ao "convite" ao regresso a Braga atirado do público.

- "Calma! É que eu já não tenho a vossa idade: tenho a minha": repetida após retardar o inicio de mais uma canção - porque é delas que os Mão Morta se alimentam e nelas que contam as suas mais brilhantes histórias.

- "Alguém tem ai fita adesiva? Daquela forte, mesmo forte, para colocar na boca desses gajos que não se calam! Parecem gajas com cio: como gajas com cio, gostam de dar nas vistas! Alinhem-se em filinha para vos ir ao _ _! Prometo que faço o servicinho rápido!": palavras despejadas no primeiro regresso ao palco, sinais do tempo e da idade, ou o fim do mito do coelhinho Adolfo.

- "Voltar ao palco, faz-me bem, faço exercício, "Step", perco a barriga": depois de uma "Chabala" em versão quase "chill out" só ajuda, certo Adolfo? - se me é permitida alguma dose de mordacidade.

(Mais) uma noite (em) grande dos Mão Morta: mais do mesmo: afortunadamente.

11 março 2009

Decemberists, The - The Hazards of Love - 2009


Ascensão

“The Hazards of Love” é o mais recente trabalho discográfico dos norte-americanos “Decemberists”.
Sucedendo a um registo de grande nível, “The Crane Wife” editado em 2006 pela Capitol, que tinha sido a sequência da trilogia para a Kill Rock Stars, composta por “Castaways and Cutouts” de 2002, “Her Majesty” de 2003 e “Picaresque” de 2005.

A editar durante este mês, a sua descoberta poderá provocar a existência de uma quinta estação do ano.

Anunciado como “rock opera”, após a sua escuta o conceito poderá ser abalado: prefiro chamar-lhe uma colecção de enormes canções ligadas entre si de forma soberba: uma conceptualização do talento.

Colin Meloy, Chris Funk ,Jenny Conlee, Nate Query e John Moen, conjugaram o seu talento, adicionaram a participação de Shara Worden dos “My Brightest Diamond”, Jim James, e Robyn Hitchcock, eventualmente uma das suas maiores referências.

A produção é inexcedível – cada instrumento permite a respiração do que lhe está mais próximo, a execução instrumental atinge momentos de brilhantismo invulgar, a cortina pop dos trabalhos anteriores, mantém-se caída sobre as canções, só que aqui, eleva-se e os horizontes, abrindo-se, convivem com guitarras mais descontroladas e encorpadas, as teclas cedem-lhes a passagem e entram por vezes em “delirium hammond”, ao baixo omnipresente as percussões respondem corpo-a-corpo.
As orquestrações rendem-se à simplicidade do crivo acústico: as vozes ocupam o que resta de um espaço medido ao milímetro por puro instinto.

As composições vivem de uma capacidade de surpreender tremenda.
As letras não têm dimensão.
Os “Decemberists” passaram-se na construção deste álbum e as nossas muralhas não nos protegeram: nadaram num rio que os tocou e tudo tocaram, alagando as margens onde os espreitávamos indefesos.

A escuta de “The Hazards of Love” deverá ser feita “em arco”, corpo suspenso sobre um rio, pontas dos dedos desfeitas pelas tentativas de nos mantermos agarrados ao mámore-pérola, o que faz com que se a opção for aleatória, nada se perca porque nos deixamos lá: o acerto é em cheio.

Possuidores de uma história com algum porte: num patamar bem sustentado nos caminhos da pop por terrenos indie, apresentam agora um álbum que terá como seu maior mérito, arrasar com os preparativos da cerimónia de escolha das obras mais marcantes da era 00.
Quando conversarmos sobre os discos da década, temos aqui um excelente motivo, para abrir a noite das redescobertas.

Como se chega aqui?

Existe um método que permite obter em determinados momentos excelente resultados, quando pretendemos que as canções de um determinado álbum que escutamos, venham a perdurar: à medida que o mergulho avança, anotamos num papel o número da faixa e, caso seja merecedora de ser considerada como tema para nos acompanhar os dias, acrescentamos o nome à folha que vai escurecendo.
No final poderá ser estabelecida uma avaliação assente em vários parâmetros, mas o fio condutor é a linha ténue que separa um grande disco duma obra-prima: um pequeno grande abismo..

No caso de “The Hazards of Love”, alerto para dispensa de o fazerem: 16 de 17 canções constam daquele espaço em branco que se encheu: apenas porque a introdução, não passava disso mesmo.

Sim! Os “Decemberists” têm aqui a sua obra-prima!

Ascenderam onde se sentam os eleitos.

11 em 10 para quem prefere notas em escala fria: 200 em 100 para quem se rende à insignificância das percentagens: arquivar em genialidade para militantes de catalogações: guardar em si – para quem se move por música: pura e simplesmente.

Para os mais exigentes, em relação à hipótese de inclusão de “Sleepless” - um dos grandes momentos de “Dark Was The Night” - neste álbum de filigrana, gostaria de referir que poderia ser contraproducente: o efeito poderia ser um somatório do desmoronar de castelos de areia - a que assistíamos enquanto putos ou com os nossos putos – invadidos pelo mar, com a queda de um baralho de cartas em equilíbrio transparente antes da colocação da última e a nossa implosão emocional.

Como não se deita fora trabalho, aqui ficam os grandes destaques de “The Hazards of Love”:

1 Prelude
2 The Hazards of Love 1 (The Prettiest Whistles Won't Wrestle the Thistles Undone)
3 A Bower Scene
4 Won't Want for Love (Margaret in the Taiga)
5 The Hazards of Love 2 (Wager All)
6 The Queen's Approach
7 Isn't it a Lovely Night?
8 The Wanting Comes in Waves / Repaid
9 An Interlude
10 The Rake's Song
11 The Abduction of Margaret
12 The Queen's Rebuke / The Crossing
13 Annan Water
14 Margaret in Captivity
15 The Hazards of Love 3 (Revenge!)
16 The Wanting Comes in Waves (Reprise)
17 The Hazards of Love 4 (The Drowned)

Enquanto se convocam os Deuses para que nos visitem – ou pelo menos numa Europa perto de nós, em versão “low-cost” – efectuar audições sucessivas; eternas: em ascensão.

07 março 2009

Mão Morta @ Teatro Sá da Bandeira 6.03.2009

"Há já muito tempo"

Há já muito tempo" que os Mão Morta não se apresentavam na cidade do Porto; eventualmente demasiado - no entanto, mais de quatro anos não passam disso mesmo: a ausência é depurada, pelo acompanhamento de um percurso notável e, os reencontros como o do dia 6/3/2009, tornam-se com uma facilidade espantosa em concertos inauditos.

Para o lançamento da noite, os Smix Smox Smux, mostraram um humor desarmante, algumas linhas interessantes, a poder valer mais, quem sabe se passarem a levar-se mais a sério, não perdendo a sua característica base.

O Teatro Sá da Bandeira, que voltou também ele, a recebê-los, depois de percorrerem muitos locais do Porto em anteriores passagens, permite um ambiente fantástico: possui uma acústica invulgar e mais uma vez o som esteve num nível excelente.

"Ventos Animais" - que baptizam a digressão presente - soltos na abertura: em lume brando, para logo de seguida, deflagrarem o incêndio com "Budapeste" – a confirmação de todas as expectativas sobre a forma como se apresentariam, logo ali à vista, para as ultrapassarem de forma soberba até ao final da actuação, num pasto de chamas.

A entrega às "Tetas da Alienação", o primeiro de muitos temas de "Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável" - ponto altíssimo da sua obra - trabalho que privilegiaram na recolha para um alinhamento, que deambulou por uma discografia ao nível dos grande nomes que se encarregam de tornar a Música, como elemento importante dos nossos dias.

O Porto é um local especial para uma banda em estado de graça, vinda de uma cidade em que de braços abertos se toca o Gerês e o Mar; rodopiando se abraça Berlim e Nova Iorque; mergulhando se aporta em Melbourne.

A qualidade que os Mão Morta transportam comprova-se com um exemplo muito simples: desafio! ousem alinhar "Budapeste" no final desta sequência: exactamente por esta ordem, comportando "Real Love" dos Swans, “Mercy Seat” de Nick Cave and the Bad Seeds e “Sugar Kane” dos Sonic Youth: sim, mostra-os ao nível das suas influências e a caminhar sem dificuldade lado a lado com elas: até as comparações bem intencionadas se podem tornar injustas, para quem teima em ver que se lhes façam o merecido reconhecimento:
- E quem quer saber deles?

A carga das letras das canções dos Mão Morta é um valor inestimável do que oferecem, maturada ao longo dos tempos, nunca perdendo a sua crueza, cresceu pelo que de muito bom absorveram, escrita depois com o próprio sangue, onde o "lado mitológico das cidades" é libertado por cada poro, que vislumbra o seu lado mais genuíno e orgânico.

O facto de inteligentemente, abandonarem o registo do rock, por vezes, como a teatralidade, conceptualização mais formal e experimentalismo, em "Muller no Hotel Hessicher Hof" e “Maldoror”, faz com que incorporem robustez e abrangência a uma discografia exemplar, injectando arte, onde a brutalidade, os medos que não ousamos enfrentar, sejam entregues em bandejas de prata, expiados como no concerto deste inicio de Março.

Os Mão Morta não envelhecem: institucionalizam-se musicalmente, no que de mais leve o termo tem, porque é de desconstrução que falamos: estão a tocar como nunca, atingindo áreas reservadas apenas aos eleitos: a secção rítmica e barragem sonora de por vezes - muitas - três guitarras e teclas produzem momentos ímpares como "É Um Jogo", "Em Directo Para a Televisão", "E Se Depois", em que Adolfo se entrega de forma única, para tudo isso ultrapassar ainda, em canções como "Arrastando O Seu Cadáver", "Quero Morder-te as Mãos", "Tu Disseste", "Lisboa" e "Cão da Morte".

Só bandas como esta geram histórias assim, apenas esta gente as sabe contar desta forma, alicerçadas numa carreira sem concessões, onde a coerência reina, percorrendo todo país e zonas limítrofes, onde exigem a sua escuta.

Ameaçador ou esgotado - a dúvida por vezes cai tão bem - em alguns intervalos dos temas, Adolfo disserta sobre a sua génese ou pelo que lhe passa pela cabeça. Para a selecção de um alinhamento, de uma obra intensa, escapam por entre os dedos temas que com toda a legitimidade alguns possam contrapor: como Adolfo muito bem referiu a propósito da discordância berrada "este é o mal das democracias, ninguém se entende", a reter e subscrever: o sinal menos dos nossos tempos poderá advir do facto de não serem conduzidos por um "Anarquista Duval", que fechou o primeiro encore, depois de "Anjos de Pureza" e "Charles Manson".

Terá faltado "Aum", mas perante a sua execução a desintegração poderia andar por ali perigosamente próxima.

Perante a insistência de quem os sabe receber desde o baptismo de palco no Orfeão da Foz, assim como na primeira comunhão, num Festival de Música no Pavilhão Infante de Sagres, onde ofereceram a simulação de uma amputação de uma mão a serra-fria, percussões servidas em bidões, típicos das obras não certificadas nos anos 80, lhes cativou um lugar de devoção num ala da catedral da música.

"Oub'lá" para o fecho como constatação disso mesmo. O alinhamento aqui fica: "gumes" apontados:

1 - Ventos Animais
2 - Budapeste
3 - As Tetas da Alienação
4 - E se Depois
5 - Arrastando o Seu Cadáver
6 - Tu Disseste
7 - É um Jogo
8 - Gnoma
9 - Em Directo para a Televisão
10 - Penso que Penso
11 - 1º de Novembro
12 - Amesterdão
13 - Barcelona
14 - Quero Morder-te as Mãos
15 - Lisboa
16 - Vamos Fugir
17 - Cão da Morte

1º encore
18 - Anjos de Pureza
19 - Charles Manson
20 - Anarquista Duval

2º encore
21 - Oub'lá

Até a extinção da cerveja, provocada por uma velha guarda que não deixa créditos por gargantas alheias, reunida em sagração, com a presença de seguidores mais recentes, outros ainda, via novas plataformas tecnológicas, fez desta noite um momento imenso: no altar de nós.