05 abril 2009

The Cinematic Orchestra @ Teatro Sá da Bandeira, Porto, 03.04.2009



A encenação do exigido: teatralidade orquestrada.

A especulação sobre o retorno da Cinematic Orchestra ao Porto adensava-se, à medida que a extinção das luzes de uma sala, que começa a obter uma projecção inteiramente merecida, ao receber e proporcionar grandes concertos a quem a invade.

Após a pretendida vinda por encomenda, o principal motivo da visita do colectivo liderado por Jason Swinscoe, assentava em muito mais que um simples desejo: numa exigência.

Depois de "Motion" surgido no fecho dos anos 90; "Everyday" de 2002, que serviu de forte justificação para o convite institucional da "Porto 2001", na gestação de "Man With a Movie Camera", editado em 2003; "Ma Fleur" aparecido bastante tempo depois, em 2007, colocou os Cinematic Orchestra como grandes escritores de canções.

Complementando a sua forma de caminhar pela fusão entre ambientes "jazz" e electrónica sensitiva, que já os fazia rasgar muitos rótulos, os elementos foram baralhados de forma saborosa, com a produção da banda sonora de um documentário sobre o ciclo da vida dos flamingos, para a Disney Nature, colaborando com a The London Metropolitan Orchestra, já em 2009.

A edição de "Live at Royal Albert Hall" no ano passado, bem como o acesso ao registo da passagem pelo "Barbican", forneciam algumas pistas sobre o que poderíamos assistir: no entanto os diferentes níveis de produção não clarificavam o que escondiam, neste regresso.

Nada como arrastar a cortina, numa sala, que longe de estar lotada, possuía um ambiente cheio: para espreitar o som.

Jason Swinscoe, fazendo jus às credenciais de mago, fez do cinema, teatro: não se limitando a realizar, encenou: como em todas as produções que arrebatam, ampliou cada recurso disponível: para os fins agarrou todos os meios.

Ao núcleo duro do piano e outras teclas de Nick Ramm; do baixo de Phil France; da bateria de Luke Flower; da guitarra de Stuart McCallum; e do sax e clarinete de Tom Chant - apresentado duplamente mais do que uma vez, como tanto gosta - juntou a imensa voz de Heidi Vogel e, a guitarra acústica e voz de Grey Reverend, que tinha oferecido uma primeira parte valiosa e intimista.

Com um alinhamento que viria a privilegiar "Ma Fleur", interpolaram os exemplares deste grande álbum, em alguns de "Everiday" e "Motion".

Interpretações brilhantes, temas tremendos, sobre e sob um som de excelente qualidade, foram desfilando, de um modo que o tempo não se fez notar: alquimia pura.

Ao decalque do que se escuta em disco, como em "Burnout", "As the Stars Fall", "Breathe" "Flite" ou "All That You Give", adicionaram uma intensidade dramática que ia crescendo à medida que o concerto avançava e, cada vez mais gente era agarrada.

Estilhaçaram "Child Song", fizeram levitar com "Familiar Ground" e "Into You"; não responderam ao pedido de "Evolution".

Permitiram a estupefacção a quem não conhecia "To Build a Home" tocada pela acalmia da guitarra acústica, ao lado da voz suave, sobre a madeira de um chão, alagado anteriormente pelas vagas de um mar cúmplice de piano e vozes indomáveis, da versão original em disco.

Não deixaram pedra sobre pedra, no segundo regresso ao palco, depois de uma exigência em uníssono, sempre que pairava a ameaça sobre o fim de uma noite incrível, na execução de "Ode to the Big Sea": solos soberbos: para trazer à boca de cena, quem em conjunto, durante aproximadamente duas horas, se moveu por um palco como só os grandes actores sabem pisar, projectando imagens sonoras, como apenas os monstros sagrados do palco o sabem fazer à sua voz.

Para o fecho, o detalhe do alinhamento, amavelmente cedido por Stuart McCallum, actualizado e autografado por Jason Swinscoe, recebendo de forma única no palco, em troca, tantos que tanto gostam de receber: quem encena o exigido: em toda a teatralidade orquestrada.

1. Burnout
2. Child Song
3. As The Stars Fall
4. Into You
5. Familiar Ground
6. Breathe
7. Flite
8. M.C.

1º encore
9. To Build a Home
10. All that you Give

2º encore
11. Ode to the Big Sea