30 julho 2009

A luz das cores retidas


O farol engole a escuridão e caminha sobre o mar,
chamado pelo som que serpenteia: voa agora nítido e fugidio; quase exagera no efeito praticamente hipnótico - tantas cores -
declina doçura, atirado de mão dada para que te espreite,
atravessando o frio que pretere o teu regresso.

Celebra-se o teu rosto e a denúncia das mãos paternais que o
desenharam às quentes maternais mãos, esculpidas pelo sopro do
movimento que tanto absorve.

Toques recepcionados: soltos - em aproximação que tendem
pelos dominios do absoluto - pela pele
resiliente à fuga das alcateias de granito:

exijo espalhada essa matéria que revestes e o sorriso, retido, desintegra-se: segredaste-lhe a escuta das palavras que te aquecem,
após a fuga pela praia das memórias irreveladas.

24 julho 2009

Why (not)?


"This Blackest Purse", do futuro "Eskimo Snow" para escuta: ou algo mais.

Viagens de olhos bem fechados; meias: opcionais; "phones"? - claro!
Já agora: clicar em |> aqui mesmo por baixo, por favor.


Obrigado!

-Again?
-Why not?

22 julho 2009

Cesariny; Gusmão; Helder

"Devo ter corredores por onde ninguém passe devo
Ter um mar próprio e olhos cintilantes
Devo saber de cor o ceptro e a espada
Devo estar sempre pronto para ser rei e lutar
Devo ter descobertas privativas implicando viagens
Ao grande imprevisto
De um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do
Teu peito o animal que inanimado cantas
Devo ser Júlio César e Cleópatra a força do Dniepper
E o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis
Devo separar bem a alegria das lágrimas
Fazer desaparecer e fazer que apareça
Dia sim dia não
Dia sim dia não
Devo ter no meu quarto espelhos mais perfeitos
Técnicas mais sérias prestígios maiores
Devo saber que és forte ampla transparente e
colher-te murmúrio flébil aerolado
que arranco da luz que encharca o mundo
dia sim dia não
devo portar-me bem à saída do teatro
devo dar e tirar as chaves do universo
num passo ágil belo natural
e indiferente ao triunfo aos castigos aos medos
fitar unicamente, sob as luzes da cúpula, o voo
tutelar da invisível armada"

Mário Cesariny


"Quando me tiveres apagado,
morto ou só feito da matéria da memória,
dança uma dança por nada e debruça em arco
o teu corpo sobre o poço da morte
sobre o corpo dividido e espalhado pela última praia."

Manuel Gusmão


"Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima

- eu não sei como dizer-te que cem idéias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem como astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.

- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo

- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
- e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram."

Herberto Helder

(Sob) o outro lado do mundo


Tragado pelo toque em permanência dos ventos do
outro lado do mundo, retomo o retorno para onde estão preteridos.
O calor já foi ofuscado pelas serpentes
que engoliram os encantadores que detinham a sedução
da sua existência, entregando a doçura à subtracção que
violenta: olhos degolados: dedos invocando chamas;
atónitas, que numa ínfima fracção de tempo – atrás? –
estavam entregues a esse movimento único – receptor do
convite inevitável: célula obrigatória do estímulo do mais próximo dos
sons: vasos comunicantes estilhaçados pelos braços que por aí se espalhavam.

Aqui me imponho ao que sou; tronco dobrado: completo:
a fabulosa arte da dissimulação!
Os joelhos mordem o queixo: o peito esmaga as pernas descarnadas; envoltas
pelo som de uns braços mudos.
Rendição no condicional; questionada pelo sussurro:
capitulação absoluta: o sangue não se ergue; é impelido pelo instinto.
- és tu silêncio,
ou os teus enviados que oferecem o que é tão simples toldado pelo
mais fátuo dos sentidos?

Lentamente, aproximo o desassossego destas mãos da membrana de vidro,
erradamente avaliada como irreal; mas ali está: inexpugnável:
fustigada pela convulsão do choro.
Ri do triunfo; previsível no estado mais bruto que é possível conceber.
Na rotação ainda mais imperceptível do rosto tomado de assalto pela porção
de luz dessa interrogação perpétua, surge a génese desse estrebuchar óbvio,
- como me permiti a imaginá-lo longínquo?

Aceitas-me de volta a mim?
Permites-me o sono que não busco? deflagrado nas encostas
amainadas pela perda que no fundo sempre rondou: atenta em
tudo o que é, infalível na representação nos palcos mordidos
pelo pó arrastado por um corpo que já não se ergue: os gritos
extinguiram-se num sopro dos lábios a quem não foram
concedidas tréguas, após o voo sobre as muralhas submersas.

21 julho 2009

Sonic Youth - The Eternal? Sim, e -in-temporal!



A música tem-me permitido travessias que nunca pensei possíveis.

Após agarrar as referências da sua existência, conheci discos no preciso dia em que eram editados em solo nacional, muitos outros me chegaram com imenso atraso, mas perfeitamente a tempo – qual a cor de um tempo pretérito? – alguns viajei também para os ver; ter; desembainhar; escutar: respirar.

A velocidade do conhecimento - quase nulo - assume-se estonteante no seu voo: conseguirá acompanhar este bando?

Hoje a(cedo) - praticamente no futuro? - a tantos que quase são desafiados os princípios de sustentação do equilíbrio sono(ro) de quem se auto-intrometeu por diversas rotas.

Por demasiado longínquas de si se apresentassem, possuíam o clamor de um preenchimento impossível de abdicar e, movendo-se em ciclos a que o jogo de espelhos se rende, quer por manifesta impossibilidade de representação de uma realidade que se atropela na voracidade do efeito surpresa - tão fulcral no que queremos para os nossos dias – quer no dourado e transparente retorno a momentos inesquecíveis.

Muitos autores; escritores de canções; fazedores de sons da descoberta; cartografaram e em muitos casos largaram pelo caminho as pedras alinhadas; os ramos partidos, caídos nada ao acaso; os cordéis esticados e bastantes outros sinais omitidos, para não se perderem no regresso.

Até aí, pela sua natureza foram enganados: afinal ao preparar um caminho de volta, não escancarando um trilho: ao facilitismo envolto na mediocridade, ocultavam o brilho para que o convívio com as trevas, impedisse uma companhia indesejada nessa viagem, tantas vezes solitária e de forma nenhuma efectuada sozinhos e, ensaiavam o simulacro brutalmente real das migrações sónicas.

Entre tantos exemplos de projectos a quem o rasgo, o seguir à frente, a não concessão a sistemas com via à integração, a situacionismos balofos e devoradores, os Sonic Youth apresentam um percurso, que sendo repleto de obstáculos, é mostrado numa execução de forma desassombradamente limpa.

Nervo.

Caminha(ra)m à frente, movem-se ao lado, regeneram-se, bebem de si e de quem os rodeia e de quem fazem questão de estarem presentes a rondar, empurram e saltam novamente para a frente de uma batalha de que não querem rendições.

Há quem atinja momentos únicos e, quem como os Sonic Youth, praticamente não saiba fazer outra coisa.
Depois da exposição a um tema como "Antenna", mais do que o desejo de ser assim quando formos grandes, somos assaltados pela vontade de ser “interporalmente” dessa idade.

"The Eternal" contém pedaços de uma era inesgotável.

No topo e final deste texto a possibilidade da confirmação de um título, cujo contacto é tudo menos repetido - cósmico: quântico, poderão ser a tentativa ainda assim falhada, de o abarcar.



Se a escuta esboça certezas a visão reforça-lhes o traço.

À equação do tempo, por diversas variáveis que se componha, Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo e Steve Shelley, suprimem a incógnita.

No limite inferior destas palavras: talento que confirmei como nunca pensei que me fosse concedido ver.

17 julho 2009

Joanna Newsom - Clam, Crab, Cockle, Cowrie



a metamorfose de uma lua desaparecida que não levou as estrelas;
o método eliminatório para atravessar um dia ardendo pelo anoitecer.

15 julho 2009

Constelações cíclicas



Sobreposta àquele chão de prodigios
- que acedia à sua presença por se desenhar ténue -
desejou o ombro em convulsão até ao aportar no outro contíguo: invisível:
violinos tacteando o tempo e o espaço consumidos a
cada movimento de um olhar clandestino; permitido
em troca na noite que fluía.

As cordas soltavam-se agora, prendendo as
pedras à respiração suspensa,
perante imagens das viagens que os dias declinaram,
projectadas nas quatro mãos abertas: limites desintegrados entre elas.

As árvores no seu deslumbrante dorso não censuravam o mar convocado
por pianos que dançavam com a percussão agora vertiginosa.

O rosto, inclinava-se já para o espelho contido na suavidade das
palavras,
tocavam a madeira e, sorriam às labaredas cristalinas.

O fogo caminhava sobre ossos até ai entregues a ventos de abandono e perda.
As quatro mãos aprisionadas, entoavam a canção atirada ao fundo do que as engolia:
o mar invadido.

Herberto Helder

" ah, deixa-me passar, digo-te baixo como hoje me chamo e como nunca mais me chamarei : loucura,

loucura unida à rítmica matéria das coisas, e se abrires a teu sono, dessa vez única verás o que sou: uma forma

impelida pela vertigem, a inclinação do teu próprio conhecimento sobre a morte iluminada por todos os lados,

e depois terei um só nome: revelação, até que os dias arquejantes me sufoquem. "

11 julho 2009

Templo de Novembro



de onde a partida não deveria ter sido desenhada,
para onde o regresso tudo pediu.
somente consigo articular os olhos fechados: recusam ver:
quem não volta na madrugada; onde curvo,
o silêncio diz que o teu amor não pretendeu
ter razões para ficar,
as lendas falam de quem tu mais
querias ver, e só
este som me enche;
obtém-me;
faz doer a agitação
do segredo que esta noite não esconde.
a voz lançada procura em cada fracção branca
a razão a que se nega para por aqui serpentear.
ri.
dança.
ri e,
não permite a convulsão de um choro
que espreita para a elevar.
os dedos sangram sobre as cordas
surgidas para que os tímpanos azuis
cuspam chamas e abracem lâminas:
soa suspenso; celeste;o corpo que roda no sabor dessa procura.

Fanfarlo - Reservoir - 2009



Simon Balthazar é um dos autores nórdicos que emergem, rumo ao terrenos onde reina a exigência do brilhantismo como forma de fazer perdurar canções, condenadas a audições sucessivas, nos tempos imediatos à sua escuta.
Baseado em Londres, o seu projecto Fanfarlo, gerou no início deste ano o álbum “Reservoir”, bem recheado de exemplares que o tornam um dos bons trabalhos de 2009.

Produzido por Peter Katis, que trabalhou com bandas como os National ou os Interpol, “Reservoir”, na era do “ctrlC”/”ctrlV”, adiciona muito mais que uns pozinhos mágicos a primeiras impressões de Clap Your Hands do seu primeiro registo, permitindo fazer o segundo excelente trabalho que estes não conseguiram e, o facto de os Fanfarlo serem lembrados apenas por isso, seria demasiado redutor e injusto.

Andou alinhado todos os meses que este ano já tem, em escutas viciantes, daí a demora em falar sobre eles – pelos menos a desculpa, com uma enorme componente de verdade, foi tentada!

O atiçar da memória surge também porque vão estar em Paris no mês de Novembro, onde circularão muitos mais músicos e bandas que poderiam sofrer um ligeiro desvio até um palco perto de nós e, era uma boa altura para tratar do assunto em causa.
Aos promotores mais distraídos deixo os links para começar os contactos:

1.

2.

A quem possa querer uma visita guiada, ficam por aqui as principais faixas deste disco, para que o descubram ou repitam a(s) escuta(s) que já possam ter efectuado.

“I’m a Pilot”, abre o desfilar de temas: nos seus componentes surgem laivos de Sigur Rós em versão leve: pop: descontraída e, é arquitectada a primeira grande canção do álbum com a percussão arrastada, o piano e o baixo em destaque, para dar lugar às guitarras soltas no final do refrão.

"Ghosts" é provavelmente a melhor faixa do álbum: com sopros soberbos e a voz sobreposta em perfeição à acústica do tema. A escuta mais do que ser imposta é praticamente uma exigência.

A “clapyourhandica” “Luna” permite o “ziguezaguiar” pop da guitarra por entre um baixo marcante. Nos últimos dois minutos surge uma variação excelente no ritmo, que baixando, permite que a canção cresça : içada pelo violino a pousar no piano, acordeão e guitarra, para o trompete se estender até ao seu final.

“Comets”, inicia-se com guitarra acústica, a pôr em ordem os sintetizadores, sopros e restante “orquestra” que tentam viajar sem guia e a tactear.
A entrada do baixo e do “slide” prepara o cometa, para a entrada na estratosfera, onde reina o trompete assessorado pela percussão e pelo órgão em espiral, a entrelaçar as vozes colegiais, precedidas pelos metais que se auto-convocam, para o voo final, num incêndio lendário sem carta de marear, para terminar em sossego, que faz a ligação para:

“Fire Escape”, onde a pop descarada é assumida pelas guitarras e teclas sobre bateria minimal e explosiva, quando sacudida e amainada por metais incandescentes: um “hit single” de outros mundos – porventura mais justos – com final assobiado. Portentoso.

Em “The Walls Are Coming Down” a composição em círculos, sustentada no baixo sincopado que é uma marca de água, baseia-se nas cordas que dispensam electrificação e, onde o trompete uma vez mais faz marcação cerrada à voz na luta pela preponderância, que lança os violinos em fuga para um final impressionante.

A influência de “Talking Heads” e “Clap …” é continuada na fogueira presa de “Drowning Man” até a liberdade condicional, obtida na aliança entre piano; voz e sopros – o trompete, uma vez mais ele – num diálogo de brilho, de “If it is Growing” que permite o repouso das duas últimas faixas, numa relativa quebra de fulgor: em desaceleração contínua.

08 julho 2009

Sigur Rós - Agaetis Byrjun



Numa fracção de tempo a que no mundo ocidental – tal como o concebemos – teimam em chamar dia, perdi a noção dos movimentos: não distinguia a densidade daqueles seres de olhar vago; possuidores de acutilância assassina, a confirmar apenas que nunca desistiriam do que se tinham proposto: as tréguas não me seriam concedidas: o esmagamento era agora uma questão meramente retórica: inevitável.

Aos muros que tinha erguido, tecidos com as lágrimas que se tinham recusado suspensas, foi atribuída uma passagem secreta: não daquelas esguias, húmidas e assustadoras, habitantes de pesadelos medievais. Tinha um formato único: era composta por um número incontável de conchas: atiradas de castelos submersos para praias azuis de ilhas de chão invisível. Deveriam ser percorridas com um ritual único: o seu exterior não podia ser tocado, dado a sua matéria misteriosamente permeável; o segredo mantido de forma escrupulosa, ostentava o triunfo sem contemplações.

Numa das fases do percurso, ao olhar para um exemplar, pensando ser a última que via e, que iria hermeticamente impedir a mínima veleidade de atravessamento sobre mim, imaginei um medidor de segundos contidos nos minutos dessa exacta hora: 6:41.

Ali estava a casa povoada pelo silêncio, construída sob os alicerces de um som inexplicável. Todos o tentavam arrumar: desde a mais absurda base científica à mais redutora abstracção do movimento repleto de cores.
Afinal aquelas imagens inalcançáveis eram projectadas pela respiração que não ousava descobrir a génese, porque tal como os medos, os sonhos são nossos.
Umas vozes intraduzíveis eram repercutidas pelas paredes de água que sustinham tectos de areia; aberturas feitas por rostos de crianças que não eram mais que todos as milimétricas sequências da minha face espelhada nas chamas de um fogo invisível.
As divisões que apenas o prodígio da imaginação conseguia arquitectar eram constituídas por sons de pianos, de dedos a pisar com uma suavidade extrema as cordas que nada amarravam: tudo desintegravam.
As percussões dobravam-se repletas de desculpas por ali aparecerem e a voz acedia à sua existência: porque bebia todos os seus abraços.

Aquele som transportava-me por e para onde apenas a poesia o experimentava: quando as palavras inexistentes se tornam excessivas: onde os mares se olham: onde se vislumbra quem não estava perdido porque sempre nos acompanha: porque a ausência fere: faz crescer – com lágrimas que cobrem com uma camada tão ténue a areia salgada onde os pés descalços sorriem a sua existência.

As imagens sonhadas uma por uma tracejavam o som que teimava em mover-se inexplicável.
Escutando-o, o mar possuía cores incríveis porque não devolviam textura após o toque.
O vento era agarrado por essas crianças que no momento em que os seus rostos começam a ser definidos davam lugar à vertigem que só uns olhos cerrados permitem: cada ser convocado deixava a marca do seu voo sobre a areia negra de cores esculpidas sobre os sorrisos que o rio que agora chegava não apagava.

O contador estava agora parado pela mitológica ilusão da retenção da existência que, errando pensava minha: as marcas dos pés diluídas comungavam de um perímetro matematicamente puro: as quantidades concretas cediam à dimensão precisa que os pés que atirava na correria a que me permitia, ofereciam aos saltos que até aí não tinha ousado: as bicicletas mergulhavam nas ondas e as pedras não lhes tocavam. As crianças riam: soltavam os arcos: quebravam as flechas que as guitarras recebiam: lançavam escadas e davam as mãos para emergir depois de falar com o sal largado pelas ondas que teimavam em procurar a relva.

E o som lá estava, agora quase imperceptível.
A voz atingia um estado por inventar que era aquele a que o que restava do meu corpo tanto tinha procurado.
O sonho não existia e o horizonte disperso era invadido por crianças que por lá caminham ao entardecer de um formato de tempo rendido: a noite dos dias submersos.

Quando as impressões no solo se desvaneciam a voz agitava-se e atingia um grau de velocidade que as mãos continham de um modo único: parental.

Inexoravelmente o contador avançava até à imobilidade total.
O som continuava a percorrer cada espaço tecido naquele muro.
As conchas recolhiam-se para próximas migrações as ilhas predilectas.
Ninguém nadava atrás.
As pistas tinham sido meticulosamente apagadas.

6:41.

A casa desvaneceu-se até à exaustão: as paredes eram agora jardins exteriores reflectidos.

- Posso continuar a pairar por aqui?
- Este é o som por onde vogo: é tocado por ti.
- Obrigado …?
- Sigur!: abraças-me?
- Não é para isso o teu som?
- Claro que sim …?
- Agaetis Byrjun.
- Tens um nome incrível!
- Apenas como a tua existência …
- Em cada divisão das quantidades concretas …nos seus exactos segundos.
- Claro que sim.

06 julho 2009

Manuel Gusmão

" A criatura exterior a ti dorme em corpo vivo
É ela que tece o sono e expande em seu redor
um labirinto transparente como uma praia de verão

Tu olhas a maravilha que te exclui: uma pedra viva
que respira entre penas asas quietas plantas
à beira do lago, do rio, da fronteira vertical.

Estendes as mãos os dedos para a teia da noite:
uma pedra é uma coisa boa de ter nas mãos uma pedra
conhece o mundo o tempo e abre-se no amor

das mãos. Uma pedra é vagarosa como o trânsito de uma rosa
a uma pedra e de uma pedra a uma rosa. Uma pedra
espera sabe esperar. uma pedra, meu amor, escuta

as vozes numa noite de verão e guarda-as
no seu labirinto de pedra e fecha os olhos
e dorme. No sono então canta o que é insuportável

porque tu estás ali e não sabes de onde vem a voz.
Apenas sabes que tens de ir ter com ela para
que possas estar ali onde a manhã pode acontecer"

Unkle

Uma página excelente de um projecto poderoso.

(O)usem.

No separador de vídeo podem aceder a espécimes de grande nível: a sugestão inicial é para "Burn My Shadow" e "Heaven", mas não imponham limite ao consumo.

Sparklehorse Song

Levaste-me no teu dorso, em voos
cíclicos sobre mim.
Entre as mãos colocavas-me
as manhãs gloriosas de brilho.
As canções que se sucediam na
aleatoriedade dos sentidos, precipitavam-se
das sombras das montanhas diferentes.
O mistério assumia o meu dia, tornavam
a negra noite clara, antecipando
todas as madrugadas.

A descarga da vivacidade
em que o teu espírito dança - cavalo alado -
inclinou-me para a queda.
Porque não regressas a mim?

Sou agora um fantasma nos céus:
não é assim tão duro, é terrivelmente pior!
Questionar-me onde voas; sentir o gelo
de ventos que não sopram e o céu
que de ébano pintam.
Mas que não ocultam o brilho dessa face
que desejo saber a radiar.
E quando os olhares se alinham, a
incerteza e tremura que apresenta,
todos os sentimentos quer tocar:
vestígios da busca dos contos escolhidos.

A descarga da vivacidade
em que o teu espírito dança - cavalo alado -
Inclinou-me para a queda.
Porque não regressas a mim?

Sou agora um fantasma nos céus;
por aqui vou esperar que paires.

Decemberists, The - Sleepless

Quando souber deixar aqui música num formato em que possam escutar a versão integral, voltarei à linha da frente: para já a versão possível:

A Noite do Rio das Cores

O recorte desta transparência deixa-se tocar: agora que te levou obliterando o sorriso solto pela portada vermelha, que em cascata insistia abraçá-lo: ao rio que te encontrou e não te traz.

Espelha a serra depois de declinar o movimento irrepetível: não o omite: não esqueço a noite.

A calçada ilumina-se ao adivinhar teus passos: mordidos de forma ténue por bocas insubmissas à voracidade do silêncio.
Nem ai surge a ousadia de o interromper: não é o rio que todos julgam ver.
As correntes que lhe sulcam o percurso, parecem torcer-lhe a génese: muito poucos: num só: afloram a percepção do que verdadeiramente significam as convulsões que o esmagam: do mesmo modo que o regeneram.

Porque me entrego à força que me engole e não expludo os braços: os meus e os dele?
Rio das cores?
- Rio das canções: as que se escutam quando impera o silêncio.
Rio que desce?
- Rio que cresce!
Aprende, quando consome quem por ele é tocado.
Rio das cores?
- De todas: do verde: límpido lento: vertiginoso barrento.
Rio negro onde mergulha o manto branco.
Rio alvo que dança incluído nas canções que não se conseguem desenhar.

Relembro a fotografia enrugada pelas marcas do tempo e da acção dos demónios que a sonhavam perdida: o que ele agregava na sua descida quando imaginavam divisão: o que aproximava o que julgavam perdido!

Respira branco; move-se único: serpenteia de alma negra: pescadores de almas de dedos marcados pelos cortes explodem no coro que o enaltece: o cântico lânguido pela espera de quem não volta: branco: o canto que abandona os peitos em chamas e que escuto ao percorrer o relevo desta imagem com os olhos agora cerrados na recusa mais legítima: porque tens os montes iluminados nas tuas costas?
O que celebras?

Caminho para ti só para tocar o que definiste como o teu limite: o esbater do brilho que afinal nunca possuí: aquele que restituíste.

Estas margens nascem quando respiras na passagem em ciclos: voltas quando te supunham sem regresso: a doce dança da saudade: branca: dilacerante negra: caleidoscópio a preto-e-branco: para quê o superlativo das cores bastardas?

Como tantos mergulham e não vêm o que se move nesse fundo tão alcançável?
Para quê tantos artefactos, se não necessitar de respirar é o todo: branco: e desejar que seja perene o nada negro: círculo em arco do espectro solar genuíno: branco na imensidão: negro no que cobre: a canção não afaga como o negro Sol: a inatingível sobreposição da cor que é única.

Os raios ecoam agora: quem por eles será atingido: quem os procurará?
Continuas a olhar para mim?
Vens escutar as canções que te atiro?
O que espalhas sobre mim, desse teu encantamento?

Esculpi estes jardins para que os banhasses no teu movimento: suspendo-os depois para que os busques: iças a vastidão dessa massa branca para que roube, simbiótica, o negro?

Há sereias que largam os mares para em ti florirem: querem beber desse negro: dormir sobre esse branco: como se reflectem nesses espelhos que inventam a simetria das cores: a dança das quantidades discretas: o domínio da matéria e da luz inventado para os Deuses, que repletos pela sabedoria concedida: não sabem como usar as mãos agora desfeitas: membranas de sangue: negro no vento: branco no galope: “branconegro” no mergulho para a conseguir aflorar.

Afinal esses seres são descendentes de luz: encantadas pelo som: com trocas desejadas.
Por todos passas rio: nesta noite branca que convoca a noite negra para a pugna das cores que se abraçam.
Os pássaros que se beijam sentirão que o voo suspenso os leva aos mais distantes e escondidos destinos da migração das cores?
O silêncio subdivide-se na dimensão da criação dos processos naturais: porque sorriem nessa dor quente?
A pergunta desiste: porque trocaram os mares?

Outra nação se alcança na tua travessia: todas as outras por ti são alcançadas e recolhem as suas bandeiras: as torres choram agora, brancas sobre as pedras negras.

O fogo branco invade agora o céu negro: nunca a magnitude das cores universais esteve tão perto de gerar os passos cósmicos com que de mim te aproximas: como a ti estou tão entregue: apenas me vejo em ti na mais imponente das escalas atómicas: negro simples: branco inteiro: a ocupação do espaço pelo objecto da tua dança nem se escuta: estes braços já não são meus.

05 julho 2009

Lhasa - Rising

I got caught in a storm
And carried away
I got turned, turned around

I got caught in a storm
That's what happened to me
So I didn't call
And you didn't see me for a while

I was rising up
Hitting the ground
And breaking and breaking

I got caught in a storm
Things were flying around
And doors were slamming
And windows were breaking
And I couldn't hear what you were saying
I couldn't hear what you were saying
I couldn't hear what you were saying

I was rising up
Hitting the ground
And breaking and breaking

Rising up
Rising up