31 agosto 2009

Beck - All Tomorrow's Parties

Beck anunciou novo projecto: Record Series. Consiste em sessões de um dia inteiro de gravação juntamente com amigos. Posteriormente, são disponibilizadas no seu site oficial.

A primeira serviu para recriar, tema por tema, o histórico primeiro álbum dos Velvet Underground - "Velvet Underground and Nico", 1967.

Tolerando a javardice, é possível encontrar óptimas versões, tal como esta de "All Tomorrow's Parties".

Escolhi a que não é interpretada pelo próprio. O motivo: para mim, a faixa mais conseguida de toda a sessão.



1. Sunday Morning; 2. I'm Waiting for the Man; 3. Femme Fatale; 4. Venus in Furs; 5. Run Run Run; 6. All Tomorrow's Parties; 7. Heroin; 8. There She Goes Again; 9. I'll Be Your Mirror; 10. The Black Angel's Death Song; 11. European Son

30 agosto 2009

Mão Morta - Noites Ritual 09


As variações do calendário, impuseram que a última semana de férias gerasse a ausência ao ritual das noites ímpares.
Nos requintes de malvadez a que não hesitaram recorrer, perante tal facto, de certeza que não imaginaram que impediriam de assistir a uma execução assim.
Fica a quase certeza, de que se o tinham feito como temia, no concerto deste ano no Sá da Bandeira, não existiriam relatos pós-desintegração.
Sobram a satisfação da presença de quem notificou esta abertura e o agradecimento a quem o disponibilizou neste formato.
Nunca "o tempo não espera por mim" foi tão bem aplicado.
Esqueçam eventuais imperfeições ao nível do som, porque: "o que é que isso interessa?
- Nada."

27 agosto 2009

Dead Man Ray - Toothpaste

Tanto talento junto não cabia numa só banda. A pressão causada por dois trabalhos estupendos – “Worst Case Scenario”, 1994 e “In a Bar Under the Sea”, 1997 – fizeram com que os dEUS explodissem, espalhando fragmentos pela cidade de Antuérpia.

Desses estilhaços nasceram projectos valiosos: um deles, Dead Man Ray, liderado pelo ex-dEUS Rudy Trové.

Como não encontrei nenhum vídeo da estratosférica “Beegee”, fica aqui o registo de “Toothpaste”, do segundo álbum – “Trap”, 2000. Também incluído na excelente compilação “Berchem Trap”, 2000 que reúne os dois primeiros trabalhos da banda: “Berchem”, 1998 e o já referido “Trap”.



26 agosto 2009

Esta imperial é do Norte, carago!

Era dia 1 de Julho de 1998. Portugal iniciava-se no hábito dos festivais de Verão, ainda um pouco longe da avalanche de eventos do género que actualmente se verifica: Vilar de Mouros havia quebrado o longo jejum dois anos antes com Stone Roses e Young Gods; Paredes de Coura tinha acabado de dar dimensão internacional ao seu festival; Super Bock Super Rock reclamava para si o justo título de melhor festival de Verão ao fim de 4 edições; e o Sudoeste estava no segundo ano da sua aventura.
A Imperial resolvia meter-se na guerra das cervejas e concorria com o seu próprio festival: no ano anterior tinha atormentado a vida dos habitantes de Miragaia que reclamaram do barulho que se estendia pela noite dentro.

Nesse ano de 98 o festival Imperial ao Vivo tinha mudado para o então baptizado Rockodromo no campo de treinos do antigo estádio das Antas. Seria o primeiro de dois dias de um cartaz que contava com nomes como Nick Cave and the Bad Seeds, Pulp, Cornershop (que viriam a cancelar em cima da hora), James e os portugueses Xutos e Pontapés, Blasted Mechanism e GNR.

Por essa altura já eu era presença assídua nesse tipo de eventos: conhecia Vilar de Mouros e preparava-me para a segunda viagem ao Sudoeste. Graças a essa disponibilidade, ainda lamentava a minha ausência no ano anterior em Miragaia. Mas este já não perderia: era um dos que moldavam uma plateia pouco composta que aguardava ansiosa pelos Pulp – primeira e única vez em Portugal – e Nick Cave.

As recordações não são as mais nítidas, mas jamais esquecerei a actuação dos Pulp. Finalmente vivia em directo “Do You Remember the First Time?”, “Help the Aged” ou “This Is Hardcore”. Mas o momento alto desse concerto seria sem dúvida “Common People”: uma versão completamente contagiante que parecia evoluir numa espiral cada vez mais acelerada e aparentemente sem fim que deixou a plateia numa espécie de transe colectivo.

Seguiu-se o sr. Cave. Primeira vez que o via ao ar livre. Concerto dos mais fortes que assisti dele e a melhor interpretação que vi de “From Her to Eternity”.

A noite estava ganha com dois excelentes espectáculos, numa altura da história em que, apesar de tudo, ainda não abundava a oferta.

Seguir-se-ia Moby. Músico que desconhecia mas que sabia tratar-se de uma figura emergente da vaga electrónica. Género esporadicamente escolhido pelas organizações de espectáculos para fechar dias de festival. Uma prática que eu não apreciava particularmente: normalmente já estava cansado e sem paciência para este tipo de actuações que me pareciam invariavelmente aborrecidas e intermináveis.

Começou o concerto e rapidamente se percebeu que a intenção não seria só entreter gente sem sono e com genica para dançar. Embora eu estivesse numa idade que não foi capaz de fintar certos preconceitos e por isso com pouca predisposição para aturar o que eu imaginava que era a música de Moby, o facto é que não conseguiu deixar-me indiferente: actuação profissional e inesperadamente experiente; um som cheio complementado por guitarras e bateria. Tal como deve ser.

Saí das Antas com uma satisfação que ultrapassava as melhores expectativas.

O dia seguinte seria entediante e por isso sem história para contar.

Mais tarde ouviria falar novamente de Moby. Seria lançado “Play” que o catapultaria para a fama mundial. Fui dos que mergulhou nessa onda. É raro um álbum tão comercial e tão voltado para as massas cativar-me, mas “Play” enfeitiçou-me. Durante uns tempos sentia prazer quando o ouvia.

É certo que, apesar de uma carreira que reconheço como estando ao alcance de poucos, apenas esse concerto e esse álbum me faz elevar este músico a um patamar superior. Mas isso é mais do que suficiente para não faltar ao concerto no Parque da Cidade do Porto no dia 12 de Setembro e vê-lo pela segunda vez. Agora com mais conhecimento de causa.

22 agosto 2009

Soulsavers - Broken - 2009

Quem visita o myspace dos Soulsavers depara-se com referências a Johnny Cash, Joy Division, Nick Cave, Bob Dylan, John Lee Hooker, Nick Drake como suas influências.

Num projecto formado por dois produtores que, presume-se, não sabem ou não querem cantar - só há pouco descobriram a qualidade das suas composições (louve-se a revelação) - o passo para a atribuição de uma voz que desse dimensão às suas ideias não podia ser dado de forma mais coerente com as suas influências. Dentro das possíveis, Mark Lanegan é a voz perfeita.

Esta escolha certeira dos Soulsavers dá-se há uns anos, quando decidem criar “It’s Not How Far You Fall, It’s the Way You Land”, 2007 – segundo álbum da dupla Rick Macin e Ian Glover. Nesse, Lanegan já é a cara do projecto.

Para trás, quase esquecido, fica o registo de estreia, “Tough Guys Don’t Dance”, 2003: álbum instrumental, excepção a três temas interpretados por Josh Haden, dos extintos “Spain”.

A evolução para “Broken” partiu, segundo os próprios, da experiência de palco adquirida na sequência do lançamento do trabalho anterior. Mantiveram a voz de Lanegan, assumindo a escolha feliz feita dois anos antes, e convidaram outros pesos pesados para participações de menor destaque: Mike Patton, Jason Pierce, Richard Hawley, Red Ghost e Bonnie ‘Prince’ Billy, que já havia colaborado antes.

Prova de fogo, portanto! Com este naipe seria imperdoável falhar.

Teste ultrapassado com mestria. “Broken” é uma obra dividida em 13 temas genuínos e sólidos, compostos por camadas densas sobrepostas com eficácia e uma arrepiante exploração das capacidades vocais.

Álbum obrigatório!

13 agosto 2009

The Big Pink - Velvet


JUST NO FUCKIN' WORDS!

(apenas os agradecimentos a todos os elementos intervenientes no processo de descoberta; disponibilização e transmissão de conhecimento)

Caos atento

gestos sedados:
corpos perdidos,
luzes fechadas
no espaço tecido
por lágrimas gélidas,
sobre risos em chamas
e escutas amordaçadas
pelas trombetas
estridentes, que as muralhas em sangue
serpenteando sopraram.
os espelhos prenderam-se
nessas águas rendidas:
a procura de razões move-se obscura:
onde dançarão as cores por aquelas
mãos ímpias: maceradas?
deixas-me as canções alinhadas
quando a fuga te substituir?
tocas-me os cabelos declinando
sobre eles o teu rosto,
enquanto as teclas do piano sonhado
se omitem nestes dedos desguarnecidos
da carne, pelos teus lábios púrpura: exaltada?
o silêncio
cintila: é renúncia
da rotação das mãos que se buscam:
gera e brota o choro
onde se abraçarão os olhos a quem o cansaço
recusou refúgio.

12 agosto 2009

Noites Ritual 09

Em contraste com a fraca qualidade de anos passados, neste as Noites Ritual voltam mais fortes. Não é um cartaz que me encha as medidas, mas pelos menos vamos poder assistir a Foge Foge Bandido e Mão Morta: dois espectáculos testemunhados recentemente por este blogue e com os devidos certificados de qualidade: Foge Foge Bandido apresentado aqui e, no caso dos Mão Morta, duas vezes.
Dia 28 e 29 de Agosto no Palácio de Cristal no Porto; à semelhança do ano passado, a entrada é à pala.
A não perder, portanto!

11 agosto 2009

The Dead Weather - Horehound - 2009

Apesar da capa com pinta de Evanescence (não se assustem), quem se atrever a mergulhar aqui irá deparar-se apenas com o mais sublime rock'n'roll.
Não se esperava outra coisa de uma (super-)banda composta por Alison Mosshart (The Kills), Dean Fertita (Queens of the Stone Age), Jack Lawrenece (The Raconteurs) e Jack White (White Stripes e The Raconteurs). Também previsível é o protagonismo das guitarras que 'reconfirma' White como um dos grandes da actualidade.
A ouvir por quem tiver coragem.

10 agosto 2009

Why? – Eskimo Snow - 2009



A “inexplicação” de se sentir música.

Num ano que se confirma pandémico na gestação de discos soberbos, reforçando a teoria da conspiração da união de músicos que tornam ainda mais férteis, terrenos já de si portentosos: os Why?, com “Eskimo Song” são agentes que encabeçam as linhas que serão recordadas, não só no final do ano, também quando menos o esperarmos, como todas as memórias saborosas o são.

Porquê figuras de cenários improváveis como o hip-hop criarem música tão distante? Porque há loucos para tudo: para cada índice. A loucura, quando devidamente doseada com genialidade, dá resultados esplêndidos: por norma.

O avanço com que se escuta apenas uma faixa de um álbum, até aceder à totalidade das suas peças, para além de um pequena carga de ansiedade até se iniciar a sua audição integral, acrescenta ainda a esse processo um factor que pode ter dois efeitos distintos, na forma em que ela poderá ser influenciada.

O contacto com “The Blackest Purse” provocou a projecção do corpo; estilhaçado; em voo; sacudido pelo sopro da explosão.
Assim que “Eskimo Snow” sinalizou a sua disponibilidade, apenas havia que responder com a minha, em sede própria.

Que motivação poderá haver para se fugir tanto às raízes? Provavelmente, para além da nascente, existem outras ‘músicas’: percursos: que admiram. Outra razão poderá ser a vontade de mostrar que este género não é uma expressão musical menos valiosa que outras.

Então?! E porquê um resultado tão afastado do ponto de partida? Para nos convencer. A estrutura guitarra/bateria/baixo; os dedilhados; vozes encantatórias: são tudo truques para seduzir os mais cépticos.

Num lugar de eleição, a agulha digital admitiu a ignição e, os momentos posteriores e tantos outros que se seguiram não encontraram o ponto de fuga, a uma espiral de repetição que não queriam abandonar.

Vamos então por partes:

A introdução com “These Hands” que estremeceu com os seus “jogos triplos” de harmonias vocais: tracejadas por percussão longínqua e teclas omnipresentes, em crescendo até ao apaziguamento de:

“January Twenty Something” harmonias vocais 70’s a conviver com texturas electrónicas 00’s, resultam em dois minutos e meio de intemporalidade.
Boris Vian no “Arranca Corações” inventava meses: delirava com dias, esta data tudo permite.

Numa composição brilhante como “Against me”, exacerbam talento - sim estamos a falar de Why? - numa canção extraordinária, em que o factor surpresa é levado ao extremo: uma capacidade pura e simplesmente completa.
As texturas que atravessam o tema são travadas pelas membranas como única fonte de defesa, reinventam a química das operações que surgem na sequência da auscultação: rendida, onde se pensava o domino do experimentalismo.

Mas fará sentido um corte tão radical com as origens?; Não há corte radical: a forma como é dita a mensagem através da voz é a mesma, a entoação de certas sílabas é parecida, os arranjos minimais são uma característica que se mantém. Enfim, as pistas estão lá para quem as quiser perceber.

Porquê a insistência nesta luta por conquistar novos ouvidos com tantos álbuns já editados?; Porque ainda não pararam de crescer. Porque melhoram a cada álbum que passa. Porque surge sempre um cume mais alto depois de cada montanha que atravessam.

A espiral de voz com teclas e cordas aumenta ainda esse nível de surpreender, dignos de franco-atiradores quase perturbantes, a execução instrumental, proveniente de uma maturidade directamente proporcional ao rasgo, fazem de “Even The Good Wood Gone” um setentrião de sete estrelas num mar de seis.

Quando se procura refúgio para um primeiro balanço, que não passa de um mero argumento para uma tentativa de descanso, ecoa numa réplica de posteridade, a canção teimosa: não desiste de nos aprisionar, surpreendendo, sem misericórdia, até à rendição de duas questões: onde moram os armistícios? Quando surge “The Blackest Purse”?

“Into The Shadows Of My Embrace”, é avassalador, começo num pop 60’s desacarado, baixo senhor de um ritmo narcótico, vozes decalcadas não sabemos de onde, mas irrequietas: “está mesmo debaixo da língua”, levam uma volta completa, dão a partida em crescendo, para os solavancos que o percurso pelos socalcos emocionais, gerados pela depuração, em que os aditivos vêm em mudanças estonteantes, letras abismais, vozes que agora voam estagnadas.
As guitarras alucinam: donde vem inspiração deste calibre?
O final do tema? Um último minuto como se desgraçadamente fosse de facto o derradeiro.

A voz quente e a brisa da guitarra acústica, com percussões mínimais dão-nos mais uma vez a volta: completa! Sacanas!
“One Rose” - a thousand drops of blood!
Sim, há uma desconstrução absoluta: a perplexidade perante o que dão a ouvir, reserva o seu posto numa qualquer primeira fila.

Do lado oposto da ponte “On Rose Walk, Insomniac” faz-nos repetir a pergunta do final de cada música: o que é isto, uma viagem?
É impossível encostar o corpo ou o que dele sobra, num espaço confinado ao rodopiar de 120 segundos de foco ilimitado.

“Berkley By Heraseback”! Sublime! Os Why? São culpados da acusação de fornecer falta de descanso a rodos: esta canção, se não esboçarmos resistência, é ouvida incessantemente, até muito perto da insanidade: só porque quase não se acredita que possa existir um disco assim, parecido com ele próprio: abundância de pormenores num oceano de recursos ilimitados.

Eis!
“The Blackest Purse”!
Afinal pertence ao álbum! A desconfiança aprestava-se para reinar!
Como falar sobre ele agora?
Que critério seguir?
Considero-me como que abençoado pelo que puder escutar até hoje: uma canção assim tem lugar cativo na galeria das inesquecíveis.
Quanto mais se ouve, mais se sente, mais se descobrem detalhes que desafiam todas as probabilidades: agarramo-la como caçadores furtivos e, quando se abrem as mãos: nada!
Emoções em contenção que nunca explodem, relembram tempos em que se lia sobre “pedras que escapam entre os dedos”, aqui eles – não digam a ninguém - não existem.
Onde se poderá assistir a isto? Em que concerto?
Estive trinta e duas horas e meia a sonhar com a possibilidade de escrever a gritar: canção inacreditável!
E o piano a chapinhar com os pés no que resta do brilho de uns olhos deserdados?
Instrumentos a surpreenderem-se na tensão da doçura impossível.
Uma canção que se ama.
Mais que harmonias: arte de ordenar sons em desconstrução: desintegrante!
A “inexplicação” de se sentir música.

Porquê a caixa de música quase sempre presente - que não me deixa apagar a imagem da bailarina de perna levantada em piruetas intermináveis sempre que ouço o álbum?; Para nos mostrar que atrás da capa que nos faz parecer exigentes e críticos, há sempre um valente lamechas que se deixa sensibilizar por uma merda qualquer: como uma caixa de música: ou uma música que não se deixa aprisionar numa caixa.

E para o final ainda o título-tema!
“Eskimo Snow”, onde a neve faz ferver lava.
Não acreditam? Então vejam o que está entre a voz; as cordas e as teclas.
Espreitaram?
Dá vontade de berrar, certo?

09 agosto 2009

Yo La Tengo - More Stars Than There Are In Heaven - "live" @ aquário


Na véspera desse fim de tarde os archotes foram revistos marcialmente, para te garantir o caminho não extinto de luminosidade: nada impediria a conclusão do percurso convocado.

As cadeiras permaneciam ordenadas: permitiriam o conforto e a distância indesejada - um polegar na têmpora prestes a resignar pode instersectar as margens de um abismo e a sua profundidade? - na troca de palavras; simbiose de ideias; eventuais toques invocados; falta de coesão da voz; tréguas restituídas: após deambular pelas bases da hesitação, rumo à concessão das descobertas.

- Aqui, a tarde cai com um brilho específico, não é?
- Sim!

O prisma das flores sem braços, na espera destituída de tempos maculados: o som do incêndio em câmara lenta; invulnerável, incita a reconstrução deseperada, acentua o destaque de procuras e evasão.

Afastas-te pela estrada de madeira, que sobrepuseram à areia que memorizou os teus passos: encurtas a parábola, para que te alcance iludindo a exaustão?

08 agosto 2009

Baeble


What a place!

Encham-se!

Desafio: labirinto

tocar o relevo que rodeia
esses olhos:
a fuga do sono que fulmina -

que eleva a viagem
do peso específico,
para o sentir sem conteúdo.

como suspende
a névoa sobre aquele brilho
agora fragmentado em si?

porque se convocam
as alcateias até ao toque
do quase.

os vidros impedem a visão: são mais ténues
que membranas sopradas pelo
vento nada.

estes nervos deixam de ser os
ramos que afastavas docemente:
tecidos: inconscientes: obliterados.

espalho-me por estas ruas para que o eco da tua
passagem na madrugada esclareça esta noite
que não emagrece.

grito a interrogação
- a que se embrulha em avidez:
o que arquitecta esse muro?

a resposta ampara
as gargalhadas no labirinto de madeira
azul: cerâmica da volatilidade.

os beijos, esses;
investigam os intervalos
que engolem aquele mistério.

como te prendeu a ausência,
movimento de radiação
que o sábio procura.

07 agosto 2009

The Low Anthem Live at the Guest Apartment



Geografia emocional.

Al Berto

" rasgo o melancólico interior dos insectos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico das cidades
por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite noutros corpos
mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém
ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal
partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo
pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade"

03 agosto 2009

Noah And The Whale - The First Days Of Spring


Por vezes os dias agigantam-se; enchendo-se, quando se julgavam de forma ameaçadora reinados pelo vácuo dos sentidos: as perdas mesmo quando momentâneas tornam-se absurdamente esmagadoras: um dia escutei um andar que me falava sobre a presença da ausência.

Perante a evasão de um par de sóis, que descasca e nos morde a pele, podemos ser alagados pelo astro que adormece sobre tantos leitos, em que o horizonte arqueado de um mar em registo prata lidera a escolha feita por puro instinto.

A poderosa simplicidade que nos torna restituídos de nós, resultante da leitura de palavras que voam no tear ondulante de uma forma acreditada inverosímil, ou da audição de canções pensadas irrepetíveis, alicerça-nos vontades, acende e imprime o movimento às tochas que nos elevam sob as ruas de uma marginal agora abandonada.

Quantas vezes pensámos impossível a execução em palco de uma faixa de um álbum, esquadrinhada nos limites dos seus segredos?

Quantas vezes delirámos ao constatar como errámos nessa tentativa de alinhamento de ideias?

Afinal, aqui, num dos melhores locais para a descoberta e reencontro de momentos únicos, em Dezembro de 2008 isso já foi tornado possível - a revisão dos conceitos da dimensão do tempo é matéria fascinante - basta seleccionar a escuta da “fifth song”.

E neste cenário? Atrevia-me a sugerir a David Lynch a reescrita do final de “Twin Peaks”.

Propositamente não alertei para arrepios num Julho de um Verão sequestrado por uns olhos rasos de água.

Agora, apenas quero exercer o meu direito à constatação: seja onde for.

02 agosto 2009

Sim


As janelas adornam-se: voam a uma velocidade que
sendo insubmissa
provoca o encantamento de existirem como espelhos;
arrelvam nuvens; os lenços vermelhos envolvem a chuva:
cadastram cânticos, na cartografia dos seres desaguados
no vácuo dos olhos indolores.

Como recortam os vultos?

A glória do gelo não inundou os dias;
o silvo dos sinais omitidos
não permite vislumbrar como tremulam auroras,
engolidas pelo eclipse da ondulação adivinhada
dos teus cabelos
em barragens sonoras; vindima de tigres na tela de um vinho tragado
enquanto se choram as mãos desencontradas:
membranas de frutos: névoas paralelas a rios invisíveis
que te levaram.

Escutas ainda os passos que renderam o silêncio,
com vento sanguíneo, dos socalcos cristalizados
no granito emudecido pelos leves lamentos espreitados?

A madeira que se desintegra em cinzas,
acompanhou o colapso de um corpo despido de ti.

01 agosto 2009

João em - discurso - directo


- Estou ansioso por ouvir as canções de que falas: canções Pop perfeitas.
Até logo não vou ter oportunidade.
Já reparei que grande parte não conheço.

Curioso que ambos temos procurado respostas na música: recolhendo satisfação e procurando encontrar o limite do prazer da audição.

O meu exercício tem sido diferente, embora muitas vezes sentisse o mesmo impulso que agora de ti escuto.

Desta vez o desafio é outro: tenho pesquisado as origens; procurado o que provocou o que ouço.
O que serviu de pretexto às revoluções musicais.
Ainda vou recuar mais, mas para já passeio por finais de 60 até ao início do “Punk”, o seu contexto e desenlace.
Tem sido uma aventura divertida.
Em algumas situações a audição tem sido didáctica, noutras tem revelado seres verdadeiramente geniais.

Por vezes chateiam-me um pouco as divagações “estrumentais” carregadas de exibicionismo.
Aquilo que o “Punk” quis arrancar pela raiz.

Mas garanto-te, Nuno, talento sempre houve e génios são intemporais.
Incrível constatar como o “Indie” deve tanto a Nick Drake ou Scott Walker.
Ou então como já em finais de 60 havia quem preparasse terreno para o “Punk”, que mais tarde seria empurrado pela música inconsequente e entediante provocada, por exemplo, por uns Pink Floyd orfãos do génio de Syd Barrett.

Desperta-me curiosidade como começaram senhores como Brian Eno nos fantásticos primeiros passos de Roxy Music, ou Robert Fripp nos revolucionários - por vezes maçadores - King Crimson.

Não conhecia o Berlin do Lou Reed, nem nada dos Magazine, ou o início do Iggy Pop.
Mesmo os Suicide, X, Wire.

Muito disto só serve para encher chouriços.
Mas mesmo assim não considero o tempo por mal gasto.
Para além das preciosidades que se vão encontrado, fico a entender muito melhor a música pop como um todo; como um processo evolutivo quase “darwiano”, onde as transformações fazem sentido e todas as revoluções têm cabimento.

Por outro lado vai servindo para reparar como hoje em dia tudo é tão diferente: há muita maravilha por cá; mas sinto falta do desalinho, dos desafios às consciências, de revoluções sonoras e de atitudes.

Enfim.

Bem, já tudo isto vai longo: melhor é parar por agora.

Entretanto já ouvi o último dos Why?

- Ouve o "The Firts Days of Spring" de Noah and the Whale!