29 setembro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 2

"Lorelei é a menina curva da minha mão, a linha recta do meu olhar.
Deita o cabelo à pedra fria e escuta. As árvores cantam o que o rio lhes diz e o rio corre, porque o mar chama. E o mar é como a lua mandar.
Quem manda na lua, ninguém sabe. Sabes?
É por ela que eu hei-de apaixonar-me. Esquece.
Escuta. Há qualquer coisa no coração que te quer falar. Entorna o cabelo para um poço de sombra. Espalha-o como se estivesse a nadar.

Vê-se na água escura de onde vem, vê-se feliz, de corpo inteiro, em todas as posições, com todas as idades, menina mais uma vez, sorrindo na água-mãe.

Esperava o vento que vinha. Tinha tudo o que queria. Diziam-lhe para descer; ela descia.
Esperava uma verdade que não vinha — as tempestades, a perdição, os navios — com o queixo sobre os joelhos, respeitando o ar da pele, sozinha como o dia.

Não sabe o que tem. O céu corre-lhe por cima da cabeça, parece tinta. Não quer saber o que se passa.
Dança, quer dançar, dança toda a noite.
As estrelas param e a manhã começa. Dança como se fosse proibido, dança como se fosse de verdade, até descer aquela alma dentro de mim, tirando-me o sono, tirando-me a certeza, tirando-me a paz.
O amor não fala a quem o escuta. A sereia não se deita e eu não durmo. A sereia não se deita à água e o rio está inquieto, remexe-se toda a noite, perdendo o fio das horas, enquanto ela dança, dança ao som do amanhecer.

Disse assim: “Hei-de fixar-me, repetir-me, multiplicar-me”. E pensou assim: “Como se estivesse sozinha numa cidade que ninguém viu, hei-de decorar tudo o que eu vir. Olhar-me e aprender-me de cor. Insistir que me vejam. Um a um. Que se apaixonem o mais que puderem. E caiam como cães em torno de mim”.
E tudo isto de madrugada, quando a luz do mundo se parecia com a luz debaixo de água. Sim!, ela às vezes era assim."

28 setembro 2009

[está quase]


Au Revoir Simone: despedidas adiadas para reencontros quase imediatos; geografia emocional: a Norte - Casa da Música - em 3.10.2009 a Sul - Aula Magna - em 5.10.2009.
E programas como este, tão brutalmente simples de realizar: a amputação na gestão dos meios, escrita com as letras todas.
Ou como fazer tanto com tão pouco.
Onde pára o mês de Outubro?

Edward Sharpe & the Magnetic Zeros - Edward Sharpe & the Magnetic Zeros - 2009

Pergunta pertinente: quem é Edward Sharpe?

A escassa informação a que consegui aceder diz-me tratar-se de um dos membros da banda Ima Robot. Originários de Los Angels, têm no seu currículo dois trabalhos editados: 2003 e 2006.

O início do álbum faz pensar que estamos perante um dos muitos projectos fiéis a referências consideradas apelativas nos dias de hoje: “40 Day Dream” lembra uns Arcade Fire da fase Neon Bible articulados com TV on the Radio.

Puro engano, como se constata a partir das faixas seguintes: Edward Sharpe alimenta-se de todos os sabores possíveis privilegiando as origens. Através desta fórmula procura transformar, juntamente com a sua, aparentemente, numerosa banda The Magnetic Zeros, a sua música numa enorme festa.

O resultado poderá ser praticamente comparado a um Mano Chao norte-americano ou um Devendra Banhart galhofeiro. Seria no entanto desmerecido reduzir-lhe a originalidade. A qualidade de composição, a criatividade dos arranjos e o controlo da intensidade dos temas, impõem um espaço próprio ao seu génio.

Se a pouca informação disponível sugere um personagem discreto, a sua música não se contém na extravagância: seja pela utilização frequente de vocalizações - a lembrar admiravelmente os Mother Mother (quem ainda se recorda?) -, ou pelo permanente ambiente festivo.

“Up from Below”, “Carries On”, “Home”, “Come in Please” e "Kisses Over Babylon" são todas músicas excelentes e suficientes para resultar num bom álbum. No entanto, a soberba “Desert Song” ou “Om Nashi Me”, que fecha a surpresa, tornam-no num trabalho que, com todo o mérito, adensa o grupo dos grandes registos deste ano.


25 setembro 2009

a repetir @ Casa da Música a 2009.10.17, pode ser?


O
u
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s
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g
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O fundo da rua visto daqui de cima


- foi praticamente impossível perceber-te: quando soletraste o choro; tracejaste a voz. neste momento leio-te: a amputação do som não desenha a escuta, vacila o corpo: as lágrimas fizeram dos teatros da inquietação, colapsos interiores.
escreveste, que a música que não cessas de escutar; vinda do fumo que te envolve; nas viagens em que te levas; até lá; à perda, foi sequestrada.
e adicionaste a tudo isto o que te vejo a dizer: no máximo grau da perceptibilidade: sublinho:
- “é incrível como as mensagens se desfazem antes de emitirem para um destinatário perdido na hora nova, passeando pela casa, a acomodar sóis adormecidos: submersos, nos canais escritos.
a dimensão em que o tempo se encontra, o tempo em que eles estão, são mistérios fabulosos;
o que são as horas?”
- ignoro – solto interrompendo a leitura destas palavras tão próximas.
- “o que é tempo?
o que fazemos nele e dele?
o que manda e o que conseguimos mandar
o tudo e o nada
o presente e o ausente que encerra. ele.
o presente o passado e o futuro que se tornam tão o mesmo
- e junta e justamente, a nosso respeito, são círculos que tocam em pontos - aventuras de um mundo - que nem percepcionássemos.”
- (o nó da garganta aperta a leitura que esbraceja e se alavanca, consumindo o silêncio)
- “será que o que medimos, aprisionámos é que é o verdadeiro tempo?
a hora será emitida na figura em fuga: mera pró-forma de um incêndio não noticiado?
ela não agarra o que se julga,
quando penso em ti uma hora, sinto uma vida
quando passo contigo uma hora, sinto mais que uma vida e sinto um descendente de um centésimo de um segundo!
quando escrevo demoro uma hora mas atravesso todas as tuas e pairo sobre as minhas e sinto as nossas, as que são e as que ainda não o são.
- não consigo eleger um murmúrio: elevar um grito a pensamento. leio. ainda? desconheço como. agora percebo o que significa instinto.
- “o grau de transparência e leveza que atinjo com a tua permanência não assume descrição, é o meu próximo desafio interno.
como sou, como fico, o que estou, com aquilo que tu és, tu, e para mim e de mim.
não passam de interrogações que içam outras:
se tu morresses?
o temor| o horror |a perda| outra| a outra| a| bater no fundo que ainda vão catalogar| a falta e/ou a ausência impossível: de suportar; por não querer, não poder ser, a recusa total|loucura? talvez, certamente.| se encontrar-te , conhecer-te foi fazê-lo a mim/comigo mesmo, ser eu; se morresses, morria eu”
- assusto-me com o brilho deste dia a por em relevo sardas por baixo do que é a acção que te permite ver – brilhante - deve estar imperdível.
- “queria tratar-te essa dor, com festas e calor sobre ela, abrindo caminho ao copo de leite numa temperatura perfeita, para que o desconforto se retirasse em vénia, para o repouso pausado de um beijo retemperador, em extermínio pleno à desgarrada. desfez-se, o desagrado?”
- (os sorrisos retiram-se e dão lugar ao riso)
- “estás a rir-te com o que escrevi, não é?”
- filho da puta. como adivinhaste?
- “achas que te passava nem que fosse um bocadinho? que passava nem que fosse um só segundo dos reais, dos métricos e, uma infinidade deles, dos nossos?
nas viagens fascinam-nos os destinos:
impelem-nos o desejo de o fazermos.
sabes, és o ponto de partida deles,
que o dia voe para ti, na leveza de seres que é muito diferente de estares – são tão pobres os ingleses, que assumem o “be” como estado igual de algo tão díspar.”
- ensaio o diálogo: há que lhe chame alucinação (porque não virás ver o fundo da rua aqui de cima?)
- eu estou bem por aqui.
um dia se achar importante, vou.
está bem?
- podia dizer-te como queiras – mas preferia ter-te aqui comigo.
deixas-me dar-te a mão, neste final da noite dos teus dias?
- então?
porquê esse olhar tão assustado?
- não optei por aqui ficar.
- foi difícil – duro mesmo – deslocar-me até estas proximidades.
no entanto muito fácil entrar.
a inclinação era acentuada.
as forças diminutas.
tanta rejeição também foi ajuda.
- não acredito!
- porque sorriste?
porque me interrompeste?
não tinha lançado as respostas todas.
- Só não obtive uma.
o sorriso foi apenas um cocktail de incredulidade e carinho.
doçura se assim o quiseres.
sempre me dás a mão?
- isso pede-se?
agarra-se; depois as consequências assumem-se.
com medo estava antes de deslizar para aqui.
agora lido bem com os que me levaram a esta travessia.
não estou num porto de abrigo, nem numa pausa da viagem.
é o término.
a luminosidade a que te referes é somente do contraste do negro circundante.
- então pões a mão em fuga?
assim não vale.
vê; apanhei-a.
surpreso com a rapidez?
-talvez com a minha lentidão.
a tua vontade foi expressa e o movimento mais brusco ainda.
- não precisas de ter receio.
esse tremor não se justifica.
a protecção atemoriza-te assim tanto?
- ou a falta dela. e se for posse?
- como desejava não teres sido atropelado por essas sensações.
também já fui.
nem imaginas o quanto.
mas ergo-me por te olhar.
és tão simples.
- é-me inerente.
preencho-me quando me vejo assim.
por vezes não me é suficiente. só busco esse estado de simplicidade.
também um certo de grau de transparência.
- eu sei.
com o que agarras o movimento dos universos?
- porque queres saber?
- perguntei primeiro!
- mas se queres saber: porque gosto de ti.
com os sons que me fazem chorar e também com os que tornam essas mesmas lágrimas enxutas.
com as imagens de ramos de árvores nus – fim do preto no inicio do branco.
sonhos.
com gente que absorve a vida dos outros.
totalmente.
e ainda consegue moldá-la.
- actores?
- E escritores, músicos, pais e professores.
- e tu?
- farto-me de falar comigo, sim.
- não queres abrir-te?
- já o estou a fazer; por esta orla, caminho.
mais além podem surgir aqueles que conhecendo-nos, se vão aproveitar para nos dominar, prejudicar. os egoístas.
- e os que amam?
- não sei onde navegam.
os que assim se dizem, não o fazem.
- meu Deus.
- crês?
- sim, mas essencialmente no que representa Jesus Cristo. tu?
- nada.
cristo foi um político com o dom de não chegar ao poder: provavelmente tudo foi calculado.
- mas o recorrer à divindade foi para exclamar: perante o que disseste.
sabes: é bom estar de mão dada contigo; não queres arejar esse espaço cerrado?
iluminar o chão que pisas?
aquecer-te?
- fazes muitas perguntas.
- como conversas sem elas?
o que são para ti?
- mais um componente da resposta à tua questão dos universos em movimento.
também gosto muito de ti.
o problema é o meio da manhã dos meus dias – os nossos, sim.
a génese do que não és.
destruição onde tinha de estar o usufruto do que se sonha.
braços afastados.
olhos fugidios em desalinhamento cruel.
eles: a jorrarem porquês.
- e nós a deixarmos de o ser.

22 setembro 2009

The Antlers - Hospice - Two - 2009


Num ano a que já não se consegue deitar a mão: mais um álbum que corre a rédea solta.
Uma canção deslumbrante.
Imagens de movimento impresso; sem base de incidência: contudo, impregnam-se.
Estarão na Europa, a partir do meio de Novembro, de agenda repleta até ao final do mês.
Senhores promotores:
Cativem-nos.
Consigam o upgrade de uma vigem, para que Dezembro não seja o "cruelest month" como em tempos se lhe referiu Mike Scott.

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 1

"Lorelei vem de uma água escura! Há uma luz de navios caídos e está presa aos cabelos dela, noite e dia!
Noite e dia tem a pele molhada e o corpo em sobressalto. Não consegue parar a alma, sempre em mudança.
Põe-se de pé no alto de uma pedra, a chorar. Esquece, grita, chama, adormece.
Lorelei levanta-se. Levanta-se outra vez. Nos olhos tem o azul sujo de um mar cansado de céu.
Queixa-se, espreguiça-se, lava-se em lágrimas e floresce. Acorda.
Quando Lorelei acorda, o mundo tem ordens para não olhar.

É uma sereia. Não se vê. Não se percebe.
É magia? É uma magia que ainda não cresceu.
É de pele? É de pedra? É de água. Não se percebe.
Lorelei não se percebe. É uma sereia. Uma sereia é um problema que não se resolve facilmente, que gosta de grutas.

Não gosta de vir à tona de água. Tem medo das alturas. Não gosta da sensação do ar nos olhos. Não suporta a claridade. Sem a ajuda da água, todas as cores acabam por esbranquiçar. Sempre que está em terra, a tratar das coisas que as sereias tratam, tentando aliciar o primeiro marinheiro do dia, apetece-lhe desistir e mergulhar, abrir os olhos e olhar. Não gosta nada quando os marinheiros não vêm ou não correspondem ou só aparecem muito tarde. Não gosta nada de não se despachar. Mas gosta de estar deitada de costas no chão do rio, num dia de calor, a adivinhar quantos azuis tem o céu. A água funda é mais fresca no verão e ela gosta de estar horas sem se mexer, a sentir o rio inteiro a passar por cima dela. Lá em cima, no barulho branco do outro mundo, quase se vêem os pássaros inteligentes a nadar na ventania.
Não gosta de estar cá em cima. Nada. A escuridão do rio é a única coisa capaz de a sossegar."

(Songs of Devotion) American Music Club - Gratitude Walks

A propósito de uma tentativa de reposta sobre algumas falhas - minhas - a presenciar concertos que ainda persigo, praguejei pela incompatibilidade entre agenda e voos "low cost" para uma destas datas.
Não ter tido hipóteses de assistir a um espectáculo de Dead Can Dance ou de Lisa Gerrard até aleija.
Depois tive o alarido, provocado pela lembrança, a atazanar-me no regresso de hoje a casa: American Music Club: e estes andaram por cá: em bando: ou quando apenas Mark Eitzel por cá passou: a impossibilidade tem sempre a mesma dimensão.
Desde digressões cíclicas à Capital do Império, para adquirir discos de vinil na Contraverso, que marquei em cima este colectivo: começou com "Engine" de 1987 - onde havia "Big Night" - prosseguiu com "United Kingdom", "California", "Everclear", "Mercury" e "San Francisco".
Ainda não tripulo como gostaria a máquina de aqui colocar sons noutros formatos, pelo que, descobrir a existência deste pedaço, interpretado; assim, me fez o inicio de noite transformado em meio de manhã.
Just play - with fire.

Throwing Muses - Fish

Num momento de acalmia neste mar - que, vejo agora, acaba de sofrer alguma agitação -, aproveito para partilhar um vídeo que veio parar à minha frente. Apenas conheço a música como fazendo parte de uma compilação da 4AD lançada em 1987.

Um ano após o estrondo do primeiro LP, ofereciam este delicioso diálogo de guitarras a Lonely Is an Eyesore, a tal colectânea de 87.

Começava a história de uma banda americana que inevitavelmente iria conquistar todos os que se atrevessem a dar-lhe atenção.

Throwing Muses conheci uns anos depois, por altural de Hunkpapa. Mas era o álbum sem título (ou Throwing Muses se se preferir) de 1986 e esta "Fish" que mais gastavam a fita da cassete.

Mais tarde, Tanya Donelly e Kristin Hersh - as mentoras do projecto - separavam-se. A primeira sairia e formaria as Breeders e as Belly; a segunda manteria as Throwing Muses com metede do génio e começaria uma esplendorosa carreira a solo.

Este post serve para lembrar uma banda que não se pode esquecer e assinalar a minha rendição ao, afinal apreciável, peixe frito.

Imagens poderosas


O espaço para as imagens.
Depois de um "Inglorious Basterds" em que apenas o "létsselúcatatreiler" deixa a desejar, e um primeiro plano de Shoshanna, em que ao som de um tema repescado com laivos de génio, prepara um incêndio fulgurante - que foi impossivel mostrar por aqui - o ano move-se também pelo resumo de vidas da espuma dos dias: o que é Almodóvar tem? - tem Lanzarote, tem Penélope e o elenco "On fire" do costume - a aparição do nariz à beira de um ataque de nervos é gloriosa, assim como a da vereadora das madalenas - tem Cat Power a pisar cordas há uns anos e tem sons de harpa; tem Lanzarote e tem um registo contido que prende.
Uma história simples que conta histórias: muitas.
E possui uma leitura de lábios diferida mais escancaradora que mil directos.
E tem um título que não devia permitir traduções: não devia.
E tem Lanzarote, não é demais "trirreferir".
A recuperação de um fim-de-semana que permitiu a antevisão dos episódios 1 e 2 de Californication na sua 3ª geração e que é para acompanhar a partir de 26 do 9, nas torrentes que contrariam o atraso das correntes atlânticas.
As imagens - são - poderosas.

18 setembro 2009

Olhá sande de peixe frito e o "pénalte" de maduro branco

Para quem adivinhar título, autor e álbum onde estão integradas estas duas músicas.


(Songs of Devotion) Smog - I Break Horses




Uma canção pode ser uma partícula de nós.
Na exacta medida em que ao ser escutada, vai ficar sob a pele: acompanhar-nos-á.
Estaremos com ela quando menos pensarmos que tal vai acontecer e, iremos procurá-la numa busca incessante assim que somos fulminados pela memória do que é.

Há canções que se confundem com aquilo que somos, com tudo o que sabemos de quem nos toca.
O seu impacto abre o álbum das imagens para onde nos transportou, de quem nos trouxe, sob a sua escuta de olhos fechados e levou, ao cerrarmos os dentes com a partida.

Embarcámos por rios, apenas com elas, embutidos num som que nos abraça, tragámos vinho a espreitá-las, agarrámo-las com ambas as mãos e com aquelas que nelas se entrelaçaram, numa adição simbiótica.

No empedrado de ruas geladas ou nos trilhos íngremes, em que por vezes se transfiguram os nossos dias, quando a pele estala; rasga e convoca as novas camadas que vão compor o manto que se rende ao núcleo, que nos arrasta, exigindo sermos mais o que temos de ser.

O número de vezes que uma conversa com uma canção é começada ou finalizada é um mero detalhe do que ela representa: independentemente da sequência repetitiva no espaço de uma hora, ou intervalada por anos, quando se trata verdadeiramente de uma canção esse número é desprezível: em absoluto.

Mais do que procurarmos a canção perfeita ou encontrar a que sorrimos quando nos assalta o desejo de a termos escrito; composto; guardado, para mostrar a quem elegemos, é de uma interacção quântica de sensações, espalhadas numa tela, que nos ocorre descrever, essa fórmula de sons: um todo muito maior que a soma das partes.

Quando o pesadelo de fracções de tempo sem a sua companhia se abate, é incrível como a partir daí se gera o contacto com pedaços de música que pensávamos já não ser possível: haverá capacidade para desenhar, o arrebatamento provocado pela ocupação de um lugar julgado livre para sempre, por uma canção inverosímil?

Em ritmos avassaladores ou em suspensão de silêncios inexpugnáveis, solitária de guitarra em punho, ou em piano abandonado, ou ainda com as cordas chamadas, ou em fase de lua, com todas e todos à sua volta, o seu movimento é próprio, com uma identidade de uma exactidão comburente.

Sentados com os antebraços sobre os joelhos, olhando o mar através dos ventos, fechando os olhos e chamando o sol ou acelerando a sua queda.
Perante vastas planícies ou inclinados sobre as descidas de montes que unem céus a corpos estendidos sob o alcance dos dedos: elas, as canções estão lá, mesmo quando ninguém as vê.

Há tantas canções imensas: ao tentar arrumá-las num pensamento lento, ou desprotegê-las num alinhamento atirado por outro vertiginoso, a fileira fica sem fim à vista: a muralha oculta o espaço.
Por isso é custoso ou tremendamente injusto nomear a que encabeça o genoma humano onde ainda ousamos querer ser incluídos.

Contudo, nos momentos que circundam a alucinação do toque das membranas solares, por vezes erguemos a tábua, onde um titulo foi esculpido por lágrimas, beijos, olhares alinhados ou perdidos, abraços ocultados ou cabelos tocados por faces que já não são nossas.

Há canções que nos fazem vento.
Que nos ensinam a ler mapas para abandonar um abismo e outras que nos acendem a vontade de lá nos encolhermos.
Há canções que nos fazem cuspir sangue com dentes implodidos, outras que nos desfazem o estômago e a quem recusamos uma intervenção milagrosa.
E não esquecemos as que, viajando sós, tornam impossivel realizar o percurso sozinhos.

E aquelas que depois de sentidas, é de desintegração; redenção; devoção, que falamos?

“I Break Horses” é transversal a todas estas sensações: trespassa-nos: traceja-nos: mais que aportar até às nossas noites, acompanha escaladas submersas até à nossa ilha favorita.
Acende sinais, sublinha gritos e inventa sentidos.

A redescoberta de uma enciclopédia emocional de canções imensas, tem muitas vezes como exemplo, o minimalismo sensorial que permite, deixa-nos as mãos dormentes depois de sermos desfeitos sem contemplações pelas ondas ténues que faz mover no seu percurso; rumo a nós próprios: em tudo o que somos.

“I Break Horses” é uma partícula de nós que tem a forma de uma canção.

15 setembro 2009

Micah P. Hinson – All Dressed Up and Smelling of Strangers - 2009

Preparo-me para continuar um trabalho de pesquisa que conto apresentar aqui em breve. Escolho companhia para a minha tarefa solitária.

Olho para as alternativas: novo de Micah P. Hinson! Perfeito. Álbum de versões. Muito bem. Que sairá daqui?

Ligo a música e abro o texto inacabado.

Guitarra acústica e voz inconfundível. Como esperado, a opção revela-se agradável. “Slow and Steady” de uns desconhecidos, para mim, Pedro the Lion. A composição é excelente.

John Denver é quem se segue. O ambiente mantém-se sereno. O som é Micah. As músicas não, mas até parecem. A circunstância é a de homenagem à sua cúmplice: a guitarra.

Continuo o meu trabalho esforçando-me para que a parceria não me distraía.

“Kiss Me Mother, Kiss Your Darling”. Tema de 1865, interpretado a guitarra e banjo. Os autores são Leta C. Lord e George F. Root. O tom calmo continua. Óptimo. A guitarra ganha finalmente auxílio – no caso o banjo, esse digno representante do folk norte-americano - no acompanhamento à voz.

Uns também estranhos Centro-Matic dão-se a conhecer através desta voz de presença quase física: “Not Forever Now”. A variedade sonora abre-se timidamente juntando-se o piano. Mais uma vez a escolha do tema revela-se admirável.

“Not Forever Now” é surpreendente. Quem são os Centro-Matic afinal? Tenho de parar a função a que me propus inicialmente. Preciso de ver: banda indie do Texas ainda em actividade, segundo a sempre prática Wikipedia.

Se não tivesse reparado quando comecei a escutá-lo, ainda não teria percebido não se tratar de um álbum improvável de originais de Hinson. A qualidade das composições, embora desconhecida para mim até esse momento, é fenomenal. A voz é sempre a personagem principal. O suplemento instrumental balança naturalmente ao seu sabor.

O crescendo evidente que se nota à medida da audição ganha subida a pique com “The Times They Are A Changin” de Bob Dylan. Só guitarra e voz, mas desta vez não é superiormente rachada. É o próprio Micah que encarna Dylan. Dá para acreditar?! A intensidade de interpretação é soberba. Graças a isso, a mensagem ganha o devido realce.

Não é possível afastar um segundo os sentidos desta obra: que será que me espera mais? Fecho o texto que me trouxe ao computador e dedico-me só a este.

Cohen, pois claro. Só podia. “Suzanne” com um novo arranjo de guitarra, que mais uma vez aparece só junto à voz de Hinson. Excelente a forma como a energia instrumental acompanha a interpretação do texto.

Depois de duas figuras de lugar cativo na história da Música, a visita a uma recém-chegada: Emmy the Great. Estreia agradável deste ano que alguém se lembrou de justa mas inesperadamente homenagear. “We Almost Had a Baby” foi o tema escolhido.

“My Way”! A música, que se habituou a apresentar-se exuberante, repleta de dourados e bijutarias de mau gosto, surge aqui quase nua. Apenas a guitarra do costume a veste. E a voz, quase só, pode agora revelar, sem vaidades, toda a sua beleza escondida – sem querer, da minha parte, beliscar minimante todo o respeito e admiração que Sinatra sempre terá.

Se o tema anterior já serviu para casinos, este resulta na perfeição num elevador: “Sleep Walk” de Santo & Johnny. Até dá urticária escrevê-lo. Instrumental de final da década de 50 que remete para ambiente de galanteio no Havai decorado com steel-guitar. A versão de Micah ameaça com início fiel ao original. Mas rapidamente o transforma à custa de uma intensidade crescente que tem como protagonista uma bateria descontextualizada.

Parece que, pelo menos momentaneamente, lhe passou a insanidade. “Runnin’ Scared” traz-me novamente o temperamento sério. Música enorme de Roy Orbinson numa versão a lembrar a de Nick Cave, complementada com violinos que expressam frases pouco óbvias.

Inicia-se uma Patsy Cline irreconhecível com guitarra em solo distorcida. A voz faz-se escoltar de piano, mas as cordas desfazem completamente o original. Claro, dispensa-se referir novamente a voz. Embora no caso volte a ser uma tentação fazê-lo. O tema em questão é “Stop the World”.

A partir daqui já espero tudo. Só faltava mesmo levar com Elvis.

Alguém disse Elvis? É já a seguir: “Are You Lonesome Tonight”. O poder de reciclagem de Micah é extraordinário. O espírito é próximo: voz esforçadamente sedutora e acompanhamento pausado.

O que vem a seguir são guitarras em densidade quase intransponível. A luz do piano brilha com dificuldade: “In the Pines” de Lead Belly.

O pop rock de 60’s não é esquecido: Lovin’ Spoonful são os primeiros representantes escolhidos. O álbum há muito deixou de ser só a voz de Hinson e o seu recurso acústico de eleição. Agora as cordas são frequentemente distorcidas e as percussões presença importante. Nota também para o órgão Hammond a ligar as pontas.

Surge então a versão extraordinária de “Listen to Me” de Buddy Holly. As guitarras continuam imparáveis atacando em grupo. Buddy Holly era punk, para que se saiba.

O ponto final é dado por “While My Guitar Gently Weeps” dos Beatles. Podia ser melhor?

Desde Kicking Against the Pricks, de Cave, que não ouvia um álbum de versões assim. A competência (a elegância dos arranjos e a grandiosidade da interpretação) e a paixão pela música (a sensibilidade e requinte na escolha dos temas) são cúmplices neste desafio. E o resultado final chega a ser de uma perfeição absurda.

Micah P. Hinson conseguiu o mesmo que Nick Cave em 1986: mostrar que está à altura dos maiores que por vezes quase nos esquecemos que continuam a “existir”. Felizmente há esta gente a relembrar que a riqueza da Música não se resume aos últimos 20 anos, embora não ignorem que estes também contam. O mais apetitoso é o que está debaixo de toda esta avalanche de modas que as foram tapando. Haja quem tenha a honestidade de os desenterrar.

Tudo que existe hoje não se fez em dois dias.

Se ainda fosse preciso prová-lo, depois disto nenhuma dúvida resta: Micah P. Hinson é enorme!

Tiguana Bibles - Lost Words


Como todas as verdadeiras surpresas os Tiguana Bibles, atravessaram-me o dia, quando menos o esperava e, colei-os aos ouvidos até que pudesse referi-los por aqui.
A canção é um verdadeiro estrondo.
Não se quer largá-la.
Pelo que se dão a conhecer, neste exemplo, em que o nível atingido em palco é imenso, quer no EP de estreia, onde juntam mais momentos altos e, também no excelente video, que é possivel aceder nesta plataforma de onde tantas viagens começam ou atingem o seu término, fica o desejo: fôlego para mais.
É só mantê-los sob escuta: obrigatoriamente.
Muito bom.
Muito.

13 setembro 2009

(Songs of Devotion) Hedningarna : Täss'on Nainen


O rasto que levava às instruções de audição desta obra de arte ficou absolutamente irreconhecível, após a passagem deste sopro que caminha indiferente a quem por ele é atravessado.
Escutem-na estanque.
Depois tentem a leitura de forma sobreposta à sua duração.
Ou ignorem-na - à leitura - pura e simplesmente.
Quando os bárbaros não deixavam pedra sobre pedra, não se atraveram a imaginar, divindades que ignorando as que eles veneravam, as reduziam a cinzas.
Incólume é um adjectivo tão dispensável:
- Não deixem esta canção na clandestinidade: a alegação do desconhecimento, mais do que não poder ser usada, não abona em vossa defesa.



Tão rápido é o dia engolido pela noite. Todo. Os sons não se apaziguam.
Nem a mim. Curvo e arremesso o tronco: resíduo contra umas pernas de despojos.
Acarinho-as com a sobra de uma força - de contornos frágeis - de uns braços desfeitos. A recusa de cerrar uns olhos raiados até ao limite do vermelho fértil.
Surgem os tambores. Assustado como nunca. Suspensão sonora fantasmagórica.Frio.
Intenso. Soletro: Cede. Voraz, avança. Deixas-me? Outra vez elas: vozes: repercutidas em eco sussurrante e hipnótico. Recorrentes, os tambores, agora a perscrutar. E estas vozes: de que entranhas saem? Para quais me querem devolvido?
Ritual de sereias que serpenteiam por florestas. Oferta solene; imolação; renúncia.
Levem-me: é a exigência. Estou rendido. Sabes, apavorado, escuta-se mais, o ritmo estonteante dos vasos sanguíneos dos demónios e seus apaniguados.
Ordeno – será isso possível? - trepem; icem-se: viajem em golfadas pavorosas.
Esse crescendo devora a resistência que já não se consegue alimentar do sangue derramado: resiliência de um corpo enxuto: após emigração das mãos que o percorriam.
- O que mais pretenderão? Galguem o que de mim resta. Acelerem. Chamem reforços, como se deles necessitassem. Cobardia em assunção negada.
Inerte, já não ouso movimentos: as costas cravadas por negras garras, nem suspiram e
espirram as últimas hipóteses de salvação. A redenção que tanto quis voou. Instantaneidade volúvel. Escusam de anunciá-lo dessa forma.Que mais quererão? O grito sufocou. A asfixia diluiu gargantas em nada. E não se cansam de o apregoar? Não vos é suficiente? A putrefacção há-de ser o que vos deixarei. E que de outra coisa te alimentas, deserdado do bem? Porque me agarras? Qual a necessidade? As fogueiras explodem. Tu: os outros: não. Já só cambaleio,perante berros que fragmentam correntes e sonho pairar sobre as paisagens que recebem
salpicos de mar! Tão longe. E que saborosos eram no seu formato original.
Não vos consigo calar. Imparáveis, seguem nesse espezinhar gratuito. Não. Não tinha imaginado terminar de outra forma. Só quis outros a salvo. Sempre pensei que o meu peito vos estancaria. Mas esse fogo - robusto - a caminhar na firmeza dos destruidores. Sombras espalhadas por todo lado e, nem a minha encontro.
Instrumentos de sopro manufacturados com a pele macerada: arrancada na expedição dos caçadores de almas, que insaciáveis não se regozijavam com as dádivas da queda após o impacto do aço da mutação das perdas, que vincam a sua presença no acto do crescimento. Ouvem-se tão nítidos, soprados na fúria que os eleva.
A tábua torna-se ínfima e do salvo-conduto para uma peregrinação à luz, não se encontra nem a variável a ofuscar. As vossas danças; amadurecendo, esfuziantes:
nem vos vislumbro os corpos e ouço cada músculo respirar.
Abraçados, a sonegar silvos de uns ossos em transparência de movimentos,
martelada neste cérebro, que o era. Som marcial. Envolvente. Não a vou conseguir vedar, respondam: Julgaram que a rendição era um facto consumado? É.
Mas para esse altar onde já dormem em repouso essas lâminas, subirei: só, até ficar sozinho, retirem apenas esse degrau que me entregaria ainda a pulsar.
Extinguirei o que motivou a vossa prospecção, antes do vómito do desespero se aproximar na suavidade que não lhe pertence. Não encontrarás vida, apenas a ilusão do derradeiro foco de luz. Preferia o Sol. Sem deixar acordar a dúvida
O metal eficazmente polido devolve-me a percepção de um corpo luminoso que ainda consigo ver dançar. Em espelho. No jogo de que não relembro as formas.
O seu toque cerra-me o olhar que sinuosamente agarrado à fina areia se desinteressa de como um rio ruma, se pelos caminhos coberto de estilhaços, onde descalço salto ou
pelo retrocesso à corda de montanhas. Os golpes já não doem. A sua sensação nem tenta o assalto final. Clemente. As crianças dormem alheias à compassividade. Apanho esse sono na ponta dos dedos em última concessão. Agradeço em silêncio. Exclamo: não posso mais. Impero: dancem: dancem até caírem. Interiorizo: que ordem tão vã. Esta fase caracteriza-se por não alinhar os pensamentos. Sobrevivência? Nem a rasar o que apenas tremo. Não agarram as cordas. Das vozes que os ventos confundem. Cânticos incontroláveis. A minha morte merece-o. Com todo o vosso vigor. Não se poupem a esforços. Movimentem-se na alucinação colectiva de nada que vos prive, criaturas.
Ter-me-ão. Apenas assim aqui cheguei. Com todos os roubos assumidamente permitidos. Como tão poucas vezes os quis cometer. Existiu eventualmente ternura que quis devolver. Em partilha. Como a que agora cedo ao vosso festim. Extingam o fogo. Empurrem-me o gelo. Façam prevalecer a ausência. Apaguem a imagem.
O som ficará em permanência.

Willard Grant Conspiracy - The Suffering Song

Sem palavras: para não estragar.

Apenas uma nota: trata-se de um tema de 2003, do álbum Regard the End que fica como antecipação à apreciação do trabalho prestes a sair: Paper Covers Stone.

08 setembro 2009

Quem me aconselhou não se costuma enganar nestas coisas


Aposto de ouvido: vou ter de ler: Ondjaki - Avódezanove e o segredo do soviético, conhecem?

This Mortal Coil

Projecto de Ivo Watts-Russell e John Fryer que seleccionava minuciosamente temas intemporais. Dava-lhes novas interpretações e texturas recorrendo a músicos de projectos já antes escolhidos por Ivo para integrar o catálogo de luxo da sua editora, 4AD.

O resultado são autênticas peças de arte que marcaram a faceta mais requintada da música da década de 80.

This Mortal Coil foi a reunião de Cocteau Twins, Dead Can Dance, Colourbox, Wolfgang Press, Modern English, Dif Juz e muitos outros no mesmo espaço.

Esta música sublinha sempre o que de mais forte sentimos no momento.

No meu íntimo, será sempre o véu fino e transparente que cobre a grande paixão; a inocência inspirada que apetece consumir; a banda sonora que acompanha a caminhada numa estrada sem fim em busca de um segundo de vislumbre acidental; a fresta na porta que revela apenas a metade bela da idade adulta que está a nascer.

Há dias, alguém comentava aqui no blog que – perdoe-me a transcrição – “(...)tal como uma pintura, um poema tem as interpretações que cada receptor lhe dá, e todas são válidas, independentemente das intenções e verdades do autor.” E eu respondo: Nem mais! Considerando que se aceite que a liberdade de interpretação não se resuma à pintura e à poesia.

Para mim, estes discos serão sempre o amor transformado em música oferecida pelos melhores de uma estética muito própria que percorreu a década de 80 e início de 90.

Um agradecimento especial a todos aqueles que ajudaram a pincelar a minha adolescência com estas cores.


The Clientele - Bonfire on the Heath - 2009

Não é possível afirmar que os The Clientele venham demonstrado regularidade: as superiores ideias expressas nos primeiros trabalhos não trouxeram, até agora, digna continuidade.

A afirmação tardou mas chegou: Bonfire on the Heath retirou as dúvidas. Músicas transparentes, cristalinas que dão vontade de beber de um trago sem receio.

É possível vislumbrar reflexos pouco nítidos de Mercury Rev, Elbow, Lambchop. Contudo, as referências, de tão sublimes, engrandecem a identidade.

07 setembro 2009

desgaste


- Não quero essa realidade concreta: ver esse fenómeno de que falas: recuso o desenho dos seus efeitos: o desgaste das palavras.
- Sim.
Imagina-as sem a força que encerram.
O som ocultado.
Com a pele arrancada.
A rugosidade perdida.
Sem o relevo que possuíam: não sabermos distinguir o seu peso; não conseguir medir uma palavra leve, não vislumbrar a diferença de uma que arrasa os sentidos depois de escutada, ou: não nos fizesse voar depois de lida; que não nos movesse cheios depois de escrita.
Não alcançar; prender quem as tocava, não aquecer quem nelas se refugiasse; não plantar lágrimas no seu contacto.
Não obter rendição de quem as procurava.
O pânico da ausência de tacto das suas extremidades.
Estarmos impedidos de as beber: engoli-las; sôfregos ou saboreá-las na lentidão de um fim de tarde em que se adiam regressos.
Não transformar em imensos textos curtos; não decretar eternas, frases incandescentes ou volatilizar passos depois de atingidos por palavras raras.
Não avaliar a ordem com que surgem numa frase por não as ver: e elas: estáticas; sem dançarem de forma única, como quando nos fazem morder os lábios por as tocarmos nesse alinhamento; a tornar banal a arte com que assim se despenharam, renegar a sua génese.
Já as supuseste sem massa?
Corroídas.
Conjectura: como poderia uma fracção escrita ter impacto nulo em todos os visores dos “leitoresauditores”,? E depois de gerada das entranhas de “escrevedores” ou de saírem disparadas das gargantas dos “descobridoresdivulgadores”: em sangue ou exaustas?
Numa era de todas as extinções: um recurso mais, num percurso sem retorno.
- E se juntarmos o fim da combustão ou a omissão absoluta dos sons: não quero: pensar: tenho medo.
- Sim.
O vazio absoluto: uma sala repleta de vácuo: os dias omitidos: a recusar brotar.
- Não.
- Lembra-te: sós; enchemos a sala.

Manuel Gusmão

"Não sabes como...mas
há uma luz dentro
da boca
que te sela os olhos
e acende a noite
desse mar."

(Songs of Devotion) Soulsavers - Some Misunderstanding


Depois de uma aposta no escuro e da convincente divulgação neste espaço deixo o aviso prévio para uma escuta que fica próxima da devastação: começo acústico perturbado pela guitarra, em desatino, que irá percorrer toda esta soberba versão de Gene Clark.

Rich Warren, ao que julgo saber, é o detentor do talento que positivamente se marimbou para o mínimo período de tréguas que a sua guitarra tivesse a veleidade de colocar e, viaja em espiral sem a largar: estonteante: magia pura.

Voz de Mark Lanegan num estado quase insultuoso de perfeição e, como se não bastasse ainda se agarra a um coro arrasador, para elevar ainda mais uma canção de navegação sem terra à vista.

Orquestração sublime a vincar uma composição genial.

Uma canção brutal, como todas as que duram 8 minutos e quando terminam, não desejamos que tenham chegado ao fim: a sensação fala por si: estamos todos entendidos, não estamos?

A letra de um autor, fundador dos Byrds (detentores de uma página enorme da História que a Música se encarrega de construir todos os dias) que viu outro tema seu – Strenght of Strings - superiormente revisitado pelos This Mortal Coil no seu inesquecível “Filigree & Shadow”, fica como gravada a navalha no dorso de um carvalho secular: ou no que resta de nós.

Os Soulsavers têm um nome que diz tudo e mostram ao que vêm: a minha está entregue.

“There`s been some misunderstanding
And I`d like to make it right
Both of us need inspiration
And the timing must be right
We all have souls yet nobody knows
Just how much it takes to fly
But I see my life before me and I`d like to make a try
Maybe someone knows what fate is
Maybe someone knows just why
All I know it`s all related
Maybe someone can explain time
But I know if you sell your soul
To brighten your role you might be disappointed
In the lights

We all need a fix
At a time like this
But doesn`t it it feel good to stay alive

Now I see that in my visions
That my eyes are seeing twice
Once for every expectation and once for what I realize
But I know if you sell your soul

To brighten your role you might be disappointed
In the lights we all need a fix
At a time like this
But doesn`t it it feel good to stay alive”

Just play: with fire.


Al Berto x 5

E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Salsugem - 9

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras eram o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Rumor dos fogos - 5

vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir
vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras

iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

De “O livro dos regressos”


as mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Ofício de Amar

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio de outras galáxias, e
o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.

02 setembro 2009

(Songs of Devotion) Lightning Dust - Take it Home


Na impossibilidade de recepção de formação por esta via, nada como simbioticamente palmilhar o caminho da descoberta até ao levantar da fervura de um olhos a rastejar.

Como uma grande canção nunca é redundante quando se dá a escutar: repitam p.f.


MusicPlaylist
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01 setembro 2009

Lightning Dust - Infinite Light - Take It Home


Esqueçam o formato: escutem: apenas.
A propósito: alguém sabe como se pode permitir escutar uma ou muitas canções num blogue? - streaming, podcasts, playlists, "cálquercoisa"
Antecipadamente agradecido.
E já agora, os Lightning Dust alistam-se na expedição dos grandes álbuns de 2009 com Infinite Light, "Take it Home" é a faixa de encerramento.
Limitam-se brilhantemente a confirmar o excelente registo de estreia em 2007.
E é muito.
Lembram-se?

Rede de Sóis


és a minha rede: onde me deito; a que me prende,
e, ampara; me permite repouso.
aquela
onde durmo e recuso não sonhar - aí sinto calor e sorrio; respiro o frio: ignorando-o.
onde choro e me sinto eu.
és a rede que teço com as mãos tacteadas pelos teus dedos.
és:
a rede onde as palavras gostam de estar presas e animais inverosímeis procuram refúgio
(onde encantadoramente cerceados afinal correm; voam: inimaginável)
tenho-te: foges ao alpendre de madeira que se ergueu do som dos meus passos na pedra milenar.
é glorioso o sopro pelos intervalos doces e silenciosos dos teus fios ténues, brancos.
que força brutal brota desse entrelaçado de doçura com chamas domadas a chuvas quentes.
que saboroso é escutar o mar nesses espaços invisíveis que existem nas cordas cheias: desfile de finas fragrâncias.
Respondes-me ao facto de não terem estado definido, os elementos de que és feita, rede?
os vapores que exalas sobre a pele repleta: dos dias da exaustão, elevam as torrentes de água cristalina onde estes olhos a arder recusam não ser arrastados.
pedras milimetricamente redondas com cheiro de madeira e humidade das terras insubmissas, tracejam-me: abraçado por essa dança simétrica: ventos ocultos: sete, onde não se movem violentos os braços para a afastar, resignados: vertigem; queda procurada.
a confirmação da fábula dos movimentos de embalo; complexo desenho; caleidoscópico?
- simples.
barreira erguida aos aluviões ou leito mergulhado por peixes geráveis, mordidos pela ausência dos gritos tumultuosos?
- já não sei.
porque me prendo a ti, rede? - estou contido, os números não viajam sós: a apologia da voragem sobre o ocaso de espelhos dispara, em queda, o começo do dia.

Mão Morta @ Noites Ritual, Jardins do Palácio de Cristal, Porto, 29.08.2009


Apertado no meio de um fim-de-semana farto em compromissos que me impediram de assistir à primeira noite das Noites Ritual 2009, irrompe o serão de Sábado para descomprimir.

A entrada nos já nostálgicos jardins do Palácio de Cristal no Porto deu-se ao som dos Pontos Negros. Por entre música forçada, sobraram agradecimentos a tudo que era gente e a constatação da sua maior assistência na Invicta. Quanto à actuação: enfim, a cerveja estava óptima!

Característica destas noites é não haver intervalos: pára o palco principal e arranca imediatamente o secundário. Prescindi, por isso, das actuações supostamente menores para colocar em dia conversa com velhos amigos.

Eis que começa o segundo espectáculo (palco principal, pois claro). Blind Zero. Devo dizer que foi banda que nunca conquistou a minha atenção. Razão provável para ter sido apanhado de surpresa: afinal, trata-se de um colectivo de idade adulta. A experiência e a excelente execução são qualidades inegáveis. A ocasião era de promoção ao seu novo trabalho, Luna Park. Abalo agradável.

Outro intervalo, novamente aproveitado para descontracção.

Estava prestes a chegar o momento de maior expectativa. Aguardava-se uma actuação na linha das aqui retratadas. Apenas alguns meses as separavam desta.

Uma certeza: por força do contexto de festival, os Mão Morta actuariam fatalmente menos tempo.

O palco apaga-se momentaneamente. Primeira dádiva da banda à plateia bem composta: “Aum”: mapa de linhas precisas que revelam o percurso da Estação à Ma(E)ternidade. Hino maior do seu excelente reportório.
Primeiro desvio de actuações recentes que rapidamente retomou o seu percurso previsível: “Budapeste”, para chamar o resto da malta.

Seguiu-se nova incursão ao seu primeiro trabalho, já com 21 anos: “E Se Depois”. Percebia-se que o alinhamento não iria fugir muito em relação aos últimos espectáculos. De momento, são assim os Mão Morta no palco.

A música e os textos ditos por Adolfo Lúxuria Canibal algemam o olhar obrigatoriamente reluzente ao palco. "Tu Disseste" é disso exemplo cabal.

Novo desvio ao habitual: “Bófia”. Interpretação impecavelmente raivosa, semelhante a outras que já havia assistido uns anos antes.

Não há como ignorar: trata-se de gente que honra a música em português. Mais de vinte anos de percursos que a tornaram ímpar e com uma competência em palco ao alcance de poucos no mundo.

“Em Directo para a Televisão”; “Barcelona”; “1º de Novembro”; “Quero Morder-te as Mãos”; “Vamos Fugir”: foi assim que foi evoluindo a noite até estacionar em “Cão da Morte”: tema que vão utilizando de forma habitual para prolongar os aplausos até nova entrada em palco ao som do coro – já imagem de marca - de “1º de Novembro” entoado pela plateia.

“Chabala” reacende os corpos que permaneceram à espera do regresso. “Charles Manson” primeiro e “Anarquista Duval” depois concluem uma actuação como há muito não vivia.

Concerto mais curto, é certo. Sem "Ventos Animais”, nem “Lisboa” ou “Amesterdão”. Ou mesmo “Oub’Lá”. Mas com truques na manga suficientemente imprevisíveis e estimulantes: para não lamentar nada!