28 outubro 2009

contraponto

Continua a rastejar este vento,
tracção; pele revolvida; linhas admiráveis demolidas levantando pedras, inflamando gelo;
actua: precisão marcial: deita-os: salientes:
a milímetros de rostos cerceados e mãos escurecidas: não permitem que o silêncio que não o é,
avance com a sua face aguda: como o sabre em riste, gotejando o sangue que não conseguiu consumir.
nauseabundo; cumpriu – pleno – intervalos; exterminou-os, acredita: não escancares pálpebras, impelidas pela negação esboçada por convicções em fuga.
silvo - mordido - aço batido; auscultado - cede à cadência: propósito? - esconder o sono anunciador dos sonhos.
a criança? imperturbável, a rir: crença; ilusão? – imposta.
a cortina rendilhada pelas aves transparentes – espreitam; não se obrigam apeladas -
alonga-se: até à exaustão e cerca o avanço do não-som, do volume que estrangula.
Permanece, a rir, a criança: cada vez mais alto, agora em todas as cores:
ouves? – calculei essa resposta exibindo o sim, elevando-o - não se aperceberá do que por ali rodou,
o sono não lhe fugirá,
os sonhos dançarão na muralha vinda, pedra atrás de pedra, da garganta repleta.

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 6

"Cada vez que a vejo, os meus olhos esquecem-se, esquecem que podem ver. Os meus olhos fecham-se. Os meus olhos desperdiçam-se. Vez, após vez, perdem-se pela primeira vez. Esquecem-se que já a viram antes.
Cada vez que a vejo, põe-me os olhos a arder. E assim se passa o meu amor constantemente para um lugar onde não chega, como quem se apaixona por alguém que ainda não apareceu, como quem vê o seu amor a nascer.

Deixa-se parar num tempo dela, como se tivesse frio, medo, seis anos de idade.
Parada, guardada em quem a olha, protegida de quem a toca, impedida de envelhecer.
Pedra quente, fogo frio. De repente, a vida vê-se.
A tua pele chega à minha, o teu cabelo cai no meu. Adivinho a chegada e a caída do teu corpo. Atiro a minha sombra contra a tua e os meus olhos fecham ao mesmo tempo que os teus.

Erguida, espreguiçada, menina muito crescida a deixar-se ver. Pedra quente, fogo frio.
Depois deita-se, tão desejada que não precisa de desejar. Parada, deixa-se amar.
Não se mexe, deixa-se mexer. Não se dá, vicia-se em receber."

26 outubro 2009

Anos 00: balanço - 2002

Interpol - "Turn on the Bright Lights"

O ano é marcado pelo aparecimento de uma banda que viria a condicionar a década: Interpol. Enquanto isso, Lambchop vai mostrando como se fazem grandes projectos e Woven Hand revela-se como a última invenção certeira de gente experiente. Já agora, Joanna Newsom e Decemberists acabam de chegar.

Tradicionalmente, é nas ilhas britânicas e nos Estados Unidos que nasce a quase totalidade dos discos aqui retratados. Beneficiam da sua língua oficial – a mais comum na cultura ocidental – e da proximidade física ao poder da indústria discográfica, tirando proveito ainda da centralização da imprensa de referência na área que lhes facilita a promoção.

Num momento de globalização crescente, naturalmente vão surgindo obras de interesse fora das fronteiras destes dois gigantes da música pop ocidental. Lembro mesmo os anos 70 e o contributo alemão para na evolução do rock progressivo. Não é, portanto, de hoje que o mercado internacional absorve matéria de países improváveis.

Estes outsiders vão sendo vulgares mas de influência efémera no panorama global. Por dificuldades várias, não vão tendo continuidade. Refiro-me aos que procuram um som reconhecível e atractivo ao público mais ligado à cultura, que aqui se vai falando e, seleccionando dela os subjectivamente melhores. Os outros, os que admiravelmente vão insistindo nas suas raízes procurando provar que não necessitam de ajudas imperialistas, são relegados imediatamente para a família dos “etnográficos”. É – e foi – possível encontrar quem tentasse ligar os dois: já neste século temos o exemplo dos Gotan Project, mas poderia referir-se os Dead Can Dance para demonstrar que não se trata de uma atitude propriamente nova.

Indiferente a estas especificidades, o tempo não pára e mais um ano nasce. Agora estamos em 2002, no período, em que cá, nos equipámos de máquinas calculadoras para evitar que nos passem (ainda mais) a perna na conversão do Escudo para o Euro.

Proponho, desta vez, uma viagem com início nos Estados Unidos. E logo saltam à vista duas cidades que marcam o ano:

Primeiro, Nova Iorque. Presenteia-nos com trabalhos de nomes já feitos: Sonic Youth lança “Murray Street” e apresenta o quinto elemento da banda: Jim O’Rourke; Jon Spencer Blues Explosion edita “Plastic Fang” no rescaldo de “ACME”; a afirmação dos Radio 4 com “Gotham”; e o segundo trabalho de Nina Nastasia: “The Blackened Air”. Mas foi nas novidades que a Big Apple arrasou: The Walkmen com “Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone”, não sendo toda a banda de Nova Iorque, existem ligações de alguns membros; e, sobretudo, Interpol que atirou, de forma determinante para o resto da década, reminiscências invariavelmente deliciosas, ansiosas por serem exploradas. “Turn on the Bright Lights”consegue ser, porventura, o melhor álbum do ano. Também da mesma cidade aparecia muito discretamente e sem ninguém dar por isso uns tais de TV on the Radio (“OK Calculator”).

Depois, Austin, no Texas. Os Okervil River editam, ao fim de quatro anos, o seu primeiro álbum logo em Janeiro: “Don't Fall in Love With Everyone You See”; Com Jonathan Meibrug como denominador comum com a referência anterior, os Shearwater lançam o seu segundo registo em Outubro: “Everybody Makes Mistakes”; “Source Tags & Codes”, terceiro disco dos … And You Will Know Us the Trail of the Dead, arrasa a crítica e tornam-se nos grandes representantes locais juntamente com Spoon, que apresentam “Kill the Moonlight”; ainda sem sair de Austin, registo para a estreia de Iron & Wine: “The Creek Drank the Cradle”.

Mas os Estados Unidos não são duas cidades. Para além de todo o contributo já relembrado, os Woven Hand estreiam-se. A voz de 16 Horsepower, David Eugene Edwards, aventura-se num projecto paralelo e assina um álbum que entra sem dificuldade no top 5 dos melhores do ano. O trabalho não tem título (ou “Woven Hand”, se preferirem) e o resultado é verdadeiramente assombroso. Para os mais cépticos, uma sugestão: faixa 9, “Your Russia”.

Os Low voltam à carga um ano depois com “Trust”; Beck traz “Sea Change” reinventando-se com mestria; os Wilco regressam da parceria com Billy Bragg e respondem ao aclamado “Summerteeth” com “Yankee Hotel Foxtrot”; Twinemen mostra-se na tentativa de continuar a vida pós-Morphine, mas a estreia não convenceu, seguindo relegados para uma carreira sem visibilidade; os Flaming Lips lançam o sucessor de “Soft Bulletin”: “Yoshimi Battles the Pink Robots”; Josh Rouse apresenta um regular 4º registo, “Under cold blue stars”; Mountain Goats estreiam-se pela editora 4AD revelando o bastante apreciável “Tallahassee”.

Ainda livre de contrato com editora, Joanna Newsom grava o segundo LP de edição própria: “Walnut Whales”.

Quatro referências ainda, antes de deixar os Estados Unidos:

Os Queens of the Stone Age mantêm a colaboração de Mark Lanegan e chamam Dave Grohl para apresentar o poderoso “Songs for the Deaf”.

A estreia de Decemberists: “Castaways and Cutouts” não é uma obra-prima mas é suficiente para denunciar todo o potencial que ali espreita; Tom Waits que, ao assinalar 30 anos de carreira, lança em dose dupla: “Alice” e “Blood Money”; Finalmente Lambchop. Se “Nixon” foi a voz a berrar por ‘presente’, “Is a Woman” é o atestado de competência que os acomoda na vitrina dos melhores, tal como merecem. De caras um dos melhores discos do ano.

Ainda no mesmo continente, o Canadá, um país de relevância crescente no panorama musical: 2002 deu-nos “This Night” dos Destroyer, “Yanqui U.X.O.” dos Godspeed You! Black Emperor e “You Forgot It in People” dos Broken Social Scene.

Hora de saltar para o outro lado do Atlântico.

Aterrando na Inglaterra, verifica-se que a sua contribuição foi, como previsível, fundamental. Os Portishead - ou parte deles - davam notícias. Beth Gibbons e o baixista dos Talk Talk com o novo nome de Rustin Man lançam “Out of Season”; “You All Look the Same to Me”, terceiro álbum dos Archive, reforça um currículo que já pedia mais atenção; Piano Magic apresentam o seu segundo disco pela editora já atrás referida 4AD (sexto contando com a fase anterior à 4AD): “Writers Without Homes”. Lamentavelmente, voltam a não conseguir o reconhecimento que haviam ganho antes da mudança; John Parish faz a sua segunda tentativa a solo: “How Animals Move”; Gomez iniciam uma curva que os faz descer a pique com “In Our Gun”; Os veteranos Billy Bragg, David Bowie e Barry Adamson apresentam, respectivamente, “England, Half English”, “Heathen” e “King of Nothing Hill”.

Os Doves, de quem se esperava muito depois de “Lost Souls”, editam “The Last Broadcast”. Apesar da qualidade evidenciada, este trabalho não evita um passo atrás na ainda curta carreira deste grupo de Manchester.

“Every Day” é a consagração dos Cinematic Orchestra. Depois de estreia discreta, um álbum que faz jus às intenções expressas pela banda em “Motion”, de 99; Peter Murphy lança o surpreendente “Dust”. O risco de convidar músicos árabes funcionou na perfeição. Assinou o melhor trabalho, talvez, desde “Love Hysteria”; De Nothingam, os Six by Seven chegam ao terceiro capítulo. “The Way I Fell Today” não é o seguimento justo do grande “The Closer You Get”, lançado 2 anos antes (indesculpavelmente, este álbum não é referido na retrospectiva de 2000).

Badly Drawn Boy desfruta do sucesso que nasceu no mesmo instante da sua estreia no ano anterior. Edita uma banda sonora (“About a Boy”) e um novo de originais (“Have You Fed the Fish?”).

Na vizinha Irlanda, dois registos apenas:

God Is an Astronaut, “The End of the Beginning”, e Damien Rice, “0”, lançam os seus primeiros álbuns.

No resto da Europa os tais nomes avulsos:

De Espanha os Migala. Depois de “Arde”, os “Restos de un Incendio”. Não surpreenderam desta vez. Mas fica aqui o merecido registo.

Da Alemanha, a crítica lembra-se dos Notwist e consagra-os ao 5º álbum: “Neon Golden”.

Da Noruega regressam os Madrugada. Depois de “The Nighly Disease” de 2001, surge o muito agradável “Grit”.

Finalmente a Islândia, onde o cenário começa a ser um caso diferente dos restantes europeus excluindo o Reino Unido. Depois de muitos anos a massajar o ego à custa do êxito de Björk, surgiam neste país os Sigúr Rós por volta de 2000, qual iceberg, a denunciar que há muito mais do que se imaginava. Procurando usar a banda de Reiquiavique para iniciar uma moda, a editora Fat Cat, que já havia sido responsável pela exportação de “Ágaetis Byrjun”, apresenta “Finally We Are No One” dos Múm. Os próprios Sigur Rós editam o impronunciável “( )”. Não desilude, o que à partida só por si parece facto inacreditável dada a radical qualidade do álbum anterior, mas também volta a surpreender. Resposta ao mais alto nível a uma prova de fogo de dimensão transcendente. Na altura podia pensar-se que este país estaria a iniciar um fenómeno parecido com o da Bélgica na segunda metade de 90, catapultado pelos dEUS. Mas, apesar da insistência ainda distante do fim, isso não viria a verificar-se.

Outros países, que habitualmente nos oferecem registos dignos de distinção, como a Austrália, o Brasil ou o Japão, este ano não apareceram.
Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001

25 outubro 2009

(Songs Of Devotion) Smog - "Came Blue" e "Chosen One"


"Accumulation: None" é uma portentosa colecção de canções.
Por aqui já se referenciou - espero que perdure - "I Break Horses".
Desta vez em dupla passagem, ficam "Came Blue" e "Chosen One": escutadas sob letras de naufrágio.



Came blue

There's a hunger
In my hands
I try to rub in
Into your body
But I don't believe
In this
I don't believe
In you
I don't believe in me

I came blue, came blue
Came blue, came blue

Your eyes are drunk
Why don't you close them
I came blue, came blue, came blue, came blue
Your eyes are drunk
Why don't you close them
I came blue
Like i pictured you to do?
I came blue
To do?
Twenty seven years
I came blue
And there is still a hunger
I came blue, I came blue
I came blue, I came blue
Came blue, came..

Chosen one

Well you're a wild horse
On a collision course
With the sun

Well you're a wild horse
On a collision course
With the sun
And I wanted to ride that wild horse
Into the sun
I wanted to ride that wild horse
Into the sun
But I no longer think that
I'm your chosen one
Oh no I no longer think that
I'm your chosen one

Well maybe it's best for you to ride
Ride into the sun
Maybe it's best for you to ride
Ride into the sun
Because I no longer think that
I'm your chosen one
Oh no I no longer think that
I'll ever find a chosen one

23 outubro 2009

(Songs Of Devotion) A noite: nos subterrâneos de vidro das cidades voadoras (Al Berto; Elysian Fields; Lhasa e Patrick Watson; Elvis Perkins)

"a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo"

"não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussuram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem
a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo"

"levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo"

"em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares
sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento"

22 outubro 2009

(Songs of Devotion) - Chameleons, The - Second Skin


A escolha do formato não é uma opção: é a complementaridade exercida.
Ou quando as canções não desaparecem.



One cold damp evening
The world stood still
I watched as I held my breath
A silhouette I thought I knew
Came through
And someone spoke to me
Whispered in my ear
This fantasy's for you
Fantasies are "in" this year

My whole life passed before my eyes
I thought
What they say is true
I shed my skin and my disguise
And cold, numb and naked
I emerged from my cocoon
And a half remembered tune
Played softly in my head

Then he turned smiling
And said
I realise a miracle is due
I dedicate this melody to you
But is this the stuff dreams are made of?
If this is the stuff dreams are made of
No wonder I feel like I'm floating on air
Everywhere
It feels like I'm everywhere

It's like you fail to make the connection
You know how vital it is
Or when something slips through your fingers
You know how precious it is
Well you reach the point where you know
It's only your second skin

Someone's banging on my door

Alternative Lyrics from Marks songbook
One cold damp evening
The world stood still
I watched as I held my breath
A silhouette I thought I knew
Came through
And someone spoke to me
Whispered in my ear
This fantasy's for you
Fantasies are "in" this year

My whole life passed before my eyes
I thought
What they say is true
I shed my skin and my disguise
And cold, numb and naked
I emerged from my cocoon
And a half remembered tune
Played softly in my head

Then he turned smiling
And said
I realise a miracle is due
I dedicate this melody to you
But is this the stuff dreams are made of?
If this is the stuff dreams are made of
No wonder I feel like I'm floating on air
Everywhere
It feels like I'm everywhere
It's like you fail to make the connection
You know how vital it is
Or when something slips through your fingers
You know how precious it is
Well you reach the point where you know
It's only your second skin
Someone's banging on my door

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 5

"Vem o Verão, faz de conta! Lorelei não se mexe, olha em frente como se o mundo lhe pertencesse.Como se o mundo acontecesse diante dela, um século em cada segundo, uma terra em cada centímetro e fosse dia ou noite conforme ela piscasse os olhos.Dança, balouça, viaja sem se mexer.Guardo-a num bolso descosido do meu coração, como se fosse um menino, mais nada. Quero saber o que ela tem. Ela tem saudade da água funda. Diz que a água também tem uma primavera e que se passa de estação quando se muda de profundidade.Diz que lhe doem os cabelos enxutos e que tem saudades de quando se soltavam para seguir o caminho que tinha o mar e que os fios molhados pareciam filhas pequenas que iam atrás dela a nadar.Debruça-se sobre o que há-de ser a vida dela e ri-se devagarinho. O mundo nunca tem o que ela quer, não há na vida uma única coisa que seja a mais indicada.Pensar nela põe-me a alma no princípio. Não aprendo, não envelheço, não concordo, não percebo. Apaixono-me, só de respirar mais fundo!O coração não lhe chega para o que sente. Desfaz-se em lágrimas e parecem-lhe poucas. O corpo inteiro é uma lembrança de outro que já teve.Salta, salta um salto preso. O dia é sempre branco. Nunca sabe exactamente o que quer.Uma fotografia dela é a coisa mais verdadeira que tem. Muda tanto, salta tanto, hesita tanto, que uma só imagem dela, parada, definitiva, é um alívio. Parece mesmo verdade."

18 outubro 2009

Anos 00: balanço - 2001

Spiritualized - “Let It Come Down”

Num ano de vários regressos aguardados com elevada expectativa, 2001 revela-se discreto e sem o fulgor do ano transacto. Por entre necessárias continuidades de “Desert’s Songs” e “Come On Die Young”, o destaque chega dos Spirtitualized e a surpresa dos Divine Comedy.

Decididamente, não é um ano que inspire muitas memórias. A soma de álbuns de efectivo valor é pouco considerável. Por outro lado, é repleto de desilusões.

Gente diversa, muita dela de quem se esperava que garantisse um ano grande – ou, pelo menos bom -, foram decepcionantes.

Só para citar alguns desses exemplos: os Pulp não conseguiram dar o justo seguimento a “Different Class”s e “This Is Hardcore”, lançam o desinteressante “We Love Life”; os Tindesticks continuam a travessia no deserto iniciada com “Simple Plesure”, “Can Our Love…” não é mais do que a imagem pálida de um conjunto que foi capaz das proezas mais surpreendentes – apesar de (poucos) temas que permanecem importantes na sua história, como “Dying Slowly “ou “No Man in the World”, terem nascido deste registo; finalmente os Lamb: depois de dois excelentes discos, não conseguiram melhor que “What Sound”.

Spain despedem-se com “I Believe”. Álbum correcto mas afastado do fulgor de outros tempos. Ouve-se falar numa reunião consumada em 2007 e novo trabalho quase a sair. Aguardemos então.

Mas não só de más notícias se fez o ano. Os texanos Shearwater estreiam-se em estilo com “The Dissolving Room”. Nascem como projecto paralelo de Okkervil River.

Low (“Things We Lost in Fire”), Arab Strap (“The Red Thread”), Czars (“The Ugly People vs. The Beautiful People”), Mark Lanegan (“Field Songs”), Anja Garbarek (“Smiling & Waving”), Madrugada (“The Nightly Desease”), Explosions in the Sky (“Those Who Tell the Truth Shall Die, Those Who Tell the Truth Shall Live Forever”) e Destroyer (“Streethawk: a Seduction”) conseguem, todos eles, trabalhos bastante apreciáveis.

Os Radiohead, contagiados pelo êxito de vendas de “Kid A” e ainda a aproveitar a motivação causada pelo reconhecimento de “OK Computer”, lançam o que não coube na criação do ano transacto. Contudo, “Amnesiac”, que paga o facto de ter ido a uma nascente anteriormente aproveitada, ressente-se na qualidade. Conseguem um ano positivo, apesar de tudo. Devido, também, à edição de um álbum ao vivo que retrata a digressão de promoção dos dois últimos trabalhos.

“Virgin Suicides” tinha-se revelado como uma sequência agradável de “Moon Safari” em 2000. No entanto, um disco novo, fora do contexto de banda sonora, faz os Air cair consideravelmente. “10.000 Hz Legend” ficou bastante abaixo das expectativas.

Kristin Hersh, já distante da fase dourada das Throwing Muses e do pico criativo a solo de “Hips and Makers”, edita o bastante agradável “Sunny Border Blue”.

Divine Comedy apresentam-se verdadeiramente alterados. Não propriamente regenerados, já que apesar da mudança de rumo, não foram capazes de manter o nível de “Fin de Siécle”. Mas “Regenaration” é a metamorfose necessária, o rejuvenescimento que se impunha num modelo que ameaçava esgotar-se.

Ed Harcourt apresenta-se com o promissor “Here Be Monsters”. Zita Swoon, apesar de não compensar devidamente o álbum anterior, revela o gracioso “Life = A Sexy Sanctuary”. Kings of Convenience, depois de estreia discreta e quase sem registo, surgem com “Quiet Is the New Loud” que os faz subir bons degraus.

Clinic editam o seu segundo registo em dois anos e aproveitam a pujança revelada antes: “Walking With Thee”. Não se descompõem mas também não engrandecem.

O ingleses Bows projectam o último trabalho da sua curta carreira: o recomendável “Cassidy”.

“Poses” é a consagração de Rufus Wainright. Trabalho superiormente elaborado valendo-lhe o reconhecimento à segunda tentativa.

Bill Callahan continua sem vontade de abrandar: coloca parênteses a flanquear o nome do seu projecto - Smog - e edita “Rain on Lens”. Eleva a regularidade das suas criações para 9 em 11 anos.

Mais difícil é a tarefa de Mogawi e Mercury Rev. Dar a devida continuidade a “Come On Die Young” e “Desert's Song”, respectivamente, não é um desafio que se possa pedir a qualquer um. É certo que tanto “Rock Action” como “All Is Dream” não atingem a dimensão de antes, mas também não se afastam o suficiente para merecer indiferença.

A meio do trajecto até ao topo desta classificação surge Gorillaz. A primeira banda virtual sobressalta o mundo apresentando 2D, Murdoc, Noodle e Russel. É o início de uma empolgante emancipação de Damon Albran fora dos Blur.

Depois de variadas colaborações de alto nível e oito anos após estreia a solo, Anita Lane edita “Sex O’Clock” e mantém em bom patamar a carreira em nome próprio iniciada com “Dirty Pearl”.

Por cá, os Mão Morta chegam ao nono capítulo: “Primavera de Destroços” é o responsável por títulos como “Cão de Morte” ou “Tu Disseste” que fazem avolumar o seu já admirável historial.

Elbow estreia-se de forma arrasadora com “Asleep in the Back” e desassossegam a crítica. Assim como “The Shins” com “Oh, Inverted World”. Apesar de existir um registo anterior sob a designação de Flake Music, é em 2001 que lançam o primeiro LP com o nome que mantêm até hoje.

Neste percurso de qualidade crescente, chegamos ao momento de duas referências salientes: Appliance mostra um excelente Imperial “Metric” e Björk consegue a aprovação unânime, como habitualmente, com “Vespertine”.

Muse, à segunda aparição, espetam com “Origins of Symetry” e escancaram toda a sua enorme competência. Esgotando-a, mesmo. Mas isso é conversa para mais lá para a frente.

Arrebatadora foi a estreia de Black Rebel Motorcycle Club com o seu álbum homónimo. A rebeldia em contexto garage rock começa a ressair. E explode mesmo 4 meses depois com “Is This It” dos Strokes. Registo que viria a ter papel preponderante na década, tal como se sabe. Irá ser lembrado aqui lá mais para a frente. Ainda, para reforçar uma tendência que começava a destacar-se, os White Stripes lançam “White Blood Cells”, aproveitando a ocasião para superar com mestria a divulgação de um terceiro e sempre decisivo disco.

Eels tentam, com êxito, surpreender: o som límpido e cristalino próprio de passado recente, transforma-se num álbum rock repleto de guitarras e distorção. Para isso, John Parish e Koool G. Murder são convocados para “Souljacker”.

Anywhen, de quem pouco se sabe, exibem o magnífico “The Opiates”.

De França, arrebatam os Gotan Project. Tango misturado com electrónica resulta, num primeiro ensaio, no apreciado “La Revancha Del Tango”.

Sparklehorse faz a sua primeira obra-prima: “It’s a Wonderful Life” exibe um imenso Mark Linkous, iniciando a cisma de chamar gente grande para o ajudar. Neste teve como colaboradores nomes do calibre de Tom Waits, Vic Chesnutt, Dave Fridman, P.J. Harvey e John Parish.

Nick Cave começa uma nova era: mais intimista e dando protagonismo destacado ao piano em detrimento das guitarras. “No More Shall We Part” abre espaço para a total exposição da magnífica qualidade de composição de Cave. No fundo, trata-se de uma mudança de rumo que “Boatman’s Call” e mesmo “Murder Ballads” já ameaçavam.

Chegados aos 3 primeiros na classificação, a partir do último lugar do pódio:

Zero 7 e o magnificamente belo “Simple Things”. O trip-hop, que parecia moribundo (Portishead viviam escondidos há anos, Morcheeba já longe de cativar, Massive Attack em silêncio desde 98), renasce pela mão de dois engenheiros de som, Henry Binns e Sam Hardaker, que convidam um excelente naipe de ilustres desconhecidos para dar forma às suas concepções.

Imediatamente antes do grande eleito, Red House Painters. Vítimas de negócios entre editoras, só conseguem lançar “Old Ramon” três anos depois do previsto. Felizmente é editado e abre assim a oportunidade de conhecer toda a sua excelência. Cumprido o objectivo da devida divulgação da obra que quase se perdeu, a banda pôde acabar em paz neste mesmo ano de 2001

Para maior destaque, reservo Spiritualized. É certo que não pode ser considerado ao nível de “Ladies and Gentleman We Are Floating in Space”, sem discussão a esse respeito. Mas, inesperadamente, o ambiente space-rock com guitarras repletas de efeitos perde relevância face às orquestrações. Com isto, aproveitando o momento de grande inspiração que vive desde o álbum anterior, Pierce ganha mais destaque e versatilidade de arranjos para as suas sublimes composições, antes frequentemente encobertas pela electricidade. Toda a concepção deste trabalho tem, como princípio fundamental, a pretensão de encontrar a perfeição. Quando esta arrogância atinge gente desta, o resultado arrisca-se a ser próximo de um “Let It Come Down”.


Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000

Joan as Police Woman @ Casa da Música - 17.10.2009

Ás de Espadas.


(Estas são imagens de Londres, um pouco próximas do que foi possível assistir no Porto - cá foi melhor, claro.)

Para que fique devidamente referido: Joan Wasser neste regresso a Portugal exibiu-se a um nível genial.

Joan as Police Woman fez de “Cover” a base para o concerto na Casa da Música e com um músico como Timo Ellis, pôde soltar a voz para interpretações impressionantes e, demonstrar uma segurança em palco, que lhe permitiu realizar um espectáculo memorável, alternando entre teclas e a guitarra.

Sempre que Timo Ellis assumia as guitarras ou o baixo, abandonando a bateria, era uma cassete “cuidadosamente preparada” que debitava sons de percussão: fantástico.

A abertura com “Ringleader Man” foi dedicada a Freddy Mercury: nos outros casos, os autores das canções eram identificados, enquanto as guitarras eram afinadas ou “alinhado” o suporte magnético.

Por entre os temas que compõe “Cover” iam desfilando alguns de outros trabalhos, tremendos – "To Be Loved” o segundo da noite e “The Sart of My Heart“ o segundo do “encore”, do trabalho anterior “To Survive”; “Save Me”, “Feed the Light” e “The Ride” do registo “Real Life” e também temas novos: Flash – muito bom; incompreendido pelo público, pode soar demasiado violento: não foi devidamente recebido: a canção e a interpretação foram soberbas.

Assim como “The Human Condition” que marcou o regresso, que como Joan sublinhou o publico iria pedir quando apresentou, a encerrar, “Sacred Trickster” de Kim Gordon, perante a falta de aplausos, que a autora merecia recolher, sobraram as palmas a acompanhar as de Joan e Timo que marcam a versão.
Já quando referiu Iggy Pop no ataque a “Baby” que “tanto desejava tocar como ele”, a reacção foi quase nula entre o público: desconhecimento? reverência? Prefiro optar pela segunda hipótese.

Na pausa entre os temas, o reforço ao valor do companheiro de estrada e de estúdio; a descrição das ganas com que agarrava o rabo que vemos na imagem de "Cover" nas sessões fotográficas, da viagem a centos tais pela auto-estrada, agradecendo terem conseguido chegar vivos; como se sentia "alive" em palco; comentários sobre o “inverno” que não o é em Portugal; pela beleza do Porto e da Casa da Música.
Referiu a grande amizade que nutre por Timo Ellis – mais que a cumplicidade que é notória e brutal, de facto surgiram pormenores que extravasavam a leveza em palco, como a forma como ele aconselhou a afinação do pedal da guitarra antes de desenvolverem uma nova interpretação.
Com amigos assim, para além de não se morrer na cadeia, podem-se partilhar momentos únicos em espectáculos.

A resultar melhor nos temas mais intimistas, a actuação foi perfeita no equilíbrio de estilos e desenrolou-se sem se dar pelo tempo.

Antes da referência final, uma mais para o sentido de humor apurado, com que conduzia os temas que apresentava, como foi o caso de pedir um pouco de luz para encontrar a fita adesiva negra, para de forma decidida segurar as alças rebeldes do vestido, senão para além de uma "cover" de Britney Spears, ainda haveria provavelmente um momento dedicado a Janet Jackson.

A reter um aspecto: a respiração ofegante, quase descontrolada que oferecia enquanto afinava a guitarra para cada música: perfeccionismo salutar, técnica para recuperar de uma entrega notável, aliada a um talento inquestionável, ou transparência de quem se expõe nos limites como o fez na noite de Sábado? Talvez todas as repostas possam ser possiveis, ou então "ambas as três".

Uma hora e meia de actuação, fechada com o momento da noite.
Se “Fire” de Hendrix foi extraordinário, “Keeper of the Flame" ultrapassou todas as classificações: puro magma.
Nina Simone não podia ter tido melhor homenagem.
Joan, que atingiu um brilhantismo técnico ao nível vocal, durante todo o concerto, aqui, superou-se: em definitivo.
Arrepiante.
Arrasador.
A execução de Timo Ellis durante toda a canção - com especial incidência no solo da guitarra acústica, pequeníssima, de quatro cordas – foi incrível: Joan sublinhou-o; o público respondeu com uma aplauso enorme, enquanto o tema retomava o seu curso como se nada se tivesse passado.
Mágico.
Inesquecível.
A superar o “pedido” aqui feito.
E na vénia final, a agradecer - o que no fundo deveriamos ter feito - a repetição do (des)(vis)lumbre do Ás de Espadas.

Agent Ribbons @ O Meu Mercedes É Maior Que O Teu - 16.10.2009



As idas acidentais a concertos, podem proporcionar momentos teimosos: exacto; daqueles que teimam em apresentar-se únicos: recorrem nessa teimosia saborosa de ficarem espalhados por entre os grãos de areia que erguem as dunas cerebrais: e que mais uma vez teimosamente ficam sob a pele.

O Mercedes arriscou na apresentação: uma brevíssima saltada ao “myspace” e a decisão foi imediata.

Para início da noite, da grande Catalunha os ZA!, atiraram-se com entrega “culé” à estrutura do casario com uma sonoridade surpreendente e, abalaram-na significativamente.
Para descrever o seu som seria preciso recrutar aqueles especialistas que misturam adjectivos sobre géneros musicais até criarem um rótulo novo.
Não o sendo, socorro-me dos galegos “Los Resentidos” chamo “Catalunya Canibal” ao que pude escutar.

No entanto os 12 temas que o trio de Sacramento, decidiu oferecer a um espaço que ainda é o a “hell of a place”, onde se fuma (não exercendo, curto estar num sitio onde quase sorrio pela clandestinidade do acto) e onde há “Stout” que se bebe pela garrafa, formaram um espectáculo incrível.

Com Lauren Hess na bateria, ao fundo e sob fundo; Naomi Cherie, vigilante, com o seu violino, até se atrever a largar o palco e caminhar sobre o balcão, Natalie Gordon, descalça como veio ao mundo, esfrangalhou a alma e presenteou quem teve a benesse de ali estar com uma actuação memorável.
Com vestidos como indumentária, levaram um brilho intenso a um fundo de uma sala que possuiu encanto na penumbra que a envolve, adicionando-lhe como que uma aura invisível, envolta num ambiente sonoro tremendo, que apenas se sentia, num sentimento quase inexplicável.

Com uma guitarra azul clara levou “o” Agent Ribbons por uma viagem impressionante, por sons que se julgavam perdidos.
Um talento puro à solta por espaço que a partir de Sábado – porque já o era - se tornou ainda mais mítico.

Uma voz excelente, uma energia sem limites, vagueando entre a contenção e a exposição de uma alma que se apazigua com a criação de um som, onde a sublimação de uma paleta de influências desenha uma atmosfera densa e poderosa.

Para todos os efeitos a audição dos temas no concerto, foi o primeiro contacto com a sua obra.
Após a conclusão e a escuta mais tarde do registo até agora desconhecido – um grande trabalho sem margem para dúvidas – maior realce merece o que mostraram ao vivo: soberba a forma como foram transpostas para espectáculo as faixas do disco.

Alicerçada no álbum “On Time Travel and Romance” a actuação foi repleta de momentos altos a que o regresso exigido “que quase as fez chorar” composto por duas canções fabulosas: “Don’t touch me” e “The Boy With Wooden Lips”, garimpasse a poeira, que depois derretida, fez escorrer o ouro, para moldarem a chave que seguraram para encerrar a estadia em palco.

Descrevendo com genuinidade, como gostavam de ali estar; arrebatadoras, foram fazendo suceder à abertura com “The World Is A Cigarette”, entre outras “Birds And The Bees”, “Grey Gardens”, “Obituary”, “Chelsea, Let’s Go Join The Circus”, “Wallpaper” ou “Wood Yead Riffle”, como constava do “set list” manuscrito, na página de abertura de “A Tale Of Two Cities” de Dickens, que arrancaram, para o apontamento e, que no final tiveram a amabilidade de me oferecer.

A partir dai, aquela casa, puxou os galões – quantas canções marcantes ali foram encontradas, descobertas e revisitadas? - e atirou-se a um resto de noite que não merecia fim.

Qual o resultado de Catalunha, Sacramento, respirados com sons que o Porto adoptou como seus?
Estas imagens talvez possam ajudar.

15 outubro 2009

The Flaming Lips - Embryonic - 2009


Próximos: muito - do nível de autêntico delírio de 1999, no fabuloso "The Soft Bulletin".
Ao que me contaram entraram para a galeria dos acontecimentos que jamais se esquecem, quando aportaram a Paredes de Coura.
Não encontro possibilidade de o conseguir descrever nos próximos dias: é embriónico - o que é que querem?
Não descobri outras hipóteses de aqui fazer chegar os temas que mais impressionam.
Fica o formato de recurso.
Vão atrás do resto: mergulhem: há algo de incrível a escutar.

14 outubro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 4

"Mergulhei as mãos em Lorelei, o corpo inteiro me desceu. Habituei-me àquela pele como à água fria. Fiquei preso àquela corrente de sangue, àquela corrente de ar que entrava e saía da boca dela. Fiquei preso àquela corrente sem fim, que corria sem mim, num círculo à minha frente.
Habituei-me à maneira de dormir dela. Deixei que o hálito dela me viciasse e adormecesse. Fiquei preso àquela corrente de saliva e de sono em que ela me fechou e eu me fechei.

Lorelei tem uma maneira de se deitar, tarde, como a água, fora. Tem uma maneira de se esconder, como um coração numa rocha, como a pena de um pássaro na sombra de uma gruta. Tem uma maneira de se deixar encontrar.

Há um sol dentro da pedra, calor debaixo da pedra fria por baixo da mão. A pedra tem uma mão e a mão passa por ela, esgaravata e arranha, à procura de outra mão com que se dar, que encontra e aperta e acaba por partir.
Lorelei está deitada. O mundo morre. Não há um nome que se lembre. A vida não se toca, corre onde não há corpo que chegue, como um rio subterrâneo debaixo da areia de um deserto.
Ela põe-se a pensar.

A mulher é sempre um nó. Ata-se quando se alinda, desata-se quando se deslinda.
Lorelei é sempre um fecho. Uma mulher é sempre um fim. Abre como uma madrugada no meio da noite, fecha como num fim de tempestade. Quando dorme, não se acredita que tenha estado acordada.
Quando se dá, não se acredita que tenha pertencido a mais ninguém."

13 outubro 2009

Mumford And Sons - Little Lion Man


Com o devido pedido de desculpas - pelo atraso.
Soberbo: as cordas como "estranhas sementes; germinadas pela humidade invisível da nostalgia": "desplodidas".
O interior das primeiras aspas pertence a Luis Sepúlveda, o das segundas a Ondjaki.
Tudo escutado e lido num ano "vintage": "salut".
Sobre "Awake My Soul", as palavras, mais uma vez roubadas: "sou a sombra do que fomos e enquanto houver luz existiremos".

11 outubro 2009

Anos 00: balanço - 2000

Sigur Rós - “Ágaetis Byrjun”

2000, o ano que arranca em suspense com a ameaça do bug informático, determina a confirmação da boa forma dos Eels, o salto dos Modest Mouse, a declaração que há vida para além de “OK Computer” e a apresentação ao mundo da superior revelação Sigur Rós. Para além destes, Doves, Goldfrapp e Badly Drawn Boy são as principais promessas de uma década a nascer.

O ano floresce ao som de “The Night”, último trabalho de originais dos Morphine, lançado a 1 de Fevereiro, sete meses após a morte de Mark Sandman. Coloca-se desta forma um ponto final num colectivo que se revelou determinante durante a década anterior.

Dias depois, após quatro excelentes registos, o público fica a perceber que é impossível continuar a ignorar os Lambchop; “Nixon” torna inadmissível esse absurdo.

The Cure tentam um regresso ao passado. “Bloodflowers” desvia-os do percurso que “Wish” e “Wild Moon Swings” tinham traçado. Tanto que encoraja a um concerto com apresentação integral da trilogia “Pornography”, “Desintegration” e “Bloodflowers” que viria a acontecer em 2002.

Ainda no mês de Fevereiro, os Yo La Tengo exibem ao mundo o seu melhor e mais sério registo, “And Then Nothing Turned Itself Inside-out”. Dão assim seguimento esclarecedor ao aclamado “I Can Hear the Heart Beating As One” de 1997.

Os Eels lançam o cativante “Daisies of the Galaxy” e antecipam uma Primavera prometedora que consagra os Calexico com o aplaudido “Hot Rail” editado em Maio.

Antes, em Abril, uma estreia digna de registo: Doves surgem de forma aparatosa com “Lost Soul”. Não mais mereceriam igual destaque.

Smog edita o seu 8º trabalho em 10 anos. “Dongs of Sevotion” mantém a regularidade de grandes álbuns num curto espaço de tempo – o perturbante “Knock Knock” tinha um ano e poucos meses de vida.

Elliot Smith revela o seu último trabalho em vida, “Figure 8”.

Depois de vários EP’s, os Clinic editam o seu brilhante primeiro álbum: “Internal Wrangler” salta para as lojas no dia 1 de Maio.

Aimee Mann oferece, primeiro apenas na Internet, “Bachelor nº. 2 or, the Last Remains of the Dodo”. O sucesso alcançado com a sua preciosa contribuição na banda sonora de “Magnolia” em 1999 deixa a crítica na expectativa. Ao terceiro trabalho, Mann confirma e eleva as qualidades que já havia demonstrado antes.

Junho lança o melhor disco até esse momento dos Modest Mouse. “The Moon and Antarctica” consolida o seu género próprio. Para além da inegável qualidade da banda, o manifesto salto qualitativo deve muito à produção de Brian Deck. A Pitchfork Media não se cansa de o incluir nas tabelas de melhores álbuns que se vai lembrando de fazer

Perto do final desse mesmo mês, Badly Drawn Boy estreia-se de forma grandiosa com “The Hour of Bewilderbeast”. Este trabalho seria responsável pelo Mercury Prize ganho pelo músico nesse mesmo ano.

Em Setembro há nova revelação: os Goldfrapp lançam “Felt Mountain” e enchem-nos de curiosidade em relação ao seu futuro. Infelizmente, não mais iriam causar tanto entusiasmo.

No mês seguinte os Radiohead lançam “Kid A” e experimentam saciar as elevadas expectativas servidas pelo fabuloso “Ok Computer”, editado 4 anos antes. O empenho na produção é levado quase ao extremo na tentativa de prolongar a fórmula incontestável da construção anterior. Apesar de alcançarem um óptimo resultado, fica comprovado não ser viável a continuidade qualitativa evidenciada antes.

Mas o maior petardo do ano é arremessado pelos Sigur Rós. Embora “Ágaetis Byrjun” tivesse nascido no ano anterior, só em Outubro de 2000 entra no circuito internacional. Ao segundo registo, os islandeses reclamam para si os créditos de banda de referência, não da década, mas da história da Música.

O último trimestre do ano lança ainda dois discos dignos de destque:

Primeiro, “Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven” dos Gospeed You! Black Emperor que chama, justamente, a atenção da crítica. Trata-se de uma obra soberba, em formato duplo de quatro extensas faixas.

Logo a seguir, PJ.Harvey com “Stories From the City, Stories From the Sea”. O sucessor de “Is This Desire?” é o segundo maior sucesso comercial de sempre a seguir a “To Bring You My Love”. Considerado, por algumas publicações, o melhor trabalho de sempre da sua carreira.

Outros destaques: Day One (“Ordinary Man”); Walkabouts com o seu segundo álbum de versões (“Train Leaves at Eight”); o capítulo seguinte da colaboração de Billy Bragg com os Wilco (“Mermaid Avenue II”); Recoil (“Liquid”); e Belle and Sebastian (“Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant”).

!!!, Blonde Redhead, The Clientele, JJ72, Sufjan Stevens e Kings of Convenience faziam estreias discretas. A estes, o tempo encarregar-se-ia de os colocar no devido lugar após reafirmação da sua qualidade.
Ver também:

Quem me aconselhou não se costuma enganar nestas coisas


Luis Sepúlveda - A Sombra Do Que Fomos. Sim, quem me aconselhou não se costuma enganar nestas coisas. Eu, eu vou atrás; arrisco: desse lado: conhecem?

07 outubro 2009

Cranes - Cloudless - 1993


Herberto Helder

(a carta da paixão)

"Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas."

06 outubro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 3

"Via-a sempre de longe. Nos meses em que eu não estava e nas cidades onde eu não vivi, diziam-me que a tinham visto. Viam-na os olhos dos homens que voltavam não sabiam de onde. Viam-na no efeito da música. Viam-na fechada dentro das mãos de doentes. E viam-na em janelas altas, junto às noites que caem dentro de casa, de cara escondida na escuridão e corpo dado à luz do dia. Tinha muitos sítios. Tinha muitos nomes. Mas só se chamava Lorelei.

É uma sereia, é fingida. Não fala.
Ouve-se cantar todo o dia, chorar toda a noite, cantigas de amor amargo, lágrimas de água doce. É a brincar. É só uma sereia que espera no resto de uma rocha. Não tem importância. Chama-me os dedos da mão. Chama-me pelo corpo preso, pelas mãos, pelo cabelo apanhado, pelo meu nome.

Vive nas casas que lhe dão, no tempo que tem. Tudo o que lhe dão deita fora.

Segura-se como se fosse de pedra e, como a pedra, não se mexe.
A tarde sobe no céu. Lorelei fecha os olhos ao calor. É noite do outro lado do mundo. Alguém está a sonhar com ela. É um menino-rei. É um pastor. É um pai. Ela deixa. É da sombra. A vida passa sem ela saber.

Não tem paciência para o ar. O vento não lhe obedece. Não lhe cai aos tornozelos. Não faz nada do que ela quer.

Caço-a nos meus olhos, com o meu coração empobrecido e bom. Procuro-a. Encontro-a. Apanho-a. Pelo verão, pela sombra, pelos cabelos louros. Vejo-a pelo amor de Deus. Caço-a no dia e na noite, na minha espécie de vida. Se não a vejo durante muito tempo, deixo de ver seja o que for. O mundo desaparece. A vida não calha. O mundo é só um sítio que serve para ela estar. Para eu encontrá-la e ela perder-se de mim, escondendo a cara, à beira de uma sombra de água."

04 outubro 2009

Anos 00: balanço - Introdução

Os anos 00 – primeiro decénio do novo milénio – estão a poucos meses de findar. Impõe-se portanto um balanço musical da década.

Seria no entanto interessante nesta primeira abordagem recuar uns anos, aos já distantes 90.

Se 60 teve a revolução hippie, 70 a revolução punk e 80 a explosão criativa decorrente das transformações anteriores testando-se todos os limites admissíveis e inadmissíveis, 90 é a década da apropriação ponderada de tudo isto.

Os anos noventa foram os da resignação, da domesticação das massas. Os aspectos mais radicais próprios das juventudes deixaram de ser desaprovados para serem aceites pacificamente. Em troca exigia-se obediência às regras que as marcas ditavam. A sociedade passou a ter lugar para todos, sendo que todos formavam o mercado. O CD substitui definitivamente (pensava-se na altura) o vinil: a opção pela comodidade prevaleceu sobre a qualidade. Ou terá sido outra obediência?

E com isto a Música ressentiu-se: a imagem associada à música através dos videoclips banalizou-se; os mega-concertos com produções grandiosas passaram a ser frequentes; a tecnologia em crescimento galopante implantava-se também na indústria discográfica ultrapassando, muitas vezes, a composição, técnica ou qualidade da escrita; a figura de produtor deixa de ser ofício para se transformar numa arte. Ao mesmo tempo procurava-se o equilíbrio entre todo o radicalismo de décadas passadas. Quem ganharia com isto? Quem exige a obediência, claro está.

Neste cenário as revoluções deixam de ter espaço. Apenas correntes esporádicas como o grunge deram o ar da sua graça. Claro, sem colocar muitas questões ou ameaças que não pudessem ser controladas.

Era neste cenário que os vários projectos musicais seguiam a sua vida.

Os que sobreviviam da piela de 80 assumiam-se previsivelmente como os detentores em actividade da experiência e referências em potência para a década que evoluía: Sonic Youth, R.E.M., Nick Cave, Cure (todos com trabalhos excelentes na década passada). Mas também nomes anterirores, como Nick Drake ou Scott Walker, passam a ser mais vezes identificados como influências de novas bandas: Belle & Sebastian, Divine Comedy, Tindersticks, Walkabouts, Lambchop.

A pop comercial britânica bebia muito de Manchester de finais de 80 (Stone Roses, Happy Mondays, House of Love), destancando-se Oasis, Blur, Radiohead ou James. A americana, por Smashing Pumpkins, Nirvana, Pearl Jam, dava o normal seguimento às ideias de Sonic Youth ou Pixies.

O shoegazing afirmava-se e implementava-se definitivamente. Jesus and the Mary Chain, Spacemen 3 ou Galaxie 500 multiplicavam-se em Spiritualized (renascidos dos Spacemen 3) Lush, Slowdive, Luna (Galaxie 500), Ride ou Mogwai; o trip-hop nascia e apresentava representantes que consquistavam público pouco dado, de início, a estas tendências (Portishead, Tricky, Morcheeba, Massive Attack); fora dos tradicionais circuitos anglo-americanos, brotavam bandas como dEUS (Bélgica), Björk das cinzas dos Sugarcubes (Islândia) ou Air e Kid Loco (França).

Mercury Rev, Morphine, Smog, Gomez, Spain, Eels, Flaming Lips ou Calexico eram outros nomes que viriam a ser importantes para os anos seguintes. Irão ser retratados convenientemente em próximos textos. No entanto, todos eles com obra marcante durante os anos 90.

No que toca ao sistema que sustenta o negócio, aí as transformações foram mais radicais.

Os principais divulgadores de projectos musicais alternativos, as rádios, são entregues ao total domínio das editoras. Mais do que nunca, a promoção passa a ser negociada por grandes empresas que, entre elas, definem o que devemos ouvir segundo critérios comerciais.

Esta limitação na difusão de projectos desapegados destes interesses só é quebrada com a popularização da Internet e o livre acesso à música através dos downloads e de plataformas revolucionárias como o myspace ou o youtube.

Ironicamente, esta evolução ameaça a monopolização das editoras que logo reagiram hipocritamente, diga-se, em nome dos artistas denunciando a apropriação ilegal da sua (deles) arte. O que estava na realidade em causa era o comércio da venda de discos que, como se sabe, gera receitas quase exclusivas para as empresas que os representam.

Hoje, estas companhias vivem em estado de agonia. Não mostram capacidade de adaptação, insistindo numa luta sem hipótese de vitória.

A Internet representa assim um importante progresso na democratização desta arte, e todos, forçosamente, terão de aprender a conviver com ela.

Mais coisa menos coisa, é neste contexto que iniciamos e vivemos os anos 00: a década dos álbuns virtuais; do MP3; da enxurrada de festivais (no caso português, lá fora vem de antes); do myspace, da globalização, do livre acesso e divulgação. De forma imprevisível, estão criadas as condições para que definitivamente seja o público a escolher quem merece o sucesso disputado, cada vez mais, em igualdade de circunstâncias para todos. Naturalmente que a recompensa para quem cria boa música nunca estará em causa: sem falsos moralismos, é nas apresentações ao vivo, tanto hoje como no passado, que se paga o valor das bandas.

Haverá forma mais eficaz e leal para conquistar público do que a Internet?

Será que esta década de especificidades inovadoras foi relevante no campo da nova música popular? Terão sido lançadas as pistas necessárias para fazer antever um futuro risonho? Ou, dada a eventual escassez, será necessária nova reviravolta? É a estas questões que se pretenderá responder em jeito de balanço em capítulos seguintes.

03 outubro 2009

(Songs of Devotion) Love And Rockets - Haunted When The Minutes Drag


Para escutar com o volume a fazer abanar os vidros; tremer tímpanos; a "desplodir" a mente: como quando questionávamos tudo.

"The word that would best describe this feeling
Would be haunted
I touch the clothes you left behind
That still retain your shape and lines
Still haunted
I trace the outline of your eyes
We're in the mirror hypnotized
I'm haunted
I find a solitary hair
Gone and still I remenice
I'm haunted

Haunted by your soul
Haunted by your hair
Haunted by your clothes
Haunted by your eyes
By your soul, by your hair
By your clothes, by your eyes
By your voice, by your smile
By your mouth, by your soul
By your hair, by your clothes
By your eyes, by your voice
By your smile, by your mouth
By your soul

Haunted (haunted)

So this is for when you feel happy
And this is for when you feel sad
And this is for when you feel...
Nothing

Ooooh when the minutes drag
Ooooh when the minutes drag

And this is for the tears that won't dry
And this is for a bright blue sky
And this is for when you feel..
Lucky
And this is for when you feel..
Lucky

Ooooh when the minutes drag
Ooooh when the minutes drag

So this is for when you're feeling happy again
And this is for when you're feeling sad
And this is for when you feel..
Something

Ooooh when the minutes drag
Ooooh when the minutes drag

Haunted (haunted)
When the minutes drag
Haunted (haunted)
When the minutes drag

Ooooh
Ooooh"

01 outubro 2009

se houvesse hipótese de um desenho de ti


porquê recolhida? ainda assim ausculto o teu movimento,
e no silêncio te escuto; perceptível: tanto.
a tristeza, essa ronda por aí, sem desistência.
surgem os coiotes que do uivo anseiam cantos; aprendem: tentam.
em vão.
e voltam.
o vértice de espuma denuncia-lhes a raiva, repercutida - e a espiral regenera-se.
ninguém os aclara?
- e nada os demove.
atira-te com a dor - tacteia para te aprisionar.
sabe-te.
não te vê; acelera na convulsão que lhe escapa.
desvairada.
dos baixios que habita.
os dedos que voltas para ti, amplos se cerram
para que a boca se abra e os morda.
resigno?
– não; somente a invasão das cordas acariciadas pelos arcos em fogo:
sopram,
empurram-te o rosto para os membros
brancos que atrevem o teu voo,
onde buscas redenção.
pisam o que amarga,
são fortaleza tecida no choro
que afugentas: com retorno.
sempre que negras, as aves
obliteram o horizonte das cores roubadas.
alças os muros.
tocas a nascente: persuades-te.
o chão está agora a uma distância incompreensível.
já és tu.
as palavras expulsas após todas as contracções
deitam-se nos meus braços que as embrulham enquanto as escuto
- tenho um rosto circunscrito pelas minhas mãos -
de que me afasto rejeitando armistícios que o não são - a leveza que enfim emana.
regresso de onde não parti.
e quebro-me.
ao longe, onde o vermelho se torna roxo, soa o que sorris.