30 novembro 2009

Manuel Gusmão


"Há uma rotação do teu corpo
ou de uma parte dele que está pelo todo
e fora dos eixos do mundo.
Rodas a partir da cintura, estendes um braço,
há um músculo que se ilumina, uma onda
vertical em que tu própria te subisses;
então uma perna flecte-se, e o outro pé fica em ponta
oblíquo sobre o mundo que nesse instante
se suspende.

Há uma rotação do teu corpo -
Andas pela casa: és um leve rumor sob o silêncio
um rumor que alumia a sombra silenciosa;
na sala, um homem quase surdo quase cego
ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí

Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:
há uma rotação no teu corpo
que me exclui do mundo e
entretanto é feita para mim; atinge-me.
à velocidade da luz.
E eu o homem quase surdo quase cego
sou tomado pelo vento do fogo que me consome
até ser apenas a última brasa: pequenas ravinas de luz
o incêndio restante sob a exausta crosta da terra

Estavas, estiveste ali.
O tempo recomeça.
Apareces e desapareces.
Como a luz do farol disparando no céu sobre as casas
ou como o anúncio luminoso do prédio em frente
que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.
Quando voltará?

É como se soubesses
que voltará, sim, e que não, não poderá voltar.
Quando, e se voltar, serei eu talvez
quem já lá não está. Quando
é quando?
Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar
à possibilidade dessa forma?

Estes corpos que são estranhas
invenções delirantes: tu não tens rodas e contudo
rodaste como se uma hélice te elevasse
só de um lado, te aspirasse até um outro estrato
aéreo, ou como se tu própria, folha aérea,
folheasse o ar e o mundo estremecesse
fora dos eixos.

Isso imprime-se nas areias do cérebro.

Depois, viesse um vento
e desfaria as dunas desse mapa:
a impressão ondula, muda de lugar, mas
resiste. É uma fotografia desfocada
uma tatuagem a outra sobreposta
uma cicatriz que esqueceu a ferida."
© Mariah, Olhares, Fotografia online

29 novembro 2009

Rodrigo Leão @ Coliseu do Porto - 28.11.2009

A noite de todos os triunfos

Rodrigo Leão é um músico que nos faz percorrer muitos dos caminhos antológicos, desse campo, que merecem ser calcorreados.
Com uma carreira construída por fracções de bons predicados, atingiu já um ponto superior da escala evolutiva que destaca os sons que levam a um número inteiro.

Após a pedra basilar que era, se ter deslocado da assombrosa Sétima Legião para a uns Madredeus que foram marcantes enquanto contaram com a sua colaboração, iniciou uma viagem por uma musica de câmara portátil contemporânea, no sentido em que de forma incrível sob o manto da simplicidade, uniu composições em latim, português, espanhol, francês, inglês e russo e acima de tudo na universalidade de movimento que é a música.
E Rodrigo Leão consegue fazê-lo com um talento ímpar: compõe exemplarmente: gera canções memoráveis: é um nome marcante da História da Música Portuguesa (e não só).

Perante passos em falso e erros cometidos, por muito boas intenções que possam estar na sua origem, há quem possua a inteligência de avaliar como pode ser dolorosa a experiência de querer mostrar algo que tanto gosta. Num misto de afectividade e satisfação plena pelo que foi produzido, apresentou no mês passado em Lisboa, “This Light Holds So Many Colours” sob a voz de Pedro Oliveira, para não a deixar guardada, e a critica terá feito desse momento desastroso o elemento absorvente de um concerto.

O que se pode assistir no Porto foi precisamente o oposto: uma noite de eleição.
Rodrigo Leão é um “chosen one”: preparou um alinhamento ao mais pequeno detalhe e apresentou um conjunto de músicos sob um som cristalino, desenvolvendo em sintonia, pedaços de beleza extrema com o formato de canções ou instrumentais que o não são menos.

A música foi praticamente a única luz contraposta à penumbra de uma sala que acolhe de forma única, quem se apresenta a rasgar o que é.
Perante a qualidade o Coliseu do Porto não se poupa a demonstrações sinceras de um estado cheio pelo que escuta.

Para um desfile quase absoluto do trabalho deste ano “A Mãe”, interpolou com mestria temas instrumentais com outros em que a voz de Ana Vieira maravilhosamente se excedeu.
Em tempos, sobre o facto das fantásticas colaborações que de forma sublime sabe escolher, Rodrigo Leão referiu que muitas senão todas as composições são pensadas para a voz de Ana: daí o encaixe em palco: absolutamente notável.

As texturas; ambiências ou forma de respirar das peças da obra de Rodrigo Leão, são um manancial de beleza: os pesos da fatalidade de uma visão latina da perda, que encontram tronco comum num ramo anglo-saxónico, que o terá iniciado na descoberta da música, como forma única de tornar - de um modo pura e simplesmente incrível – leves um conjunto de sentimentos que trazem tanto de encontro como levam de procura.

Se “Voltar” e “A corda” anunciaram uma prestação inesquecível de Ana Vieira e num nível similar, quer técnico quer de inspiração de todos os elementos que tornaram cinematográfica a teatralidade da exposição dos sentidos, “Lonely Carousel” em instrumental relembrou uma silhueta de Beth Gibbons, afinal tão perceptível no seu silêncio.

Após o agradecimento pela presença que queria recompensada por uma noite agradável, a constatação de um Coliseu do Porto, esgotado pela primeira vez, que tão bem, ao longo de hora e meia aqueles músicos souberam por fazer merecer.

Entrecortada por mais dois temas instrumentais de uma suspensão transparentemente deliciosa, uma “Rosa” ligeiramente mais baça, pelo esplendor deste tema, em que uma letra em chamas, baralha perda, ausência e dor com beleza.

“Vida tão estranha” é um tema onde a voz voa, com muito mais valor que o de uma composição onde se perdeu o rasgo e a letra é um ponto baixo da obra de Rodrigo Leão, contudo, musicalmente o momento foi excelente e a resposta do público não se fez rogada em aceitação.

Onde eventualmente Ana Vieira atingiu o cume foi em “Sleepless Heart”!
Talvez sonhada para ela, esta canção e acima de tudo a perfeição que atingiu em palco, alojou-se no domínio dos deuses.
Néctar.
Puro.

Uma surpresa sem limites de classificação foi a prestação de Gomo.
A “Cathy” dada a conhecer pela voz do enorme Neil Hannon, que é de facto uma grande canção, atingiu uma depuração na escuridão da sala, sob a interpretação do músico convidado, que se tornou num dos outros grandes momentos da noite.

Onde Ana Vieira não se cansava de brilhar.
Oferecendo a voz aos temas que de facto lhe assentam no limite de todas as medidas.
Do salto vertical em castelhano de “Canciones Negras”, e o rigor das palavras em francês desta vez para “Solitude”: acolhedor, a lançar um final para “La fête”.

Regresso ao palco com um “No Sè Nada” planador, depois de mais uma instrumental a crescer sobre os sons de vozes em procura, pré-gravadas, como no início da apresentação.
Com um Coliseu rendido, recompensado e recompensador – gratificante ver os rostos, também eles cheios dos músicos – o preenchimento estava nomeado.
Espaço para “Passion” pela voz de Celina da Piedade.

Perante a exigência de um segundo regresso, Rodrigo Leão não arriscou e homenageou: sublinhando quem deu dimensão esplendorosa a canções de devoção.
Bis para Gomo, como repetido foi o altíssimo nível alcançado.

O fecho duplo para Ana Vieira, portentosa em “Lonely Carrousel” – sim, a silhueta foi decalcada – e a repetição para uma “Corda” que nos amarrou a uma prestação inesquecível de uma cantora em estado de graça, a corporizar um colectivo numa forma esplêndida, com os temas de “A Mãe”, vistos pela primeira vez, a terem dimensão; nervo; rasgo: elevando-os.

Triunfo: “ensemble” para Rodrigo Leão, Ana Vieira, Celina da Piedade, Viviena Toupikova, Marco Pereira, Bruno Silva, Luís Aires e Luís San Payo.
E Gomo.
Ou uma forma de encantamento presenciado.

o poder e a glória da vizinhança dos sentidos


Esperar é muito pacífico, se comparado com vigília: aqui o orvalho que regenera, contém o fabuloso sentido de possuir lanças dentro: moléculas como fulcros; esmagando com a ausência; intensificando a proximidade de um contacto com as palavras puras, que só a música sabe despertar, sustendo a tensão, onde o brilho escurece toda a linguagem dos artesãos da luz esquartejada.

Não sabemos já, o que é luz ou a exaltação das sombras.

Num cosmos de labaredas as palavras estão nas mãos de uma dança, fresca arte de números, nome calcinado que não esquecemos numa outra interpretação do mundo.

Os flancos dos dias vão declinando enquanto mergulhamos, estremecendo com a alucinação que na ponta dos dedos, não mostra o fruto da exploração dessa matéria preciosa.

Agora sim devoro as palavras de quem acenderá a correria para onde o ar se torna clandestino: dedos; pálpebras; laços; água; constelações; mistérios desunidos: o medo também arrebata e não saber de ti não é ignorância.

28 novembro 2009

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20091128



01. "Real Love" - Swans - Children of God - 1986
02. "The Mercy Seat" - Nick Cave - Tender Prey - 1988
03. "Sugar Kane" - Sonic Youth - Dirty - 1992
04. "Budapeste" - Mão Morta - Mutantes S21 - 1992
05. "Tigerina" - Calla - Scavengers - 2000
06. "Gone" - The Beta Band - Hot Shots II - 2001
07. "Let It Be Morning" - Shapes Stars Make - 2008
08. "Mount Misery" - The Zephyrs - When The Sky Comes Down It Comes Down On Your Head - 2001
09. "Funeral Singers" - Califone - All My Friends Are Funeral Singers - 2009
10. "Hollow Hills (live at University Of London Union 31 October 1980" - Bauhaus - ...And Remains

Poder apresentar aqui a sequência dos quatros primeiros temas, foi um dos maiores motivos que me moveu a descobrir a forma de o conseguir.

Sempre os alinhei, e quando quis evidenciar, por elementar justiça a dimensão dos Mão Morta, depois do concerto deste ano no Sá da Bandeira , apresentar esta sessão de "até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos" foi sempre um "projecto" a pairar à espera da ocorrência da possibilidade.

Num ano de canções imensas, "Funeral Singers" dos Califone, é mais um exemplar a guardar com cuidado.

Como o conhecimento não existe sem a descoberta e um foco de busca dispara a interdisciplinaridade do querer ir mais longe; ao fundo do que se move: The Beta Band trouxe os Calla e, na procura de saber onde se escondiam, The Zephyrs e Shapes Stars Makes atropelaram-me pelo caminho.

Como o início quase nunca se distingue do fim, Bauhaus, num registo com quase 30 anos, que se disponibiliza onde julgo que saibam.

Boas escutas.

24 novembro 2009

(Songs of Devotion) Lisa Germano - Cocoon

Anos 00: balanço - 2005

Sufjan Stevens - "Illinois"

Neste texto, o ano termina no dia 4 de Novembro, data que assinala o lançamento de “The Sunset Tree” dos Mountain Goats: álbum profundo e intimista que explora a infância difícil do mentor do projecto, John Darnielle. Para trás estende-se um ano onde os Arcade Fire são a personagem que atrai as luzes e as faz apontar para o Canadá, tornando mais nítido o relevo deste país no contexto indie dos anos 00.


No mês anterior duas estreias relevantes: as Au Revoir Simone apresentam “Verses of Confort, Assurance and Salvation”; e o novo projecto do veterano David Sylvian: “Snow Bourne Sorrow”, título escolhido para a manifestação dos Band of Horses. A juntar a estas duas novidades, duas confirmações esclarecedoras: Broken Social Scene com álbum homónimo e My Morning Jacket com”Z” que impõem imediatamente a rendição do público.

Ainda em Outubro, os Animal Collective lançam a fundamental obra de amor, “Feels”; os escoceses Arab Strap despedem-se com “The Last Romance”; o par de irmãos Fiery Furnaces convida a avó Olga Sarantos que inspira e proporciona uma nuance particular à personalidade do seu quarto trabalho, “Rehearsing My Choir”; Franz Ferdinand desenvolvem para “You Could Have It Be Much Better”; e os Gravenhurst apresentam “Fires in Distant Buildings”.

No nono mês do ano regista-se a estreia em forma de banda do projecto Why? de Jonathan "Yoni" Wolf com o promissor “Elephant Eyelash”. Pela mesma altura os Elbow dão continuidade ao seu estado de graça com “Leaders of the Free World; Devendra Banhart sublinha o seu bom momento com o magnífico “Cripple Crow”; e “Noah’s Ark” marca abrandamento acentuado das promissoras CocoRosie.

Para além da estreia dos Clap Your Hands and Say Yeah, que aproveitam o fenómeno que se expande a partir dos já citados Arcade Fire, os destaques vão também para o novo disco da Fiona Apple: “Extraordinary Machine; a nova banda de Spencer Krug, Wolf Parade, com o bastante competente “Apologies to the Queen Mary”; mas sobretudo para Sigúr Rós que oferecem “Takk…”, nova obra graciosa que esclarece que a fórmula está ainda longe de esgotar.

Clientele (“Strange Geometry”); Death Cab for Cutie, que não editavam desde 1998: (“Plans”); Black Rebel Motorcycle Club (“Howl”); e Walkabouts (“Acetylene”) compõem parte do mês de Agosto com trabalhos apreciáveis. Destaque positivo para New Pornographers com o enorme “Twin Cinema”; e negativo para Goldfrapp que parecem irremediavelmente atirados para os discos medíocres com “Super Nature”, no entanto conseguem manter inexplicavelmente os aplausos da crítica. Pelo meio, os Echo and the Bunnymen insistem em sobreviver nesta sua frágil segunda vida: “Siberia” chegou a ser considerado o melhor depois de “Ocean Rain” – obra que, quanto a mim, não merece uma associação deste nível. Laura Veirs chega ao 5º registo (“Year of Meteors”), mas ao primeiro recebido com entusiasmo.

Estacionados na falta de inspiração, os Tindersticks libertam por momentos a sua voz. Stuart Staples inicia uma carreira a solo através de “Lucky Dog Recordings 03-04”.

Antes, os Editors apresentam-se a 25 de Julho seguindo a ideia antes lançada pelos Interpol: “Back Room” revelou-se uma excelente estreia arremessando-os imediatamente para o sucesso.

Quatro dias depois de completar 30 anos, Sufjan Stevens oferece o disco que viria a ser o seu maior êxito até ao momento. 5 de Julho é o dia escolhido para o lançamento de mais um capítulo da celebração dos estados que formam os EUA. Depois de “Greetings from Michigan” em 2003, irrompe “Illinois”: uma colecção de composições grandiosas decoradas por adornos distintos que atestam uma sonoridade final com recheio soberbo e que coloca a nu toda a genialidade deste compositor americano. Com este trabalho, outros, que surgiram antes e depois, revelam com melhor visibilidade o crescimento de uma nova geração de cantautores. “Illinois” viria a dar uma ajuda preciosa no reconhecimento e afirmação de muitos novos talentos.

Julho traz outros dois estreantes: os Magic Numbers surpreendem com um álbum sem nome e os Sons and Daughters com “The Repulsion Box” – outros dois dos melhores álbuns do ano. No início do mesmo mês, White Stripes mostram “Get Behind Me Satan” arriscando uma tentativa auspiciosa de renovação baixando a densidade garage rock, que sempre se afirmou como imagem de marca, incluindo piano e guitarra acústica como elementos que ajustam a sonoridade do trabalho.

31 de Maio assinala aquele que viria a ser o último disco de Bill Callahan sob a designação de Smog: “A River Ain’t Too Much to Love”. Os Gorillaz, com “Demon Days”, regressam revelando mais preocupações mediáticas do que empenho em atingir uma qualidade compatível com o antecessor. Na primeira metade do mesmo mês, Aimee Mann lança o aclamado “The Forgotten Arm” e os Nine Inch Nails marcam pela primeira vez presença na década: “With Teeth”. Os Spoon ultrapassam com mestria o elevado êxito alcançado com o anterior “Kill the Moonlight” e apresentam a reconfirmação chamada “Gimme Fiction”. Maxïmo Park, com a estreia “A Certain Trigger”, completam os lançamentos a reter deste período.

Mantendo-se o rewind no percurso de 2005, Richard Swift comparece de forma inédita usando este nome e logo em relançamento duplo de álbuns anteriormente gravados, conseguindo aquilo que terá sido o principal objectivo: reconhecimento internacional de “The Novelist” e “Walking Without Effort”. Os Cloud Room lançam-se durante o mês de Abril acompanhados do seu primeiro álbum; os Piano Magic conseguem mais um bom disco – “Disaffected” - que juntam à sua discografia de qualidade irregular e onde assinalam o regresso à editora Darla.

Depois de dois álbuns que não se sentiram, os National atingem a fama com “Alligator”, aproveitando a moda Interpol, a mesma que serviria mais tarde para realçar a estreia já referida dos Editors.

Os Madrugada evoluem para “The Deep End” num mesmo mês que nasceu ao som dos Architecture in Helsinki (“In Case We Die”) e Okkervil River (“Black Sheep Boy”).

Março fecha com “Guero”, novo trabalho de uma carreira longa e constante de Beck. Uma semana antes, os Decemberists surgem com “Picaresque” conservando um crescimento de maturidade lento mas seguro. No dia anterior, Queens of the Stone Age impressionam ainda mais do que em 2002, desta vez com “Lullabies to Paralyze”.

A Silver Mt. Zion., que mudam de nome da banda ao ritmo de lançamentos de discos, apresentam o reconhecido “Horses in the Sky”. Mas, mais uma vez, são as estreias que marcam o mês: Kaiser Chiefs com “Employment” (existem desde 1997, apesar de tudo) e Bravery com “The Bravery”: dois projectos que procuram igualmente tirar partido dos gostos em vigor.

Quase a chegar ao início do ano (ou se preferirem, ao fim do texto), salienta-se a ovação conseguida por Antony and the Johnsons, que conta com a contribuição dos seus ídolos Lou Reed e Boy George, para além de Rufus Wainright e Joan Wasser, em “I Am a Bird Now”; o segundo e bem cotado trabalho de Patrick Wolf (“Wind and the Wires”); e a estreia prometedora de Bloc Party (“Silent Alarm”).

Andrew Bird reaparece com o esplendoroso “The Mysterious Production of Eggs”; Josh Rouse alcança o quinto trabalho: “Nashville”; os Kills regressam à boleia de “No Wow”; e os Doves, que alcançam o número um em Inglaterra com “Some Cities”.

Fevereiro teve ainda tempo para o novo projecto de Owen Pallett, Final Fantasy (“Has a Good Home”).

25 de Janeiro é sublinhado por uma avalanche de bons trabalhos. Bonnie ‘Prince’ Billy, juntamente com Matt Sweney, lança “SuperWolf”; os Bright Eyes apresentam-se em dose dupla com os apreciáveis “Digital Ash in a Digital Urn” e “I’m Wide Wake, It’s Morning”; os Low marcam a estreia pela Sub Pop com”The Great Destroyer”; e Six Organs of Admittance chamam a atenção da crítica com “School of the Flower”.

No dia anterior outros quatro lançamentos: o melhor até ao momento dos …And You Will Know Us By the Trail of Dead (“Worlds Apart”); a estreia de LCD Soundsystem (“LCD Soundsystem”); o terceiro dos franceses M83 (“Before the Dawn Heals Us”); e Mercury Rev com o delicioso “The Secret Migration”.

Antes há ainda o aparecimento dos Black Mountain num ano em que o Canadá impõe uma relevância que já vinha reclamando há anos; o primeiro de dois álbuns no mesmo ano dos Fiery Furnaces (“LP”); e a estreia numa major dos We Are Scientists que lhe vale um autêntico êxito nas vendas (“With Love and Squalor”).

Ver também:

Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004

(Songs Of Devotion) Spain - Ray Of Light



Ray of light, I never see
Through the passing clouds or through the trees
When you left into the pouring rain
I knew I would never see you again
Ray of light won't shine through
When love is through, when love is through
Late, one night, I heard you at my door
But I pretended like I wasn't home

Please forgive me for what I've done
But you know I would've done it like I did before
Ray of light won't shine through
What can I do ? Lord, what can I do ?
Ray of light, I never see
Through the passing clouds or through the trees
When you left into the pouring rain
I knew I would never see you again
Ray of light won't shine through
When love is through, when love is through
When love is through, when love is through
When love is through, when love is through

21 novembro 2009

Herberto Helder

"Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
- Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ígnea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensível trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não se repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo qur tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta - queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as freementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. És alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.

- Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como uma roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto,cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
como o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória."

(Songs of Devotion) Richard Buckner - Blue & Wonder


A simplicidade inerente de quem relanceia os elementos da tabela periódica sensorial ou ou a intervenção sobre eles, na espantosa demarcação dos trilhos, no desenho dos vestígios sulcados, de forma a alterar a sua evolução natural.
Ponto.

16 novembro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 9 (fim?)




O acaso permite tropeções que se tornam memoráveis.

Algures, na procura de "Lorelei" dos Cocteau Twins, do mítico álbum "Treasure", deparei com esta preciosidade, que por aqui tem sido mostrada em secções espaçadas no tempo.

Julgo ser uma edição que representa o trabalho de esculturas de João Cutileiro, fotos de Gérard Castello Lopes e textos de Miguel Esteves Cardoso.

Nunca vi a obra, nem sei onde encontrá-la.

Eventualmente terá apenas estes nove capítulos.

Será porventura das mais belas coisas que li - não só do autor em causa.

Da "Lorelei" dos Cocteau Twins, nunca encontrei uma versão que fizesse jus ao LP que guardo e escuto a cada momento, no entanto aqui a enquadro.

As palavras essas são monumentais:

"Eu só queria pará-la. Ali ao pé do rio e de mim. Queria viver repetidamente aquele momento, cansar-me naquele corpo já sem força e ficar. Em vez do passado e futuro das nossas vidas. Os olhos como estavam. Os tornozelos assim. A boca como era naquela altura, àquela luz que então batia, naquele lugar, naquela idade, àquela temperatura.
Pará-la, torná-la em pedra, matá-la, fotografá-la, passá-la para o papel. Para os meus olhos. Para os meus olhos poderem morrer nela.

O amor quer matar quem ama, de maneira a poder guardá-lo para sempre. O amor quer estar ao pé do amor.
Na pedra e no papel amanhece uma morte linda. É uma troca de vida. É um engano que se escolhe.
Estou parado, ela está parada, agarro-a junto de mim. Nunca mais me hei-de mexer. Ela nunca mais sairá daqui.

Parados por paixão, mortos pela manhã.
Não. Não é na vida que está a verdade."

(Songs of Devotion) Swell Season - High Horses

Por aqui todos os trilhos que são desvendados são seguidos da única forma possível: até à exaustão.

O Telheiro moldou a ponte entre o nome do colectivo de Dave Freel e esta descoberta do projecto de Glen Hansard.

Sob essa palavra o mergulho até ao encontro superficial e depois a raiar o detalhe de "Strict Joy", o álbum deste ano dos Swell Season.

Arreabatador.

No mínimo.

Se aqui se acede a uma versão demonstradora da possibilidade do que parecia mitigador da realidade:

Em "playlist" podem tornar a tripla referência num curtíssimo espaço de escuta que é imperioso alongar.

Obrigadinho ó Telheiro: este aprestava-se a escapar.


15 novembro 2009

(Songs Of Devotion) A.C. Marias - One Of Our Girls Has Gone Missing


De um álbum a todos os niveis incrivel, de 1989 com o título desta faixa.
Continha também "Just Talk", "So Soon", "Give Me", "To Sleeep", " Looks Like" e "Time Was".
Inesquecível.

13 novembro 2009

(Songs Of Devotion) Avett Brothers - And It Spread


Eu fiquei convencido: demorou mas fiquei.
Rendido, até.
Vão atrás do álbum: "I And Love And You".
A versão original, no plano inferior.


Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 8

"Lorelei fica à beira da minha vida, deitando-lhe sombra em cima. A luz não é a mesma desde que desapareceu. Os meus olhos não andam abertos como dantes. Ela está deitada ao longo da minha vida, como um rio a correr por uma pedra. A pedra separa o rio num só instante. Mas a pedra sente para sempre o rio a correr à volta dela.

Quando se aproxima a vontade da mentira, vale a pena acreditar. O amor é um acaso. O amor é um engano. Tudo se sente. Nada se sabe.

Perto dos olhos pára numa parecença de verdade. Ninguém tem os olhos errados.
Olhos de amor são olhos de quem tem medo de morrer. Olhos parados…Porque, para além disto tudo, há uma luz dentro da película, uma prata secreta que se acaba por mostrar. A pele da pedra transforma-se, pela luz e pela película, em pele.
A fotografia de uma escultura é uma pedra duas vezes parada. Como uma mulher duas vezes desejada e duas vezes presa, pelos dois pulsos, pelos punhos de dois homens diferentes."

12 novembro 2009

O que dizer disto?

Será que o mar superior suporta música assim?

Não resisti. Peço desculpa aos mais sensíveis.

Alerto para o perigo de contágio. Manter as crianças afastadas do monitor nos próximos 7 minutos e meio.

11 novembro 2009

Swell @ Porto, O Meu Mercedes É Maior Que O Teu – 10.11.2009


As unidades de medida da verdadeira dimensão de um objecto; de um local; de uma canção: de quem as gera; de quem as descobre; de quem as mostra, tendem cada vez mais a ser postas em causa – podem e, acima de tudo devem ser implodidas.

Apenas conseguem iludir, na sua altivez de verdades absolutas, os incautos: os que estiolam na águas estagnadas, onde o risco de enfrentar o descobrimento dá lugar à comodidade do suposto conhecimento.

Não pretendendo atingir a exorbitância sob a toga de um juiz do diabo, nem a artificialidade dos enviados de uma medievalidade assente numa “face oculta” fátua, tenho de me rasgar em elogios à hiperactividade demonstrada recentemente pelo “Mercedes” e ao impressionante desfile de CANÇÕES executado pelos Swell, num palco delimitado por fronteiras imperceptíveis, tal o nível de despojamento atingido.

Evitando dispersar-me sobre o que realmente interessa – o discurso directo das canções - se tomarmos como exemplo - um mero exercício, certo? – a falta de “olho clínico” ( de quem promove concertos ) para a escolha de músicos de calibre desafiador das normas estéticas vigentes, alinho as seguintes considerações, meramente comparativas: - tendo os Soulsavers em Paris, Barcelona e Madrid, a 5, 14 e 19 de Novembro, respectivamente, há quem os deixes escapar entre os dedos e, aqui, a “rede” do “Mercedes”, “Mercado Negro” em Aveiro e “Via” em Coimbra, traça as coordenadas do rasgo, da saudável recorrência de permitir assistir a um concerto dos Swell, tornando ibérico, um percurso que tornaria o solo português inatingível.

Ou se preferirem uma frase apenas: quando a escassez de meios se deixa de lamúrias e se atira em frente sob a charneira de um conhecimento impar e criatividade pura.

Os Swell são daquelas bandas que nunca fizeram uma canção mediana ou um álbum razoável, não são detentores de temas épicos nem de discos que entrem de caras nas memórias mais restritas de cada ano.

Mas arquitectam a alquimia das canções raras, as que são estudadas por uma antropologia venosa em que todas as canções pulsam, como sangue bombeado a céu aberto, em que cada pedaço do que é escutado fica incrustado em cada milímetro dos alicerces emocionais que nos sustentam.

No “Mercedes” atiraram com 18 canções contra o granito de umas paredes mitológicas, como quem bebe 4 stouts pela garrafa, com uma leveza em palco quase sobrenatural. Durante quase hora e meia, com 2 “encores” decididos por três músicos de eleição, enquanto se sentavam num chão que sustinha os copos dos “whisky breaks” que David Freel requisitou, no mesmo tom que pedia mais volume para o seu microfone, ou se preocupava se escutávamos a guitarra eléctrica.

Rodeado por Brian Mumford na guitarra eléctrica e teclas, a exibir-se de modo magnifico, e por Ron Burns – que já terá tocado com Bill Callahan –, na bateria e percussões: numa única palavra para descrever o seu contributo: perfeito, não largando a guitarra acústica - manejada de forma absolutamente talentosa – depois de ter iniciado a apresentação nas teclas.

O som esteve praticamente perfeito porque a acústica da sala é fantástica e tecnicamente, o volume concedido a cada instrumento foi feito com mãos de mestre.

O trabalho deste ano “Be My Weapon”, por mim desconhecido até ontem, foi a base do espectáculo, com temas espalhados pelo seu tronco principal: “Bad Bad Bad”, “Focus Please …”, “I Miss Your Mischief”, por um ramo esquerdo no primeiro “regresso” ao palco: “Things I Should Not Do” e por um outro com lateralidade oposta contida na segunda “vinda”: “Come Livid” e “Love Is Just So Overrated” e, num ano de colheita gloriosa é mais um elemento para baralhar as contas finais de uma década perto do seu ocaso.

Um disco soberbo, uma árvore encorpada por temas de densidade elevada.

A escutar.

Obrigatoriamente.

Passaram de forma majestosa pelo álbum anterior, “South Of The Rain And Snow”, de 2007 com “Good Good Good” e “Trouble Loves You”.

De “Too Many Days Without Thinking” de 97, mostraram a intemporalidade de “Sunshine Everyday” no fecho do alinhamento principal e de “Bridgett, You Love Me” a fechar o primeiro “encore.

A 1993 foram buscar “Wash Your Brain” para o equilíbrio de uma actuação sobre um trapézio altíssimo e dispensador de rede de protecção, de forma categórica.

A sucessão de canções foi avassaladora e atenção foi tão simples de ser concedida: com a grandiloquência da obra dos Swell, afinal, assente num simplicidade apenas ao alcance de compositores que são imensos.

David Freel faz-nos espreitar paisagens através de janelas de comboios, em viagens solitárias, sob a escuta de uma sonoridade crua, que caracteriza os ambientes que se adivinham, nas histórias que conta, quando se vira do avesso: exposto.

Mais uma noite para a galeria dos grandes momentos do “Mercedes”.
Um concerto, dos enormes, em que pude estar presente.

Swell não no seu melhor: naquilo que são: excelentes: naturalmente.

“Outstanding”.

10 novembro 2009

Anos 00 - balanço: 2004

Arcade Fire - "Funeral"

2004 é uma ocasião de gigantescas estreias e de muitos grandes discos. Micah P. Hinson, Grizzly Bear, Joanna Newsom, Franz Ferdinand e Kasabian são suficientes para justificar a declaração inicial. Mas é sobretudo com os Arcade Fire, Killers e TV on the Radio que o ano ganha a sua verdadeira e majestosa dimensão.

A linha que divide o balanço dos anos 00 em dois encontra-se à distância do final deste texto. Motivo, por isso, para um ponto da situação.

Os cinco primeiros anos - que se completam com 2004 – trouxeram algumas ideias novas, outras reavivadas e outras ainda consolidadas. Suficientes para um vislumbre denunciador, ainda que incompleto, da rota que esta história vem escolhendo.

Do passado, esta década recebeu uma certa estirpe de carreira firme que meritoriamente vem mantendo a sua presença proeminente. Os Cure cumprem o hábito de gravar de quatro em quatro anos que dura desde Wish de 1992: editam “The Cure”; Nick Cave retorna aos bons discos com “Abattoir Blues & The Lyre of Orpheus”; Mark Lanegan destaca-se de entre os veteranos com um dos melhores discos do ano: “Bubblegum”. PJ Harvey (“Uh Huh Her”), Morrissey (“You Are the Quarry”), Bjök (“Medúlla”), Tom Waits (“Real Gone”), Bonnie ‘Prince’ Billy (“Sings Greatest Palace Music”) e Sonic Youth (“Sonic Nurse”) são outros exemplos de uma herança valiosa que reaparece em 2004.

Mas, dado este capítulo servir também como síntese dos primeiros cinco anos, ocorre-me lembrar Radiohead, Mercury Rev, Mogwai, Flaming Lips, Spiritualized, Smog e Lisa Germano como figuras igualmente marcantes, que neste ano não editam.

Outros, apesar de terem aparecido nos anos 90, só esta década se afirmam definitivamente e se tornam nomes fundamentais: os Lambchop, depois de “Nixon” e “Is A Woman” enriquecem com os excelentes “Aw Cmon” e “No You Cmon”; os Luna lançam o último registo, “Rendezvous”; Modest Mouse cresce com “Good News for Who Love Bad News”; Destroyer comparece de forma estupenda graças a “Your Blues”; e os Archive acrescentam “Noise”. Para além destes, Sigur Rós (“Ágaetis Byrjun”, 2000 e “( )”, 2002), Sparklehorse (It’s a Wonderful Life”, 2001), Cat Power (“You Are Free”, 2003), Piano Magic (The Troubled Sleep of Piano Magic”, 2003), Aimee Mann (“Bachelor No.2 or, the Last Remains at the Dodo”) e Eels (“Daisies of the Galaxie”, 2000 e “Souljaker”, 2002) ampliam uma lista de autores que se agigantam depois da passagem de 2000.

Alguns, de origem mais recente, aproveitam para prosseguir a sua carreira: Zero 7, já afastados da preciosidade de 2001, lançam “When It Falls”; os canadianos Stars gravam “Set Yourself on Fire”; e os Clinic atingem o terceiro registo, o apreciável “Winchester Cathedral”.

Contudo, há também os que chegam a 2000 com créditos firmados, mas que patenteiam dificuldades claras em corresponder às expectativas dos que estão cientes das suas capacidades. Os Divine Comedy desmoronaram-se após “Regeneration” e editam – só com Neil Hannon da formação anterior – o decepcionante “Absent Friends”. Os Air recuperam ligeiramente mas muito longe do arranque, mostram “Talkie Walkie”. Gomez discretamente levantam-se com “Split the Difference”, mas ainda muito abaixo do seu início. Tindersticks (“Can Our Love…”, 2001 e “Waiting for the Room”, 2003) e Massive Attack (“100th Window”, 2003) resguardam-se em 2004, contudo não tinham ainda, apesar das tentativas recentes, mostrado capacidade de equipararem-se ao seu passado.

Finalmente, antes de ingressar nos nomes que a década já viu nascer, referência para os fortuitos. Aqueles que, após longa ausência, decidem reaparecer com trabalhos de assinalável relevância. Neste mesmo ano os American Music Club oferecem “Love Songs for Patriots”, quebrando um silêncio que durava desde “San Francisco”, de 1994. Antes já tinham ressuscitado os Wire (“Send”, 2003), Wrens (“The Meadowlands”, 2003), Anita Lane (“Sex O’Clock”, 2001) e Jane’s Addiction (“Strays”, 2003).

Mas são, sistematicamente, as criações do presente que definem a evolução e nos ajudam a adivinhar o futuro enquanto saboreamos o prazer refrescante das boas novidades.

Neste tempo em que a Web é ainda recente, a Música faz uso das potencialidades da nova realidade e abre o seu acesso à sociedade global. As bandas ganham maior independência graças à divulgação facilitada que, mais do que nunca, convida a formas mais criativas e autónomas para expor o talento que o público julgará.

Nesta nova dinâmica renasce o som cru e rebelde que evoluiu desde ainda antes de 60 até ao punk – perdendo depois relevância.

Embora de forma esporádica, esta atitude foi sempre existindo. Contudo foi com os Strokes em 2001 que a tendência verdadeiramente rebentou; e se expandiu graças a continuidades asseguradas por bandas como os Yeah Yeah Yeahs ou os Black Rebel Motorcycle Club. 2004 reforça esta evidencia apresentando Franz Ferdinand (álbum homónimo) e ampliando os King of Leon para o seu segundo trabalho, “Aha Shake Heartbreak” e os Radio 4 para “Stealing of a Nation”. O momento mais estimável desta corrente durante o ano em apreciação surge no lançamento de “Hot Fuss” dos Killers.

Mas, por esta altura, já muitos tinham nascido e crescido durante a década à margem desta orientação. Elbow (“Asleep in the Back”, 2001 e “Cast of Thousands”, 2003), Goldfrapp (“Felt Mountain, 2000 e “Black Cherry”, 2003), Doves (“Lost Souls”, 2000 e “The Last Broadcast”) e Gorillaz (“Gorillaz”, 2001) são exemplos de projectos que garantem a diversidade de referências e concepções. Assim como Animal Collective, que edita o bem cotado “Sung Tungs”, ou Frog Eyes: “The Folded Palms”.

Os Walkmen, em ascensão clara, exibem o apreciado “Bows + Arrows”; Kings of Convinience evidenciam engrandecimento com “Riot On an Empty Street”, que conta com a colaboração de Feist e atinge números convincentes nas vendas, em particular na Noruega, seu país de origem.

Os Interpol - referência incontestável da década - mantêm a fórmula e a qualidade mas perdem o efeito surpresa, lançam o convincente mas previsível “Antics”.

Ainda referindo frutos desta década, registo também para os Shearwater com “Winged Life”, DeVotchKa com “How It Ends”, Woven Hand com “Consider the Birds” e Camera Obscura com “Underachievers Please Try Harder”.

A solo, Grant-Lee Phillips compõe “Virgínia Creeper”; Badly Drawn Boy oferece “One Plus One Is One”; Josh Rouse traz “The Smooth Sounds of Josh Rouse”. Já Devendra Banhart apresenta-se em excelente forma criativa editando “Rejoicing in the Hands” em Abril e “Niño Rojo” em Setembro do mesmo ano.

Sufjan Stevens (“Seven Swans”), Iron & Wine (“Our Endless Numbered Days”), Feist (“Let It Die”) que não gravava desde 99, são as restantes menções.

O ano que deixa Portugal embriagado à custa do Europeu de futebol lança inúmeras estreias para além de Killers e Franz Ferdinand. Dessas, algumas marcam 2004 e irão afectar decisivamente o resto da década.

Para começar, Arcade Fire. “Funeral”, que, dado o lançamento tardio, só se popularizou em 2005, satisfez quem ansiava por inovações. Os canadianos nascem da pretensão de surpreender sem recorrer a fórmulas reutilizadas e readaptadas que, desde a estreia de Sigur Rós, vêm caracterizando as sucessivas transformações. Aproveitando o rótulo atribuído pela tendência obsessiva de querer catalogar tudo, Pop Barroco é o estilo sugerido, associado a nomes como Belle & Sebastian, Decemberists ou Divine Comedy. Contudo os Arcade Fire foram os primeiros a elevá-lo à categoria de projecto consensual e de impacto superior, características que contribuem para que comparações a outros pareçam sempre forçadas. Uma estreia que declara o melhor álbum do ano.

Embora exista um registo anterior, quase oculto, “Desperate Youth, Blood Thirsty” é recebido como o primeiro disco dos TV on the Radio que proporciona efeito semelhante. Destacando-se, igualmente, como uma das melhores criações do período que se amplia desde 2000.
Mas outros conseguem também apresentações valiosas como Joanna Newsom com o seu primeiro e assombroso álbum oficial: “The Milk-Eyed Mender”, Micah P. Hinson com o não menos admirável “Micah P. Hinson and the Gospel Progress”, Grizzly Bear com o aclamado “Horn of Plenty” e CocoRosie com o magnífico “La Maison de Mon Rêve”.

Os Pink Mountaintops e os Kasabian lançam-se às feras com álbuns agradáveis, ambos sem nome. Junior Boys (“Last Exit”) e Eagles of Death Metal (Peace, Love, Death Metal”) também concorrem com discos poderosos.

O arranque dos Go! Team (“Thunder, Lightning, Strike”), Hot Chip (“Coming On Strong”), Two Gallants (“The Throe”), The Earlies (“These Were the Earlies”) e Vetiver (álbum homónimo) são as restantes novidades que reforçam um ano rico em arranques promissores e razoavelmente representativo do que tem sido a década em análise. Um bom candidato a melhor ano desde 2000 e até ao momento.
Ver Também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003

06 novembro 2009

missão breve


não olho a intersecção das cores,
o arredondamento deslumbrante; recorte diferido: saliente,
ao longe, tanto quanto me permito: aí, no limite da ousadia.

impera a determinação da lentidão dos movimentos de um peito,
rumo ao refúgio na cabeça iluminada pelas mãos, que clamam por
vozes: todas.
estas.

que apelam ao abandono do espaço onde se albergam buracos negros inexplicáveis.

nada os mede.
tudo desiste.

- na praia dos malditos - ignoro-os; dissolvo o brado, para que os não consiga escutar.
e corro.
sem pousar o resto de mim, sequer, no ínfimo apoio claro.

estavas: lias: na pedra insuperável.

Pop Deluxe - Aviso à população

Esta foi a denominação escolhida, para o conjunto de concertos a realizar no Porto - mais precisamente a 4-Dez-09, no Teatro Sá da Bandeira - que conterá Patrick Watson e os Piano Magic, para além do colectivo The Invisible.
Em relação ao canadiano, basta o talento e a criatividade a que se acede neste excerto da Q TV, para uma noite de eleição.

Quanto aos Piano Magic, se meterem a cunha para a presença de Brendan Perry, podem na realidade fazer ainda mais jus ao segundo componente do nome,por o que podem permitir assistir. E serão talvez a banda mais 80's a editar este ano.

(Songs Of Devotion) Smoke Fairies - Living With Ghosts

Tky, João.

Há por ai um EP deste ano: "Frozen Heart".
E anteriormente em 2007 um álbum: "Strange The Things".
"Living With Ghosts" é aqui referido como "debut single": silenciador, não é?

05 novembro 2009

Manuel Gusmão

(Prémio Pen Club 2008)

"As mãos, os dedos; labaredas
minuciosas
aplainam e afagam a mesa
o seu amor de mesa ou a sua dedicação
não servil a essa forma nua
em que foi sonhada.

Foi a intrínseca madeira das florestas
quem a imaginou nas mãos do artífice;
e agora abre-se
na sala da casa como um pássaro preso
que prometesse voo.

Em certas mesas que habitam o mundo
tal como o amamos
há esse pássaro esse
escravo que voa no interior das mesas
sonhando-as como se fossem grutas
junto a esse mesmo mar que as invade
e faz soar
- põe as mãos na mesa; as mesas
no mar; o mar nas grutas e aí o som anterior:
o longínquo rumor da mesa sonhando os mundos."


"e tu vês estas estranhas aves que são nomes velozes
e, desferidas, cicatrizam no corpo da terra o céu aberto
e a demais matéria do tempo que não cessa.

Outrora seriam rios e montanhas; florestas e deserto

foram depois estaleiros e refinarias desafectadas;
ou esses rebanhos de gruas vermelhas que consigo
traziam a tempestade e deslocavam a cidade.

As paisagens mudavam de lugar e perdidos eram
os lugares e as gentes com quem nasceras"

(Songs Of Devotion) Mountain Man - Animal Tracks


A propósito: o EP com o mesmo nome é muito bom.

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 7

"Acordo dentro dela, como se acordasse dentro de água quente.Mexo-me. Ela mexe-se. Mexo-lhe. Ela mexe-me.E é sempre no meio da noite, no meio de uma noite, que é sempre a mesma, sem princípio e sem fim, onde não há lembrança de ter anoitecido, nem ideia de que vá amanhecer.Ela acorda sempre dentro de mim, entre o sonho e o susto que, no amor, são as coisas de todos os dias.Que tamanho tens? Que natureza tens? Que idade tens?Tens o tamanho que eu quiser, a natureza que tiveres e a idade das perguntas que faço.Lorelei, menina mais mulher. Tão olhada que já não olha para ninguém. Tão deitada!…Por não poder parar, o homem pára o que se passa na pedra. Pega num escropo ou numa máquina ou numa caneta e pára o que se passa na pedra, na película, no papel. Mata o que tem vida. Dá vida ao que morreu.Passa para a pedra como quem muda de pele. Troca o corpo com o coração. Confunde as coisas todas, sobretudo, a vida com a verdade. Uma mulher é sempre muitas. Quem ama uma só mulher perde-se numa multidão.Confundo-me. A pele lisa como a pedra, a pedra lisa como a pele. O papel liso como a película, a película lisa como o papel. Faz-me bem!"

02 novembro 2009

Até As Sociedades Mais Primitivas Admitem Os Seus Loucos

Para António Sérgio ( o 100º mergulho no Mar Superior )

XXV escolhas - de um só trago - de um ano com produção soberba, que de certa forma, pareceu existir quase de propósito para perpetuar as tuas buscas.
São o resultado de mergulhos que geram o número do teu mais recente projecto, no fundo o de sempre: o do "direito à diferença".
"Soltas" de "uma lista rebelde", não mais que "sinais de fumo", por aquilo que durante tantos anos constituiu um caminho de eleição, traçado com mãos em chamas.

Don't "press the eject and give me the tape": press play - with fire.

01 The Decemberists – Sleepless
02 Beirut – Mimizan
03 Sonic Youth – Antenna
04 Why? – The Blackest Purse
05 Soulsavers – Some Misunderstanding
06 M. Ward – Oh Lonesome Me
07 Lightning Dust – Take It Home
08 Noah And The Whale – The First Day Of Spring
09 The Airborne Toxic Event – Sometime Around Midnight
10 Archive – Chaos
11 Heartless Bastards – The Mountain
12 Fanfarlo – Comets
13 Lhasa – Rising
14 Laura Gibson – Shadows On Parade
15 Joan As Police Woman – Keeper Of The Flame
16 Elvis Perkins – Chains Chains Chains
17 Tiguana Bibles – Lost Words
18 The Big Pink - Velvet
19 The Pink Mountaintops – Vampire
20 Grizzly Bear – Two Weeks
21 Micah P. Hinson – In The Pines
22 Yo La Tengo – More Stars There Are In Heaven
23 The Low Anthem – This God Damn House
24 Rodrigo Leão & Stuart Staples – This Lights Holds So Many Colours
25 Cass Mc Combs – You Saved My Life


MusicPlaylist

A Hell Of A Place - Black Cab Sessions


Um dos fantástiscos exemplares disponíveis: percam-se atrás de outros.

Anos 00: balanço - 2003

Elbow - "Cast of Thousands"

Os Radiohead mudam novamente o rumo tentando uma recuperação estética sem a originalidade que entretanto se gastou. Intenção igual têm os Blur, que não escondem sinais de saturação. Tempo então para a novidade Yeah Yeah Yeahs, para o regresso aparatoso dos Wrens e para a confirmação dos Elbow.

Desta vez escolho a cooperação do abecedário para organizar os autores que mais me marcam num ano que, à semelhança de 2001, não será dos mais apetecíveis da década.

Assim, como manda a regra recém-eleita, o percurso tem início em Andrew Bird, que edita o seu segundo trabalho, o apreciado “Weather Systems”. Já Michael Gira, figura dos extintos Swans, lança o terceiro álbum do projecto Angels of Light: “Everything Is Good Here / Please Come Home”.

Os Animal Collective conseguem elogios que já não recebiam desde a estreia com “Here Comes the Indian”. “Monday at the Hug and Print” foi o nome escolhido pelos Arab Strap para o lançamento de 2003. Gente dos Mogwai e Bright Eyes são convidados a colaborar num álbum que os mantém a bom nível.

Os Belle & Sebastian perdem Isobel Campbell – que aproveita para lançar o motivador “Amorino” –, mas conseguem um resultado muito próximo dos seus melhores registos com a edição de “Dear Catastrophe Waitress”.

Black Rebel Motorcycle Club mostram-se de novo. “Take them on Your Own” segura-os numa posição de relevo graças a um disco de qualidade superior que também aproveita do benefício da dúvida motivado pela excelente estreia dois anos antes. Em curva descendente, os Blur exibem o álbum que previsivelmente viria a ser o último. Os rumores de saturação são frequentes e Graham Coxon já pouco participa. “Think Tank” traz, apesar de tudo, uma faceta experimental à banda que indicia novas pistas para o futuro, qualquer que fosse a forma. Em boa fase está Bonnie ‘Prince’ Billy, que atinge a respeitosa idade de oito álbuns de originais de qualidade bastante regular, incluindo o novíssimo “Mater and Everyone”.

Calexico volta à carga depois do grande “Hot Rail”. “Feast of Wire” não consegue o mesmo nível mas não desilude. Cat Power lança o aclamado 6º registo: “You Are Free”. Também reconhecido, “The Violet Hour” chega como sucessor do discreto disco de estreia dos Clientele, “Suburban Light”.

Apesar de existirem há já oito anos, os The Dears só agora chegam ao segundo álbum: “No Cities Left”. Na mesma letra, os Decemberists lançam, um ano depois da estreia, “Her Majesty” revelando uma evolução bastante apreciável, no entanto ainda bastante longe do limite.

Mark Oliver Everett não consegue esticar mais a corda e não evita que os seus Eels não correspondam com “Shootenanny!”. Seria o início de um longo abrandamento de criatividade que antes parecia inesgotável. Em sentido inverso, os Explosions in the Sky, já ao terceiro trabalho, impõem unanimidade nos altos elogios com “The Earth Is Not a Cold Dead Place”.

Os Elbow, que já tinham a difícil tarefa de corresponder às elevadas expectativas criadas por “Asleep in the Back”, conseguem a assinalável proeza de demonstrar uma maturidade acima da idade apresentando o melhor álbum do ano: “Cast of Thousands”.

“Black Cherry” foi extremamente prezado pela imprensa, no entanto os Goldfrapp revelam decréscimo de qualidade em relação ao enorme “Felt Mountain”. “Sumday”, com resultado bastante superior, solidifica a carreira dos Grandaddy. De Bristol, os Gravenhusrt trazem o apaixonante “Flashlight Season”, reclamando maior atenção.

Treze anos e muitas zangas depois, os Jane’s Addiction oferecem o descontextualizado “Strays” denunciando a evidência de não mais serem capazes das proezas passadas. Em plena estreia, o sueco José Gonzalez apresenta “Venner” ganhando imediatamente a aposta: o álbum vende que se farta chegando mesmo à platina em Inglaterra. Josh Rouse escolhe o seu ano de nascimento para baptizar o quarto trabalho. “1972” torna-se rapidamente no seu maior êxito.

O revivalismo garage rock continua a crescer, desta vez através dos Kings of Leon: “Youth and Young Manhood”. Kristin Hersh insiste na sua carreira a solo: já numa fase mais discreta, lança “The Grotto”.

Lhasa de Sela mostra o arrepiante segundo trabalho: “Living Road”. Enquanto isso e ao fim de 5 anos de silêncio, Lisa Germano regressa em excelente forma. “Lullaby for Liquid Pig” exibe a continuidade segura de numerosas obras soberbas como “Happiness”, “Geek the Girl”, “Excerts From a Love Circus” ou “Slide”, sustentando assim uma carreira ímpar que dura desde o início da década passada.

M. Ward aproveita o excelente “Transfiguration of Vincent” para homenagear um amigo entretanto desaparecido; de França, M83 voltam à carga com “Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts”; Massive Attack mostram-se vivos mas sem a vitalidade de há 5 anos, por altura de “Mezzanine” – “100th Window” não consegue seduzir um público especialmente expectante; os Mogwai apresentam o excelente “Happy Songs for Happy People”; os Muse, apesar de conquistarem a crítica e os EUA com “Absolution”, denunciam um cariz claramente comercial que desilude quem aguardava a digna sucessão de “Origin of Symmetry”; discretamente, chega o terceiro registo dos My Morning Jacket: “It Still Moves”.

“Nocturama” é a despedida de Blixa Bargled dos Bad Seeds. Nick Cave ameaça esgotar a paciência dos fãs com o sucessor do bem superior “No More Shall We Part”. Na outra face da letra ‘N’ há Nina Nastasia, que continua a deliciar os fãs com uma voz inestimável que dá vida às excelentes composições ornamentadas sempre por arranjos divinais. Com 2003, Nastasia traz o maravilhoso “Run to Ruin”.

Os Okkervil River, um ano depois da estreia, evoluem para “Down the River of Golden Dreams”.
Depois de “Waterproof9”, “Just Another Ordinary Day” junta uma banda a Patrick Watson e conseguem um disco brilhante. Já fora do período frustrante na 4AD, os Piano Magic voltam aos bons álbuns com “The Troubled Sleep of Piano Magic”. Da parceria de Ben Gibbard e Jimmy Tamborello nasce o projecto The Postal Service: “Give Up” surpreende lançando um par de hits indie para animar o ano. O prometido segundo álbum parece nunca passar de uma ameaça.

Os Radiohead desvendam “Hail to the Thief”: reconhecendo o desgaste da fórmula que vem sendo utilizada, recuperam o destaque que antes davam às guitarras. Como resultado, as vendas continuam a corresponder embora o ciclo genial “The Bends”, “Ok Computer” e “Kid A” pareça afastar-se irremediavelmente da banda.

“One Bedroom” dos Sea & Cake, “Chute Too Narrow “dos Shins e “Room of Fire” dos Strokes alimentam a normal evolução de carreiras já com bastante relevância.

Após um ano de interregno dedicado à edição de uma colecção de lados B’s, Smog regressa aos originais com “Supper”. Snow Patrol atingem o circuito mainstream ao terceiro trabalho: “Final Straw”. Os Spiritualized mostram sinais preocupantes: “Amazing Grace” aposta na crescente influência gospel mas não evita tornar-se no pior trabalho de sempre de Jason Pierce. Sufjan Stevens inicia a épica intenção de dedicar um álbum a cada estado dos EUA; “Greetings of Michigan” é o primeiro desse desejo.

Já perto de esgotar todas as letras disponíveis, chegam os Tindersticks que assinalam uma ténue recuperação com “Waiting for the Moon”. Contudo, ainda bastante longe do que se exige deles.

Em 1998, os Unkle editavam “Psyence Fiction”: atingiam o êxito, graças, por um lado, à qualidade evidente do seu registo de estreia, por outro, aos contributos preciosos de músicos já famosos, como, por exemplo, de Thom Yorke que dá a voz a “Rabbit in Your Headlights”. Em 2003 estes londrinos regressam: desta vez pedem ajuda a, entre outros, Josh Homme, Brian Eno, Jarvis Cocker, Ian Brown e Mani. No entanto o esforço não chegou para que “Never, Never, Land” tivesse o reconhecimento anteriormente conseguido. A boa notícia é que a história dos Unkle não está ainda toda contada.

Os Walkabouts homenageiam Nina Simone com “Slow Days with Nina” num ano em que o mundo viu partir, para além de Simone, figuras com o calibre de Celia Cruz, Johnny Cash ou Elliot Smith.

White Stripes precisam apenas de duas semanas para gravar “Elephant”, que viria a ser eleito álbum do ano para diversas publicações. Ainda a solo, mas já com o nome Why?, Jonathan "Yoni" Wolf mostra “Oaklandazulasylum”. Ao sexto disco, os Willard Grant Conspiracy ganham destaque com a melhor recepção até ao momento: “Regard the End”. Sem gravar desde 1996, os Wire surpreendem com o inesperado “Send”. Os Woven Hand abrandam com “Blush Music” que se confirmou bastante aquém da estreia fabulosa.

“The Meadowlands” cai como uma bomba e destaca-se como um dos melhores do ano; os Wrens, que existem desde 1989, apenas tinham gravado “Silver” em 94 e “Secaucus” dois anos depois; regressam de forma imprevista e grandiosa em 2003.

O empurrão dado pelos Strokes em 2001 conserva o efeito. Nascem os Yeah Yeah Yeahs e o extraordinário “Fever to Tell”. Mais experientes e noutro âmbito, os Yo La Tengo conseguem a aceitação crítica habitual com “Summer Sun”.


Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002

01 novembro 2009

José Mário Branco; Sérgio Godinho; Fausto @ Coliseu do Porto – 31.10.2009

No país de todos os embustes “é tão bom uma amizade assim”: poder assistir a momentos, que a noite de Sábado tornou tão simples de suceder, depois de difícil montagem de um alinhamento para um espectáculo sem dimensão.

“Estou tão contente!” – referiu José Mário Branco, no primeiro conjunto de palavras dirigido a um público devotado - e então nós?! Espero que os muitos aplausos contidos em ovações em pé, tenham demonstrado isso mesmo.

Coliseu a abarrotar, para assistir ao desfilar de canções da História Mundial da Música Popular.
Depois de Lisboa, o Porto acolhia três dos expoentes da arte, nesse domínio.
Numa missão de alto risco: encaixar, uma fase da vida – porque é disso mesmo que se trata – relativa a 40 anos, numa apresentação.
E, de uma forma tão própria: deslumbrante: autêntica - de fazer da composição e da interpretação musical, um percurso nobre, ali foi assistido.

Se já não precisavam de dar provas da sua grandeza, mais enormes se tornaram na concepção deste espectáculo: para além do rigor técnico, da fabulosa orquestra de que se rodearam, de uma entrega sem limites, a escolha da sequência de temas foi demonstrativa dos riscos que ainda sorriem ao corrê-los.

Tinha sido extremamente fácil, ao jeito de um “best of” apresentar o que mais linear pudesse ser imaginado de ser escutado.
A coerência de quem sempre soube surpreender atingiu aqui o seu ponto alto: quer nas escolhas “menos obvias” chamemos-lhes assim, quer nas versões apresentadas, de que “Primeiro Dia” foi um exemplo brilhante, mas onde “Que Força É Essa” foi o mais marcante: rasgo; talento: impressionante e arrebatador.

Em trio; dueto ou individualmente, com saídas e regressos que nem se notavam ocorrer tal a vontade de aplaudir a cada sacudidela com que éramos acossados a cada canção.

Som irrepreensível, a acompanhar cada tema que se tornou de cada um dos três elementos que ocupavam o centro do palco, numa divisão de resto zero – tal o absoluto rigor com os tempos de presença, execução e partilha de um espólio que é afinal de todos nós: José Mário Branco, referiu-o e reforçou para “contarmos com isso e para o resto” e, nem pestanejámos a hesitar: de um homem assim não se duvida de uma única palavra.

As palavras – neles – são a base de canções inesquecíveis e, como as trouxeram!
Duas horas e meia cheiinhas delas: avassaladoras com José Mário Branco, mágicas no seu movimento de troca estonteante de posições, no caso de Sérgio Godinho, acarinhadas e sublinhadas por Fausto.

Sim, pudemos escutar um início assombroso e um final inverosímil, nos extremos de uma viagem que conteve “Guerra e Paz”, “Como um Sonho Acordado”, “O Primeiro Dia”, “Ser Solidário”, “Eu Vi Este Povo a Lutar”, “Que Força É Essa”, “Maré Alta”, “Mudam-se Os Tempos Mudam-se As Vontades”, Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)”, “Casimiro”, “Eis Aqui o Agiota”, “O Velho Samurai”, “Não Canto Porque Sonho”, “O Charlatão”, “A Barca Dos Amantes”, um inédito “Faz Parte – ou o retorno das audácias” ,a memória de Zeca Afonso em “De Não Saber O Que Se Espera” e o tal fecho com "Na Ponta do Cabo".

Canções atiradas para choros e risos, silêncios sepulcrais ou entusiasmo desmedido.
Com o palco repleto ou apenas o trio - em jogos vocais tremendos sobre guitarras gémeas, sob canções fabulosas - o sentimento de assitir a um concerto histórico depressa vincou a sua pressença.

A preparação de meses destes pouquíssimos espectáculos não evitou deslizes no início de temas, mas os grandes sabem voltar esses acontecimentos a seu favor!
Como com Sérgio Godinho a antecipar-se na introdução de um tema, mas a perguntar se ainda estávamos acordados para ouvir a história que tinha para contar, ou na demora da extinção da interferência na amplificação de uma guitarra, que Fausto procurou entreter com “a gaitarola” que esteve presente em “Charlatão” e a que Sérgio Godinho não augurou grande futuro, antes “ordenando”: "vamos mas é trabalhar!"

A disposição de todos os músicos em palco foi criteriosa: as percussões na retaguarda com os sopros à frente, as teclas e acordeão no extremo direito do palco a espreitar os três homens sentados de guitarra na mão, que tinham à sua esquerda o baixo e as guitarras eléctricas, espreitadas pelo coro que tanta força deu ao conjunto.

Na história que Sérgio Godinho contou, em tempos, tanto ele como José Mário Branco – nados no Porto e Fausto “como se fosse”, estavam impedidos de actuar, no palco que queriam ocupar.
Antigamente.
Agora estavam ali.
A ditadura derrubada deu lugar à da formatação dos gostos e omissão de valores.
E esta é parte em que músicos assim, que não renegam o que viveram, se eleva: apesar de todas as barreiras dos impedimentos, de uma falta de divulgação impiedosa dos meios de comunicação – principalmente da televisão – enchem espaços que até poderiam receber segundas levas e ventos espalhados por mais cidades do país, que de certeza anseiam por os receber.

Fausto, “só” gravou, por exemplo “Por Este Rio Acima” e tem uma obra, para todos os efeitos na clandestinidade, indevidamente divulgada, dada a sua dimensão.
Sérgio Godinho é o que tem mais exposição mediática e o que mais activo se mostra até nas colaborações com outros campos.
José Mário Branco está “metido” nos grandes trabalhos musicais que pudemos conhecer.
Foi saboroso, vê-lo: a agitar o corpo no decurso de alguns temas, mais que ouvir a sua voz, vê-la a marcar o ritmo da existência das palavras.
Escutar aqueles temas que os nosso dias, como são guiados por quem manda, cada vez são mais actuais, nesta democracia de "rigorosos inquéritos" e de "matérias que não me posso pronunciar".
Gatunos de papel passado que adiam um país inteiro.
Ver o seu esgar após o pedido de “FMI” - esse grande compêndio de música em carne viva, de cicatrizes indomáveis, enciclopédia de geografia emocional – mas que não era para ali chamado.
José Mário Branco tem uma coerência no seu percurso de vida que se torna emocionante. Será talvez o grande compositor “indie” da história da nossa Música: editou em nome próprio quando ninguém o fazia, colaborou com projectos teatrais, produziu e orquestrou trabalhos de uma diversidade incrível e, mantém um discurso que não entra em facilitismos, cedências e se regenera de lucidez como quem respira, mantendo-se à margem da mediocridade que grassa.
Coerência, já ouviram falar?

No Sábado senti-me um privilegiado: e estes senhores foram os culpados.

António Sérgio

Hoje, tal como no início: a "Rotação" de sons vem da descoberta, que a pó se reduziria, caso não fosse revelada; partilhada dessa forma única.
A qualidade dos engenhos tem uma referência, o teu "Rolls Rock" ainda hoje ali está - como uma relíquia infalível: farol que não se extingue.
Depois o Som: o que indo tão à frente, nos levava com ele, em entrega total.
Há palavras que perduram - e com o tom que ainda morde, sob essa voz: "Som da Frente - O direito à diferença".
Tardes de estudo e noites de sono adiadas: um gravador de cassetes tripulado para que os temas fossem identificados mais tarde.
São tantas as canções, bandas, autores, álbuns a que chegamos pelo mapa que desenhas e se escutam agora no "Grande Delta", em recolhimento ou a rasgar, como só no uivo da "Hora do Lobo" se consegue: "Nas Horas": em todas.
Se a rádio, no formato em que hoje se move, não chama; não ensina; não mostra, a rendição de "Viriato XXV" não se torna incondicional: a cada novo achado, fazemos-te chegar, aí, onde quer que estejas, os ecos do que com mestria, nos despertaste a saber explorar, porque aos mestres não se agradece: demonstra-se; em actos, como soubemos colher o que eles, apaixonadamente, apontando caminhos, se preocupavam a que viessemos a aceder e a ser tocados.


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