30 dezembro 2009

(Songs Of Devotion) Hugo Largo - Second Skin


Anos 00: balanço - Conclusão

Característica evidente deste balanço é que reflecte a óptica de um apreciador de Música. Sem qualquer outro tipo de responsabilidade, seja ela de divulgação ou de promoção de álbuns ou artistas. E sem contrapartidas em jogo, as únicas motivações têm a ver com o prazer enquanto ouvinte e a vontade de conhecer enquanto curioso. E nessas qualidades, este trabalho foi altamente enriquecedor.

A parte negativa deste facto é o pouco conhecimento de causa em relação a uma actividade que envolve criação, execução, produção, divulgação, venda. São por isso apenas opiniões de alguém que recebe a Música com disposição livre e apaixonada: já na sua forma acabada.

E para alguém que é apenas consumidor nesta cadeia, a sensação que fica é que o tempo deixou de ser a desculpa esfarrapada para justificar o pouco que se ouve graças à falta de dinheiro, para passar a ser a desculpa de facto para não conhecer toda a Música que se deseja. Tudo está para nós, ouvintes, totalmente disponível; só temos de encontrar a melhor forma de seleccionar e arriscar antecipadamente. Não ficar limitado à procura das poucas publicações de qualidade da área ou à espera dos poucos momentos de rádio que se aproveitam é sem dúvida uma novidade positiva para os apreciadores.

Para nós, público final, o acesso livre à Música através dos downloads ilegais é a grande transformação da década que, em contrapartida dificulta a escuta repetida e atenta devido à enorme oferta.

Na óptica do editor ou divulgador profissional será o ciclo em que se perde o respeito pelo trabalho do artista. Ou a época em que os downloads impedem que surjam ícones como os que se faziam há 20 anos atrás abrindo a tentação de escolher ‘Queens’ para capas de publicações da especialidade. Para já, penso não haver tempo para se concluir isso: a partilha de música tem pouco tempo e já nos anos 90 se sentia essa mesma dificuldade.

Estranho que não se sinta preocupação semelhante em relação a artistas que ganham notoriedade à custa de castings felizes e aparências agradáveis em detrimento daqueles que nascem com talento inato que, graças ao baixo interesse comercial que os agentes que gravitam em torno do negócio pressentem, vêem esquecida a justa divulgação e promoção do seu trabalho.

Toda esta ausência de obstáculos teve o efeito, como se disse, de deixar todos os que se dedicam sem tempo para ouvir tudo o que gostariam, pelo menos eu e provavelmente todos os outros interessados que não vivem disto. No entanto, há muito mais para conhecer e esmiuçar do que antes. E o drama não é só o tempo para conhecer tudo que nos interessa. Está também em apreciar, estudar e conhecer de verdade o álbum. Os tempos em que se comprava um disco numa loja, se admirava a sua capa e se ouvia durante, pelo menos, duas semanas seguidas acabaram. Hoje ouve-se música a correr, sempre com número infinito de outros ficheiros em lista de espera para serem apreciados também à pressa.

Se tudo isto dificulta a notoriedade das bandas? Talvez. Mas comparados com os obstáculos impostos por outros interesses que não os artísticos, estes são uma brincadeira.

E o que achará o consumidor a respeito das transformações que dez anos provocaram na Música? Na minha óptica não se poderá falar de verdadeiras transformações. Daquelas que rebentam com o que anteriormente existia. São já meia dezena de décadas de um mercado que não pára de crescer e a variedade do legado que nos foi deixado é suficiente, para já, para que se reinvente, para que se procure para trás o que está feito e se adapte aos novos tempos e às novas tecnologias do som. Hoje, mais que a instauração de uma corrente contestatária, ou mais do que mensagens de convite a um novo movimento, a preocupação é a da exploração da Música – também a popular – como uma arte com todas a legitimidades, com toda a potencialidade para cultivar a criatividade servindo-se do muito que nos foi oferecido pelo passado. Um herança devidamente lembrada nesta década por gente como Micah P. Hinson, Cat Power, Postmarks, Grant Lee-Phillips, Walkabouts, ou os inevitáveis Nouvelle Vague, que baseiam o seu projecto em trabalhos de versões.

Foi, para mim, exactamente isto que se passou: um ciclo sem necessidade de fracturas radicais como no passado, executado por uma sociedade domesticada e sem motivação para lutas. Um ciclo consciente da riqueza herdada e disponível para a reutilizar com os novos meios que a tecnologia oferece e com as ideias do nosso tempo. Até quando este lucro chegará é a pergunta que fica.

Motivação não parece faltar pela quantidade de novos projectos que todos os anos fomos recebendo e pelo número irrisório de desistências: as bandas sentem-se com espaço para durar, por norma.

Nick Cave, Sonic Youth, Morrissey, The Cure, Björk, Radiohead, Lisa Germano, Beck: todos eles entraram já consagrados. E acabam 2009 com currículo fortalecido.

Wrens, Sonic Youth, Portishead e Massive Attack tiveram presenças esporádicas.

Mogwai, Spiritualized, Lambchop, Bill Callahan, Bonnie ‘Prince’ Billy, Cat Power, Modest Mouse, Calexico, White Stripes crescerem durante os últimos anos e tornaram-se figuras de proa neste início de novo século.

Gravenhurst, God Is an Astronaut, Clinic, Sparklehorse, Archive, Piano Magic, Cinematic Orchestra afirmaram-se e contribuíram durante toda a década com a riqueza da sua música.

Outros ficaram a perder por não serem capazes de continuar o nível dos trabalhos do passado: Divine Comedy, Gomez, Mercury Rev, dEUS, Pulp, Lamb.

Outros ainda apresentaram-se de forma prometedora no início dos anos 00 mas que falharam quando chegou a hora da confirmação: Godfrapp, Day One, Zero 7, Anywhen, Gotan Project.

No entanto, os últimos 10 anos foram, principalmente, de quem nasceu e cresceu durante a década. De quem a caracterizou. 00 são os anos de, entre muitos outros, Elbow, Black Rebel Motorcycle Club, Strokes, Franz Ferdinand, Okervil River, Interpol, Walkmen, Stars, Shearwater, Killers, Camera Obscura, Clientele, TV on the Radio, Woven Hand, Why?, My Morning Jacket, Yeah Yeah Yeahs, Mountain Goats, Fiery Furnaces, Editors, Bloc Party, Decemberists, Grizzly Bear, She Wants Revenge, Animal Collective, Bright Eyes, National. Assim como de nomes a solo que hoje devem o seu peso ao trabalho feito durante a década: Joanna Newsom, Josh Rouse, Ed Harcourt, Sufjan Stevens, Patrick Watson, Badly Drawn Boy, Devendra Banhart.

Geograficamente, e sem motivos para alterações, os pólos de interesse mantiveram-se pela Inglaterra e Estados Unidos, mas com uma forte colaboração do Canadá, país já com tradição mas que nestes últimos anos sofreu um surto de criatividade e iniciativa verdadeiramente assinalável. Arcade Fire, The Besnard Lakes, Black Mountain, Broken Social Scene, Crystal Castles, The Dears, Destroyer, Final Fantasy, Frog Eyes, Godspeed You! Black Emperor, Handsome Furs, The Hidden Cameras, Holy Fuck, Hot Hot Heat, Hrsta, Japandroids, Junior Boys, Lightning Dust, The Most Serenade Republic, Mother Mother, The New Pornographers, No Kids, Patrick Watson, Pink Mountaintops, A Silver Mt. Zion, Stars, Sunset Rubdown, Wolf Parade são exemplos desse fenómeno.

2000 apresentou-se exibindo um naipe vistoso de novidades: Doves, Goldfrapp, Badly Drawn Boy, assim como anunciou a aguardada sucessão de “OK Computer”.

Terá sido um ano que não encontrou nível semelhante antes de 2004. No entanto, até lá foram postas as cartas na mesa e definidos os rumos que a segunda metade da década iria seguir. Entre 2001 e 2003 surgiram os Strokes, os Interpol, os Elbow, os Shins, os BRMC.

Para o fim estava reservado a avalanche de estreias importantes numa sequência – 2004, 2005, 2006, 2007… - que foi sempre aumentando de intensidade criativa.

Até chegar ao último biénio. Aí o esforço para deixar os 00 inesquecíveis foi determinante para o balanço de uma década que hoje se considera excelente. Primeiro os experientes, claro, em 2008; e finalmente a nova geração que preenche um ano de 2009 simplesmente fascinante e único se considerarmos os que a minha memória consegue relembrar.

A partir de 2004 a década disparou em interesse, como anunciei atrás. Muito por culpa dos Arcade Fire e TV on the Radio, mas que também lança às feras estreantes do calibre de Micah P. Hinson, Grizzly Bear, Franz Ferdinand, Pink Mountaintops, Editors, Magic Numbers, New Pornographers, Kasabian entre outros.

Apesar da ausência já aqui referida, de correntes novas que marcassem atitude refractária perante a vida e perante a Música que tanto nos entusiasmaram no passado, verifica-se agora uma completa exploração que resulta em qualidade de eleição numa década cheia que nada fica a dever às anteriores.

Tal como acontece na generalidade dos tempos e dos intervalos que nos ocorre delimitar, existem sempre as obras que ficam para a vida. E do ciclo em apreço, os álbuns de eleição são incontáveis: “Fleet Foxes” (Fleet Foxes), “For Emma, Forever Ago” (Bon Iver), “Touch Up” (Mother Mother), “Broken” (Soulsavers), “Ballad of the Broken Seas” (Isobel Campbell & Mark Lanegan), “She Wants Revenge” (She Wants Revenge), “The Early Years” (Early Years), “Funeral” (Arcade Fire), “All Dressed Up and Smelling of Strangers” (Micah P. Hinson), “War Stories” (Unkle), “Eskimo Snow” e “Alopecia” (Why?), “Secaucus” (Wrens), “The Hazards of Love” (Decemberists), “Lights” (Archive), “Ys” (Joanna Newsom), “Let It Come Down” e “Songs in A&E” (Spiritualized), “Turn on the Bright Lights” (Interpol), “Return to Cookie Mountain” (TV on the Radio), “Simple Things” (Zero 7), “The Opiates” (Anywhen), “Cast of Thousands” (Elbow), “Destroyer’s Rubbies” (Destroyer), “Illinois” (Sufjan Stevens), “Palo Santo” (Shearwater), todos dos Sigúr Rós, “Hot Rail” (Calexico), “Lost Souls” (Doves), “Internal Wrangler” (Clinic), “We Were Dead Before the Ship Even Sank” (Modest Mouse), “Felt Mountain” (Goldfrapp), “The Night” (Morphine), “Daisies of Galaxy” (Eels), “No More Shall We Part” (Nick Cave), “Is a Woman” (Lambchop). Mas a eleger um disco da década, esse seria. “Agaetis Byrjun” dos Sigúr Rós pelas razões já explicadas ao longo deste balanço.

Para uma banda da década, poderia eleger Spiritualized – responsáveis por dois álbuns do ano – se não houvesse o problema da regularidade, ou por Radiohead obedecendo à opção mais evidente e mais consensual dentro dos que partilham a Música que ouço. Mas, pela regularidade e quantidade de grandes discos, todos nesta década (ao contrário dos Radiohead que editaram os dois melhores durante os anos 90), optaria pelos Sigúr Rós.

Para os próximos anos espera-se com expectativa novas apresentações dos Fanfarlo, Temper Trap, Elvis Perkins, Soulsavers, Atlas Sound, Fleet Foxes, Noah and the Whale, Deerhunter, Lightning Dust, Heartless Bastards, Pink Mountaintops, Fever Ray, Big Pink, Edward Sharpe, Florence and the Machines Antlers, Mumford and Sons, Beirut, Early Years Cymbals Eat Guitars, Emmy the Great, Two Gallants, Earlies, xx, Passion Pit, Harlem Shakes, Miles Benjamin Anthony Robinson, Mount Eerie, Black Mountain, Alexi Murdoch.

Aguarda-se também por esclarecimentos de Sons and Daughters, Kasabian, Guillemots, Mother Mother, Bon Iver. Isto para além da curiosidade em saber se a mania dos supergrupos, por norma insossos, será para manter: durante os últimos anos nasceram Postal Service, Little Joy, Wolf Parade, Gutter Twins, Last Shadow Puppets, Dead Weather, Them Crooked Vultures, Swan Lake, Monsters of Folk.

É já depois de amanhã que começam os anos 10, e tudo leva a crer que a continuidade está assegurada por alguns que aqui foram referidos, mas também por outros que têm passado despercebidos ou que ainda conquistarão o seu tempo.

Uma última palavra de agradecimento para todos aqueles que tiveram a amabilidade de ler e comentar os meus textos com as suas opiniões. Graças a muitas delas foi possível estabelecer contacto com excelentes trabalhos que desconhecia. Termino a torcer para que alguém tenha ganho com algumas das minhas estranhas sugestões.

Ver também:

Anos 00: balanço completo

29 dezembro 2009

(Songs Of Devotion) The Cinematic Orchestra (and) Patrick Watson - To Build a Home




There is a house built out of stone
Wooden floors, walls and window sills
Tables and chairs worn by all of the dust
This is a place where I don't feel alone
This is a place where I feel at home

And I built a home
For you
For me
Until it disappeared
From me
From you
And now, it's time
To leave
And turn
To dust

I'm in the garden where we planted the seeds
There is a tree as old as me
Branches were sewn by the colour of green
Ground had arose in past its knees

By the cracks of the skin I climbed to the top
I climbed the tree to see the world
When the gusts came around to blow me down
Held on as tightly as you held on me
Held on as tightly as you held on me

And I built a home
For you
For me
Until it disappeared
From me
From you
And now, it's time
To leave
And turn
To dust

26 dezembro 2009

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20091226



Ainda o ano que agora espreita o seu término a permitir novas descobertas e retornos, intercalado por sonoridades oriundas de outras datas, em vários tempos do verbo sentir: a predominância, essa, é a de sempre: a dos sons que desenham a viagem e despenham os elementos sobre ela, tornando-a única, no arco cerrado pelo somatório de todos os detalhes, domados pelo tronco comum que as faz caminhar.

01.Calexico – Tool Box – “Barcelona Mosaico – 2007
02.Dial M For Murder! - Fiction Of Her Dreams – “Fiction Of Her Dreams” – 2009
03.Los Campesinos - Romance Is Boring – “We've Got Your Back” – 2010
04.Woods - Songs of Shame – “Rain On” – 2009
05.Shannon Wright - Honeybee Girls – “Embers in Your Eyes” – 2009
06.Anja Garbarek - Briefly Shaking – “Sleep” – 2005
07.The Lovely Feathers - Fantasy Of The Lot – “Fad” – 2009
08.Danger Mouse & Sparklehorse – Dark Night Of The Soul – “Little Girl (featuring Julian Casablancas)” – 2009
09.Xx – 2.0 – “Infinity” – 2009
10.Sian Alice Group - Troubled, Shaken Etc. – “White” – 2009
11.Julian Lynch - Orange You Glad – “Rancher” – 2009
12.Eels – End Times – “A Line In The Dirt” – 2010
13.Wetdog - Frauhaus! – “Trees Fall” – 2009
14.Tom Waits – Glitter and Doom Live – “Falling Down” – 2009
15.Ainara Legardon - Forgive Me If I Don't Come Home To Sleep Tonight – “Wightless” – 2009
16.Brothers Of End - The End – “Big Bird” – 2009
17.Sophia – People Are Like Seasons – “I Left You” – 2004

(A) (Song Of The Devotion) Calexico - Hair Like Spanish Moss




Ilustram com palavras o que aqui se escuta?

(Songs Of Devotion) Echo And The Bunnymen - The Killing Moon








23 dezembro 2009

Anos 00: balanço - 2009

The Decemberists: "The Hazards of Love"


A década desagua num ano perfeitamente expressivo e pleno de qualidade. A enorme quantidade de destaques implica um retrato breve dos mais importantes, para tentar não omitir nenhum.

A viagem retrospectiva pelos 10 últimos anos está agora perto do fim. Para o derradeiro capítulo, opto por uma ordenação que obedece aos subgrupos a que a minha mente recorre para fixar e arrumar a música que ouço. Não que seja defensor de rótulos e etiquetas, até porque penso que essas qualificações inferiorizam as bandas, limitam-nas, generalizando a criatividade e a própria identidade. Por outro lado, é uma ordenação subjectiva, já que a forma como a disponho pode ser baseada em referências ou pontos que só eu considero comuns, como ouvinte particular, diferente de todos os outros. Correndo o risco de ignorar outros pontos de contacto que não sou capaz de captar e que podem ser evidentes a todos.

Apesar de todas as desvantagens, foi este o caminho escolhido: pela falta de alternativas e pela necessidade de estruturar um número enorme de obras obrigatórias que corriam o risco de perder destaque por falta de organização.

Se 2008 foi fortemente valorizado pelos crescidos, em 2009 a lição parece ser devidamente apreendida pelos mais novos, proporcionando um ano notável em todas as vertentes da nova música independente.

Se olharmos, para começar, para o lado mais pop da música indie, 2009 trouxe a obra-prima “Dark Night of the Soul” interpretada por um naipe luxuoso de artistas escolhidos pela dupla Danger Mouse e Sparklehorse, que culmina num disco que celebra uma colaboração iniciada por altura de “Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain”.

Para além deste, há as estreias altamente positivas de Fanfarlo (“Reservoir”) e Temper Trap (“Conditions”), a que se junta o novo projecto de Stuart Murdoch, voz dos Belle & Sebastian, agora vestindo a capa de God Help the Girl, que apresenta um disco com o mesmo nome.

Clientele (“Bonfires on the Heath”); Camera Obscura (“My Maudlin Career”); Eels (“Hombre Lobo”) são outros nomes com registos dignos de nota. E até os Madness cabem aqui graças ao gracioso “The Liberty of Norton Folgate”.

Mas são os singer-songwriters que verdadeiramente se destacam. Uma tendência, aliás, já patente nos anos anteriores. A década formou, por um lado, uma série de vultos celebrizados por obra assinada em nome próprio e, por outro, consagrou alguns que já vinham de trás.

Antony and the Johnsons (“The Crying Light”); Devenda Banhart (“What Will We Be”); Patrick Watson (“Wooden Arms”); e Andrew Bird (“Noble Beast”): todos eles foram responsáveis por novas criações sublimes. A que se juntam os agradáveis “The Bachelor” de Patrick Wolf; “Sometimes I Wish We Were an Eagle” de Bill Callahan; “Waxing Gibbous” de Malcolm Middleton; "Catacombs" de Cass McCombs; “Years of Refusal” de Morrissey; “Hold Time” de M. Ward; “There Is an Ocean that Divides” de Scott Matthew; “Elvis Perkins in Dearland” de Elvis Perkins; “At the Cut” de Vic Chesnutt; "Beware" de Bonnie ‘Prince’ Billy; "The BQE" de Sufjan Stevens; “Little Moon” de Grant-Lee Phillips; “Further Complications” de Jarvis Cocker; e “Klamath” de Mark Eitzel. As senhoras Neko Case com “Middle Cyclone”; Shannon Wright com “Honeybee Girls”; Hope Sandoval com “Trough the Devil Softly”; P.J. Harvey junto a John Parish com "A Woman a Man Walked By"; Mirah com "(a)spera"; Laura Gibson com “Beasts of Seasons”; Lisa Germano com “Magic Neighbor”; e Nancy Elizabeth com “Wrought Iron” dão contributo de peso com obras de elevado valor.

A estes associa-se o estreante Julian Plenti, que altera o nome conhecido como membro dos Interpol para lançar “Julian Plenti Is… Skycraper”. Assim como Julian Casablancas e Alec Ounsworth, que interrompem a carreira nos Strokes e nos Clap Your Hands Say Yeah para editar “Phrazes for the Young” e “Mo Beauty” respectivamente. Com menos tempo de carreira, estreiam-se também Doveman e o excelente “The Conformist”; Florence and the Machine igualmente em destaque com “Lungs”; e Emmy the Great com o magnífico “First Love”. Mas a novidade com maior brilho dos novos cantautores vai sem dúvida para o espantoso álbum “Up from Below” de Edward Sharpe and the Magnetic Zeros.

Deste grupo, deixei para o fim dois nomes que dedicaram o ano a discos de versões: primeiro Joan As A Police Woman, que lança o competente “Cover”; depois, Micah P. Hinson, que edita o histórico “All Dressed Up and Smelling of Strangers”. Sem medo, Micah pega nos maiores monstros, desencaixa as peças e molda-as com a sua personalidade e voz para as juntar novamente e torná-las, não melhores, mas igualmente assombrosas, sem nada ficar a dever aos intocáveis originais.

2009 foi um ano quase tão forte para a ala mais folk – tendência igualmente de destaque na década, inspiradora de inúmeros prodígios da música indie durante os últimos anos.

Regressam os Kings of Convenience (“Declaration of Dependence”); os Hidden Cameras (“Origin: Orphans); os Mountain Goats (“The Life of the World to Come”); e os Gomez (A New Tide”).

No entanto, ninguém regressou melhor que os Decemberists. Depois de diversas ameaças, através de um crescimento marcado a cada novo trabalho, é com “The Hazards of Love” que finalmente atingem o cume reservado aos melhores. Para os Decemberists, a década 00 é de enriquecimento paulatino, que culmina no merecido álbum do ano.

Wilco (“Wilco (The Album)”); Noah and the Whale (“The First Days of Spring”); Avett Brothers (“I and Love and You”); Antlers (“Hospice”); e Vetiver (Tight Knit”) conseguem todos superar os registos anteriores oferencendo, também eles, excelentes discos. Willard Grant Conspiracy continua a solidificar curriculo, agora com “Paper Covers Stone” e Swell Season cresce com “Strict Joy”.

A estreia apagada do novo projecto de Neil Hannon, Duckworth Lewis Method, contrasta com a valia de álbuns como “Monsters of Folk” do novo supergrupo com o mesmo novo. Mas são as novidade “Sigh No More” dos Mumford and Sons e “Oh My God, Charlie Darwin” dos Low Anthem que valorizam mais este lote de estreantes.

Na vertente mais rock, que regressou forte durante a década com projectos como os Strokes, os Franz Ferdinand, que neste ano editam “Tonight: Franz Ferdinand”, os Arctic Monkeys que, apesar de tudo, cumprem com “Humbug”, ou mesmo os Yeah Yeah Yeahs, que constroem “It’s Blitz!”, não encontram a mesma disponibilidade e energia do público para consumir a sua música como há dois pares de anos atrás. Vão-se registando alguns desvios como Cymbals Eat Guitars (“Why There Are Mountains”); Girls (“Album”); Felice Brothers (“Yonder Is the Clock”); e Heartless Bastards (The Mountain”) que refrescam a corrente. Para além destes, cumprem outros mais antigos, por exemplo: Sonic Youth (“The Eternal”); Iggy Pop (“Préliminaires”); ou mesmo Kasabian que, dando ideia pela passado recente de não ter já muito a acrescentar, apresentam o positivo “West Ryder Pauper Lunatic Asylum”; e até Dead Weather que, apesar da designação recente, ostenta nomes todos eles já feitos, encabeçados por Jack White, sempre disponível para novos projectos de interesse, desta vez para “Horehound”.

No entanto, previsivelmente destaca-se …And You Will Know Us by the Train of Dead de quem se esperava a todo o momento a obra que os consagrasse; chegou com o sensacional “The Century of Self”.

Igualmente previsível foi o competente “Kicks” dos 1990s. Assim como Bravery que, sem surpresa, arrastam-se pela mediocridade de “Stir the Blood”.

Isto num ano que ainda teve espaço para novo dos Maxïmo Park (“Quicken the Heart”); para a nova ideia de Frank Black de dar vida a Grand Duchy que se estreia com o desinteressante “Petits Fours”; e para o novo contributo para a moda dos supergrupos com Them Crooked Vultures.

Num outro contexto que incluí o uso de teclados e ambiente dream pop, referência positiva para o duplo lançamento de Asobi Seksu (“Hush” e “Rewolf”); para a estreia de Fever Ray com álbum homónimo; para novo de originais dos Postmarks (“Memoirs at the End of the World”); e para a confirmação das Au Revoir Simone (“Still Night, Still Light”).

Bat for Lashes surge com “Two Suns” e Elysian Fields reaparece com “The Afterlife”. Bem mais apagados, de novo Air com “Love 2”; e Zero 7 com “Yeah Ghost”.

No entanto, apesar do incremento de sofisticação e informatização da palete de sons que vai afectando o aspecto da nova Música, os anos 00 aproveitam os recursos com maior história abrindo novos caminhos possíveis para ambientes onde a guitarra adquire papel mais relevante. Desde o denominado shoegazing mais carregado até ao recente revivalismo post-punk, tudo foi explorado, resultando daí diversas obras de eleição. 2009 foi exemplificativo, amplificando mesmo o peso destas abordagens.

Lightning Dust, Pink Mountaintos e Soulsavers conseguem os seus melhores trabalhos, respectivamente “Infinite Light”, “Outside Love” e “Broken”. São 3 obras de excelência que muito enriquece um ano com aspecto de melhor da década.

Os próprios Doves renascem com o apreciável “Kingdom of Rust”; e tanto os Piano Magic como os Archive sobrevivem com habilidade aos categóricos “Part-Monster” e “Lights” editados anos antes. Os Archive trazem “Controlling Crowds” e os Piano Magic “Ovations”.

Isto para além das estreias, também obrigatórias neste balanço. A começar pelos Pains of Being Pure at Heart com um prometedor álbum sem nome, passando pelo excelente “A Brief History of Love” dos Big Pink e culminando em “Checkmate Savage” dos Phantom Band.
Six Organs of Admittance ("Luminous Night"); Black Heart Procession ("Six"); Mono ("Hymn to the Immortal Wind"); Echo and the Bunnymen ("The Fountain") conseguem todos novo trabalho altamente satisfatório.

A terminar esta secção, referência para o discreto segundo dos Handsome Furs (“Face Control”); e o decepcionante “In This Light and On This Evening” dos Editors.

Por último, a fatia mais experimental, aquela onde o arrojo, seja a nível da composição ou da própria textura e produção, é mais posto à prova. Vertente que, para não fugir à regra do ano, expôs discos memoráveis.

A arrancar pela estreia estrondosa dos xx (“xx”), a que se acrescenta a também novidade Passion Pit com “Manners”.

“Veckatimest” veio confirmar os Grizzly Bear como projecto de peso da década e os Why? excedem o grande “Alopecia” com o ainda melhor “Eskimo Snow”. Ainda com grande destaque pela elevada qualidade, Harlem Shakes ("Technicolor Health"); Miles Benjamin Anthony Robinson ("Summer of Fear"); Mount Eerie ("Wind’s Poem"); e Twilight Sad ("Forget the Night Ahead")

No mesmo cenário, os Animal Collective reforçam o seu peso no panorama indie com “Merriweather Post Pavilion”. Fiery Furnaces não arranjam forma de abrandar e regressam com dois: “I’m Going Away” e “Take Me Round Again”. Os Califone exibem o magnífico “All My Friends Are Funeral Singers”.

Flaming Lips (“Embryonic”); Pomegranates (“Everybody Come Outside”); Sunset Rubdown (“Dragonslayer”); Yo La Tengo (“Popular Songs”); Swan Lake (“Enemy Mine”) apresentam registos regulares e esperados.

Quase no final deste capítulo, os Dirty Projectors arremessam “Bitte Orca”. Fuck Buttons com “Tarot Sport”; Atlas Sound com “Logos”; e Tortoise, mais antigos, com “Beacons of Ancestorship” completam as últimas referências dignas de um ano ímpar.
Apesar de, ao longo destes textos, não haver referências a compilações que reunem contribuições de várias bandas ou artistas a solo, não é possível deixar de lembrar o grande lançamento da editora 4AD ("Dark Was the Night") que conseguiu reunir um naipe de nomes de relevo incontestável no panorama indie da década. A sua audição é obrigatória para alguém que deseje compreender melhor ouvindo o que estes resumos tentaram explicar por palavras.

Tudo isto floresceu num ano de eleição em que os inúmeros pontos altos resultam no texto mais longo deste balanço, que termina durante a próxima semana com a respectiva conclusão.

Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008



18 dezembro 2009

The Low Anthem - "Charlie Darwin"

Ver.

Anos 00: balanço - 2008

Spiritualized: "Songs in A&E"


A dois anos do final da década, o destaque vai quase todo para os veteranos. Fica desta forma entregue o remate dos anos 00 para quem o merece: as personagens nascidas entre 2000 e 2009. E fica explicado por quem sabe como se termina um ciclo de 10 anos ao melhor nível.

De novo, um novo ano rico em estreias:

As surpresas MGMT (“Oracular Spectacular”) e Vampire Weekend (“Vampire Weekend”), que alcançam números de respeito nas tabelas de vendas, ou a americana Santogold (“Santogold”) impressionam a crítica e conquistam imediatamente o seu espaço. Para além destes, registo para a espanhola Russian Red (“I Love Your Glasses”); Noah and the Whale (“Peaceful, the World Lays Me Down”); No Kids (“Come Into My House”); Get Well Soon (“Rest Now, Weary Head! You Will Get Well Soon”); Crystal Castles (“Crystal Castles”); Megapuss (“Surfing”); Ra Ra Riot (“The Rhumb Line”); Black Kids (“Partie Traumatic”); These New Puritans (“Beat Pyramid”); Pomegranates (“Everything Is Alive”); Airborne Toxic Event (“The Airborne Toxic Event”); e o novo projecto a solo de Bradford James Cox, Atlas Sound (“Let the Blind Those Who Can See But Cannot Feel”).

Contudo, são os três nomes seguintes que verdadeiramente impressionam: Fleet Foxes (Fleet Foxes”) que, no final do ano, atingem vendas de 100,000 cópias só em Inglaterra graças a um disco espantoso, dos melhores do ano; Guter Twins (“Saturnalia”), que nasce em 2003 a partir da união de Mark Lanegan – personagem marcante da década em curso - com Greg Dulli, materializa em 2008 a parceria num álbum de grande qualidade; e Justin Vernon (“For Emma, Forever Ago”) que se refugia durante 3 meses numa cabana isolada no Wisconsin para conceber o novo projecto denominado de Bon Iver valendo-lhe um trabalho sublime.

Ainda em relação a estreantes, duas derradeiras referências para dois projectos envolvendo nomes de bandas de referência da actualidade: Little Joy (“Little Joy”), que une Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (Strokes); e Last Shadow Puppets (“The Age of the Understatement”) que junta Alex Turner (Arctic Monkeys) a Miles Kane (Rascals) e ao compositor e produtor James Ford.

No entanto, quis o destino que 2008 fosse dos crescidos. Meia dúzia de obras-primas mostram, por quem sabe, como se faz um ano de música brilhante. De todos eles, destaco cinco (por ordem crescente de preferência):

“Accelerate”. Em 1994, os R.E.M. tentam um álbum que faz falta a qualquer mega banda com carreira acima dos dez anos de existência – como já era o caso. Em Setembro desse ano era lançado o trabalho mais cru, mais directo, enfim, mais rock dos R.E.M., "Monster". Embora bastante apreciado pela crítica e por grande parte dos fãs, o objectivo não foi totalmente alcançado revelando-se um disco bem menos cativante que a generalidade dos seus trabalhos. 14 anos mais tarde compensam a decepção com um disco forte e irresistível. As dúvidas estão definitivamente dissipadas.

“Dig, Lazarus, Dig!!!”. No ano seguinte à estreia dos Grinderman, Cave convoca o resto dos Bad Seeds e grava o seu último registo até à data. Já com 51 anos de idade e 13 álbuns anteriores a solo, “Dig, Lazarus, Dig!!!” marca a despedida de Mick Harvey e o desenvolvimento da ausência de Blixa Bargled. Mas nenhum destes acidentes afecta Nick Cave, que assina o seu melhor trabalho durante a década.

“The Hungry Saw”. Finalmente a regeneração que tanto se ansiava dos Tindersticks. Após 3 álbuns gravados entre o final da década passada e início desta que se revelaram bastante abaixo das suas capacidades, chega finalmente um álbum que, mantendo-se a menor irreverência em relação aos primeiros, ganha-lhes em maturidade. A genialidade e talento são finalmente recuperados intactos e em excelente estado de conservação.

“Third”. Os anos de silêncio sem explicação convincente acabam em Abril. Nesse mês é lançado o terceiro álbum dos Portishead. Foram onze anos de espera por novidades. “Third” desilude quem esperava por um novo “Dummy”, mas convence quem está ciente do contexto. Não apaga a saudade dos primeiros álbuns, no entanto confirma que o tempo de ausência não os enferrujou.

“Songs in A&E”. Por último, Spiritualized. Jason Pierce não aparecia há 5 anos. Esteve afastado por motivo de doença que quase lhe tirava a vida. Nunca se irá saber com rigor, mas as dificuldades para segurar a sua existência parecem ter provocado um reboot à sua criatividade. O apagado “Amazing Grace” fica assim para trás, escondido entre dois discos de referência de uma década que acaba para o génio de Pierce com distinção elevada. “Songs in A&E” é um álbum afectado pela luta pela vida, ou pela experiência de quase morte; é ainda uma obra pura, genial e honesta. E é de longe o melhor deste ano.

A juntar a estes, os enormes trabalhos dos igualmente experientes Mountain Goats (“Heretic Pride”) que atingem a impressionante marca de 16 álbuns; Cure (“4.13 Dream”) que reaparecem para cumprir o hábito de gravar de quatro em quatro anos que dura há mais de década e meia; Lambchop (“OH [Ohio]”) que se mantêm de boa saúde ao fim de 22 anos de carreira; e Bonnie ‘Prince’ Billy (“Lie Down in the Light”).

Pelo peso da sua história, importa lembrar também o regresso completamente fora de prazo dos Bauhaus a partir de uma reunião para reavivar a banda histórica ao vivo e para gravar o 5º álbum, interrompendo uma morte que durava há quase 25 anos: “Go Away White”; a longevidade desinteressante dos Cranes que editam álbum homónimo; os dEUS que duram desde 1989, embora com poucos pontos comuns a essa data, continuam com “Vantage Point”; e as Breeders que explodiram em 1993 com o seu segundo álbum Last Splash, lançam agora o apagado “Mountain Battles”;

Tricky já não gravava de 2003, reaparece com “Knowle West Boy”; Magnetic Fields havia estourado com o compêndio de música chamado “69 Love Songs” em 1999, arrastam-se no tempo com “Distortion”; os Mercury Rev, embora conquistem a crítica com “Snowflake Midnight”, não conseguem fazer diminuir a saudade de “Deserter’s Songs”; a nova Era iniciada 4 anos dos American Music Club de Mark Eitzel, após uma interrupção de 10, evoluí com “The Golden Age”; Beck lança “Modern Guilt”, o seu 11º disco, no dia em que faz 38 anos; e Aimee Mann chega ao seu 7º trabalho: “@#%&*! Smilers”. Todos eles regressam sem o fulgor do passado, contudo conseguem trabalhos aceitáveis.

A dupla Isobell Campbell e Mark Lanegan baixa em relação à estreia com “Sunday at Devil Dirt”. Tom Morello insiste no projecto Nightwatchman e lança “The Fabled City”. Os Sigur Rós entusiasmam novamente. No entanto “Með suð í eyrum við spilum endalaust” parece ser o primeiro a mostrar sinais de desgaste. Willard Grant Conspiracy consolidam o destaque que vêm adquirindo com os últimos trabalhos e apresentam “Pilgrim Road”. Os Mogwai continuam a demonstrar o seu carácter agora através de “The Hawk Is Howling”.

Outros nomes da mesma faixa etária surgem numa segunda linha de qualidade: Malcolm Middleton mantém aceitação da crítica com “Sleight of Heart”; Thee Silver Mt. Zion Memorial Tra-La-La Band (ou Thee Silver Mt. Zion) com quase 10 anos de existência, lançam “13 Blues for Thirteen Moons”; os Elbow com o apreciável “The Seldom Seen Kid”; os ingleses Clinic (“Do It!”) que mantêm a regularidade; e Calexico com o bastante aceitável “Carried to Dust”.

Dos inúmeros nomes que a década já produziu, destaco os Why? e o fantástico “Alopecia”; os Walkmen que conseguem, para mim, o seu melhor trabalho com “You & Me”; os TV on the Radio, já com 2 álbuns seguros, que lançam “Dear Science”; os Raconteurs que elevam ainda mais a fasquia com o calculista “Consolers of the Lonely”; os Postmarks que apostam num álbum de versões chamado “By the Numbers” no ano seguinte à estreia; e os Beach House que editam o aclamado “Devotion”.

Destroyer (“Trouble in Dreams”); Dears (“Missiles”); Wolf Parade (“At Mount Zoomer”); Black Mountain (“In the Future”), são nomes que, para além de terem em comum o facto de realizarem bons discos em 2008, partilham também o país de origem. Estão aqui juntos para ilustrar a importância do Canadá como força motriz da década. Facto que já foi referido diversas vezes durante este balanço.

Okkervil River (“The Stand Inns”); M83 (“Saturdays = Youth”); God Is an Astronaut (“God Is an Astronaut”); Death Cab for Cutie (“Narrow Stairs”); Kills (“Midnight Boom”); Department of Eagles (“In Ear Park”); Of Montreal (“Skeletal Lamping”); My Morning Jacket (“Evil Urges”); Brightblack Morning Light (“Motion to Rejoin”); Black Angels (“Directions to Seek a Ghost”); e Joan As Police Woman (“To Survive”) são outras referências que importa destacar.

Os Mother Mother (“O My Heart”) e Kiss the Anus of a Black Cat (“The Nebulous Dreams”) baixam em relação à estreia do ano anterior.

Woven Hand com “Ten Stones”; Sons and Daughters com “This Gift”; Micah P. Hinson com “Micah P. Hinson and the Red Empire Orchestra”; e Shearwater “Rook”: quatro que coincidem no facto de terem já realizado álbuns bem superiores. Não desiludem, mas não conseguem patentear a qualidade já demonstrada antes. À semelhança dos dois referidos no parágrafo anterior, contudo com mais tempo de actividade.

Bem aceitáveis foram “Microcastle”, o terceiro dos Deerhunter; “Only By the Night”, o sucessor de “Because of Times” dos Kings of Léon; “The Felice Brothers”, terceiro dos Felice Brothers que apenas contam com 2 anos de existência; “Made in the Dark”, terceiro dos londrinos Hot Chip; e “A Mad & Faithful Telling”, dos DeVotchKa.

Da nova geração, as principais decepções foram os Bloc Party (“Intimacy”); os Guillemots (“Red”); os Killers (Day and Age); e os Kaiser Chiefs (“Off with Their Heads”).

Este capítulo termina com a vénia a Manel Cruz. A ausência de música portuguesa neste balanço é escandalosamente evidente. Não por falta de interesse, não por falta de valor ou qualidade. Muito pelo contrário: sempre apreciei o que por cá se faz. Por motivos pessoais ou simplesmente por um constrangimento patético, não me sinto à altura de retratar a evolução da nossa Música que, sublinho, é tão ou mais valiosa que a outra. No entanto “Foge, Foge Bandido” obriga-me a contrariar esta discriminação cobarde. Tem de ser dito: trata-se de um disco simplesmente fabuloso e obrigatório para qualquer apreciador de grandes obras, seja de que lugar do mundo for.

Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005; 2006; 2007

(The) (Song Of Devotion) Nick Cave And The Bad Seeds - The Carny




And no-one saw the carny go
And the weeks flew by
Until they moved on the show
Leaving his caravan behind
It was parked out on the south east ridge
And as the company crossed the bridge
With the first rain filling the bone-dry river bed
It shone, just so, upon the edge
Away, away, we're sad to say
Dog-boy, atlas, Mandrake, the geeks, the hired hands
There was not one among them that
did not cast an eye behind
In the hope that the carny would
return to his own kind
And the carny left behind a horse, so skin and bone
that he named "sorrow"
And it was in a shallow, unmarked grave that the
old nag was laid in the then parched meadow
And it was the dwarves that were given the
task of digging the ditch
And laying the nag's carcass in the ground
While boss Bellini, waved his smoking pistol around
saying "The nag was dead Meat"
"We can't afford to carry dead weight"
while The whole company standing about
Not making a sound
And turning to dwarves perched on the enclosure gate
The boss says "Bury this lump of crow bait"
And the rain came hammering down
Everybody running for their wagons
Tying all the canvas flaps down
The mangy cats growling in their cages
The bird-girl flapping and squawking around
The whole valley reeking of wet beast
Wet beast and rotten sodden hay
Freak and brute creation
all Packed up and on their way
The three dwarves peering from their wagon's hind
Moses says to Noah "We shoulda dugga deepa one"
Their grizzled faces like dying moons
Still dirty from the digging done
And charley, the oldest of the three said "I guess
the carney aint gonna show"
And they were silent for a spell, wishin they had
done a better job of burying Sorrow
And the company passed from the valley
Into a higher ground
The rain beat on the ridge and on the meadow
And on the mound
Until nothing was left, nothing left at all
Except the body of sorrow
That rose in time
To float upon the surface of the eaten soil
And a murder of crows did circle round
First one, then the others flapping blackly down
And the carny's van still sat upon the edge
Tilting slowly as the firm ground turned to sludge
And the rain it hammered down
And no-one saw the carny go
I say it's funny how things go

(Songs Of Devotion) Nina Nastasia - Superstar



"Quarentena emocional": frase - fantástica - roubada a um dos livrinhos de música da Blitz (não me lembro do autor, as minhas desculpas)

Angus & Julia Stone - Paper Aeroplane

13 dezembro 2009

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20091213


Uma sequência de canções sem (aparente) fio condutor.
Oscilações por entre anos de edições, apelando ao efeito surpresa em tudo o que as diferencia e une, numa distinção dilúida, sob a chancela da coexistência que apenas a intemporalidade permite.

Agora o que é verdadeiramente importante: canções em movimento riodescendente, que sabem onde as encontrar, para audições de sentidos despertos, caminhos abertos e auscultadores apertados :), num formato mais longo, em que no seu percurso nada foi deixado ao acaso, impondo a resiliência da escuta.

01. Crevecoeur – #1 – “We Love The Ranch” – 2007
02. Agent Ribbons - On time travel and romance – “The Boy With The Wooden Lips” – 2006
03. Yeasayer – Odd Blood – “Ambling Alp” – 2010
04. Wall Of Voodoo – Call Of The West – “Lost Weekend” – 1982
05. Fever Ray – Fever Ray - “When I Grow Up – 2009
06. The Sundays – Reading, Writing & Arithmetic - “Can’t Be Sure” – 1996
07. Unkle – Showreel - “Weight Of The World” - 2009
08. Miles Benjamin Anthony Robinson – Daytrotter Session – “Boat” – 2009
09. Pavement – Brighten The Corners - “No Tan Lines” – 2008
10. Doveman – The Conformist - “From Silence” – 2009
11. Archive – Controlling Crowds – “Chaos” – 2009
12. Howe Gelb – 'Sno Angel Winging It - “Astonished” – 2009
13. Odawas – The Blue Depths - “Harmless Lover's Discourse” – 2009
14. Azure Ray – Hold On Love - “Sea Of Doubts” – 2003
15. ...And You Will Know Us By the Trail of Dead - The Century of Self – “Luna Park” – 2009
16. Harlem Shakes – Technicolor Health - “Natural Man” – 2009
17. Throwing Muses – Bright Yellow Gun - “Red Eyes” – 1995
18. Jason Lytle – Yours Truly, The Commuter – “Ghost Of My Old Dog” – 2009
19. New Order – Power, Corruption & Lies - “Your Silent Face” – 1983
20. Rodrigo Leão & Stuart A. Staples – A Mãe - “This Light Holds So Many Colours” - 2009

11 dezembro 2009

Anos 00: balanço - 2007

Modest Mouse: "We Were Dead Before the Ship Even Sank"

Já com o final da década à vista, realça-se o regresso dos Arcade Fire e dos Deerhunter, num ano em que Piano Magic e Unkle superam as melhores expectativas mas que foi ganho pelos Modest Mouse e pela surpresa Mother Mother.

Recomeço pelos ausentes há mais tempo: 2007 marca o regresso dos Happy Mondays ao fim de 15 anos de silêncio. Finalmente o decepcionante “Yes Please” ganha um sucessor. No entanto, “Uncle Dysfunktional” não consegue reacender a chama de uma banda que teve papel preponderante durante a corrente de madchester nos finais de 80 e inícios de 90.

“Renegades”, lançado em 2000, foi o último trabalho dos Rage Against the Machine. Entretanto, Tom Morello não pára e integra o supergrupo Audioslave, que dura até este ano de 2007. É precisamente o momento em que inicia a sua carreira, finalmente a solo, sob o nome de The Nightwatchman. Para álbum de estreia desta sua nova vida, edita o muito aconselhável “One Man Revolution”.

Kula Shaker com “Strangefolk”, Young Gods através de “Super Ready/Fragmenté” e Les Savy Fav graças a “Lets Stay Friends” são outros retornos que se saúda. Josh Haden, voz dos extintos Spain, regressa à vida num álbum a solo, o apagado “Devoted”.

Os Radiohead demoram 4 anos a dar sequência a “Hail to the Thief”. “In Rainbows”, que foi editado assumidamente através da Internet, revela-os cautelosos e com perfeccionismo consciente, de quem sabe que só uma abordagem realista, ciente dos riscos, pode evitar a saturação que se receia a cada nova criação. Transpõem com mestria o desafio.

Desde 2003 não gravavam também os Sea and Cake (“Everybody”); Kristin Hersh (“Learn to Sing Like a Star”); Besnard Lakes (“The Besnard Lakes”); José González, que finalmente dá continuidade a “Veneer”, (“In Our Nature”); e Soulsavers, que experimentam pela primeira vez a voz de Lanegan, (“It’s Not How Far You Fall, It’s the Way You Land”). Os Unkle, com “War Stories” e Cinematic Orchestra, com “Ma Fleur” são, no entanto, os maiores destaques deste conjunto de nomes. Dois trabalhos maiores que marcam regressos fortes, ambos na sequência de trabalhos anteriores modestos: “Never, Never, Land” no caso dos primeiros, “A Man With a Movie Camera” em relação aos últimos.

Os Wilco lançam “Sky Blue Sky” cimentando uma carreira já muito sólida; os Kings of Léon revelam o seu terceiro registo, “Because of the Times”, garantindo reconhecimento unânime; igualmente ao terceiro lançamento e com a mesma excelente crítica, chega “Our Love to Admire” dos também americanos Interpol. Frog Eyes (“Tears of the Valedictorian”); Blitzen Trapper (“Wild Mountain Nation”); !!! (“Myth Takes”); Stars (“In Our Bedroom After the War”); Earlies (“The Enemy Chorus”); Go! Team (“Proof of Youth”); PJ Harvey (“White Chalk”); e Rufus Wainright (“Release the Stars”) editam todos após 3 anos sem gravar originais.

No entanto são Feist (“The Reminder”), Blonde Redhead (“23”) e Iron & Wine (“The Shepherds Dog”) que, graças a 3 obras excepcionais, se destacam das restantes referências deste conjunto.

Nick Cave marca intervalo nos Bad Seeds e forma (também com músicos da sua banda de apoio) os Grinderman. Procura, com êxito, desenvolver a camaradagem criativa (ausente desde os tempos dos Birthday Party, pelo menos com esta importância) que apenas se adquire no contexto de banda. Assina, juntamente com a restante formação, uma excelente complemento ao seu currículo ímpar.

Os Arcade Fire ponderam durante três longos anos o sucessor do aclamado “Funeral”. Talvez receando aceder inconscientemente ao convite para dar um passo maior do que a perna, dedicam-se a desenhar um descendente que prescindisse de impacto semelhante, que nunca conseguiriam num segundo trabalho, mas que demonstrasse crescimento e maturidade; que definisse a personalidade que, embora aparentemente segura, é, eventualmente, vaga e frágil por depender ainda de uma só aparição em LP. “Neon Bible” é um tiro certeiro: revela a tal maturidade e crescimento, e confirma os Arcade Fire como um dos grandes talentos da década.

“We Were Dead Before the Ship Even Sank”, é o nome do regresso dos Modest Mouse, agora com a companhia da guitarra dos Simths, Johnny Marr. Tal como o anterior “Good News for People Who Loves Bad News”, também este mostra um colectivo adulto e de ideias definidas que vai elevando racionalmente o seu peso no panorama indie do nosso tempo. Chegam a 2007 reforçados na formação e em excelente forma, que lhes vale a criação do, quanto a mim, melhor álbum do ano.

O grupo de discos seguinte é, previsivelmente, o maior. São portanto os que aguardam o ciclo normal de dois anos para dar continuidade ao trabalho anterior. Para alguns é a prova de fogo; o segundo e decisivo álbum que colhe a obrigatoriedade de lançamento atempado e debaixo de compromisso de modo a evitar o esquecimento do público e o consequente desperdício de todo o prestígio conquistado. Como, por exemplo, “Our Earthly Pleasures” dos ingleses Maxïmo Park; o decepcionante “Some Loud Thunder” dos Clap Your Hands and Say Yeah de Alec Ounsworth; o regular “An End Has a Start” dos Editors; “The Bird of Music”, a reposta das Au Revoir Simone; “Sound of Silver”, o excelente regresso dos LCD Soundsystem; e “A Weekend in the City” dos Bloc Party.

Mas nenhum deles supera a volta dos Kaiser Chiefs com “Yours Truly, Angry Mob” nem “Cryptograms”, novo dos americanos Deerhunter.

Zita Swoon (“Big City”); God Is an Astronaut (“Far from Refuge”); Devendra Banhart (“Smokey Rolls Down Thunder Canyon”); Okkervil River (“The Stage Names”); Björk (“Volta”); Animal Collective (“Strawberry Jam”); White Stripes (“Icky Thump”); New Pornographers (“Challengers”) são exemplos de outros nomes não editavam desde 2005, mas de bandas mais experientes que nos habituaram a lançamentos regulares.

Destaco no entanto os terceiros álbuns de Malcolm Middleton que, com Aidan Moffat, completava o núcleo criativo dos Arab Strap, “A Brighter Beat”; CocoRosie “The Adventures of Ghosthorse and Stillborn”; e Patick Wolf com “Magic Position” que lhe dá o reconhecimento geral e o incluí no grupo dos valores seguros nascidos e criados nesta década.

Dois anos foi também o tempo que Bill Callahan demorou a abandonar a designação Smog para trazer “Woke on a Whaleheart” como seu primeiro trabalho em nome próprio. Os National fazem por manter a boa impressão causada pelo anterior e lançam o agradável “Boxer”; os Piano Magic conseguem o seu primeiro grande álbum da carreira que dura já desde 1996: “Part Monster” terá sido, quanto a mim, um dos melhores discos do ano. Ainda melhor foi “The Western Lands”, o genial quarto disco dos Gravenhurst. Os Gogol Bordello conseguem a visibilidade que desde 1999 procuravam: “Super Taranta” abanou a crítica colocando, inclusive, o excêntrico Eugene Hütz a trabalhar, pasme-se, com Madonna. Os Bright Eyes conservam a alta disponibilidade para gravar e apresentam o sétimo álbum em 9 anos: “Cassadaga”.

Andrew Bird (“Armchair Apocryoha”) fornece mais uma excelente obra; Kevin Drew (“Spirit If…”), membro dos Broken Social Scene mostra-se pela primeira vez a solo; e os Spoon (“Ga ga ga ga ga” ), ao sexto álbum, parecem não saber como parar de crescer.

Architecture in Helsinki (“Places Like This”); Angels of Light (“We Are Him”); Clientele (“God Save the Clientele”); Low (“Drums and Guns”); Of Montreal (“Hissing Fauna, Are You Destroyer?”); New Pornographers (“Challengers”); Black Rebel Motorcycle Club (“Baby 81”); e Laura Veirs (“Saltbreaker”) são outros nomes com álbum editado 2 anos antes.

Chegamos então àqueles que apresentam em 2007 lançamentos que sucedem a outros de 2006. Neste lote incluem-se “Bitter Tea” que reafirma a sede de música dos Fiery Furnaces, chegam ao sexto disco em quatro anos; “Stagelet”, de Grant-Lee Phillips, que dá sequência ao álbum de versões do ano anterior: “Nineteeneighties”; “Country Mouse, City House” de Josh Rouse; “Shelter from the Ash” dos Six Organs of Admittance; e um álbum sem título dos Liars: todos nomes experientes que vão aumentando o seu repertório a bom ritmo.

Band of Horses (“Cease to Begin”); Beirut (“The Flying Club Cup”); She Wants Revenge (“This Is Forever”); Arctic Monkeys (“Favourite Worst Nightmare”); e Felice Brothers (“Tonight at the Arizona”) conseguem todos eles editar o segundo trabalho no ano seguinte à estreia. Sendo que os Sunset Rubdown atingem a proeza de lançar o terceiro álbum, “Random Spirit Lover”, dois anos após o primeiro.

Os Two Gallants conseguem um reconfortante terceiro álbum; e Nina Nastasia, um ano após “On Leaving” junta-se a Jim White, baterista dos australianos Dirty Three, e constroem “You Follow Me”.

Finalmente, os estreantes:

2007 revelou, à partida, dois nomes incontornáveis quando se fala nos melhores desse ano: Mother Mother e Kiss the Anus of a Black Cat. “Touch Up”, estreia estrondosa dos Mother Mother, reforça o importante contributo do Canadá na década em curso: não só traz música de excelente qualidade como também, e acima de tudo, revela os projectos que mais surpreendem, à custa de uma criatividade que parece inesgotável. O segundo, o do nome repugnante – mas igualmente hilariante –, é um projecto do belga Stef Heeren que procura conjugar a agressividade e a actualidade das guitarras com ambiências medievais.

Damon Albran continua a inventar projectos: depois dos Gorillaz, decide juntar o baixo dos Clash, com uma guitarra familiar aos Verve e a bateria de Fela Kuti para dar corpo a um projecto sem nome mas com um excelente disco baptizado de “The Good, the Bad and the Queen”.

Também do Canadá, mas já com obra feita no seio da turma artística Black Mountain Army (que incluí os Pink Mountaintops e os Black Mountain), chegam os Lightning Dust. Cumprem as expectativas que trabalhos anteriores desta seita despertaram.

Repetindo o aproveitamento eficaz que os Arctic Monkeys fizeram da Internet para se promoverem ainda antes de qualquer álbum disponível, os Klaxons lançam “Myths of The Near Future”.

Twilight Sad (“Fourteen Autumns and Fifteen Winters”); Handsome Furs (“Plague Park”); Postmarks (“The Postmarks”); Begushkin (“Nightly Things”); e Kissaway Trail (“Kissaway Trail”) são as restantes estreias de um ano que abranda a qualidade em relação aos dois anteriores.

Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005; 2006

06 dezembro 2009

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20091206


"when i'm committed i'm committed".
O documento da Radio 3 Session de "Dan" Destroyer "Bejar" em 2006.

Implosivo.

Um registo de seis canções, que se disponibiliza onde julgo que saibam.

Boas escutas.

(Songs of Devotion) The Earlies - One Of Us Is Dead

the invisible, Piano Magic e PATRICK WATSON @ Teatro Sá da Bandeira – 4.12.2009

Há acontecimentos que valem pela exactidão do seu desenvolvimento, pela sucessão de detalhes que mais à frente lhes damos a devida importância ou nos apercebemos da sua real preponderância para a forma como nos vai marcar.
De facto, depois de uma ocorrência ou um conjunto de circunstâncias que se aproximam de um modo nefasto, do outro lado do arco que se percorre, podemos contactar com um momento que nos faça inventar palavras.

Sob uma designação algo esquiva – Pop Deluxe - a expectativa para o regresso a Portugal dos Piano Magic e de Patric Watson, finalmente com passagem pelo Porto, começou a nivelar-se por baixo, pela dupla desolação da colocação de cadeiras na plateia e pela ausência de público: de que adianta falar sobre a falta de risco na programação de concertos na cidade, se a resposta por vezes é esta.

Sob um som quase deplorável, The Invisible, conseguiu sair dessa característica, ambicionada pelos seres noutras perspectiva, apenas quando tentou - e atingiu a espaços – colocar densidade sonora onde havia uma intensidade algo desadequada.

Foi com alguma satisfação que foi possível ver os músicos do colectivo Piano Magic, a comandar as operações de montagem de espaço para actuação.

Com um arranque infeliz, apresentando-se como os Tokyo Hotel, permitiram verificar que a qualidade do som é dependente do estatuto que define a ordem de entrada num evento a três nomes, que não costuma dar boa sequência a maus prenúncios: o excesso de nomes em cartaz, retira profundidade às actuações.

Com percurso a partir de “Recovery Position”, com paragem em “The Blue Hour”, esgotaram a passagem pelo mais recente Ovations, e confirmaram que a presença de Brendan Perry se limitaria, pelo menos por agora ao contributo em duas grandes canções do álbum deste ano, e teria de ser adiado o momento em que finalmente o poderíamos ver em solo nacional.

O que não se pensaria nessa altura – mais uma vez olhando um Sá da Bandeira que nem as cadeiras da plateia via repletas - é que a actuação se resumiria a pouco mais de trinta minutos, a ser levada por um som muito bom e pela retrospectiva de uma discografia com algum corpo e de bom nível.

Com destaque para a guitarra, que torna os Piano Magic uma das bandas mais “eighties” a editar com regularidade, e sublinhar uma sonoridade condimentada com sabores cujo travo é ainda muito agradável de obter.

Prosseguiram com “Dark Horses” e “Jacknifed” antes de “Love and Music” - a que Glen Johnson acrescentou Kraftwerk na apresentação do tema - buscado em Disaffected.

Com a percussão a vincar as ambiências que os definem, a alicerçar teclas simples e com a guitarra a abrir espaços ou cerrá-los numa medida bem equilibrada o espectáculo foi crescendo com o baixo bem sincopado em “Great Escapes” de Part Monster, um instrumental cheio a terminar com um “thank you” envergonhado.
A passagem para o centro do palco e do tema, da voz feminina que exige mais oportunidades e que em “Incurable” teve de mesmo assim de dar lugar à de Glen Johnson, com os instrumentos num crescendo excelente, para o retorno a Part Monster, em que “The Last Engineer” atingiu o ponto alto, num complexo jogo sónico quase épico e, que fez lamentar, de certa forma, pela sua curta duração e sem regresso, uma actuação que tinha gerado um foco de promessa com alguma legitimidade.

No entanto, a começar logo pela leveza de movimentos com que preparavam o palco, Patrick Watson e os seus cumplíces de virtuosismo, misturados com os técnicos, o desenho de uma noite de magnitude imensurável começa a ter o seu esboço.

Pátrick – gritava alguém bem disposto que forneceu um sorriso largo ao músico baseado no Canadá.

O que vou tentar bater nestas teclas a partir deste momento merecia um texto próprio, mas acima de tudo que eu não conseguisse articular um única palavra sobre este branco, que se enche, mas nem perto do estado repleto que atingi e que não me larga desde que assisti a um desfilar de obras-primas, com uma definição de talento que ainda não foi devidamente cartografada.

Quero falar-vos de cosmologia emocional.
Com palavras lavadas por lágrimas refractárias.

Com o apagar das luzes, camuflou-se a presença da ausência de uma massa humana que quatro MÚSICOS, tanto viriam a fazer por merecer.
Os caracteres maiúsculos porventura nunca terão sido tão bem aplicados, e depois quem teve a bênção de assistir ao que a seguir se passou e pela forma como respirou o espectáculo provou que as multidões ou a dimensão da presença de público pode afinal ser mais uma definição de quantidade absolutamente relativa.

Oriundos de uma região do globo que teima em permitir o conhecimento de gente que trata a arte dos sons de uma forma inegualável, com um naipe de nomes que realizarm ao longo dos anos 00 alguns dos mais devastadores trabalhos discográficos da História que sustenta a existência da música: do Canadá para tudo o que afinal somos.

O que se passou a partir dos primeiros efeitos sonoros de “Fireweed” foi algo que não se tem a oportunidade de VIVER todos os dias.

Volto a reforçar a forma como a palavra foi salientada e de como que certa forma fui envolvido pelo que se passou já no dia 5 de Dezembro, entendam que nada é exagero.: atropelamento da alma e fuga impossivel de exercer.
Digamos que é um favor que aqui deixo, como um pedido, a quem ainda não desistiu de ler.

Inacreditável!

A qualidade do som – mais tarde Patrick Watson envolveria todos os técnicos no arraial de agradecimentos e, como eles foram tão merecidos!
A voz com que a penumbra foi rasgada e que fez mitigar o frio e todos os sentimentos que pudessem bloquear a passagem de um testemunho de pura genialidade, abre-se.

Guitarra inverosímil, afagada primeiro por um arco e depois dedilhada, partículas de sons que se iam juntando vindas das entranhas da um mundo de beleza inclassificável.
O baixo a sussurrar.
A percussão a alinhar-se em detalhes que não se distinguiam o que era uma montanha ou um ponto oceânico profundo.
Martelar orgânico, talvez um iluminado a bater em objectos, de um modo perto do "desumanoimpossíveld'existir".
Que tremendo percussionista viajou nesta noite para o Porto.
Teclas em transparência comandadas à distância
E a voz.
Existe.
Afinal existe.
E se Wooden Arms, parecia um excelente disco – mais um de 2009 – impossível de pôr em concerto, todas as moléculas que nos unem foram pulverizadas pela oportunidade de constatação.
Pelo primeiro momento inacreditável.
A última vez que me lembro de sensações assim, foi perante o impacto visual de uma apresentação dos Sigur Rós, este ano por muitos dos momentos dos Tindersticks no Coliseu dos Recreios ou o conto de fadas apocalíptico em carne-viva de Joanna Newsom no Theatro Circo.

O salto para o mergulho abismal de “Tracy’s Waters” foi de arrepiar.
Uma canção daquelas que não se esquece até ao fim dos nossos dias, consegue ganhar uma dimensão “desanormal” tocada daquela forma ao vivo?
Tocada e a tocar: “avidada”.
Continuo nesta fase a inventar palavras porque Patrick Watson inventou pérolas em Wooden Arms e, começou no Sá da Bandeira, a desenvolver não um espectáculo, um concerto ou uma actuação, mas a invenção de um sentido.

Em tempos referi ao visualizar “Beijing” num extracto da Q Tv, que estaríamos perante arte no seu estado mais puro.
O que Patrick Watson fez ao piano, coadjuvado por Simon Angell, Robbie Kuster, Mishka Stein, foi desintegrante: arraso; rasgo; talento; tornar um tema dos melhores deste ano numa interpretação “daqui para a eternidade".
De gritar e ficar uma infinidade de tempo em silêncio.
De “desesrespirar”.

E a “tetralogia” da abertura de Wooden Arms, completou-se também no Porto com o ”título-tema” de uma obra, que como foi escutada, sob o manto da incredulidade, se propagou por baixo da pele e agora será um caso cientifico até se descortinar a possibilidade de lá ser arrancada.

Uma sugestão aqui deixo: à dentada; da mesma e exacta forma como os rins foram mordidos, pela incrível transposição para um palco negro da “branquitude” de um estado de alma, atingido por um conjunto de músicos que deixavam em estado de catarse silenciosa um público que não hesitava em se mostrar rendido.

A comunicabilidade de Watson, não se aprende em cartilhas de como se dirigir a uma audiência: brota: numa naturalidade desarmante, armadilhada num sentido de humor soberbo, numa satisfação por ali estar, de uma genuidade que faz estalar os ossos.

Para “Big Bird In A Small Cage” refere a inspiração em Dolly Parton: verdade ou mentira, a consequência é um tema de eleição que atinge um brilhantismo “acimado”: acima de qualquer suspeita, porque nesta altura já não sabemos onde estamos ou que é escutado.
Perante harmonias vocais estonteantes, instrumentos tocados numa perfeição “confragedoramentedoentiadeboa”.
Sons “espelháticos”: mares quânticos nunca dantes navegados.
Olhares trocados e “foda-ses” mordidos ou soltos sem receio de retaliações.
Corpos em busca de clemência procurando ajustar-se a cadeiras que já estão nesta altura, a escassos milímetros do solo.

Patrick Watson aparece em pé, no centro do palco e sentado ao piano no mesmo “frame”.
Gnomos à solta num chão de madeira arrancada a uma floresta de sentidos de fumos de verão?
Os gnomos costumam usar uns “barretolas” para o pontiagudo e têm barbas mais longas.
Aqui, estaremos, eventualmente, perante alguém que não move música, move-se por ela e enquanto esfregamos os olhos, os diabos estão sentados com guitarras encostadas ao peito, entrelaçados em objectos para percussão que se escutam em cada fracção das cascas que em camadas geram sons de júbilo interiorizado sabe-se lá como: o sangue tem realmente desígnios que nunca dominaremos.

Em “Travelling Salesman”, Patric Watson, que no disco tinha elevado a sua composição a níveis inesquecíveis, mostrando aos 30 anos que se senta numa “távolarredonda” com Sigur Rós, Radiohead e Tom Waits. Brutal.

A exorbitância talentosa é assim.
E com a agravante de uma recorrência que mereceu ser anunciada pelo megafone e por toda a parafernália que tinham à mão; balões, desentupidores de canalizações e sopros que não lembram a ninguém: ou talvez apenas a um génio, por isso as usaria no tema de fecho.

Quando o tema chega ao fim, poucos saberão onde se encontram e chocam de frente com “Storm” em mais uma interpretação sublime.
Cada instrumento a ouvir-se de viva voz, de pleno direito, nada escapa aos sentidos que existem catalogados, para os inventados, Patrick Watson e os seus comparsas, apenas baixavam as mangas, apenas também com o simples propósito de mostrarem um pouco mais tarde.

Prestidigitação exercida por duendes agarrados a instrumentos musicais que são complementos do próprio corpo: membros e orgãos em substituição dos tradicionais, integrantes da versão original.

Perto do final da canção Watson pede ao público para fazer algum barulho e aproveita o ruído para encerrar de rompante o tema: inesquecível.

Patrick Watson não hesitou um único segundo em arriscar, em pôr sob a forma de um concerto um álbum que parecia impossível de assim ser transposto.
E como ganhou.
No Porto deu-se a felicidade, não a coincidência, de um estado de graça, devido a uma digressão pela Europa, que amadureceu as canções a um ponto de colheita perfeito, em que os temas não se sequenciam; vivem; rasgam-se; respiram, como qualquer ser com estas premissas básicas.

No final dos temas, conversas sobre o que o tocam, a fazer-nos querer provar que está ali um homem, que afinal existe, não é um enviado dos deuses para falar connosco através da música.
Brinca genialmente com lógica e óbvia sonoridade do obrigado com "arigató" e refere a felicidade por ter tido dois dias para conhecer a cidade.

“Man Like Me” apresentada referindo "you", em mais uma oportunidade para mordermos os lábios perante o que se escutava, belíssima, com a guitarra em destaque, mas isolá-la perante percussões mitológicas ou um baixo com a precisão de um sistema vital qualquer, seria manifestamente injusto, tal a elevada bitola porque se rege a qualidade dos “instrumentistas” que preparam a operação a peito aberto a que fomos sujeitos pelo cirurgião dos sentidos a que se arvorou o elemento que usava a voz como um bisturi de “lasers” de magma.
“The Great Escape” tocada daquela forma arrasou todos os sismógrafos que ainda se mantém ao serviço de uma guarda costeira sem limites a defender, já sem pontos de referência depois de ser varrida por uma tempestade de brilhantismo.

E erupção foi interrompida por um toque de telemóvel:
- Mr. Watson, para si: é Deus, disse-lhe que estava ocupado e ele acedeu em silêncio: senti-o sorrir.
“The Great Escape” com a sala totalmente às escuras poderia ter sido o momento que uma noite se recusava a eleger.

O salto sobre nós próprios é executado com “Lucious Life” num dos temas do álbum anterior “Close To Paradise” de onde já tinham vindo “Storm” e “The Great Escape” e alcançaram, também eles, nesta noite um novo foco de referência para a posteridade.

Se pudéssemos seccionar o nervo vago, para avaliar como reagiu à escuta de “Where the Wild Things Are”, depois de Patrick Watson dissertar sobre a realização de Spike Jonze ao adaptar a obra de literatura infantil de Maurice Sendak, na sua apresentação.
Até risos se atreveram ao ouvir uma espécie de “pífaro” a competir com o tal balão e restantes companheiros instrumentais, numa interpretação que permitiu imaginar como seria a obra de um grande compositor clássico que vivesse nos nossos dias.
Ruídos “àlaTimBurton” num momento espantoso.
O que eu não dava para “inassistir” outra vez a tudo isto: estive para arrancar para Lisboa, para o “BockemStcok” - perante essa impossibilidade, limitei-me a enviar mail geral a convocar quem pude para não faltar!

A saída do palco para o regresso, mas para a plateia!
Com um escafandro voador, qual passarola com focos luminosos, Patrick Watson avança para o centro da sala e todos se reúnem à sua volta!
Sugeriu que ia voar, mas levitou.
Um momento – exacto – inacreditável!
“Hearts in the Park”: levitante.
Guitarra e voz e público e sabe-se lá mais o quê porque aqui já é quase impossível alinhar pensamentos!
Perante tal cenário o arraso de “Man Under the Sea”: sem palavras o que se passou: comunhão abosluta: alguém que insistia em cantar, pondo Patrick "out of job": e se tinha a letra em cada grão de voz!
Com o público em coro e os músicos a regressar ao palco, voltando a pegar nos instrumentos que já lidavam mal com o abandono, tal a forma brutal com que foram tratados nesta noite.

Aqui perdoem o turbilhão que já não permite identificar o que foi tocado, se o resto de “Man Under The Sea” a rasgar com toda a gente em pé, encostada ao palco ou já um outro tema.

Sei que voltaram, mas, já não sei se foi logo a seguir ou sequer se alguma vez dali saíram.

Apenas consigo referir, que terminaram com uma música nova, composta durante a “tour” e que Patrick Watson ainda perguntou se não nos importávamos que a tocassem!!
Pode?

Fecho em catarse.
Assessorado por músicos de uma qualidade em que se merecem uns aos outros.
Inacreditável, acreditem.

E se vos acrescentar que depois de toda esta demonstração de talento sem limites, veio para a boca do palco, nos degraus, conversar com o público, assinar discos e “set lists”, que até eram dos Piano Magic, elogiar o Porto, tirar fotos com quem pediu e até poder falar sobre a Cinematic Orchestra, que para todos os efeitos foi daí que o “inconhecí”: “Build at Home” foi o meu primeiro contacto com aquele que me terá permitido assistir, "talvezarraiarcerteza" ao espantoso concerto dos meus dias.
E tudo com uma simplicidade inexplicável: durante e depois do que inventou.

Inacreditável; “inanormal”; a aproveitar cada partícula da noite; imperdível; mágico; “outstanding”; espanto; “fabulástico”; em palco ou fora dele, na plateia ou no que restava dela, assistir ao que pude ver e poder alinhar palavras sobre aquilo que apenas a respiração consegue; nos espaços todos.

Que chá seria aquele que bebeu durante o "inconcerto"?
- Fosse o que fosse, não domou a ignição de toda aquela torrente magmática.

Provavelmente não terei disco do ano, ou até da década: concerto de uma vida, andarei lá perto.

Invenção.