31 janeiro 2010

Foda-se!

A 15 de Março:
Brendan Perry em Braga - Theatro Circo
Yo La Tengo no Porto - Casa da Música (com ingresso na mão)
E agora?

Mler Ife Dada . Choro Do Vento E Das Nuvens

foste

os pulsos apresentam-se extenuados,
tentaram agarrar a solidão que soava
na intermitência que o vento não preenchia:
entre a guitarra espúria e a bateria que
lhe larga a mão - na exacta forma que me
arremessaste
dessa vez os lábios, contra os meus, que incrédulos,
aos teus não mediram cada sulco que provavam,
na vertigem adiada.

meios de acção tolhidos por esse espaço
- desenhado e depois jurado -
estreito e cavado que não travava a inundação
das gentes que partilharam o brilho que soltas,
através do movimento desagregador de troncos que se queriam
como linhas e superfícies que cortam outras.
os braços,
abandonam o labirinto para que eu finalmente te saiba
e as tuas fontes me conheçam os dedos curvados,
elevando o peito, na viagem que os graves da voz de bowie
fazem rumo aos agudos que agora me sussuras e mordo.

nunca vamos ter uma canção: pelo medo que sentiste ao encontrares
o que buscavas; por causa da chuva que não transportou impurezas
do peso das horas;
pela impossibilidade que me amaldiçoa os dias
de te obter as mãos para que o teu voo nasça a partir delas, contidas
no compêndio de vontades que edito com os teus olhos, alinhados
no mergulho que os meus não esquecem: sim, estás-me sob a pele
como tudo o que me inebriou até ao momento que passo as
memórias para as páginas que nunca lerás e espalhaste sobre o teu
movimento estendido e o vento beijado.

doença não é verbo nem o silêncio é seu emissário,
a perturbação surpreende o embaraço, pretere a sua visibilidade
e pede aos sinos que ecoem sobre a noite insensível face à
imobilidade reencontrada de um espírito atónito: a assumpção
das coisas reais.

prometeste a ternura; restou o gelo de um desencanto exorcizado
ao sabor de um corpo dobrado, gritando o desespero por não te
escutar.
tenho decalcado sobre cada poro o encantamento que sentias
a sorrir sobre a decisão repentina de surgires no meu regresso
ao ponto de onde não devia ter partido e nem sequer ter voltado.
não estás no barco do som, que se torna o meio de propagação
do naufrágio de mim.
sempre sorri à dor como o resistente condenado por algo imperceptível
como se tornava teu corpo que retinha e sentia caminhar sobreposto.

foste.

e vislumbro-te a cada palavra que tem as letras da invenção do
sentido
nas nuvens
que te ocultam.

a morte nunca passou de mais uma forma de vida,
e a dor sempre ocupou todas as suas extremidades.

devagar, submerjo sabendo ser definitivo.
os tímpanos estouram os olhos recusam fechar-se
o som chega-me através da dança que empreendes
tão leve como assim me torna.

adivinho-te.

30 janeiro 2010

-te


Repeti até que a exaustão de um sol ocorresse,
que esta canção não era para ti,
no entanto habitavas todos os espaços
entre cada letra: erguias a génese das palavras.

Foi bom saber-te leve – a espreitar por entre as frestas
de um muro tecido com o silêncio - depois debruçada sobre
eles; sobre a sua simbiose: após extensos períodos, em que os lábios mordidos,
a cada aproximação das lâminas; tacteavam fragmentos; unindo
metades: complementando-te; trazendo instantes: a luz de ti própria.

A cada golpe pérfido o corpo reage numa convulsão que o faz avançar ainda mais.

Debitando sangue no internato dos sentidos; quarentena emocional;
clandestinidade de sorrisos impelidos até ao limiar da implosão
do que é ser-se.

Sacudida: logo a seguir a inverterem-te o equilíbrio e distorcerem
a definição de eixo que buscavas, para que o mundo procurasse
os mapas do caminho por onde pudesse realizar a translação de um
sorriso omisso.

Sacudida: os órgãos perdendo o pé na vastidão de um espaço na
pantografia de uma nação e o seu povo, em precipitação depois do
espasmo e dominados pelo espanto; deflagração da dança -
da convicção abalada perante o domínio dos passos sem retorno.

A doçura por vezes troca de linha e caminha por outra paralela e,
com demasiada frequência nem no infinito se tocam.

Perante espelhos em desregulação estática, que não devolvem a tua
imagem; ampliam o que és pelos céus que atravessas.

Ao não poderes estar: lá, nesse lugar: ou noutras fracções de um
tempo absurdamente redutor, há uma parte de ti que por aí pairará:
há brilho remanescente dos movimentos perpétuos de uma pequenina
que se move única, por um beijo viajado.

Mler Ife Dada . Sinto Em Mim


As asas do desejo


Após "um concerto" com Nick Cave, em sequência, esta cena: com as desculpas pela qualidade das legendas: não percebo um charuto de alemão.
E não devia ter visto este filme com aquela idade.

27 janeiro 2010

Cat Power . Lived In Bars

Eia fóckque!

Eddie Vedder - Long Nights



Have no fear
For when I'm alone
I'll be better off than I was before

I've got this light
I'll be around to grow
Who I was before
I cannot recall

Long nights allow me to feel
I'm falling...I am falling
The lights go out
Let me feel
I'm falling
I am falling safely to the ground
Ah

I'll take this soul that's inside me now
Like a brand new friend
I'll forever know

I've got this light
And the will to show
I will always be better than before

Long nights allow me to feel
I'm falling I am falling
The lights go out
Let me feel
I'm falling
I am falling safely to the ground

26 janeiro 2010

Cesariny

"Em todas as ruas te encontro,
em todas as ruas te perco.
Conheço tão bem o teu corpo,
sonhei tanto a tua figura,
que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura.
E bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura.
Tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.
Em todas as ruas te encontro,
em todas as ruas te perco."

19 janeiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100119

a cada fim que a manhã atingia por ali voltava
quando a tarde zarpava e exercendo a preguiça se arrastava
- ali estava -
como dela nunca fosse abdicar até ser engolida pela
noite
que os braços do rio não invadiam esperando com paciência felina
a madrugada onde sempre a via retornar.

as palavras jaziam, assumindo a exaustão da escuta que
fulminavam e da atenção que não exigindo, ferozmente
provocavam como se de um movimento radicado nas profundezas
das fontes geradoras de ordens se tratasse.

tinham-se movido de um modo cadenciado sem olhar a
concessões ou manancial de aprovações, muito menos rumo
a uma satisfação de desejos em que não se queriam
envolvidas.

apenas queriam ser.

e eram tocadas, primeiro pelas mãos que as liam
mais próximas dessa forma, não negando a opressão que traziam
por de certo modo lhes atrapalharem a total liberdade
que aspiravam e a que queriam um fim, no sentimento misto,
que só o abandono e o atravessar dos dias sublinhado por uma
avidez de um olhar sabem soprar, levando ao enlear dos corpos.

aquelas palavras ao caírem no vórtice do som do choro
pelo reencontro: percussões que elevam coros; cores que preenchem
espaços de cordas e teclas que acomodam nervos e expulsam vozes
que as cantavam: às palavras dedilhadas por extremidades
que o já não eram; dedos desfeitos por golpes escondidos pela cortina
que tardava em cair, porque ela própria as queria a descoberto.

e a cada fim que a manhã atingia por ali voltava:
não permitia ao tempo outra hipótese
no campo negro a quem luz não concedia misericórdia

fendia as palavras, acorrentava-se fortemente ao ponto fixo: fulcro
de vontades sem explicação, que cada uma delas: as palavras
- sempre elas -
a faziam cair para ser entregue
ao que no fundo só poderia fazer sentido: a gesta das canções
onde a dança convive com os sonos eternos

- ontem zero10 intemporal, hoje a dispersão mitológica:
ou o acto de aproximação a um ponto e segui-lo: a vertigem há-de
descansar -

nelas: nas palavras e nas canções.



01. Gaiteiros de Lisboa - Movimentos Perpétuos - "Movimento Perpétuo" - 2003
02. The Decemberists - The Crane Wife - "Yankee Bayonet" - 2006
03. Sétima Legião - O Fogo - "Tão Só" - 1992
04. Deus - The Ideal Crash - "Instant Street" - 1999
05. The Divine Comedy - A Short Album About Love - "If ..." - 1997
06. Pearl Jam - Lisbon 040906 - "Black" - 2006
07. Tones On Tail - Pop - "Burning Skies" - 1984
08. James - I'm Your Fan - "So Long Marianne" - 1991
09. Cat Power - "The Greatest" - 2006
10. Wim Mertens - "Maximizing The Audience" - 1985
11. Zero 7 - Simple Things - "In The Waiting Line" - 2001
12. Peter Murphy - Should The World Fail To Fall Appart - "Final Solution" - 1986
13. Julee Cruise - Floating Into The Night - "Rockin Back Inside My Heart" - 1986
14. The Psychedelic Furs - World Outside - "Until She Comes" - 1991
15. The Pogues - Rum Sodomy And The Lash - "The Band Played Waltzing Matilda" - 1985
16. Clap Your Hands Say Yeah - "Upon This Tidal Wave Of Young Blood" - 2005
17. Michael Nyman - The Cook, The Thief, His Wife And Her Lover - "Memorial" - 1989

18 janeiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100118

Dez canções de dez em dez pertencentes a zero dez escutadas em zero um de zero dez.

No mês da génese de um nova década a incandescência dos sons confunde-se com a respiração sustida na sua busca.

Alcancem-nas.



01. Shapes Stars Make - These Mountains Are Safe - "Be Gentle, Young One"
02. Owen Pallet - Heartland - "Keep The Dog Quiet"
03. Spoon - Transference - "I Saw The Light"
04. Scout Niblett - The Calcination of Scout Niblett - "Ripe The Life"
05. Get Well Soon - Vexations - "5 Steps 7 Words"
06. Efterklang - Magic Chairs - "Modern Drift"
07. The Magnetic Fields - Realism - "Walk A Lonely Road"
08. Shearwater - The Golden Archipelago - "Castaways"
09. The Album Leaf - A Chorus Of Storytellers - "There Is A Window"
10. The Besnard Lakes - The Besnard Lakes Are the Roaring Night - "Like The Ocean, Like The Innocent; Pt. 2: The Innocent"

17 janeiro 2010

Herberto Helder

"Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo."

Até as sociedade mais primitivas admitem os seus loucos 20100117

Noutro tipo de registo.

Na fantástica noite de 4 para 5 de Dezembro de 09, no Teatro Sá da Bandeira, Patrick Watson referiu-se à obra de Maurice Sendak transposta para a tela sob realização de Spike Jonze, na apresentação do seu “Where The Wild Things Are”.

O silêncio com que o assumido desconhecimento - aparentemente geral - foi dado como resposta, tem eco agora com a exibição numa sala algures por aí - de preferência sem pipocas desenfreadamente à procura do chão - que se deve transformar em imperdível.

Se alguém como ele dá uma pista destas, não a podemos esquecer, para lhe seguir o rasto: se não na altura ideal – a imediata – pelo menos na possível.

Se “Where The Wild Things Are” é uma canção tremenda, o filme é uma obra de arte da simplicidade e dos movimentos genuínos: e há por aqui uma infinidade deles que a sublinham.
Tem a voz de James Gandolfini e a de Forest Whitaker.
E a fábrica de Jim Henson.

E tem uma banda sonora decalcada de tudo isto, que lhe dá mais corpo: envolta nesses sentimentos já acima indicados.

É da responsabilidade da voz dos Yeah Yeah Yeahs – Karen O – e ficam aqui alguns excertos que brilham como quando voltamos “aos sítios” que ainda possuem as mesmas cores.

Sete canções que abrem o fecho para o original de Watson, incluído em “Wooden Arms.



01. Building All Is Love
02. Lost Fur
03. Cliffs
04. Hidaway
05. Rumpus
06. Worried Shoes
07. All Is Love
08. Where The Wild Things Are

A escutar antes ou depois de assistirem a estes quatro pedaços, sem a necessária qualidade sonora, no entanto mostram o que se viveu nessa noite de Dezembro, que sobre ela aqui escrevi.

Agora o poder das imagens.







10 janeiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100110



01 – Ry Cooder – Paris Texas OST – “Paris, Texas” – 1989
02 – The Feelies – Only Life – “Higher Ground” – 1988
03 – Au Pairs – Sense And Sensuality – Don’t Lie Back – 1982
04 – Kitchens Of Distinction – Love Is Hell – “Prize” – 1989
05 – Clan Of Xymox – “Equal Ways” – 1985
06 – Laurie Anderson – Mister Heartbreak – “Sharkey’s Day” – 1984
07 – Virgin Prunes - .. If I Die, I Die – “Ulakanakulot” – 1982
08 - Virgin Prunes - .. If I Die, I Die – “Decline And Fall” – 1982
09 – A.R. Kane – 69 – “Crazy Blue” - 1988
10 – The Band Of Holy Joy – More Tales From The City – “Don’t Stick Knives On Babbies’ Heads” – 1987
11 – Bauhaus – “Ziggy Stardust”
12 - The Go-Betweens - Spring Hill Fair – “Bachelor Kisses” – 1984
13 – David Sylvian – Gone To Earth – “Before The Bullfight” – 1986
14 – The Cure – Pornography – “A Strange Day”- 1982
15 – Nick Cave & The Bad Seeds – Your Funeral My Trial – “Sad Waters” – 1986
16 – Marc Seberg – 83 – “Jours Après Jours” – 1983
17 – Dead Can Dance - Garden Of The Arcane Delights – “Carnival Of Light” - 1985
18 – Anne Pigalle – Everything Could Be So Perfect - “Hé! Stranger” – 1985
19 – Death In June – The World That Summer – “Break The Black Ice” – 1986
20 – Killing Joke – Nightime – “Love Like Blood” – 1984
21 – Propaganda – A Secret Wish – “Dream Within A Dream” – 1985
22 – Xmal Deutschland – “Incubus Succubus” – 1982
23 – Cowboy Junkies – The Trinity Session – “Misguided Angel” – 1988
24 – Cocteau Twins – Head Over Hills – “Sugar Hiccup” – 1983
25 – American Music Club – The Restless Stranger - “How Low” – 1985
26 – James – Stutter – “Johnny Yen” – 1986
27 – Throwing Muses – The Fat Skier EP - “A Feeling” – 1988
28 – Golden Palominos – Visions Of Excess – Boy (Go) – 1985
29 – The Durutti Column – Lc – “Jaqueline” – 1980

Contrariando, pelo menos de modo aparente, a criação de alinhamentos, subjugados pelo espartilho do formalismo temático, uma sequência em que a década de 80 se torna ditatorial.

O que estes temas representam e a forma como puderam agrupar-se faz parte daquele lote muito pequeno de momentos que preservamos.

Todas estas canções apresentam uma durabilidade espantosa: talvez por as ter, a todas, enleadas na pele, de um modo em que não sei onde começam umas e termina a outra.

Tiveram vários percursos até chegarem a mim e mais variados foram a partir desse encontro, com sentidos distintos, todavia encarreirados pelos vasos sanguíneos para voltas em ciclos fechados, abertos a cada passagem da memória.

Desde descobertas em vários programas de RÁDIO - ou quando o tamanho das letras se torna pequeno para a referir: como ela foi – capturadas para K7 que se desdobravam por “decks” duplos para filtar as vozes soberbas que as traziam, indicativos que as lançavam ou palvaras de ordem para escutas despertadas.

Seguidamente houve hipóteses de as ter a rodar em gira-discos que lhes expunham todos os instrumentos, de as gravar de fonte mais limpa e ter de ceder ao CD porque por mais cuidados existentes, os sulcos no vinil tornavam-se maiores que eles próprios.
Agora graças a um local extraordinário, consegui que alguma delas ficassem neste formato a que agora podem aceder e já sabem onde as ir buscar, se assim for a pretensão.

São canções que possuem vida própria, mas não consigo imaginar a minha sem elas e gosto de ver a sua dimensão florescer quando contactadas pelas que lhes são anteriores e praticamente gerarem as seguintes.

Consegui ouvi-las, re-identificar os detalhes, descobrir outros ainda.
São imensas por isso mesmo: poderão ter bebido influência onde muito bem entenderam e é incrível como influenciam nos fantástiscos dias de hoje, onde o talento as funde de forma única, na era em que tanto está ao alcance.

Para que as escutem.

(Songs Of Devotion) Marc Seberg - Jours Après Jours


03 janeiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100103




as palavras tendem cada vez mais a ser como as sentimos: as definições gramaticais são pulverizadas em prol das sensações que obtemos ao mergulharmos com elas.
poderão dançar de forma única, apenas se preparadas para essa missão ou quando brotam com a naturalidade que só a respiração permite alcançar?
ao contrário das perguntas, as respostas podem não existir, mas usurpam ar.
as descobertas só são significativas se as passarmos como um testemunho num voo em queda livre e depois o mantivermos preso no mergulho mais profundo àquilo que somos.

há imagens com texturas de pele: rugosas; em que a seda é um sucedâneo; límpidas, quase transparentes e permitem gravuras que mantemos debaixo de observação, confirmada pelos vários ângulos a que as submetemos, erguendo-as ao limite que conseguimos atingir, aproximando-as vertiginosamente ou rodando-as, deixando ceder o tronco até onde as queremos, apenas fazem sentido se descortinarmos o brilho que sempre têm, precisamente desde esse momento de gestação cuidada, na génese do mergulho que buscam recusando descanso.

as canções que discorrem em arte para fumar cigarros, rodam por aqui, alinhadas nos contrastes que de facto não existem: não passam de alegorias rítmicas percorridas por sentidos a vaguear no mergulho examinado: pensado para omissões de discursos nesse mar superior, onde a avaliação é tacteada por nervos; olhos fechados; despertos e vasos sanguíneos.

são pequeníssimos componentes de objectos que podem ser instanciados a partir de várias dimensões, onde sim, há o medo, que não o da duna formada pelo vento nas suas vizinhanças, desse mar, onde a acepção da invenção se assume como descoberta.

procurem-nas.

01.Nick Cave & Warren Ellis – White Lunar – “The Road” (2009)
02.Get Well Soon – Palermo Shooting OST - “Busy Hope” (2009)
03.Miles Benjamin Anthony Robinson – “Written Over” (2007)
04.Tex La Homa – Dazzle Me With Transcience - “When I Am Lost” (2002)
05.The Beta Band – The Three EPs - “Dry The Rain” (1998)
06.Richard Buckner – Impasse - “Stumble Down” (2002)
07.Bonnie 'Prince' Billy & The Picket Line – Funtown Come Down - “Rider” (2009)
08.Grant Lee Philips – Little Moon - “Buried Treasure” (2009)
09.Broken Bells – “October” (2010)
10.Laura Veirs – July Flame - “Sleeper In The Valley” (2010)
11.New Ghosts – Scarecrows Against Reason - “Broken Pieces” (2009)
12.Sophia – Fixed Water – “I Can’t Believe The Things I Can’t Believe” (1996)
13.Spoon – Transference - “Written In Reverse” (2010)
14.Samuel Úria – Nem Lhe Tocava – “Nem Lhe Tocava” (2009)
15.Calla – Collisions - “Swagger” (2005)
16.Local Natives – Gorilla Manor - “Shape Shifter” (2009)
17.Willard Grant Conspiracy – Paper Covers Stone - “Preparing For The Fall” (2009)
18.Calexico – The Black Light – “The Black Light” (2001)
19.Former Ghosts – Fleurs - “In Earth’s Palm” (2009)
20.A Weather – Cove - “It’s Good To Know” (2008)
21.Little Toys – Frida y Diego Vivieron En Esta Casa (Home Demos) - “This Night” (2009)
22.Get Well Soon – Palermo Shooting OST - “Good Friday” (2009)
23.Miles Benjamin Anthony Robinson – Summer of Fear - “Boat” (2009)