28 fevereiro 2010

Bill Callahan - The Breeze/My Baby Cries (Kath Bloom) . Union Chapel, Islington, London. 20/08/09

Festival Para Gente Sentada



Camera Obscura a ultrapassar expectativas: excelente (até sentado).
Foi parecido -para muito melhor- com este excerto com uns anos.
Grande final.

Quanto a boas surpresas: Noiserv. Ousem. A ter debaixo de olho e sob escuta.

E Bill Callahan: jísasfaquinguecráiste!: já tinha dito, não já?
Com desculpas pelo som - puxem um bocadinho - mas agradecimentos a quem o fez, da 2ª plateia.
E Neal Morgan? Que músico.

27 fevereiro 2010

Smog . Say Valley Maker



Bill Callahan, ontem fechou assim a 1ª sessão do Festival Para Gente Sentada: numa versão inesquecível, a não permitir que consiga escrever mais do que isto.
Talvez para a próxima - um ferro não é de homem :)

With the grace of a corpse
In a riptide
I let go
And I slide slide slide
Downriver
With an empty case by my side
An empty case
That's my crime

And I sing (Say Valley Maker)
To keep from cursing
Yes I sing (Say Valley Maker)
To keep from cursing

River Oh
River End
River Oh
River End
River Go
River Bend

Take me through the sweet valley
Where your heart blooms
Take me through the sweet valley
Where your heart is covered in dew

And when the river dries
Will you bury me in wood
Where the river dries
Will you bury me in stone

Oh I never really realized
Death is what it meant
To make it on my own

Because there is no love
Where there is no obstacle
And there is no love
Where there is no bramble
There is no love
On the hacked away plateau
And there is no love
In the unerring
And there is no love
On the one true path

Oh I cantered out here
Now I'm galloping back

So bury me in wood
And I will splinter
Bury me in stone
And I will quake
Bury me in water
And I will geyser
Bury me in fire
And I'm gonna phoenix

I'm gonna phoenix

25 fevereiro 2010

(Songs of Devotion) Barry Adamson and Nick Cave - The Sweetest Embrace



anche le società più primitive ammettono la loro folle (by google tradutor)

veneno.doc (a propósito de um desafio - texto com a palavra em causa; um fuckin' eleven de 26.10.06)
os desafios ou como não se pode viver sem eles
as canções escondem-se(?) no destaque da palvara
A

Nunca tinha imaginado, na velocidade estonteante a que rolou por aquele túnel “espiraldescendente”, que não parasse somente nas entranhas da Terra.
E assim não foi.
Após a experiência alucinante, o impacto numa plataforma tão agreste, de rochas nuas e gélidas, percorridas pelo tilintar de um liquido viscoso que o inundou de desagrado, abandonado ao detectar que não estava só e muitos menos onde o pesadelo lhe indicou o destino.
Luz.
Seria possível? Sim. Primeiro fugidia. Depois em crescendo, archote por archote, como poderiam ali ter aparecido?
Erguidos por outros dez companheiros de degredo.
Renegados.
Por uma ordem que criaram, por uma ordem que os dominou, após o controlo que pensaram eterno, possuir uma escorregadia independência.
Sabiam descortinar a eternidade da situação em que se encontravam.
O facto de serem druidas ajudava.
Muito.
Tinham plena convicção que ali terminariam os dias.
Por muitos que faltassem.
Como conheciam os níveis dos seus poderes.
Por mais alto que subissem, a saída não seria devolvida.
Pelo que fizeram, pelas causas, a que deveriam ter recusado o abraço.
Como atingiram, nos olhares trocados, o que poderiam obter daquele liquido viscoso que não parava de os galgar, numa lentidão tão aliada.
Iriam partir para a sua última criação: um veneno.
A base da destruição - daquilo que os encarcerou.
O preço que pagariam.
Todos.
Um por um.
Como dessa forma, tocaram aquela água que o tinha sido, agora cada vez menos abundante, cada vez mais evaporada, embrulhada num cheiro nauseabundo que os tolhia, fazendo com que, a queda individual se fosse tornado colectiva, num estertor, fulminante mas ainda assim a gerar agonia.
Apenas teve tempo de beijar a pequeníssima tampa e colocá-la no seu devido lugar, daquele objecto que toda a vida o acompanhou.
Mais leve que o ar tremendamente rarefeito, a fuga em direcção à saída teve o seu inicio, na exacta medida em que todos, jazendo, ainda largavam os seus ícones.
O sorriso assustador que tinham desenhado em cada ruga que possuíam, contrastava em absoluto, no brilho de um olhar a que a poeira concedeu um último desejo.
Ver rolar pelo chão a sua pequena ânfora, que lhe fora depositada na palma das mãos por quem lhe transmitiu o maior dos conhecimentos.
Feliz.
Muito.
Como nunca sonhou.

B

Abraçaram-se como há muito não o faziam.
Olharam-se no infinito que eram.
E que sentiam tocar.
Buscavam as suas mãos como se estivessem na maior das trevas - e, se o dia estava claro e brilhante.
A respiração em suspenso a que se permitiam parecia não ter fim.
Donde vinha aquele som?
Não era da canção que sempre os acompanhou.
Nem do vento que ela personificava.
Por mais esforço que fizessem, não conseguiam uma identificação positiva.
Apelaram à intuição, às memórias do belo, ao terror dos sonhos negros.
Nada.
Entregaram-se como nunca o tinham feito.
A fusão de corpos incandescentes que tanto escreveram.
O calor de um sangue em ebulição nas veias, desviadas para um encontro mútuo nos limites de cada um deles.
Único.
Tudo parecia agitar-se.
Nada parecia mexer-se.
O solo tocou o céu e, este desceu aos subterrâneos do primeiro.
Sem se sentirem tocados.
Por cada beijo trocado, cada poro exultava.
Sorriam abrindo os olhos.
Levitavam ao fechá-los.
Como poderia ter fim o que sentiam?
Todavia, teria.
Aquele veneno exalava o que era por onde passava.
Não escapariam, como não escapou nada que por ele tivesse sido bafejado.
Antes da sua chegada porém tinha-lhes sido concedido algo que nunca tinham sonhado.
Quando eram um só, por toda a brutalidade que tivesse sido atingida, nunca o rasaram.
Mas agora estavam perante a destruição.
O mal.
O horror.
Onde haviam corpos unos, existiam cadáveres.
Onde estava a nudez, transparência e verdade, reinava um opaco e obtuso exemplar de sentimento: sem memória; rumo à fadiga emcoional.
Porquê?
O aroma horrível que inalaram assim o exigiu.
O silêncio ensurdecedor - não o das pausas: magnificas.
As trevas.
As manchas.
A assombrar o que nem necessitava de sol, porque já o era.
Agora, perante a extinção.
Atroz.

C

Brincar.
É tão bom, pensou.
Sozinho.
Sem brinquedos.
Com.
Todos os que conhecia.
Estava totalmente entregue àquele desfrute que só imaginava sem fim: fora de alcance.
Ao ar livre ou em qualquer lado.
Só que aquele ar iria ser tudo menos isso.
A fragrância volatilizada que o compunha, estava a ser substituída lenta e tenuemente pelo nefasto odor encapotado de um veneno, que vindo na dissimulação tremenda do mal que representava.
A sua diversão aproximava-se inexoravelmente do seu término.
Que lindo sorriso, era impossível que o mundo não pudesse voltar a entrar em contacto com ele.
Olhou o que o rodeava no mais completo aproveitamento de que era ainda capaz.
Terrível.

D

Era um amado de Imperador.
Pelo povo.
Que tinha finalmente o líder que tinha sonhado.
Vivia na vaidade, no excesso a que todos os Imperadores têm direito.
Mas o povo estava feliz.
O seu trabalho não era em vão.
E o Imperador acrescentava elementos ao seu vasto espólio.
Cada vez mais países.
Cada vez mais gente feliz.
Por não verem a tirania.
Padeciam de alguns males, é certo.
Mas ela era só Imperador.
E por o ser, também julgava que o que tinha alcançado não seria ameaçado.
Engano, puro, Sua Majestade Imperial.
A dor aproximava-se.
O pequeno infinito que governava estava a ser invadido pelo veneno ancestralmente produzido e, até um Império assim, iria soçobrar.
Por todas as Armadas, por todos os Exércitos e hordas de Gladiadores, que impotentes, perante um inimigo invisível nada podiam fazer.
Nem sequer chorar a sua divindade, que por incrível que pareça sorria, não pela sua linhagem, mas porque o seu povo, ainda sentiria a felicidade do agora outrora.

E

O que te preenche?
Ver-te
O que te unifica?
Tu
O que te faz vibrar?
Saber-te feliz
O que te faz feliz?
Dar-te
O que te faz correr?
Descobrir
O que queres descobrir?
Tudo
O que te assusta?
A exaustão
Até onde vais?
Até ela: à exaustão
O que te move?
Amar
De que tens medo?
Do veneno
Com o que sonhas?
Com o antídoto

F

Ao ler as estrelas o feiticeiro da tribo estremeceu.
Como iria transmitir à sua comunidade tamanha tragédia?
Como lhes iria explicar que todos seriam chamados pelos espíritos que os protegem e que com eles caminham?
O veneno viria.
Pronto.
Pela madrugada menos esperada.
Mas não seria ele a despertá-los para a eternidade.
Essa era a sua missão, não o de uma pestilência que substituiria os deuses.
Reuniu a tribo para a cerimónia festiva que jamais juraram ir presenciar.
Água de fogo, paus de fogo, à volta do fogo.
Pinturas de paz.
Com a tinta que os faria adormecer.
Antes da chegada de quem não tinhas direitos.
O seu fechar de olhos, o último da aldeia, antecedeu o cerrar da tenda.
Que bela caçada faria naquela manhã!
Com todos os antepassados.
G

A cedência iria acontecer.
Ia ter sexo sem amar.
Não ultrapassou o abraço não o sentindo.
O beijo foi custoso, mas foi-se tornando hábito.
Que diferença!
Nem se aproximou dos eventuais nas festas ocasionais.
Muitos menos das tardes de verdades e consequências e de quedas no poço de todos os desejos.
Que corpo era aquele?
Que avançava maquinalmente?
O seu não estava diferente.
Não disfarçava o peso, nem o inerte em que se encontrava.
O olhar que procurava não existia.
Nem o calor.
Só frio, só.
Solidão de mão dada.
Queima-roupa sem ela.
Nada.
Movimentos industriais.
Monótonos, repetitivos.
Intermináveis.
Os olhos fechados e só o interminável som mecânico.
As lágrimas.
Exaustão emocional.
O veneno alí residia.
Não procurou a cura.
O vírus que cumprisse o seu papel.
Ele não o tinha feito.
Castigo?
Apenas uma antecipação de uma realidade.

H

Gustavo, pela última vez, podes descer?
Era realmente a quinta vez que o chamava.
Estaria com os auscultadores?
Estaria a ouvir aquela música infernal.
Satânica.
A julgar pelas fotografias dos discos e, da forma como se começou a vestir se não era, andava lá perto.
Tinha sido uma criança tão feliz e, agora aquelas companhias…
Cosme, podes chamar o teu irmão?
Subiu as escadas em espiral que levavam ao sótão que lhes servia de quarto.
As horas de estudo, os dias de namoro, os meses de conversas, os anos de brincadeira com todos os que apareciam.
Tinham perdido alguns pelo caminho.
Malditas overdoses.
Malditas mudanças de emprego dos pais.
Malditas mudanças de escolas.
A porta afinal nem estava encostada.
Cabiam dois braços, lado a lado.
A luz não existia.
Estranho.
O cheiro a cera queimada era mais ainda.
O corpo no chão.
Tocado.
Gelado.
Não!
O frasco estava vazio.
O estômago não.
Os comprimidos estavam lá, abraçados ao álcool, não lhes faltava nada para ser veneno.
À morte também não.
O Gustavo nunca mais foi o mesmo.
Nós também não.
E o Cosme?

I

Onde está ele?
Nas cobras.
Nos estômagos intoxicados.
Nas aranhas.
Nas traqueias implodidas.
Nos escorpiões.
No cérebro derretido.
Nas entranhas do demónio, e nos seres que eles libertam.
Nos olhos ensanguentados, jorrando.
Nas línguas.
Das víboras?
Dos humanos.
De todos
Não, quase todos.
Porquê?
Porque está na natureza deles.
Mas não devia
Pois não, mas está.
E que fazemos?
Buscamos o nosso refúgio.
E porque é que o usam?
Porque é a essência deles.
Mas faz tanto mal
Eles é que se importam.
Porque existe?
Porque o criaram.
Porquê?
Porque são assim, amam destruir
Mas isso é odiar
E eles é que se importam.
O que acaba com ele?
O amor.
Ele pode ser bom?
Só se for por desafio.
Quem é ele?
É o veneno.

J

Já não reunia os amigos na sua casa de praia há tanto tempo.
Olhava o pôr-do-sol com a garrafa na mão.
Desabituou-se dos copos.
Após um gole intenso a que os olhos fechados emprestaram um toque de prazer em versão revista e aumentada, rodou o corpo para abarcar todo o cenário que idealizara.
Todos reunidos!
Continuava a não achar razão para o facto do Cosme ali estar.
Sempre lhe viu um negrume num olhar que nunca percebeu.
Será medo, será gente?
O que raio estava ele ali a fazer?
Estiveram de relações cortadas. Todos os outros intercederam.
Merecia uma segunda oportunidade, certo?
Em quantas segundas ia?
Os pensamentos que queria, não os obtinha.
Apenas a sensação de inexplicável que a noite não começaria.
Bebeu mais uma cerveja.
Enquanto preparavam o jantar, todos, apercebeu-se da excepção.
Porque procurava o Cosme, o vazio, com aquele olhar.
Razões para o desaparecimento do Gustavo?
Porque teria estado ele junto dos molhos tanto tempo.
Quando todos os provaram e iniciaram o sofrimento curto, incisivo, ao menos isso, muitos nem se aperceberam que tinham entrado em contacto daquela forma com a morte, de encontro não acertado para aquele dia.
Afinal o Cosme era o seu veículo.
Do veneno.

K

O seu último desejo!
Passear sobre o mar.
Caminhar pontapeando as ondas, que se aproximavam com carinho, apenas para lhe lamber as feridas.
As de todas as espécies que julgava exterminadas.
Num acto desesperado, uma vez que seria o último iniciou uma corrida veloz, com todas as forças.
A sensação era completamente indescritível.
O quase voar sobre a água.
O seu ressalto em direcção à sua face.
Todo o tronco encharcado.
Sorriso gaiato.
A caminho do fim.
Ao acaso.
Que se atravessaria no seu último percurso.
Junto a um pé direito possuidor de uma bota que sobreviveu a todas as saliências pontiagudas que calcou até a ali chegar.
Que sentia agora o conforto, do ultimo dos sobreviventes.
O mar.
Vasto.
Cobrindo a morte.
Afogando os medos.
Que tudo tinha devolvido às praias do mundo.
E que o veneno que nele navegava, tudo tinha dizimado.
Mas ele ainda corria!
Cada vez mais exausto.
Cada vez mais veloz.
E aquela pequena ânfora, que naquela onda procurava rumo, que a tudo tinha resistido, por todo o lado tinha escapado incólume, foi ao seu encontro.
O espantoso de tudo isto é que tinha pensado em saltar.
A exaustão não lho permitiu.
Acabou por proporcionar o mais intenso dos choques.
Frontal.
Como todos os choques saborosos.
E fundamentais.
Os estilhaços tornaram-se estridentes.
Num silvo estranhamente doce.
Aquele beijo mantinha ainda aquele infinito poder.
Os seres daquele mundo iam voltar a entrar em contacto, com o que existia, antes de tal moléstia lhes ter asfixiado letalmente a existência.
As palavras iriam voltar a ser soletradas.
Florescer.
Colorir.
Brilhar.

23 fevereiro 2010

Virginia Astley ( under an anonymous request )


















Sétima Legião . Pois Que Deus Assim O Quis








Ruy Belo

"Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei não partam dele as grandes negações
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
E no seu coração que todo o homem ri e sofre
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes

Oh que difícil não é criar um homem para deus"

22 fevereiro 2010

Rose Of Avalanche . Velveteen



Existe um "hell of a place" que me permite obter aquilo que só tenho nos 33 rpm e não descubro forma de os converter para aqui serem escutados.
Tardes de estudo, que mais do que adiadas, eram extintas sob sons de canções como esta.

uh uh uh uh uh uh uuuhhh uh uh uh uhuhhhhuuhh uh uh uh uhuhuhuhhhhhuuhh uh uhhhu uhuh

Joanna Newsom . Good Intentions Paving Company





Um disco triplo de múltiplas sensações em sucessões desenfreadas.
Palavras por conseguir articular até à chegada das estações por inventar?
Neste exacto momento parece-me mesmo o mais provável: e este é apenas um exemplar do número ilimitado de expoentes de emocionalidade que (des)integram este álbum.

18 fevereiro 2010

The Kissaway Trail . Sdp





Arde: canta: rasga: voa: solta: dança - incandescente.

Mais sons registados no medidor de colapsos de um ano tumultuoso.

17 fevereiro 2010

Smog . I Break Horses












Pelos vistos as mixpods deixaram de funcionar - pelo menos por aqui.
Um dos exemplos refere-se a uma canção gloriosa.
Datado de Set/09, repito o texto e a imagem: desta vez com outra possibilidade de escuta e também com um formato numa versão mais crua.
A maravilhosa arte do complemento :)
Enjoy.
Já agora: falta muito para 2010.02.26 @ Sta. Maria da Feira?





Uma canção pode ser uma partícula de nós.
Na exacta medida em que ao ser escutada, vai ficar sob a pele: acompanhar-nos-á.
Estaremos com ela quando menos pensarmos que tal vai acontecer e, iremos procurá-la numa busca incessante assim que somos fulminados pela memória do que é.

Há canções que se confundem com aquilo que somos, com tudo o que sabemos de quem nos toca.
O seu impacto abre o álbum das imagens para onde nos transportou, de quem nos trouxe, sob a sua escuta de olhos fechados e levou, ao cerrarmos os dentes com a partida.

Embarcámos por rios, apenas com elas, embutidos num som que nos abraça, tragámos vinho a espreitá-las, agarrámo-las com ambas as mãos e com aquelas que nelas se entrelaçaram, numa adição simbiótica.

No empedrado de ruas geladas ou nos trilhos íngremes, em que por vezes se transfiguram os nossos dias, quando a pele estala; rasga e convoca as novas camadas que vão compor o manto que se rende ao núcleo, que nos arrasta, exigindo sermos mais o que temos de ser.

O número de vezes que uma conversa com uma canção é começada ou finalizada é um mero detalhe do que ela representa: independentemente da sequência repetitiva no espaço de uma hora, ou intervalada por anos, quando se trata verdadeiramente de uma canção esse número é desprezível: em absoluto.

Mais do que procurarmos a canção perfeita ou encontrar a que sorrimos quando nos assalta o desejo de a termos escrito; composto; guardado, para mostrar a quem elegemos, é de uma interacção quântica de sensações, espalhadas numa tela, que nos ocorre descrever, essa fórmula de sons: um todo muito maior que a soma das partes.

Quando o pesadelo de fracções de tempo sem a sua companhia se abate, é incrível como a partir daí se gera o contacto com pedaços de música que pensávamos já não ser possível: haverá capacidade para desenhar, o arrebatamento provocado pela ocupação de um lugar julgado livre para sempre, por uma canção inverosímil?

Em ritmos avassaladores ou em suspensão de silêncios inexpugnáveis, solitária de guitarra em punho, ou em piano abandonado, ou ainda com as cordas chamadas, ou em fase de lua, com todas e todos à sua volta, o seu movimento é próprio, com uma identidade de uma exactidão comburente.

Sentados com os antebraços sobre os joelhos, olhando o mar através dos ventos, fechando os olhos e chamando o sol ou acelerando a sua queda.
Perante vastas planícies ou inclinados sobre as descidas de montes que unem céus a corpos estendidos sob o alcance dos dedos: elas, as canções estão lá, mesmo quando ninguém as vê.

Há tantas canções imensas: ao tentar arrumá-las num pensamento lento, ou desprotegê-las num alinhamento atirado por outro vertiginoso, a fileira fica sem fim à vista: a muralha oculta o espaço.
Por isso é custoso ou tremendamente injusto nomear a que encabeça o genoma humano onde ainda ousamos querer ser incluídos.

Contudo, nos momentos que circundam a alucinação do toque das membranas solares, por vezes erguemos a tábua, onde um titulo foi esculpido por lágrimas, beijos, olhares alinhados ou perdidos, abraços ocultados ou cabelos tocados por faces que já não são nossas.

Há canções que nos fazem vento.
Que nos ensinam a ler mapas para abandonar um abismo e outras que nos acendem a vontade de lá nos encolhermos.
Há canções que nos fazem cuspir sangue com dentes implodidos, outras que nos desfazem o estômago e a quem recusamos uma intervenção milagrosa.
E não esquecemos as que, viajando sós, tornam impossivel realizar o percurso sozinhos.

E aquelas que depois de sentidas, é de desintegração; redenção; devoção, que falamos?

“I Break Horses” é transversal a todas estas sensações: trespassa-nos: traceja-nos: mais que aportar até às nossas noites, acompanha escaladas submersas até à nossa ilha favorita.
Acende sinais, sublinha gritos e inventa sentidos.

A redescoberta de uma enciclopédia emocional de canções imensas, tem muitas vezes como exemplo, o minimalismo sensorial que permite, deixa-nos as mãos dormentes depois de sermos desfeitos sem contemplações pelas ondas ténues que faz mover no seu percurso; rumo a nós próprios: em tudo o que somos.

“I Break Horses” é uma partícula de nós que tem a forma de uma canção.

14 fevereiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100214












(imagem de david maciel)

Sob os desígnios da desintegração.
Levem-na até à exaustão: aos limites do que são: aqui desde o lamento de arqitectura sonora berlinense de Bowie ao brutal último sopro das deslumbrantes luzes londrinas dos archive: vão mesmo até lá extingui-las com as próprias mãos: são 18:29 de assombro.

Assim como a abertura desarmante de Lucas Renney a entregar o testemunho da beleza agarrada como unhas e dentes pelos Dark Dark Dark, numa passagem quase imperceptível.

Patrick Watson, Lisa Germano e Young Marble Giants dispensando apresentações, dada a recorrência com que felizmente vão fazendo parte de um percurso que não necessita de ser desenhado, onde as gravuras de Peter Gabriel são expostas, desta vez, deitando a mão a uma versão de Bon Iver, de uma forma que, só quem sempre caminhou à frente e, agora sabe ir atrás do local onde paira o talento, para se mover a seu lado: regeneração.

Tindersticks, Mazzy Star, Chris "Walkabout" Eckman e Bill Callahan: a murmurar na ala de maior destaque da galeria, sempre que abrimos de par em par as portas a quem se senta entre eles para os escutar.

Noah And The Whale, Spiritualized, Fleet Foxes e Joanna Newsom num caldo a que a alquimia se rende incondicionalemente, sem distinguir o peso de estilo ou de maior presença temporal nos trilhos do preenchimento.

Mercury Rev: a cederem a sua ignição para um pré-final de cortar a respiração: Heartless Bastards, Airborne Toxic Event e Black Box Revelation: quando se conseguirem erguer do chão, voltem lá, depois da entrega de um corpo que não foi feito para vos pertencer.



01. David Bowie - Warszawa
02. Lucas Renney - These same stars
03. Dark Dark Dark - Something for myself
04. Patrick Watson - The great escape
05. Lisa Germano - The darkest night of all
06. Young Marble Giants - N.I.T.A.
07. Peter Gabriel - Flume (Bon Iver cover)
08. Tindersticks - All the love
09. Mazzy Star - Fade into you
10. Chris Eckman - Who will light your path
11. Bill Callahan - Eid ma clack saw
12. Noah And The Whale - The first days of spring
13. Spiritualized - Lay it down slowly
14. Fleet Foxes - Your protector
15. Joanna Newsom - Kingfisher
16. Mercury Rev - Holes
17. Heartless Bastards - The mountain
18. The Airborne Toxic Event - Something around midnight
19. The Black Box Revelation - High on a wire
20. Archive - Lights

10 fevereiro 2010

Dark Dark Dark - Bright Bright Bright - 2010



Num 2010 de início desvairado - a este ritmo de realização de álbuns excepcionais, o ano arrisca-se a não chegar ao fim - um regresso às edições de um estimulante projecto do eixo Minneapolis/New York/New Orleans: Dark Dark Dark: em 2008/9 mostraram Snow Magic.
O pretexto é um EP intitulado Bright Bright Bright, com 6 canções excelentes, o que faz deste registo um trabalho a nível qualitativo com uma densidade fora do normal.
Um disco absolutamente brilhante.



01. Bright Bright Bright
02. The Hand
03. Something For Myself (canção quase inverosímel)
04. Make Time
05. Flood
06. Wild Goose Chase

(Songs Of Devotion) Micah P. Hinson - Patience





A voz que foi escutada a 25.01.2007 no Theatro Circo - "uma sala de estar belíssima e enorme».

08 fevereiro 2010

(Songs Of Devotion) Tindersticks - Factory Girls





Sim, já é do lote da desintegração e devoção.

E em Guimarães, aquele regresso ao palco com City Sickness e Rain Drops?
Esta esteve a esse nível. Como muitas outras: sob a pele. Ficaram sob a pele.

07 fevereiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100207

Sobre contrastes; descobertas; recordações, colheita de canções que se depuram sobre si mesmas; cumplicidades; partilhas de mapas e segredos resguardados; definições impossíveis: teorias incríveis; sons inebriantes; elevatórios; sons desconcertantes; regeneradores; sons atirados para um rio que cresce; ritmos incomuns: preenchendo-se ciclicamente: feito de tudo isso, para que "até as sociedades mais primitivas admitam os seus loucos", hoje. Canções vastas "para minorias esclarecidas": gente com música dentro: que sente e rouba tão bem: envoltos.



Na sequência, Cinematic Orchestra num registo da banda sonora de um documentário sobre a vida dos flamingos, para a Disney, a fazerem-nos sair da casa onde nos levaram.
Lisa Hannigan num sussurro, que se agita, em frente ao mar, no alpendre desenhado e erguido pela Cinematic Orchestra.
Bill Callahan num roubo tremendo a declarar-se culpado, como se tal fosse necessário.
Os Kraftwerk, que construíram os sentidos com base na electrónica: o lado orgânico dos sintetizadores de botões de pele.
Mark Lanegan a suspender sons que ainda vogam por todos os olhares encontrados.
Headless Heroes ou a desconstrução de um ícone criado de forma soberba pelos Jesus and Mary Chain, de um modo sensitivamente cru.
E o acaso da busca do trabalho de 2010 de Joanna Newsom: a mostrar uma canção sem título contida numa apresentação recente em Sidney, que nos deixa em polvorosa perante o que aí vem, a tudo querer conter, sem hesitações.
Uma versão imensa dos Shearwater, em sessão radiofónica, onde ela, a rádio, ainda é assim, da brilhante “The Snow Leopard".
A recorrência aos Get Well Soon, que assinam no início deste ano uma canção para todas as décadas que assim decidirmos.
Pela: a relembrar como o Verão pode ser de perdas e acima de tudo de reencontros: noites rasgadas aos dias, num tema de energia transbordante.
P J Harvey num belíssimo exemplar demasiado escondido.
Os Seabear numa das várias excelentes canções de que o seu álbum está repleto.
Lisa Germano porque sim.
Bauhaus, e porque não? – canções que vivem todos os dias.
Shonen Knife personificando a leveza e simplicidade pop.
Fiona Apple num roubo à voz armada, tornado sem asas nas suas mãos.
Mirah para que se relembre que a clandestinidade a que pode ser votada uma canção devia ser considerada crime da, e contra a humanidade.
E finalmente os Pink Mountaintops, de forma a que o voo de encerramento se confunda com o mergulho do começo.
Boas escutas.

01. The Cinematic Orchestra - Les Ailes Pourpres - Exodus - 2009
02. Lisa Hannigan - Sea Sew - Teeth - 2009
03. Bill Callahan - The Breeze / My Baby Cries - (Kath Bloom Cover) - 2009
04. Kraftwerk – The Man Machine - “The Model” - 1978
05. Mark Lanegan - Field Songs - Pill Hill Serenade - 2001
06. Headless Heroes - The Silence of Love - Just Like Honey - ( Jesus and Mary Chain Cover ) - 2008
07. Joanna Newsom - live at the Sydney Opera House 18-01-2010 – “Untitled” - 2010
08. Shearwater - The Snow Leopard Radio Sessions - The Snow Leopard - 2008
09. Get Well Soon – Vexations – “That Love” - 2010
10. Pela - ATG Masters - Present - 2007
11. P J Harvey - B Sides - Zaz Turn Blue – 1997
12. Seabear – We Built A Fire – “In Winters Eyes” - 2010
13. Lisa Germano – Lullaby From The Liquid Pig - “From a Shell” – 2003
14. Bauhaus – The Sky’s Gone Out – “All We Ever Wanted Is Everything” - 1982
15. Shonen Knife - Let's Knife – “Bear Up Bison” - 1992
16. Fiona Apple - Pleasentville OST – “Across the Universe” - (Beatles Cover) - 1998
17. Mirah - (A)aspera – “The Forest” - 2009
18. Pink Mountaintops - Outside Love – “Closer to Heaven” - 2009

05 fevereiro 2010

Assim como se ninguém reparasse

Vou ali dar um berro: quem sabe dois; talvez três.

From Blitz:

"Baterista dos Radiohead a solo em Lisboa e Porto

Concertos de Phil Selway estão marcados para Abril. Lisa Germano assegura as primeiras partes e canta com o músico.

Phil Selway, baterista dos britânicos Radiohead, vem a Portugal apresentar o seu projecto a solo no próximo mês de Abril. Os concertos estão marcados para a Aula Magna (dia 6) e Casa da Música (dia 7), avança o site de música Pitchfork.

As primeiras partes dos concertos serão asseguradas por Lisa Germano, que também cantará com o músico. A edição do primeiro álbum de Phil Selway deverá estar para breve e o disco contará com colaborações de elementos dos Wilco, Sebastian Steinberg (dos Soul Coughing) e Lisa Germano."

Ei!: Olha: o nome ficou salientado.
Porque terá sido?

Get Well Soon . That Love



Muito bom, muito.

Tindersticks @ Guimarães - Centro Cultural Vila Flor - 2010.02.04


Guimarães, Centro Cultural Vila Flor, 22:08 – 23.32 de 2009-02-04
Sala com lotação quase esgotada.

Escrever sobre um concerto dos Tindersticks tem uma enorme carga emocional: um dos motivos que muito contribui para isso, é facto do fabuloso espectáculo que proporcionaram no ano passado, em Lisboa, no Coliseu, ter provocado o primeiro texto deste espaço.

Se as expectativas para este regresso, intercalada pela aparição de Stuart Staples em pleno Casino Estoril a realçar a colaboração com Rodrigo Leão, eram diametralmente opostas às de há um ano, a vontade férrea de estar presente, essa, era decalcada.

The Hungry Saw” tinha provocado a “re-ignição” da chama do colectivo, sendo um dos seus melhores e mais qualitativamente equilibrados trabalhos e, um dos discos que partilhou os lugares de enorme referência do ano de 2008.
O que fez da viagem a Lisboa, o plano B para assistir a um concerto que superou o inicialmente previsto, dando uma força muito maior para que o mesmo não fosse apenas um revisitar de matéria – excelente – dada.

Em contraponto “Falling Down A Mountain” não tinha conseguido mostrar sequer, um punhado de canções capazes de provocar audições ininterruptas.

Perante um calendário com tantas prestações espalhadas de Norte a Centro, afastado dos grandes centros tradicionais da realização de concertos, a maldição da impossibilidade de estar presente - nem que fosse pelo menos em uma delas - ameaçou mais uma vez fazer das suas.
Depois de um primeiro apontar a Sintra e, de uma rectificação de mira com a hipótese Estarreja desmoronar, acabou por ser Guimarães o alvo trespassado por uma âncora, como só os Tindersticks sabem ser.
Atingir cada base do percurso Caldas da Rainha, Guimarães, Sintra, Guarda, Estarreja, tinha sido um desafio fabuloso de modo a fazer o pleno, que outras guerras impediram.

Perante tudo isto, viagens à queima, até um auditório ainda desconhecido: fantástico por sinal.

Visão adjacente de um palco ao alcance da mão.

Luzes apagadas e o início de mais uma noite memorável.

Falling Down a Mountain” a abrir, tal como no disco: ambiências díspares da onda que serve de matriz, executada de forma irrepreensível e envolvente, a lançar “Keep You Beatiful” – Tindersticks sob uma onda de leveza e aparentemente a darem-se muito bem com isso.

A primeira grande surpresa no alinhamento, que provocou os primeiros “eis” e “tchs”: “Marbles”! – um momento para história dos concertos que assisti até hoje: um componente de um álbum que anda sempre no bolso, mostrado de alma aberta.

De “Simple Pleasures” chegou “If She’s Torn” com uma intensidade impressionante.
Uma banda em estado inclassificável começava a não deixar pedra sobre pedra, na bela cidade de granito.

O regresso a “Falling Down A Mountain”, para dois dos seus melhores temas: “Peanuts” sem Mary Margaret O’Hara e “She Rodes Me”: o primeiro um momento absolutamente brilhante, o segundo um carrossel de sensações muito boas, depois de um feedback - considerado no ponto por alguém na escuridão da sala - na ligação da guitarra canhota, ambos, sob uma execução técnica tremenda, a mostrar que os temas do mais recente registo, mais do que estarem muito bem preparados, cresceram muito e resultam de forma magnifica ao vivo.
E a voz de Stuart Staples está numa forma excelente.

Dying Slowly” tema enorme de um álbum menor, já apresentado há um ano, deu a sequência perfeita a uma actuação que não se cansava de evoluir, com um nível altíssimo que se desafiava e, ganhava com a facilidade cada palmo de terreno que ainda se conseguia pisar – a levitação começava a marcar o seu território.

Com a incursão a “The Hungry Saw”, ao seu título-tema e ao portentoso “Mother Dear”, surge a confirmação da promessa com um ano de vida: de este ser um disco para a galeria dos maiores dos Tindersticks.
Na primeira canção, Stuart Staples lembrou-se de se esquecer da letra, na armadilha que é a segunda ponte de lançamento do tema: implodiu-a.
Músicos deliciosamente à deriva: hesitações a estenderem-se ao limite do possível de um corpo suspenso, até surgir a voz de comando: decisão de recomeço do tema.
Um “Can We Start Again” levado à letra!
Fantástico.
Aplausos motivadores e cúmplices, que subiram de tom no preciso momento onde antes o arredondamento tendeu para o infinito e agora faz aportar a canção.
O recomeço permitiu assistir novamente ao diálogo dos objectos de percussão que lançam um tema de eleição.
Tudo lhes é perdoado.
Sentimo-nos num ambiente que só uma sala de ensaios permite e eles ter-se-ão sentido em casa: daquela forma em que estamos lá, tão longe, sem de aí ter saído.
E sim, há um ano atrás vislumbrou-se um álbum que o tempo provou ser um clássico.

Triplo avanço para o disco deste ano: “Black Smoke”, “No Place So Alone” e o estrondoso “Factory Girls”.
A confirmação dos melhores temas deste trabalho, a ganharem forma, e a tornarem este corpo estranho à sua obra, de alguma modo por ser mediano, envolvido com os outros temas imensos, agigantando-se, por serem escolhidos a dedo e alinhadas como só “quem a sabe toda”o faz.

No primeiro dos temas soltou-se o cabo de amplificação da guitarra de um dos mais recentes elementos, David Kitt – o outro é o baterista Earl Harvin e o homem dos sete instrumentos, com o saxofone nas unhas ainda tentou mesmo assim “conectá-lo” de volta, até o “roadie” muito à rasca - porque o homem estava embalado, concluir a tarefa.
“No Place So Alone” teve um impacto muito bom e “Factory Girls” entrou para o domínio das inesquecíveis: com imagens leves de fundo, piano, guitarra e baixo a proporcionarem uma parte instrumental que conviveu com o silêncio, a quem a voz – insuperável - deu uma dimensão quase absurda: ao nível dos insubstituíveis: soberba.

“A Night In” do segundo álbum, proporcionou um momento mágico: tons verdes e brancos a abrilhantar uma canção de eleição, mostrada num grau de transparência completamente fora do normal: bravo.

O fecho ficou para a leve e solta “Harmony Around My Table” com “lálálás” e muito energia de uma onda apelativa que atingiu totalmente os seus propósitos.

Uma hora e dez minutos depois, o processo de imploração pelo retorno dava os seus primeiros passos.

E no regresso, os homens lembram-se de partir a louça toda: exacto – “City Sickness” e “Raindrops”.

Excelentes escolhas, talvez por menos óbvias, permitiram-me a escuta em palco pela primeira vez, com arranjos absolutamente espantosos.

Épico.

Os Tindersticks continuam a soar em salas repletas de fumo, com cortinas que sobrevivem ao peso dos dias.
Têm no entanto, definitivamente as janelas abertas, depois do ensaio sobre o arejamento, com vista para jardins contidos por pradarias sem ângulos.

O silêncio é tratado com deferência, através da alquimia de quem o sabe invadir, não para o conquistar, mas para lhe dar amplitude: confundindo-lhe a existência, coabitando sem lugares marcados e imposições destruidoras de equilíbrios suspensos, torcendo-lhe a génese, onde os instrumentos são pontos a unir, a traço leve, de forma a obter a silhueta da beleza tocada de forma única, por mãos de fumo.

Numa sala com excelentes condições, som de qualidade extrema, com figuras repetitivas projectadas, com o negro a dominar caleidoscópico, sobre fundos verdes: escurecidas para depois brilharem.

Saída sob ovação em pé, para voltarem para o fecho definitivo: seis estrelas: “All the Love”.
A permitir a escuta e a visão de algo sem explicação possível.
Brilhantismo tornou-se pequeno para abarcar, descrevendo, o que se assistiu.

Desintegrante.

Os Tinderstciks são as nossas impressões digitais.