21 dezembro 2011

as vozes que não apagam os percursos


(c) Ralph Gibson

falas de um trilho em que me perco para me saberes.
mantém os olhos cerrados: dizes-me; e fazes-me percorrer-te para que as distâncias se desfaçam e tornem permanentes os ecos da tua voz, com aroma
das correntes do vento que me sopras, fechando os lábios que se aproximam e
traçam definições de astros que nascem quando te espalhas: recebendo-os na
amplitude destes braços:voo e espreito-te em jardins onde a luz se
consome dando cores inimagináveis a um ecrã branco, sob o movimento da mão
que me levou, na vertigem que abraça a origem do sentido que te quero entregue:
ao que és. impedes-me que durma e levo-te a planícies onde há pássaros que se deitam nos rios que as montanhas abriram, acolheram e afastaram, numa lentidão específica; como numa simetria, com que aproximo; guardo e solto, os teus cabelos na mão e a estendo no espaço onde a tua desagua e percorre a canção que submergiu e elevou os passos que te tornam presente.

20 dezembro 2011

"sintonia sobre pretexto" @ o meu mercedes: 2011.12.16


(c) ansel adams

escolhas para uma sessão com belgotry, dark roots e pascoal carvalho.

com um agradecimento sem tamanho para eles e para todos os que lá estiveram numa noite que nunca esquecerei.

01 – Other Lives – For 12

02 – Surface Of Atlantic – The Great White

03 – Sharon Van Etten – Don’t Do It

04. Chris Eckman and Anita Lipnicka - Who Will Light Your Path

05. Destroyer – Looter’s Follies

06. Jack The Ripper From My Veins To The Sea

07. Band Of Horses – Wicked Gil

08. The Devastations – Take You Home

09. Calla – Swagger

10. Six By Seven – Candlelight

11. Clinic – Come To Our Room

12. Swell – Make Up Your Mind

13. The Divine Comedy - The Certainty Of Chance

14. Tindersticks featuring Isabella Rossellini - A Marriage Made in Heaven

15. Mler Ife Dada – À Sombra Desta Pirâmide
16. The Decemberists – Sons & Daughters

17. Madrugada - Step Into This Room And Dance For Me

18. Richard Hawley – The Ocean

19. The Pogues – Rainy Night In Soho

20. Dark Dark Dark – Daydreaming

21. Thomas Feiner & Anywhen – For Now

22. Michael Nyman - Memorial


+

Cowboy Junkies – Misguided Angel


e

Dead Can Dance – Song Of The Sybil

13 dezembro 2011

absolute beginner & mar superior @ casa de ló, porto, 2011.12.10


(c) sebastião salgado

01. The Durutti Column – Messidor

02. Smog – All Your Women Things

03. Surface Of Atlantic – Land Of Long Evenings

04. Ed Harcourt - You Only Call Me When You're Drunk
05. The Divine Comedy - The Certainty Of Chance

06. Lambchop - Nixon - What Else Could It Be?

07. Fine Young Cannibals - As hard as it is.

08. The Church – Fly

09. Destroyer – Notorious Lightning

10. Sufjan Stevens – John Wayne Gacy Jr

11. R.E.M. – Camera

12. Aztec Camera – Working In A Gold Mine

13. Prefab Sprout / Goodbye Lucille #1

14. The National – All The Wine

15. Grant Lee Philips – Love My Way
16. Cowboy Junkies – Sweet Jane

17. David Bowie – Wild Is The Wind

18. Kendal Johansson - Blue Moon

19. Future Islands - On The Water

20. Beach House – Walk In The Park

21. B Fachada – Tempo Para Cantar

22. James – So Long Marianne
23. The Go-Betweens – Bachelor Kisses

24. Felt – All the People I Like Are Those That Are Dead

25. This Mortal Coil – You And Your Sister

26. The Sundays – Can’t Be Sure

27. Hugo Largo – Nevermind

28. Still Corners – Velveteen

29. Dead Can Dance – Don’t Fade Away

30. The Sound – Silent Air

31. Madrugada - Step Into this Room and Dance for Me

32. Violent Femmes – Good Feeling

33. Band Of Horses – Monsters

34. Tindersticks – No More Affairs

35. Sigur Rós - #6

04 dezembro 2011

casa de ló 3.12.2011 ( Gretel & Mar Superior )


( não sei quem é o autor )

01. Norberto Lobo - Mudar de Bina


02. Hindi Zhara - Stand Up


03. Melody Gardot - Love Me Like A River Does


04. Lisa Germano - Stars


05. Prefab Sprout - Desire As


06. Clinic - Distortions


07. Alpha - Sometime Later


08. Marc Seberg - Jour Après Jour


09. Holly Golightly - Theres' An End


10. Charlotte Gainsbourg - Heaven Can Wait


11. Tiguana Bibles - Lonesome Town


12. Tom Waits - Back In The Crowd


13. Chris Eckman - Who Will Light Your Path?


14. Sharon Van Etten - One Day


15. The Woodentops - Give It Time


16. Decemberists - Sleepless


17. Morning Benders - Excuses


18. Dead Man Bones - Flowers Grow Out of My Grave


19. Mazzy Star - Flowers In December


20. Nick Cave - Breathless


21. Band Of Holy Joy - Leaves That Fall In Spring


22. Sonic Youth - Empty Page


23. Smog - Blood Red Bird


24. The Devastations- I Don't Want To Lose You Tonight


25. Stanton Moore - Poison Pushy

26. Chain and the Gang - Not Good Enough


27. Medeski, Martin & Wood - Let's Go Everywhere


28. Rockin' Ryan and The Real Goners - I'm The Wolfman


29. Screamin' Jay Hawkins - I Put a Spell on You


30. Lloyd Cole and the Commotions - Forest Fire


31. Destroyer - Looter's Follies


32. The Divine Comedy - Someone


33. Magnetic Fields - All My Little Words


34. Madrugada - Sail Away


35. Etta James - I'd Rather Go Blind


36.Otis Redding - I've Been Loving You Too Long (To Stop Now)


37. Nina Simone - Just Like A Woman


38. Patty Page - Moon River


39. Elysian Fields - The Moment


40. David Sylvian - Before The Bullfight

16 novembro 2011

@ casa de ló : 12.11.2011 ( Absolute Beginner & Mar Superior )



01. Death Cab For Cutie : Transatlanticism


02. Cocteau Twins : Sugar Hiccup


03. Beach House : D.A.R.L.I.N.G.


04. Low : Try To Sleep


05. Richard Hawley : Some Candy Talking


06. Morphine : Super Sex


07. Pixies : Ana


08. Lambchop : The Old Gold Shoe


09. Grant-Lee Buffalo : Fuzzy


10. Galaxie 500 : Decomposing Trees


11. Anywhen - Where's The High


12. Red House Painters : Shock Me


13. The Pogues : Summer In Siam


14. Dark Dark Dark : Daydreaming


15. Cat Power : The Greatest


16. Bon Iver : Perth


17. Mark Lanegan : One Hundred Days


18. The Triffids : Burry Me Deep In Love


19. Noah And The Whale : My Broken Heart


20. Sétima Legião : O Canto e o Gelo


21. Rádio Macau : Amanhã É Sempre Longe Demais


22. Fanfarlo : The Finish Line


23. Mumford & Sons : Winter Winds


24. Dead Man Bones : My Body's A Zombie For You


25. Surface Of Atlantic : The Great White


26. The Go-Betweens : Quiet Heart


27. The House Of Love : Love In A Car


28. Jesus & Mary Chain : Just Like Honey


29. Nick Cave & The Bad Seeds:Are You The One I'm Looking For


30. John Cale : Close Watch


31. Cowboy Junkies : Walkin After Midnight


32. Mojave 3 : Candle Song 3


33. Mazzy Star : Fade Into You


34. Love And Rockets : Saudade

manhã abraçada


(c) Jon Gibbs

O excesso da duração das noites não esbate a nitidez de um rosto que envolveu o dia,

que consumi sob a escuta de uma voz incrustada num manto de sorrisos,

que acelera as partículas que movem o tempo entre as nossas mãos que se adivinham.



Nas manhãs que percorro, és-me:

mostrada na chuva reflectida em cada braço de árvore que filtra o sol que me chama.



Escuto-te quando o murmúrio dos rios abraça as cidades nas paisagens transformadas

em teatros em chamas e submersas pelo teu vento que os meus olhos não abdicam.



Os sentidos à deriva apenas capturam a interminável projecção dos limites do teu

corpo na rendição do meu.

06 novembro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem o seus loucos 2011.11.07


(c) Gerhard Ritcher

"fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga."

"o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade."
José Luis Peixoto

mp3 para guardar


01 mler ife dada - à sombra desta pirâmide
02 tunng - code breaker
03 julian cope - head hang low
04 richard buckner - hoping wishers never lose
05 black heart procession - all my steps
06 white hinterland - hung on a thin thread
07 boduf songs - the giant umbilical cord that connects your brain to the centre
08 begushkin - gone to hell
09 the brian jonestown massacre - here it comes
10 diane cluck - telepathic desert
11 hugo largo - second skin
12 mekons - the trimdon grange explosion
13 dark night of the soul
14 micah p. hinson - don't you forget

24 outubro 2011

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 2011.10.24


(c) Paulo Nozolino

Para guardar em mp3



01 The Boxer Rebellion - Both Sides Are Even
02 Madrugada - Shine
03 Other Lives - Desert
04 Kwoon - Bird
05 Surface Of Atlantic - The Great White
06 Strand of Oaks - Sterling
07 Bill Callahan - One Fine Morning
08 Jesse Sykes - Be It Me Or Be It Done
09 Beth Gibbons - Sand River
10 The Walkabouts & Tindersticks - Velvet Fog
11 Death Cab for Cutie - Transatlanticism
12 Madrugada - Majesty

"As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.

O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Excepto no aspecto do tempo
Capturado sob a forma de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre-
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois."

T.S. Elliot

23 outubro 2011

"Tira;rasga;veste: a pele - e exibe a metamorfose com que abandonas o mundo"



(c) sebastião salgado



- como te ergues quando te fazem cair?
- como te despenhas quando pensas ter as impurezas do escuro rendidas a um olhar cristalino?
- como respiras sendo refém e te moves clandestina?
- onde fica o Outono se Janeiro invade a tua noite e os poros chamam por Maio e mergulhas nas chamas de um Julho que fez nascer o que amaste ?
- como?
- ameaçaram-te o voo quando apenas espreitavas onde querias os teus passos seguros, declinando a ilusão e dispensando tudo o que te queriam a ver, quando escutar a minha chegada era uma partida dos medos, não foi?
- dás-me a mão?
- a tua pele queima: a minha só se aproximou e agora arde: rasgar é um abandono e a sincronização do mundo uma guitarra que não encontra o cântico que desbrava a arqueologia das camadas que soletram o desejo.
- a ânsia abandona-se membrana, vestes-te menina e avanças no tempo com o manto do som que te cantou a leveza que a erosão conquistou: querias a simplicidade na ponta dos dedos quando os tocasse e lhe invertesse o movimento para que o teu rosto conhecesse os meus e tudo te fugiu.
- agora o espaço espera-te quando chegas às paredes brancas e as transpões na metamorfose dos sentidos, que não foram levados como pensavas, quando tiraste a pele, que visto, lá dentro, sempre que te deitas com o meu nome e acordo com o teu.

11 outubro 2011

belly ::: low red moon


Sob uma lua em chamas experimentas o medo no que espreitas nas mãos em concha: a transparência e os elos tecidos na necessidade de chão permitiram à muralha avermelhar-se quando passou a ser céu: o sangue frio arquitectado com minúcia rumo ao temor do reaparecimento das chamas e sua propagação pelos alicerces dos sentidos não resistiu à incandescência trazida pela escuta da canção que lhe pulverizou as bases. Indicas aos passos os trilhos que julgavas perdidos na extinção do mapa do assombro. Mordes os lábios; o sorriso exigiu-se; o corpo tremeu e o solo abanou abandonando a vegetação mantida com mãos em que o verbo exímio atirado aos vasos comunicantes os manteve a envolver o meu nome nos limites da inquietação. Chamo-te e olhar para trás deixa de ser uma reacção instintiva: afastas hipóteses, devolves-te certezas que não queres postas em causa: a abolição de fronteiras e a junção de montanhas a praias onde o vento trouxe margens de rios, ocorre: suprimindo sombras - sob uma lua em chamas.

07 outubro 2011

nick drake : way to blue

quando as estações são uma só
não se colhem frutos quando os
tens nas mãos e os desordenas
por cores e propagações de vento
que domas com o olhar que perdeu
o medo do branco que recebe a
manhã como rendição na casa dos
jardins e lagos que beijam o rio e o
espreitam do alto de ti: como se te
pedissem que os fizesses declinar sobre
o reflexo de um rosto que se dilui no
no pranto da escuta, como flocos de areia
recebendo a água quebrada por lhe
decifrares os trilhos do desassego que o
sopro do teu nome lhe levou aos braços.

ver

04 outubro 2011

Mark Lanegan - When Your Number Isnt Up

apenas queria tocar o brilho dos dias
com mãos de água para te espreitar
os olhos como cursos de ventos de
um céu em chamas colhendo frutos
que se refugiam no chão que me
fazes perder e onde te moves na longitude
e em colapso no abraço perfeito da canção
que escrevi por baixo do teu nome

03 outubro 2011

Steve Jansen with Thomas Feiner . Sow The Salt



- desenhas-me os números com que se definem os contornos desta canção?
- nunca o fiz para delimitar movimentos imperceptíveis: vou escutá-los contigo: aos sons que aqui se erguem e espalham sobre nós.
- com que cores se delimita a transparência da luz que a atravessa?
- com a da sombra da tua mão sobre ela.

the legendary pink dots - in sickness and in health



"Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão, se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria.
É sempre com semelhantes puerilidades que se faz mover a grande e estúpida besta que se chama povo.
É a Loucura que forma as cidades; graças a ela é que subsistem os governos, a religião, os conselhos, os tribunais; e é mesmo lícito asseverar que a vida humana não passa, afinal, de uma espécie de divertimento da Loucura.
Raros são os que sabem que, para fazer fortuna, é preciso não ter vergonha de nada e arriscar tudo."

erasmo . o elogio da loucura

30 agosto 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110830



( imagem de paula lagarto )

( palavras de sílvio matos )

( saber um pouco mais do muito que fica por descobrir sobre uma escrita de uma dimensão sem limites: just click )

"Se calhar estar fechado é melhor que estar aberto;
seja. Como for, perdi as chaves nas cópias das cópias do eu,
e sendo eu, sou tudo o que quis para mim.
Se calhar estar fechado é ter as persianas semi-abertas;
deixo o sol entrar e olho a lua de dentro, rindo-me e enrolado
nos cobertores; e sendo eu, sou tudo o que quero para mim.
Se calhar estar aberto é melhor que estar fechado,
para poder contar ao mundo da aventura de viver
dentro do corpo armadilhado, das chaves e das cópias, das
persianas que gostava de saber abertas, um dia, com a música
a fluir ao vento, e a minha voz, em bom tom, a dizer ao mundo,

perdi as chaves, perdi as chaves.
Se calhar estar fechado é melhor que ser aberto
à força. Seja. Dói-me a cabeça de pensar. Dói-me o peito de amar,
mas a aguarela tem de ser pintada: vermelho, amarelo, branco, preto.
E nos corredores, deitei-me mais que todos
a ver o tecto, do tecto, a ver-me a mim. Mas só eu sei das chaves,
das cópias das chaves, e das cópias de mim.

Gostava de rir como se ri quando a alegria é real,
mas só me sei rir como me rio quando fiz a cópia final.

Em certos terraços fechados, uma noiva ofereceu-me uma rosa de papel. Eu disse-lhe que a ela ficava melhor. Ela disse-me que ele já não a amava. Eu disse-lhe que não sabia se era verdade. Mas sabia. E eu amei-a mais do que ele alguma vez a amará; porque a deixei ficar com a flor. Porque a deixei em paz. Porque nunca lhe fiz mal.

Gostava de me rir como se ri quando a loucura é total,
mas só sei sorrir quando ninguém pensa em me fazer mal."


De miúdos que querem ver o mar.
"Um torrão de açúcar-amarelo, começarei assim esta conversação de mim a mim.

O meu mundo rodopia sem eixo, as mãos bem fora do corpo como uma bailarina tonta a tentar encontrar o pé no chão.
O meu mundo rodopia sem nexo, as vontades bem fora da cabeça, como um louco que termina as ruas quando começa a voltar para trás.

Sim, tudo isto é medíocre. A vontade de escrever. A vontade de contar. De contar o porquê de morrer, o porquê da dor não poder existir,

porque
toda a gente dói.
Toda a gente sofre.
Toda a gente quebra.
Toda a gente morre.

Mas os mundos rodopiam em eixos, bailarinas que, mal ou bem, bailam as suas canções, os seus silêncios, os seus amores e paixões, os seus desalentos.
Os mundos rodopiam com nexo, as ruas terminam, dão curvas abertas, apertadas, cruzamentos, decisões, saltos de fé.

Um torrão de açúcar-amarelo. Comecei assim esta conversação de mim a mim. Tomei-o na boca e o mundo teve um eixo; derreteu-se. Soube-me a doce. Soube-me a vida. Soube-me a este universo e ao outro. Mas derreteu-se. E terminei a conversa.

Não me digo o que não me digo, não, não me digo o que não me digo porque se me disser o que me quero dizer a dor
pára-me este sofrer. Rodopio mais que noventa, mais que mil, salto duma ponte sem fim, salto de dentro de mim, parto estes olhos de brincar ao faz-de-conta, ao que diz mais que não-diz. Não, não me digo o que me quero dizer. Não posso dizer-vos o que me ia acontecer. Nunca me pode acontecer. Há amores de mais ao lume. Há lume a mais nos amores. Há falta a mais noutros eixos. Há açúcar-amarelo que sou eu.

E toda a gente dói.
E toda a gente sofre.
Mas ninguém morre senão eu.

Tenho a doce imagem da torre, prateada, com a lua ao fundo.
A torre tem duas janelas; numa a luz entra, noutra a luz sai.
O som de mim a cair pelas escadas não treme terra alguma.
O som de mim a cair pelas janelas só geme quem não me é.
O som de mim é nulo. A cor de mim é nula. A torre não existe.
A luz entra e sai do mundo e a torre de mim ruiu.

Tenho a doce imagem de mim, sombreado, contra uma parede qualquer
a sorrir a uma estranha, doce torrão de açúcar-amarelo. Tudo se dissolve,
tudo se gasta. No meu livro escrevo o seu nome: não sei. Nada sei. Nada nunca saberei.
Ignoro todo o universo por culpa de ser uma torre
que ruiu cedo demais,
oh música, toca mais alto.
Oh palavras, saiam em ordem!
Oh! Mãos! Agarrem alguém! Agarrem a eles como eles me agarraram a mim quando eu rodei para o meu fim...
As forças são as locomotivas, dentro da linha, espaçadas, a velocidades moderadas,
as forças são as cortinas, abertas, para deixar a luz entrar,
as forças aqui não existem, nem cortinas, nem quem puxe a carruagem deserta. A força é o saltar.
A força é eu não querer dizer
que não quero acreditar.

Oh, palavras, saiam-me ordenadas, façam-me maior
que as estrelas que vejo além da minha janela, por entre a persiana aberta, ainda que com ela fechada; que olhos estes, que fechados veem, que abertos não querem espelhos para lembrar a dor...
Oh, versos, saiam em rima, para a música ser tua e a minha, e minha, e minha... que nada é meu, senão o sofrer.
Mas toda a gente sofre.
Toda a gente quebra.
Toda a gente ama.
Toda a gente. Sente falta. De ter duas mãos assim. Capazes de dizer
coisas
sem fim.
Sem fim."

para guardar



01. Mogwai - Does this always happen?
02. Jack The Ripper - From my veins to the sea
03. Soulsavers - Will you miss me when i burn
04. Marissa Nadler - Baby i will leave you in the morning
05. Sharon Van Etten - Love more
06. Cranes - Adoration
07. T E Morris - Almost a whole person
08. Band Of Horses - The funeral
09. Mark Lanegan - One hundred days
10. The For Carnation - Moonbeans
11. Josh T Pearson - Wish you were her
12. Grant-Lee Philips - The eternal
13. Death Cab For Cutie - Transatlanticism

01 julho 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110701

o regresso às blog sessions, desta vez com gisela alves.

sob o pretexto do uso de reticências a ser substituído, uma sequência de blocos de texto com autoria alternada.

a escolha de imagens para acompanhar as palavras, realizada por gisela alves.

as canções convocadas para que um sentido possa ser inventado, no complemento que só imagens; palavras; música, sabem exercer.

( obrigado )

imagens Sebastião Salgado ( entre outros )



No simples silêncio ficam os tolos, que de loucos se amarram a estigmas, a paródias de si sem tréguas, a desacatos de verdades escolhidas, soltas em vertigem de momentos.
Cobrindo-se de iras e paixões desagradadas, tolhem-se em si na procura do sorriso perdido. Na discordância do seu mar deambulam em oceanos vagos, amarrados à espuma: sendo.

Iannis Xenakis : Pithoprakta




a espuma não amarra o vento nem o vento é: refugia-se no fogo do desenho das mãos a que o relevo não permitiu forma de voo. há como que uma impossibilidade de ocorrência das regras da geometria emocional, gerada por gritos que a convocaram rios que não sabem o seu nome.

Sons Of Perdition : Blood In The Valley




Rios sem nome, mares ocultos, dilacerados pela brisa enfurecida das mentes tortuosas, se escapam num veio de luz, se quebram, se enlaçam em cânticos de partida. Em novas chegadas se esquecem de ficar, param em sinónimo de ausência e da próxima distância do absurdo.

Iannis Xenakis - Metastasis




como se mede a imperceptibilidade de uma distância? há chãos de madeira que não são tocados no movimento impelido quando ela parte: sendo uma factor de peso porque o faz de modo tão leve? não se prova o contacto nem o nectar do beijo que promete regresso. os mergulhos nos labirintos dunares não lhe trazem o cântico desbravador da arqueologia das camadas que a fixam na pele de quem a perde.

Beirut : The Shrew




Sábias mentes se esqueceram de si, dançaram ao vento num hino de glória. Na desalinhante rotina se estontearam de ditas e gastas palavras. Tormentos viriam aconchegar o seu peito de despeitos vários, se quebrariam para se alinharem num seguro porto de mar, que as transportaria ao saber.

Ornette Coleman : Voice Poetry




os sábios vêm diluidas as fronteiras que dividem as certezas do espanto do que inverosimil: os olhares vazios poderão conter os segredos dos que se alinham? não cartografam as cores para a ausência de um sopro que até a eles lhes rasga docemente os tímpanos e lhes deixa os passos em chamas, sobre um corpo que declina vontades.

Nina Nastasia : Superstar




Nessa pele onde cravara a poesia de nós, via agora a luz que se apagara.Os dias eternos de esperas veladas, as manhãs que não sorriram e as noites que não chegaram. Nesse deserto sem sons, o grito sêco não se impusera, esse grito que desbrava, que desmembra os sentidos e embriaga a mente: era só um lamento, um pequeno sussurro, um pássaro perdido na ventania da vida, aconchegado em si, a medo ousara sonhar.

Philip Glass : The Kiss




tenho-os fora das mãos: esses efeitos de memórias que não te trazem. espreito-te e afastas-te quanto mais me inclino. há um movimento perturbante de distanciamento assimétrico: não há proporcionalidade nas sombras nem geometria na dor. o colapso pode ficar para amanhã: o segredo de um oriente tornado ilha leva-o contigo, porque não o consigo manter junto à pele.

Woven Hand : Sparrow falls




Afastem-se as bestas que a alvorada vai começar : jorram ventanias envolvidas em estranhos carismas, jorram oceanos de lama num apocalipse de sensualidade, teus eram os meus braços em caricias intermináveis enquanto beijos doces se continham de fervor.
Esqueci-me de te esquecer e num impto te alcancei.
Quando a alvorada retomar, lá estarei naquele canto dos desencontros onde te apanho e te consumo.

Miles Davis And Jeanne Moreau




A ousadia do sonho era a do roubo de um abraço nos limites da noite.
Não sabia que a levitação podia ter uma cor, quando a luz avivou os tons púrpura de um espaço a terminar: acabado de se extinguir.
Estavas ao meu alcance depois um fuga demasiado extensa; de um tempo em que memórias reveladas se espalhavam por ruas onde o frio te substituiu e onde os passos que dava chamavam pelo brilho com que olhavas as mãos e depois as levavas.
O doce reencontro com imagens que se desvanecem ou a amargura de as ver queimadas nas pontas e a progressão incessante até à combustão feita em cinzas?

Madrugada : Sister

30 junho 2011

presas


( imagem de paulo nozolino )

As presas perdem o brilho no olhar, na exacta medida que a sua agonia incandesce o do seu executor: não há encanto no percurso que a leva a estados onde reina a ignição dos fascínios.
O manto a que usurpei cumplicidade levou à declinação do que eras, fazendo-te escapar entre os dedos e a desaparecer ao contacto da ausência de solo, nas cinzas da volatilização.
Tomo a recusa de recordar os cabelos em voo cíclico quando te afastas e se perde o espaço: não: não quero nem vou pensar nisso: desejas o espaço cheio de vontades; o tempo tracejado pela velocidade de que se veste o retorno; as mãos a implodir as portas de um templo sem acesso.
A voragem e a vertigem da fuga não te permitem ver-me: içaste os passos na clareira onde nunca estive e não soube se a tinhas alcançado.



the black heart procession ::: a cry for love

"Love not our love
love isn't supposed to be this way
love is a poison ring
and love has poured you drinks
now love waits for you to sleep
don't lend it to a friend
'cause you may never see that friend again
don't bother with a cover 'cause love can
pick out the fakes
but that's not our love
not our love
this crime of love
love isn't supposed to be this way
love will sting and love will burn
love will steal all you've learned
yes it will but not our love
sometimes in your back
and sometimes in your heart
it's a double edged sword
don't you bother with a cover
'cause in a crowd love can pick out the fakes
but that's not our love
not our love
(and the girls sing along) do you hear this cry for
love
do you see this crime of love
love waits for you to sleep
don't lend it to a friend
you can easily pick out the fakes
don't you see this crime of love
this crime of love holds you here
sting burn steal learn
don't turn your back on my heart
you can easily pick out the fakes"

espectro



( imagem de crissant )

os girassóis desagregam-se perante a chegada que traz as canções em que a vida se desalinhou.

perguntas-me de onde se pode alcançar o que se não perde.

sabes a resposta e no entanto olhas-me como te pudesse recusar o acesso ao segredo que te divide a linha do pensamento: perturbo-te no caminho até ao medo ou entonteço-te as vontades e as migrações do corpo?

há sombras que desaguam nas muralhas que teci para que alongasses o espectro que assola o arrojo de me dizeres que ficas.



pieter nooten : equal ways

14 junho 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110614



Uma sessão muito especial e gratificante de; e; com Cris.

JAA também em colaboração.

Sorte ou privilégio de contar com eles? Talvez muito mais que isso.

Abertura ( The End Is Not Near, The New Year ) e imagem exercidas por JAA, o fecho ( The Day Texas Sank To The Bottom Of The Sea, Micah P. Hinson ) por mim.

Ao desafio dos tópicos lançados, Cris, respondeu com canções de arraso.
Trouxe palavras de Baudelaire.
Acrescentou as suas.

Aqui ficam: para que ousem.

A Música
A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrível me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"


Canções (dos) sentidos:

visão
Show, Beth Gibbons & Rustin' Man

audição
Crushed, Cocteau Twins

tacto
Hurt, Johnny Cash

olfacto
Hollow Hills, Bauhaus

paladar
a thousand kisses deep - leonard cohen

(sentido inventado)rubor
Geek The Girl, Lisa Germano



a canção que levava no mp3 para um voo de asa delta
Viðrar vel til loftárása, Sigur Rós

uma canção que a faz mover ( ou seja A canção )
Jism, Tindersticks

uma canção para escutar num templo
em St. Stephen's Church, Mainz: Circumspection, Arcana

Uma canção mais forte do que um momento sem som
Minha cabeça estremece, rodrigo leão e herberto helder

Uma canção que representa o grito longínquo de um humano em dôr
Sanvean, Dead Can Dance

uma canção para o nascer do sol em ambiente rural
The Lake, Antony & The Johnsons



PARA GUARDAR EM MP3

Ariadne’s thread is presented to you
Go deep down into the labyrinth
Your mind’s labyrinth
Trust it
Feel it
Know it
Pick it up and go
Let yourself go
Trust you
Feel you
Know you
No thinking allowed
No words allowed
Enjoy it
For I shall tell you a secret
Silence
North
South
Nowhere
Nothing
Everywhere
Everything
Let the show begin
Got to go
Find your way back
The Thread
Use it
Wisely
Come back
Safe &
Sound

Cris

arde



O fim das tardes não era desejado apenas porque traria o início das noites que terminariam nas manhãs que nasciam e não lhes davam o fruto: conversas e viagens onde não conseguiam sair deles.

As travessias, encarregavam-se de os fascinar com os seus destinos, impeliam-lhes o desejo de as fazerem e cada um era o ponto de partida rumo a eles próprios.

Torciam-se e aconchegavam-se nas palavras; erguiam-se nelas, de troncos fundidos.
Não eram apenas blocos de letras que dançavam, antes fracturas expostas de sentidos.
Fogueiras alimentadas a aço até às entranhas: seda: a dança dos seres alinhados.

Sobre o choro bebiam-se-lhes as lágrimas: ao grito, solto, afagavam as gargantas e ao peito coberto de cinzas gélidas, dirigiam o abraço, pelas praias onde espreitavam o relevo deixado na caminhada que sempre escutavam.

A inevitabilidade da ausência de som não era necessariamente dolorosa, o silêncio marcava cada canto geográfico, ansiava pela sua rendição, vislumbrada a alegria de se terem reconhecido: sabiam que seriam regadas as palavras das temperaturas elevadas, que acolhendo, se atiravam reciprocamente - o efeito era tremendo no que provocava, acrescentado ao que sobre eles diziam, nas ruas onde as árvores largavam folhas no ritual da queda anunciada e sem opção de ocupação de espaço.

Dominavam com enorme precisão o quanto a simplicidade e as pequenas atitudes lhes cobriam cada poro: as que não se descortinam, sendo tão ínfimas, espreitavam a medo.

Partículas que estão ao alcance de uma quase imperceptível movimentação dos lábios, atirada contra uma língua quase estática, que disparava um som que os preenchia de uma forma desintegrante.
Por isso se moviam ocultas: apuravam tudo o que é verdadeiro de forma exímia - porém dilacerante; acrescentavam sorrindo, muitas vezes.

Ecoavam no que eram: atingidos em cheio, porque sentiam o que queriam ver.

Todas as noites eram de vigília: olhava-a entregue ao sono, abdicando do seu: um ser que ninguém via na sua verdadeira dimensão, num apaziguamento consigo própria que não tinha pensado ser possível atingir, porque pensava não poder conjugar ser, como o verbo fulcral das suas fracções de tempo.

Dela tudo queriam roubar, sem o saber fazer.
Pretendiam que se alimentasse de si própria - e conseguia-o de um modo pura e simplesmente espantoso - e nem assim a viam.

É: imensa; maravilhosa; vasta; querida - muito fácil gostar muito de ti – dizia baixinho, com esperança que pudesse ser o suficiente para a acordar.
Relembrava as horas que não a via e como era doloroso por vezes não a saber ou sabê-la como não merecia.
A sua distância; frieza; não esmorecia uma partícula que fosse o que por ela sentia.
O esboço de sorriso que exercia, enquanto lhe beijava a face tornava-lhe presente o que nele, ela despertava, geradores exponenciais de vontades, como um imparável vento norte num areal que atira todos os grãos de areia contra quem via agora dormir.
Tinha-lhe ouvido um dia, gostar de ser soprada por esse mesmo vento, ao longe, para que olhasse um céu laranja em chamas, a conseguir vislumbrar o que a preenchia: que lhe trouxesse o que desejou, do qual tinha até um medo sinuoso, só de pensar nisso, na preversa inocência que encerrava.

Nas mãos tinha o pequeno papel que ela retirava da peça de vestuário que abandonava no chão, no ensaio das noites até à origem dos dias:
“Estar longe de ti – como se este tipo de distâncias pudesse alguma vez ser medido - mas tão perto que veja os teus cabelos a brincar com as costas, sob a minha mão, porque a cabeça deambulou docemente num percurso cristalino entre o ombro esquerdo e o que está na zona oposta, repetido em movimentos repletos de felicidade e o teu olhar atingir um brilho que ofusque em simbiose, o céu que te incendeia.”

Por esses momentos a dor tornava-se inexistente.
A permissão resumia-se apenas ao movimento que levava os olhos a ficarem cerrados, passar todo um filme em que dançava; ria: ancorada.
Avaliava a distância e frieza que por vezes obtinha: a possibilidade de adensar sobre os dias essas componentes que queria longe: uma razão de instinto de sobrevivência, tremenda, irrefutável, fodida, a levar com toda a certeza a isso.

Mesmo esmagando toda a vontade de gritar, saltar ou pôr aqueles braços à sua volta e deixar os seus ao alcance dela.
Ou os seus dedos alcançados por aqueles que agora circundava.
Toques mínimos, suaves, de cores adivinhadas.
Dos lábios recusava falar ou pensar, porque se ficava por um olhar alinhado: com outro - num só.
Num silêncio suavemente atropelado por um dedilhar da guitarra que não se vê e se ouve a estalar quando os dedos a prendem sem a força necessária.

Quando lhe dizia que o amava, ao ver aquelas palavras, dela para ele: fazia-lhe valer a pena existir.
E ser: o que procurava atingir(-se).
Por saber que alguém o sabia assim, embora delirasse por nem sequer o imaginarem como tal.

Não tinha desistido de apreender o mito da felicidade, mas cada vez mais, não passava de um somatório omitido de pequenos momentos tornados perenes: mas não seria esse o seu princípio básico?
Amá-la era afinal um fragmento imenso: um infinito indescritível, que segurava entre os dedos, mergulhava e se perdia no seu interior.
E era tão pouco.

Queria-o cheio, repleto na simplicidade que era; doce na complexidade com que no fundo se movia.
Se a fazia sentir um ser excepcional e muito lindo, sentia-o também como uma redefinição desse conceito e a estabelecer uma nova regra: uma nova ordem da dimensão dos entes que se espelham.
Que se reflectem nos rios, se sentem nos ventos que os ramos tentam em vão alcançar e fazem parte do que cada um respira comutativamente.
Na forma em que se queriam: fossem: mais, ainda - que sonhe; dance; escreva, se preencha ao tocar as sombras pequeninas e raios de luz imensos.

Como uma canção de uma vida, os ínfimos seres que se movem e que a habitam, a que muitos chamam palavras, são atarefados e inextinguíveis artesãos dos sentidos, que o género humano, estupefacto, veja perto ou longe não consegue decifrar.

Ama ver: não ousa absorver.
Consome - não se deixa consumir: apenas em entrega total.
No abraço.
Solto numa voz trovadora. Puxada do fundo de ti, murmurava enquanto lhe guardava a imagem entregue ao sono.

“Escuta o piano como um vértice da guitarra.
Mesmo que passeies sozinho não estás só.
Até se os passos ficarem mudos na iminência de uma cegueira.
Porque isso não está ao alcance de qualquer um: e tu aí estás submerso: choras e cai-te bem a cor do espanto.
Que tal?
Deixa-me atrever a dançar olhando estas palavras, ouvindo-te cantar e tocar.
E ver.
Dar-lhes o caminho que merecem, o afago que procuram em recusa e recusam em procura”.
Relia o canto de papel entre as mãos como se fosse a segunda vez que o fazia.
Porque da primeira pensou não chegar ao fim, impedido pela convulsão.

Escutava o céu em fogo numa elegia dos sentidos: trocava as canções da ordem como pedras de uma praia onde o naufrágio lhe sublinhou os passos.
E quando conseguia abrandar: pensava - ou pelo menos ainda tentava – ao abraçar tudo isto, sou projectado contra o que tanto desejo: vida.

Perseguia o beijo: em exaustão - combustiva.
Onde soavam cordas trespassadas por dedos que tocam a sua ausência, que não apaga o seu rosto, nem extermina o teu sorriso, perante desejo em permanência.
Onde estaria?
- Dás-me licença de engolir em seco, para que nenhuma água resvale do meu corpo?
- Toda!: mas não prendas o que é livre.
Há ciclos em que te quero sem saída.
Tenho teus dedos nos meus, queria naufragar em ti, içar-te, derreter neves e beber os gelos, fragmentá-los, para me espalhar contigo - nudez de corpos adivinhados: sussurro soletrado.

Queimo agora as palavras que ocupavam as folhas que sobreviveram às dobras, nestes dias que não têm nada para dizer e não te devolvem às ruas liquefeitas, onde as faces rasgadas erguem a silhueta do que fui, sem perturbar o teu movimento ascendente - sedição de vontades largadas sob as canções de granito agora tacteadas através do recorte da sua desintegração.
Foge o teu nome resgatado do vento inane, esboço da ausência onde foi fotografada a cor da saudade, tecidos macerados pela chegada acutilante de palavras agitadas por uns lábios antes teus.

01 junho 2011

::::: creation records ::::: ten songs



Something Pretty Beautiful - Freak Outburst


Felt - Cathedral


Slowdive - Souvlaki Space Station


The Weather Prophets - Why Does The Rain


Swervedriver - Feel So Real


The Pastels - Nothing To Be Done


My Bloody Valentine - Sometimes


House Of Love - Christine


Biff Bang Pow - She Kills Me


Ride - Today

21 maio 2011

alinhamentos do fim do mundo

porque há alinhamentos do fim do mundo.

de que cor se pintam uns olhos do reino do assombro?

como se desenha um sorriso que perdura?

com a música: como apenas só ela o permite?

( )



















17 maio 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110517



( )

PARA GUARDAR EM MP3



01 Bernardo Sassetti - Passagens Pela Cidade - Parte II
02 Madrugada - Sister
03 Sétima Legião - Tão Só
04 Crystal Stilts - Shake the Shackles
05 Moon Duo - Stumbling 22nd St.
06 Jeffrey Lee Pierce - Love and Desperation
07 The Au Pairs - Come Again
08 Alan Vega - Jukebox Babe
09 The Gun Club - Sex Beat [Live]
10 Sonic Youth - Kool Thing
11 Willard Grant Conspiracy - Soft Hand
12 Smog - I Break Horses

"o brilho inapagável de um gesto suspenso
e depois a bruma no lugar do rosto que lá não está
não saberemos nunca como repetir tal brilho

nem como pedir-te essa metamorfose do terceiro corpo
que voa oblíquo no sobressalto destes dois nossos
e incandesce no passado que toda a morte não promete.

tens uns joelhos assim.
não há luz que chegue para nos dizer o que nos pode fazer
um mar atravessado nos ombros e caindo como a noite

dessa cabeça nocturna, em chamas.

ela levantou o joelho direito por entre as tuas coxas
escreveu-te a boca com o húmido sal da manhã
como se fosse uma deusa inesperada e furiosa

e cercou-te com a noite da última parede do labirinto.
Tu tinhas a dor erguida e os olhos choravam.
Chovia por entre as rochas e explodia-te nos rins

a cegueira que a olhava: dura e trémula.
Se fosses morrer logo a seguir a neve
não cairia dessa forma sobre a praia e o mundo.

mas tu morrias agora, ó amante no escuro do dia então.

estás diante do espelho e não tens nome
- é o espelho que to rouba? -

por isso podes olhar a pequena névoa da morte,
que faz um halo em redor da tua cara.
onde tens um vinco a direito, dividindo o quê?

Depois, a névoa cresce como o nevoeiro sobre um lago antigo
Sentes vagamente o arruído da água nesse espelho indeciso
e moroso como de um filme onde falam baixo.

O sopro sobrevivente faz crescer a névoa.
Escreves nela com um dedo o outro nome.
Então retiras-te longa e repetidamente como a maré

de um mar em branco

[ ... ]

tu apareces, chegas no limiar do mundo
acesa : mínima e múltipla : na sombra da música.

Que acontece agora às coisas da tarde quente
no pátio desta terra? Como
deflagra o sol sobre a multidão do santo nome
das coisas do mundo?

Uma corda azul e amarela : um hieróglifo suspenso
na parede do labirinto;
uma roseira sem a ausente, clara e perpétua;
uma palmeira como o A do nascimento

no solstício de inverno e na cantata.

Verdadeiramente o teu chamamento meu amor nu, me.
A música torna-se minuciosa e delicada, delirante
sobre os ossos que rodeiam o teu ventre rigoroso e evidente
na claridade que esta sombra esta música protege e expande."

manuel gusmão

13 maio 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110513





PARA GUARDAR EM MP3

01 Mogwai - Waltz For Aidan
02 Seabear - Cold Summer
03 Swell - Blackmilk
04 Madrugada - A Dead End Mind
05 Joanna Newsom - Go Long
06 Joy Division - Transmission
07 Beach House - RealLove
08 Efterklang - Mirror Mirror
09 Shearwater - Black Eyes
10 Get Well Soon - Aureate
11 Tom Waits - Goin Out West
12 LaliPuna - Everything Is Always
13 She And Him - Thieves
14 White Hinterland - Hung On A Thin Thread
15 Nick Cave - Loom Of The Land
16 Sparklehorse And PJ Harvey - Eyepennies
17 BRMC - Awake
18 Bill Callahan - Say Valley Maker

"Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
a minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um desespero .
fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente."

herberto helder

02 maio 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110502



( imagem daqui, de Miguel Marecos )

PARA GUARDAR EM MP3

00 (genérico)
01 Madrugada - Only when you're gone
02 Cassandra Wilson - Vietnam blues
03 Konstantin Gropper - Good Friday
04 Laura Veirs - Magnetized
05 Bill Callahan - River Guard (daytrotter session )
06 Jolie Holland - Old Fashioned Morphine
07 JBM - In A Different Time
08 Steve Adey Find The Way
09 Clogs - Last Song
10 Thomas Feiner- For Now
11 Okkervil River - So Come Back,I Am Waiting



A respiração da imagem está queimada mas os traços da alvorada dos sentidos mantém a densidade que a anatomia da intermitência invadida por vento não permite apagar.

Embalo o apaziguamento que as ideias resvalam e rendo-me ao alvoroço de uma cabeça a esbater-se num ombro para que os troncos se espraiassem escutando as vozes do apelo à suspensão das horas, ignoradas por murmúrios que o despertar adiado permitia à liberdade das estrelas que iriam mergulhar nos braços, onde a luz respira e há uma força que empurras e que tiro e movo para mim.

As tardes em que os contornos do teu rosto eram percorridos pelo s lábios a que virias a deixar de chamar teus, tornam-se perceptíveis, inundando memórias até à desejada exaustão: porosidade repleta: na exacta proporção em que cada ângulo formado pela sobreposição de olhos de fogo em contemplação.

Que elementos convocas quando observas a movimentação dos cenários devolvidos por espelhos de chuvas dos meses que te esperaram os passos? – há animais inverosímeis que repercutem ânsias de reencontros com o espanto que nunca voou de ti: reverbera-te o nome, reflecte-me a crença, perante o esbatimento de uma presença fátua, submissa à fertilidade da ausência.

Os sons, esses nunca serão de um outro tempo, porque a cartografia da cor de uns lábios gémeos de magnólias sob sóis alinhados, não será revelada, apenas para que sejamos detentores de um intervalo que contém um espaço onde a combustão se desenha pelo ponteado aleatório, por mãos cruzadas na fronteira de cada dedo, em incandescência, num tempo diferente.