31 janeiro 2011

the young gods @ hard club, porto - 29.01.2011

- com um agradecimento do fim do mundo para a Liliana Pinto, pelas imagens ( ) -



Rumo a um concerto com uma carga emocional porventura forte, as expectativas não se encontravam – propositadamente, quem sabe - muito elevadas: demasiados anos sem possibilidade de assistir a uma apresentação dos Young Gods – sim: sei que oportunidades não faltaram – e um álbum, de edição recente pouco conseguido, deitavam uns cubos de gelo na fervura, mas como veremos mais há frente, as poções e os segredos dos druidas, invertem por vezes o eixo do mundo.

Confusos? – isto ainda não é nada!: por partes, então.



A satisfação por ver o Hard Club atestado, numa cidade que quase deveria rezar por ter um espaço assim, foi um dos primeiros aspectos positivos da noite: assim como a legião de fieis, numa maré de ondas de eleição para uma noite de arraso.

Com um som, de excelente qualidade, acertado logo no decorrer da abertura com “Blooming”, fez com que “Tenter Le Grillage”, marcial, já soasse sem necessidade de mais ajustes: os efeitos sobre alma e corpo, esses ficavam por nossa conta.

A confirmação por uma passagem exaustiva por “Everybody Knows”, o seu mais recente registo, surgia e, a noite começava a ser ganha: tal como outros eleitos, os Young Gods, sabem como fazer resultar empalco, um álbum distante dos seus melhores, revestindo com a sonoridade da sua impressão digital esses temas, fazendo-os crescer de um modo incrível, cercando e manietando a audiência, tornando desatenção uma palavra proibida e entrega e devastação vocábulos mandatórios.



A presença em palco, sustentada em bateria e percussão de estouro, por Bernard Trontin, em teclados geradores de elementos sónicos em que o apaziguamento e ignição, agora entregues a Al Comet, convivem de uma forma que capturou quem acompanha a sua carreira, merecedora de admiração sem limites e imposições de regras: como se de respiração se tratasse, tudo sob o comando e poder da voz de Franz Treichler, recorrendo a contribuições simples e lineares em guitarra acústica ou electrificada. Acresçam-se as guitarras do mais recente elemento ( pelo menos desde o tremendo “Knock On Wood”, que o vejo nos videos ) Vincent Hänni e fica erguida a teia sonora que nos envolve sem remissão.



A passagem para o álbum “Second Nature”, interrompe o desfile pelo disco do ano transacto e, são das instruções às chamas para crescerem, “Supersonic” cumpriu-as de forma exímia: com um balanço intenso, o esboço de uma grande noite passa a desenho e a tela torna-se repleta com “About Time “ de “Super Ready / Fragmenté” : a ebulição atinge o auge, mas os Young Gods já estão lançados para a deflagração e retomam “Everybody Knows” com um trio de canções, que pela forma como são executadas, com uma entrega notável, uma qualidade de som fabulosa, se vão alojar perto da galeria dos seus melhores exemplares.



Os corpos na grande área do palco já não querem misericórdia, o movimento de largas dezenas, chega às centenas e forma uma massa única que pactua com um som que a faz mover: “Mr. Sunshine” – potente - aproxima-se da definição de um clássico – e, como qualquer druida o demonstra, escondendo o segredo, a guitarra acústica tocada perto de uma fogueira, pode provocar uma pré-erupção: “Miles Away” começa a mover o chão e já só se está bem longe dele.



“Introducing” num registo próximo da sonoridade patenteada em “Knock On Wood” fecha o regresso triplo ao último trabalho e abre as hostilidades, para três canções que bem poderiam ser quatro para contemplar uma de “L’ Eau Rouge”, para que não ficasse esquecido no alinhamento.

As escolhas para uma apresentação de quem tem um histórico com os Young Gods estão sempre abertas à discussão: os clássicos são sempre desejados, e a inteligência de quem domina palcos assim, sobressai: para todos os efeitos, em anteriores passagens já terão havido oportunidades de escuta das faixas dessa época, agora, poderíamos assistir à passagem de temas em estreia por cá dos seus dois últimos álbuns. E pelo menos a mim, fez-me reconhecer alguma injustiça na opinião em relação ao mais recente.



O regresso a “Super Ready / Fragmenté” é em formato duplo: com “Everythere” e - ! – com “I’m the Drug” a caução relativa à qualidade de construção do “Hard Club” esteve perto de ser executada, tal a magnitude que fez abanar a sala, dois momentos de estalo, apenas superados pelo impacto da activação dos sismógrafos da Serra do outro lado do rio, ali bem perto, quando foram alagados pelos acordes iniciais de “Envoyé” do seu registo de estreia, numa versão de sopro inclemente, a que apenas o armistício do intervalo pôs termo.



Para o encore, quase o fim do mundo: “Kissing The Sun” de “Only Heaven” – uma marca de água da torrente que eles se tornam e, “Freeze” de “Super Ready / Fragmenté”, numa performance fabulosa, em que depois de ter dançado, ter apontado focos de luz à assistência, Franz Treichler de esmerou em inventar um sentido com uma versão completamente de arrasar de “C’est Quoi C'est Ça”.

Um segundo regresso adivinhado e exigido não fosse o diabo tecê-las, uma vez que esteve convocado para uma noite em cheio e logo com “Skinflowers” do até então omitido “T.V Sky” e claro, o espaço aéreo juntou-se ao subsolo e de nós quase nada restou: brutaliciosidade: ponto.



O final para um jogo de palavras com “Once Again”, num momento de apaziguamento que continuava a parecer infernal, a que só faltou a verdadeira acepção da frase para um outro regresso ao palco que não voltou a acontecer.



Uma noite gloriosa de quatro elementos que se souberam sobrepor em palco para nos deixarem desfeitos com a sabedoria e entrega com que conduziram a actuação: com semelhanças à preparação de uma poção ou de um segredo erigido por druidas – após a recolha dos componentes por toda uma base de conhecimento (as canções ) , ajustá-las com mãos de mestre, primeiro em fogo lento, depois accionando o poder das chamas até ao limite do impossível, para um percurso com os sentidos despertos indiferentes à temperatura, para que depois de amainada, pudéssemos continuar uma noite cheia até uma manhã gloriosa: a sonoridade dos Young Gods sublinha as madrugadas e revê-los tornou-se algo de muito precioso para mim: a regeneração é feita de momentos assim.

30 janeiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110130

a vanessa fez-me o favor de disponibilizar este texto que é um assombro, depois de lhe pedir algumas palavras para o mar superior. acedi ao que podem ver aqui e, deixo-vos o meu espanto.

convido-os a verem também o seu formato original ( repito o link debaixo da frase para que não se esqueçam de clicar :) )

a minha intervenção aqui foi seleccionar sons - que se moveram em vertigem, tal a naturalidade com que se foram alinhando.

hoje não há imagens: estas palavras dispensam-nas: assim como as canções: ou melhor, desenhem-nas: quem por aqui passar.

nestes quase dois anos que tem o mar superior, as vossas passagens e os vossos contributos directos e indirectos, fazem dele um local vosso. obrigado.



para guardar em mp3

00 - (genérico)
01 - Mogwai - White Noise
02 - Surface Of Atlantic - A Land Of Long Evenings
03 - The Walkabouts - Gold
04 - The Divine Comedy - If...
05 - The Poison Tree - My Only Friend
06 - Throwing Muses - Night Driving
07 - Swans - You're Not Real Girl
08 - The Thoughts - I Wanted To
09 - Get Well Soon - That Love
10 - Smog - Came Blue
11 - Tindersticks - All The Love
12 - Joy Division - Love Will Tear Us Apart
13 - Elysian Fields -The Moment
14 - Portishead - Glory Box
15 - Sigur Rós - Agaetis Byrjun
16 - The Earlies - One Of Us Is Dead
17 - Nick Cave And The Bad Seeds - Slowly Goes The Night
18 - Spain - Ray Of Light
19 - Lisa Germano - Red Thread
20 - The Cinematic Orchestra - To Build A Home
21 - Sharon Van Etten - Holding Out
22 - Mazzy Star - Fade Into You
23 - 16 Horsepower - Heart and Soul ( joy division cover live )
24 - Echo And The Bunnymen - Ocean Rain

aqui: uma escrita de encantamento:

"Não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. No entanto é recorrente. Em mim. Não imagino um Inverno sem uma voz murmurada e familiar. Não imagino alegria maior do que uma cumplicidade secreta partilhada. Depois, resta esperar que a paz nos sorria as boas-noites num céu estrelado (que nem sempre se vê). Talvez seja difícil de entender: as frases de luz não são para todos. O silêncio interrompido naquela voz antiga de fazer crescer os sonhos: cheiros e cores de uma vida ao sol – roubar ao mundo um pedaço de vida. Deixar a alma respirar, intacta, por entre destroços de tempestades e certezas. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Fingir que está tudo bem. Livros espalhados pelo chão do quarto e ideias simples a rondarem o tecto da imaginação. Com que sonhas? Confusão. O que sentes agora? Confusão. Falta-me um tempo tranquilo. Porque há certezas que substituem outras certezas. Os dias de chuva e as saudades escondidas por detrás de uma armadura pesada – o meu peito – vieram para ficar. Mas isso não se diz a ninguém. Sente-se. E as folhas de um dourado tão triste acompanham a melancolia do vento. Há lugares, dentro de nós, perdidos para sempre. Resgatam-se, assim de repente, em acordes furiosos que reclamam algum gesto irreflectido. Não se compreende. Aqui pensa-se tudo. Os corpos enganam muito e escurece cada vez mais cedo. As mãos ficam abandonadas à procura de braços abertos que as recebam. Novo silêncio. O tempo, curador de muitas feridas, entretém-se no relógio e agora já não apetece dormir. Passamos pelos minutos – lentamente – invisíveis, alheados e estranhos. Será que há quem nos traduza? Não são precisas palavras. E o inesperado acontece: matamos coisas na vida. Assim, numa linguagem própria de quem tem medo de insistir, de magoar, ou de arder. Matamos ou morremos. Pior: sobrevivemos. Longe de tudo. E não há grito nenhum que nos salve. Ninguém nota o fio de voz – quase silêncio – que nos vai costurando o tempo. Essa certa maneira de procurar trazer à tona algumas palavras que se escondem no olhar. A dor insuportável de não mais saber agarrar a doçura de um abraço dado há tanto tempo. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Falta-me um sítio onde pousar a cabeça. Sobra-me a almofada. E resta esperar que a vida esqueça certos lugares que não morrem. As frases de luz não são para todos. Muito menos o rasto mágico de alguns momentos feitos, mais tarde, de ausências.

A memória é uma janela aberta. Digo: um espelho embaciado onde os meus lábios querem desenhar o calor dos teus, mas nada fazem. A memória – hoje – é quase aquele lugar distante de onde tombam tantas vontades que se calaram muito antes de existirem dentro dos olhos. Neste momento – os meus cabelos crescem para longe e os teus pés já não estremunham ao mínimo suspiro. Não temos culpa – nem sequer tristeza. O interior do corpo ainda se revolve subitamente – vezes e vezes sem conta. Mas a boca é um sabor estranho que não consegue obedecer ao desejo. As mãos – há muito atadas – não têm destino certo. Eu já não coro, tu já não ris. O amor continua: deixou só de ser aquele fogo iluminado. Porque ardeu até ao fim. Os braços já não são frenéticos e quentes – procuram um lugar noutros espaços. Quisemo-nos perfeitamente diferentes e puros na nossa transparência. Todos nos viram: subimos ao cume das nossas feridas e transformamos o céu da nossa vaidade. O pó aceso dos fins de tarde - sorrisos - e o terror dos abismos. Tudo isso: vida. Fomos lugares abrigados do mundo – somos agora um clarão que anuncia a liberdade de existirmos noutras vozes – e seremos espelhos abertos por onde se pode caminhar.

É fácil perceber porquê. Digo corpos transparentes como quem diz múltiplas formas de nascer. E depois desacredito-me. Deixo-me voar – presa por várias linhas – e desfaço-me em lugares suspensos, inventados num último suspiro: abismos que se abrem à passagem de umas mãos feridas - as tais. Entristecem-me estas paredes brancas que são tudo menos espelhos abertos. Caminho para ti e, tem vezes, o pecado traz prazer nas mãos. Aguardo uma permissão consentida que anuncie a primeira cura para um coração insuflável. Alimento sonhos mudos que se derretem no céu-da-boca e não aguento o frio das horas alinhadas em esperas: uma herança demasiado pesada que irrompe numa plenitude desequilibrada difícil de entender. São sentimentos afastados da perfeição, partes ínfimas do coração que não temem a fogueira dos teus braços nem a inquietude escorregadia dos teus olhos. Confesso: não tardará a doer. O teu sorriso como um golpe que me deixa sem abrigo. Esta caneta de tinta azul, em jeito de entrega, a desenhar tempestades no papel. Uma contaminação de cores – são árvores sem fronteiras, o vento em rodopio, a largura do sol a percorrer-te a pele. São os meus cabelos a treparem os teus ombros, uma explosão de frutos na tua boca. É a noite escondida num fogo atiçado, uma vibração proibida pelas leis do universo. É o silêncio. A probabilidade da paixão balança no meu colo. É uma carta quase fechada. Não ta sei dizer. Falo-te com a voz do peito e acho que não sabes desta necessidade iminente que me assalta à soleira da porta: é o amor a querer sair à rua. Uma condenação capaz de virar do avesso a sequência ordinária dos dias. São vontades desimpedidas que se enrolam na língua, intenções de um início sem fim: uma fonte estagnada transformada em corrente. A pele como um feixe de luz: a promessa de uma combustão lenta. Um compasso feito de entregas. Faúlhas de desejo que se libertam no ar: digo amor como quem diz segredo. E ando em círculos até que a dança dos erros me faça cair no chão. Ainda assim, o querer correr. Perdida. Percebes?

Do que (ainda) não te disse: aproximei-me apenas para te saber o nome e demoreime mais do que devia. Logo ali: os olhos a verem duas mãos estendidas como quem diz abraça-me. E o coração a saltar do peito em direcção a ti. Imagino que não fiques para sempre; talvez queiras partir livre para a próxima condenação. Isto sou eu a dizer: és como as plantas abertas a qualquer espécie de luz. Naquela hora entrou pela janela um vento morno. Tu a conduzires e árvores e nuvens e cores a acontecerem-nos enquanto a tua mão ainda não sabia bem se havia de pousar na minha perna. Uma viagem e o sol atrás de nós. Foi assim que a tempestade se deu. Lembras-te? De seguida formou-se uma nuvem evaporada junto ao meu umbigo. E tu bebeste-a um pouco mais. As mãos afastadas do corpo – e os dedos sequiosos de chuva. Chegaste sem que ninguém te visse – em erupção – e fomos como espíritos a verter alimento em todas as fontes luminosas. Reconheci-te. E agora que falo – e sinto – sei que essa luz é indizível. Porque é capaz de alcançar uma beleza imaterial que – perto (ou dentro?) de mim – melhor me pertence. Tu como braçado de luz. Os corpos afectados pela cor; contaminados depois pela escuridão e pelo cheiro. Coisas que a noite nos faz em maior intensidade que o dia. Digo do meu amor – lembro-me que cresceu até amadurecer: foi uma transpiração cada vez mais íntima até se transformar em outras formas de linguagem. Também posso dizer dos girassóis, dos beijos roubados e do nascer do dia ao teu lado ou de qualquer outro retalho do tempo. Os corpos que continuamente se oferecem à divindade e à claridade. E ainda que tudo me pareça um pouco indefinido isto sou eu a dizer: leva-me contigo. Que seja amor – rua com ele! – se até somos nós a atiçar e a habitar as nossas - tão nossas - evidências.


Antes de ti houve quem me ensinasse a amar o corpo com ternura e malícia, quem desvendasse segredos, curvas e imperfeições. Quem me elogiasse os olhos e dissesse: são os mais bonitos. E – em verdade – eu acreditei até ao fim. Antes de ti alguém abriu a ferida e tornou-a irrespirável. Houve quem me sabotasse o sorriso e me roubasse a fé com cobardia e desdém. Antes de ti já existia o amor no dicionário. Em mim também. Antes de te aproximares já eu me passeava com os teus livros, sublinhava vidas sem pedir licença e suspirava ao som da tua música. Houve tempo para chorar todas as descobertas e perdas antes que pudesses abraçar-me e tocar-me no fundo. Antes de ti maldisse todas as zangas domésticas e mais algumas. E tu? Desfiz promessas e caminhos. Voltei atrás. Antes de ti senti-me perdida – amada – fingida. Julguei-me abatida e a ti descrente. Antes de ti já eu escrevia para espantar o medo. Agora que me lês – aqui fora da vida – falta-me tantas vezes o ar. Mas antes de ti já eu sonhava contigo. Antes de mim – quero acreditar – tu quase nunca sentias. E nem eu - antes de ti - me atrevia a quebrar tão prontamente.

Se eu tivesse a idade das fadas podia escrever-te poemas sobre a coragem de voltar aos abismos. A mão divina por baixo da minha a fazer-nos esquecer demónios e domingos de chuva violenta. A rapariga complicada converteu-se em mulher de ancas largas: é assim que se suporta o peso da sombra? O ciúme imperdoável a magoar os nossos olhos míopes, meu amor. A guerra já terminou e para trás ficaram esses quartos caros e sujos. À custa de tamanha misericórdia experimentei vestidos antigos e beijei-te a boca tantas vezes que não senti o frio a bater à janela. Sei – se não tivesse sido assim – a paixão jamais seria digna de me visitar o corpo. A vida é mais simples à beira-mar, estamos certos. Se eu ficasse no teu colo, com o meu cansaço a rodear-te a cintura e eu a virar-me na cama, a suspirar no teu ombro – os cortinados tratariam de esconder o amor a quem passa. Trazemos connosco poesia bastante para curar uma tristeza que parece não sarar nunca. Somos vento: não nos sobrou nenhum ódio para escorrer entre os dedos. Lá fora continua escuro - depois do vinho que se derramou sobre nós. Agora estou só e posso repetir as nossas juras eternas. Atámos corações quebrados a uma cama vazia, assim sendo importaram os braços – o tempo morto e as vidas dilaceradas. Fazer de conta: nada entendemos da solidão. Dispo-me para me veres melhor ainda. Dormir não nos deixa mais felizes – porquê? Os dias acabam e a lucidez dói-nos na pele quando nos dizem que a ilusão é pecado. Podíamos fazer um nó cego dentro do nosso abraço e pedir desculpas sentidas após a tempestade. Tenho boas memórias dos dias em que nos conhecemos: sabes bem que cair é mais difícil do que parece. Eu mentiria se dissesse que a poesia me faz bem: é apenas uma partilha desesperada que não cura. Gosto de palavras doces e tenho ainda açúcar debaixo da língua. Apesar disso é capricho meu achar que já não habito tudo o que pode doer. Nascida às tuas mãos, é assim que a tua ternura ferida me invade. E eu deixo."

29 janeiro 2011

(songs of devotion) mogwai . secret pint

"obrigatórios para viagens longas na paisagem rural": mandatórios para dias que se enchem com sons escritos nos mapas do assombro.



raptado a Cristina Monteiro

(porque um post (também) está sempre em construção): um comentário para destaque: "Pessoalmente em Viagens longas de paisagem rural, das que partem do centro da “terra”, até as extremidades dos “dedos”. Onde a cartografia dos sentidos interiores permite-nos construir um mapa para além do embrulho em pele e desenhar uma extensão maior de nós mesmos."

25 janeiro 2011

joanna newsom @ casa da música, porto - 24.1.2011



Gostava de vos poder falar sobre um concerto e de ter a agilidade para fazer com que o que agora começam a ler tenha o sabor de uma conversa, aqui na sala.
Sem som a envolver a troca de palavras, com a iluminação do espaço a permitir que todos alinhássemos recordações sobre o que assistimos, mesmo que o não tenhamos entendido.
Ou fosse questionado, por quem não se pôde deslocar dia 24.1.2001, à Casa da Música, até ao detalhe mínimo o decurso de praticamente uma hora e meia, ou se preferirem a massa ao tempo, quilo e meio mal pesado.

Um concerto de Joanna Newsom é uma operação a cérebro aberto: até a ingestão de água por mais pura e cristalina que seja, a pode tornar substância propícia a combustão.

O regresso de Joanna Newsow a Portugal, para uma trilogia de espectáculos com inicio no Porto, meio em Aveiro e fim em Lisboa, dá-se quase quatro anos depois da apresentação memorável no Theatro Circo e a da recorrente Lisboa, que acredito ter sido excelente e um ano depois da edição do triplo álbum Have One On Me , que marcou o ano de 2010 e fez aumentar a satisfação pela escuta do disco, a cada audição.

Numa sala esgotada, a concentração de instrumentos ao centro do palco, com aparência de demasiado vasto para o volume que se preparava para suportar e, depois, afinal tão exíguo para conter sons da suspensão do tempo contínuo.

Olhando para o palco, a harpa dourada, milimetricamente a integrar o núcleo de um espaço - que não conteria o manto sonoro preso por muito mais que escasso segundos – com o piano a guardar-lhe a margem onde não se vislumbrava gente. Do lado direito a área para a secção de metais entregue apenas ao trombone de varas e mais à direita ainda, a zona onde uma bateria e elementos de percussão viriam a atingir uma dimensão inverosímil.
Retornando ao objecto fulcral, à esquerda o local onde habitariam as cordas: primeiro os violinos, mais à esquerda ainda a guitarra, banjo, tambura búlgara e a intromissão da flauta.

Um começo a três, com a chegada de Jonna Newsom em vestido vermelho e curto, pela ordem que vos for mais significativa, a anteceder os passos descalços de Neil Morgan em direcção ao seu mundo muito próprio, onde se entregou a uma forma impressionante de tratar a percussão e, os que tiveram de percorrer menos caminho e que pertenciam a Ryan Francesconi para tecer a malha sonora de sustentação à voz da estratosfera que com as cordas da harpa e as que depois de batidas pelas teclas do piano, fizeram com que Joanna Newsom desenhasse autênticos mapas de cosmologia emocional, que não nos conduziram a nenhum local específico e, nos fizeram isso sim, perder em nós.

Para abertura, “Book Of Right –On” pertencente a The Milk-Eyed Mender: banjo; percussão, harpa – claro – voz – mais claro ainda – a indiciar que nem só do álbum mais recente se escreveria esta noite.

Com a chegada dos restantes elementos, duas violinistas e do representante dos metais, a apresentação de todos eles por um rosto a irradiar simpatia e a primeira incursão em Have One On Me, para uma dupla passagem com o titulo-tema e “Easy”.

Perante uma acústica assombrosa que a sala permite, a arte de fazer parecer pequeno o espaço para uma densidade sonora deslumbrante, com músicos de um nível elevadíssimo, a construírem em palco uma atmosfera inacreditável e fazer sair dele os sons da desintegração: ganhava corpo o desfile de temas para uma noite histórica.

Com dois exemplares de eleição de um álbum de luxo, a bateria a ser tratada de uma forma meticulosa em todos os seus componentes com os cuidados que se dedicam a peças de precisão e elementos raros no inventário do universo.

E a voz: incansável e arrasadora, sempre do princípio ao fim dos temas, num desempenho sem qualificação possível, com a tremenda característica de parecer não possuir dificuldade de geração e ser mesmo assim: génio, como se chama a este tipo de coisas.

A voz evoluiu imenso desde a ultima vez que foi possível escutá-la e aí parecia que tal não poderia vir a suceder: em “Easy” principalmente, o colapso esteve perto e os estados físicos começaram a baralhar-se. O trombone e a flauta destacaram-se pelo modo como confundiram intromissão com convocação. Brilhante e uma noite conquistada: ganha, logo ao terceiro tema.

O aspecto negativo da sala - as suas cadeiras - desaparecia: afinal não faziam falta: o contacto do corpo com elas sumia-se, porque começava a ficar a milímetros delas, que entretanto se afastavam umas das outras: ou uma certa forma de levitação ou planar à vista.

Piano deixado para trás, para o regresso à harpa e a incursão em Ys com ”Colleen”, a mostrar a arte de uma canção que tem várias dentro de si, e onde não se distingue onde começam umas e acabam as outras.
Do EP Joanna Newsom and the YS Street Band, depois da referência ao quanto gostava do país, da sala, da cidade e da comida, o regresso a The Milk-Eyed Mender com “Infamatory Writ”, ao piano, a marca de água de uma canção em sobreposição ao tempo em que é gerada, confundindo-se com a era em que é escutada; a contagiar: no rapto da corrente sanguínea; quando passa de ser invasor a ente dominador.

Mantendo-se ao piano “Soft As Chalk” com a guitarra a ganhar terreno e a perdê-lo para o banjo, tocado de forma minimal, extraindo-lhe os sons da simplicidade, que ficava atónita perante a actuação de Neil Morgan, pontapeando o bombo descalço, tocando com as baquetas na parte de madeira do set e inventando percursos para a pandeireta e outros objectos ao alcance da mão.

No regresso à harpa, a vez do grande tema de Ys, “Cosmia”. Não deve ter ficado um único instrumento em palco por tocar – até um berimbau - e o piano sem ninguém a lembrar-se dele, sorriu; entregue, perante o templo sonoro erguido: é nesse exacto momento que somos tragados pelo turbilhão de quem inventa mundos dentro de uma canção: com interpretações decalcadas do espanto; com letras memoráveis atiradas por uma voz incessante do primeiro ao último sopro; numa sempre desigual luta ”corpo-a-corpo”, “rua-a-rua”, com os instrumentos apaziguados nas sua existência, a respeitar cada partícula do espaço entre si.

Joanna Newsom regressa ao piano para assinar vários grandes momentos: o comentário: sempre que tocam o tema que se aprestam a iniciar, costumam questionar se há algum trombonista na plateia, mas hoje não o iriam fazer, porque tinha visto umas dezenas por ali quando tinham estado a ensaiar – pudera – por isso limitava-se à presença de Andrew Strein, que elogiou. Da mesma forma como se referiu e agradeceu a todos os seus cúmplices de gravações e actuações e até a Alisdair Roberts, que assegurou a primeira parte da noite.
Para a memória colectiva fica “Good Intentions Pavement”! - Não são decisivos para a constituição de uma canção ou de um álbum, a potência; o volume; a massa de que se compõem: mas quando o golpe de asa leva à tridimensionalidade emocional, arrasada pela aparição de um detalhe de imprevisibilidade absoluta, que nos leva a carne de surpresa; rouba o vento e nos mistura com os elementos que a Natureza abandonou à sua sorte.

Anunciando o último tema da noite - mais elogios para a Casa da Música e transmissão da satisfação tida pela sua mãe por assistir a um concerto na véspera - a possibilidade do terceiro tema de Milk-Eyed Mender ser executado: “Peach, Plum, Pear” , sons de devoção para um fecho de certa forma anunciado, a reger-se pelos alinhamentos dos concertos mais recentes.
Saída com “standing ovation” prolongada e regresso para interpretação a solo de “On A Good Day”, um pequeno exercício do último trabalho, para a convocação final, que motivou gargalhadas.

Com a certeza de uma actuação muita curta a ameaçar tornar-se isso mesmo, "Kingfisher" e "Go Long" ficam como as perdas da noite - não se pode ter tudo - para o final havia um desejo que se transformou em certeza: entregue a “Baby Birch”.

A execução dos primeiros minutos do tema em que apenas se escutava a voz e a harpa e corpos a tremer, guitarra em espasmos a espaços, definindo novos rumos para a geografia emocional, deu lugar à explosão de vozes, palmas e percussão, para retornar à voz de Joanna Newsom, para nos levar à viagem terminal no albergue nocturno da voragem dos sentidos.

23 janeiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110123



(imagem de sérgio seixas: clicar para descobrir mais)



00 (genérico)
01 thirteen moons - origins
02 world of skin - 1000 years
03 atlantic surface - (sea)
04 rafael anton irisarri and benoit pioulard - until then (broadcast cover)
05 young marble giants - choci loni
06 spires that in the sunset rise - red fall
07 silver jews - sleeping is the only love
08 gustavo santaolalla - iguazu
09 thirteen moons - undercurrent
10 the savings and loan - a pleasing companion
11 barzin - cruel sea
12 hello blue roses - shadow falls
13 yuck - rubber
14 yann tiersen - fuck me

MP3 para guardar

"Mal o padre apareceu entre os dois alisares brancos de carvalho, houve um homem que trepou a um dos bancos e, numa voz altissonante, pediu silêncio. Diminuiu o rumor. Reinava agora, por toda a nave, urna calma atenta. Os olhos de Jaimemorto davam-se conta do sem-número de luzes que havia suspensas da abóbada, as quais lhe permitiam apreciar a amálgama de corpos entrelaçados uns nos outros, esculpidos ao longo do travejamento, e o vitral azul do altar.
— Venha chuva, ó padre! — disse o homem. A multidão repetiu em uníssono.
— Venha chuva!...
— O sanfeno está seco! — prosseguiu o homem.
— Venha chuva! — mugiu a multidão.
Jaimemorto, completamente ensurdecido, viu o padre estender o braço a pedir a palavra. Acalmaram-se os murmúrios. O sol matutino flamejava por detrás do vitral azul. Custava a respirar.
— Povo desta aldeia! — disse o padre.
A sua voz, imensa, parecia saída de todos os lados, e Jaimemorto adivinhou que só um sistema de amplificação lhe permitia atingir tal volume. As cabeças voltaram-se para a abóbada, para as paredes. Não havia qualquer aparelho à vista.
— Povo desta aldeia! — disse o padre. — Pedis-me chuva, pois não a tereis. Viestes hoje, altivos e arrogantes como leghornes, confiantes na vossa vida carnal. Viestes, como insolentes pedinchões, exigir o que não mereceis. Não, não choverá. Para o vosso sanfeno, está-se Deus nas tintas! Curvai o corpo, curvai a fronte, humilhai vossa alma e eu vos direi a palavra de Deus. Mas não conteis com uma só gota de água. Isto aqui é uma igreja, e não um chuveiro!
Perpassou pela multidão um murmúrio de protesto. Jaimemorto achava que o padre falava bem.
— Venha chuva — repetiu o homem empoleirado
no banco.
Depois da sonora tempestade da voz do padre, o seu grito pareceu irrisório, e a assistência, consciente da sua inferioridade temporária, calou-se.
— Pretendeis crer em Deus —tonitroou o padre — só porque vindes à igreja aos domingos, porque tratais com dureza o vosso semelhante, porque ignorais o que seja a vergonha, porque a vossa consciência vos não atormenta...
Mal o padre pronunciara a palavra vergonha, ergueram-se protestos daqui e dacolá, a que outros fizeram eco, acabando por rebentar tudo num grito arrastado.
Os homens, de punhos crispados, contorciam-se nos seus lugares. As mulheres, mudas, apertavam os lábios e olhavam para o padre com um olhar pérfido. Jaimemorto começava a perder o pé. Quando o tumulto se acalmou, o padre retomou a palavra.
— Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! —berrou ele.— Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no Sol, é Auteil, é Passy, é as sotainas de seda, as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!
— Queremos chuva — berrou o orador, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.
— Voltem para as vossas quintas! —mugiu a múltipla voz do padre.— Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a seus olhos."

BORIS VIAN de "O ARRANCA CORAÇÕES"

porque poderá ser imperdível




José Afonso . Todas As Canções

22 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: barzin . autumn moon





Da estreia de 2003 de Barzin H. : uma canção das que atravessam um dia: e se movem para além dele.

Autumn and moon
When will you come?
To take me
Far away from me

Autumn and moon
All night long
All these lovers are
Out in the streets

It's the autumn call
In me now
It's the same song

Always the same song
Always the same song

And you find yourself
Waiting by a window
With all this music
In your arms

Autumn and moon
I sleep all day long
And at night I go
Walking the streets

Autumn and moon
All night long
All these lovers are
Out In the streets

It's the autumn call
In me now
It's the same song

Always the same song
Always the same song

And you find yourself
Waiting by a window
With all this music
In your arms

21 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: marc seberg . jours après jours



há sonoridades de se contactam em eras impróprias para o seu apagamento.

ficam incrustadas nos nós dos dedos e as mãos não movem sem ela: a sonoridade que se prega aos passos que se exercem até aos dias de hoje.

a noção do tempo é demasiada exacta e esclavagista para não ser posta em causa.

o som seco desta bateria e percussão sustenta guitarras sulcadas temendo uma voz que nunca explode, nem em templos dourados, teatros do tempo ou migrações do fogo.

uma vez que os títulos de yukio mishima e manuel gusmão são roubados, o balanço impele citações de estouro: como o que ecoa desta canção desde gravações de extractos de tardes, em cassetes, geradas de uma rádio "de um tempo ausente" que se vai tornando "contínuo".

de 1983 para os dias de séculos a desenhar, dias após dias, quando a intemporalidade alavanca uma canção, que se escuta como se de uma peça desconhecida se tratasse ou de algo incorporado em nós.

"mas eu tivera a impressão de que os anos que decorreram reduziram pouco a pouco essa distância, e que desta vez eu chegara à meta. Depois de tanto fraccionar desde esse dia o tempo em pequenas durações, iria certamente obter a chave da misteriosa cena de Tenjuan. Tinha de ser assim, pensava eu. Tal como o aspecto do globo se modifica quando é tocado pela luz de uma estrela afastada, era fatal que se tivessem produzido alterações nesta mulher. Se no dia em que a vira do alto da porta do templo, através de uma antevisão daquilo que acontecia hoje, nos uniramos, bastariam alguns retoques para apagar essas alterações, devolvendo-lhe o seu aspecto de outrora; e aquele que eu fora e aquela que ela fora poderiam então encontrar-se hoje frente a frente." - yukio mishima - o templo dourado.

"A história, não enquanto escrita dela, mas como fazer da história e, por isso, a questão do tempo é, para mim, uma questão fulcral.
Nós temos vários modelos de entendimento do tempo. Por exemplo, o rio e o passar das estações dão-nos imagens diferentes do tempo. O rio parece sempre irreversivelmente ir numa certa direcção, tal como a flecha que se atira e que voa em direcção a um alvo. O rio e a flecha dão-nos um tempo irreversível, contínuo. O tempo que fatalmente vai dar à morte (ou ao alvo, no caso da seta). É sempre um sítio que nós sabemos que é a morte, ou o mar onde desagua o rio, etc. Mas, por outro lado, o passar das estações, ou uma árvore daquelas que perdem as folhas no inverno ou no outono e renascem na primavera dão-nos uma imagem perceptiva do tempo cíclico. O tempo cíclico foi sempre utilizado pelas sociedades humanas como uma maneira de esconjurar ou de conter o medo da morte, porque o ciclo promete não apenas a passagem dos tempos, mas também a esperança, a promessa de um renascimento constante. Por outro lado, há ainda uma figura do tempo que é a do instante em que se corta ou dá um nó na linha do tempo e isso pode introduzir uma outra temporalidade. Portanto, nós temos uma diversa concepção do tempo a partir de diferentes experiências sensíveis. Isso interessa-me. Por outro lado, a temporalidade histórica acrescenta mais outras figuras a estas. A temporalidade histórica, para mim, é muito pensada na base de Walter Benjamin, como algo que implica o corte do tempo uniforme, contínuo, homogéneo, e esse corte é a possibilidade de um tempo messiânico, embora sem Messias. O que se diz para o messianismo vale também para o materialismo histórico? O que é a revolução? A paragem do tempo e o fato de ficar no limiar do tempo, como se o tempo recomeçasse. O tempo vai (re)começar outra vez. Ora, nessas minhas ideias, a temporalização do espaço é facto fundamental para responder à espacialização do tempo, porque a espacialização do tempo, digamos, espalma e reduz a espessura temporal e distribui-a por um espaço. As cidades contemporâneas, por exemplo, uma cidade que tem um certo passado dá muito o exemplo disso. Nós vamos a um espaço, a uma rua e temos edifícios que vêm de períodos diferentes e que se dispõem num mesmo plano espacial. Em Lisboa,
podemos ver isso, podemos ver o tempo espacializado. Por exemplo, pensar em certo tipo de construções arquitetônicas. Podemos ver um edifício todo em vidro ou em metal, mas que tem bocadinhos de parede antiga, que pode ser medieval, incrustados ainda. Ora, o que isso significa? Temos aí uma espécie de objetos que marcam diferentes tempos e, quando eu vejo o tempo espacializado na rua, posso em qualquer momento isolar um edifício e dizer: “Este edifício foi construído em 1940 e este edifício, ao lado, foi em 2000”. O que é que os diferencia? O tempo pode introduzir-se no espaço e mostrar que o espaço está disposto segundo um tempo. São figurações que restaram do tempo passado. Por exemplo, há ruas de Lisboa de onde desapareceram os prédios que eu conheci quando era jovem. Eu sei que estava lá outra coisa e dessa coisa não ficou nada, mas, se eu for trabalhar com documentos sobre aquela rua, encontrarei a prova disso, de que ali estava um edifício que lá já não está. Tudo isso é tempo. Portanto, o tempo, para mim, é, também e ainda, a promessa de sua interrupção, enquanto história já contada, e de começo de uma outra história ou de um outro tempo." manuel gusmão - ABRIL – Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 3, n° 4, Abril de 2010.

20 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: silver jews - pretty eyes



apenas um dos quase infinitos pontos que a linha de guitarras dos Silver Jews uniu sob a voz David Berman.

escavações e escalamentos, aliados a voos e a palavras que vogam, como só quem as alinha com a mestria de uma história de mistério e peregrinação, durante o sequestro ou exílio de memórias de sonhos que perderam a sua sombra.

gravada em 1996 para o álbum "The Natural Bridge", mais uma canção, de que o trio Berman/Malkmus/Nastanovich se pode orgulhar, para o usufruto de quem a agarra para atravessar todos os dias.

primeiro na versão de estúdio, agora como elemento contido na sua última actuação - segundo reza o sempre falível comentário deste formato - sempre com as palavras anotadas nas mãos:



Everybody wants perspective from a hill
but everybody's wants can't make it past the window sill
I can see you in yourt room at night
the pictures on your walls
little forest scenes and high school halloweens
but they don't come to you
they don't come to you at all

All houses dream in blueprints
our house dreams so hard
Outside you can see my shoeprints
I've been dreaming in your yard

One of these days these days will end
Thru the kitchen window the light will bend
You'll be carving a pumpkin with a knife
when someone at the table says
"that's not what I call a life!"

The elephants are so ashamed of their size
hosing down I tell them "you got pretty eyes"
Out in the backyard I used to make like I was a cowboy
I'd set my dog before a hoop and say "now boy, now boy!"

When the governer's heart fails
the state bird falls from its branch
Icicles on hell's higher hills
Meanwhile back home at the ranch
I still get up early in the morning
and I never knew a better place

I believe the stars are the headlights of angels
driving from heaven to save us
to save us
Won't you look at the sky?
They're driving from heaven into our eyes
and though final words are so hard to devise
I promise that I'll always remember your pretty eyes
your pretty eyes

17 janeiro 2011

a canção que vai encher o dia: balmorhea . remembrance



uma canção sem palavras: não a vou importunar: toquem com fogo escutem com ele também.

a canção que está a encher o dia: Cabaret Voltaire . Sensoria





a sonoridade que enche um dia e atravessa décadas

de sheffield para o mundo

um single de novembro de 84 até hoje

stephen mallinder, richard h. kirk e chris watson com um dos melhores exemplares dos cabaret voltaire: a re-escutar ou a descobrir: sem data e hora marcadas

16 janeiro 2011

até as sociedade mais primitivas admitem os seus loucos 20110116



A Noite do Rio das Cores

(genérico)


O recorte desta transparência deixa-se tocar: agora que te levou obliterando o sorriso solto pela portada vermelha, que em cascata insistia abraçá-lo: ao rio que te encontrou e não te traz.

Espelha a serra depois de declinar o movimento irrepetível: não o omite: não esqueço a noite.

A calçada ilumina-se ao adivinhar teus passos: mordidos de forma ténue por bocas insubmissas à voracidade do silêncio.
Nem ai surge a ousadia de o interromper: não é o rio que todos julgam ver.
As correntes que lhe sulcam o percurso, parecem torcer-lhe a génese: muito poucos: num só: afloram a percepção do que verdadeiramente significam as convulsões que o esmagam: do mesmo modo que o regeneram.

Cars Are Crashing - Turning The Wind Against Us


Porque me entrego à força que me engole e não expludo os braços: os meus e os dele?
Rio das cores?
- Rio das canções: as que se escutam quando impera o silêncio.
Rio que desce?
- Rio que cresce!
Aprende, quando consome quem por ele é tocado.
Rio das cores?
- De todas: do verde: límpido lento: vertiginoso barrento.
Rio negro onde mergulha o manto branco.
Rio alvo que dança incluído nas canções que não se conseguem desenhar.

Relembro a fotografia enrugada pelas marcas do tempo e da acção dos demónios que a sonhavam perdida: o que ele agregava na sua descida quando imaginavam divisão: o que aproximava o que julgavam perdido.

Esben and the Witch - Warpath


Respira branco; move-se único: serpenteia de alma negra: pescadores de almas de dedos marcados pelos cortes explodem no coro que o enaltece: o cântico lânguido pela espera de quem não volta: branco: o canto que abandona os peitos em chamas e que escuto ao percorrer o relevo desta imagem com os olhos agora cerrados na recusa mais legítima: porque tens os montes iluminados nas tuas costas?
O que celebras?

Caminho para ti só para tocar o que definiste como o teu limite: o esbater do brilho que afinal nunca possuí: aquele que restituíste.

Estas margens nascem quando respiras na passagem em ciclos: voltas quando te supunham sem regresso: a doce dança da saudade: branca: dilacerante negra: caleidoscópio a preto-e-branco: para quê o superlativo das cores bastardas?

Bear Driver - No Time To Speak


Como tantos mergulham e não vêm o que se move nesse fundo tão alcançável?
Para quê tantos artefactos, se não necessitar de respirar é o todo: branco: e desejar que seja perene o nada negro: círculo em arco do espectro solar genuíno: branco na imensidão: negro no que cobre: a canção não afaga como o negro Sol: a inatingível sobreposição da cor que é única.

Os raios ecoam agora: quem por eles será atingido: quem os procurará?
Continuas a olhar para mim?
Vens escutar as canções que te atiro?
O que espalhas sobre mim, desse teu encantamento?

The Cure . Three Imaginary Boys


Esculpi estes jardins para que os banhasses no teu movimento: suspendo-os depois para que os busques: iças a vastidão dessa massa branca para que roube, simbiótica, o negro?

Há sereias que largam os mares para em ti florirem: querem beber desse negro: dormir sobre esse branco: como se reflectem nesses espelhos que inventam a simetria das cores: a dança das quantidades discretas: o domínio da matéria e da luz inventado para os Deuses, que repletos pela sabedoria concedida: não sabem como usar as mãos agora desfeitas: membranas de sangue: negro no vento: branco no galope: “branconegro” no mergulho para a conseguir aflorar.

Arborea . Dance, Sing, Fight


Afinal esses seres são descendentes de luz: encantadas pelo som: com trocas desejadas.
Por todos passas rio: nesta noite branca que convoca a noite negra para a pugna das cores que se abraçam.
Os pássaros que se beijam sentirão que o voo suspenso os leva aos mais distantes e escondidos destinos da migração das cores?
O silêncio subdivide-se na dimensão da criação dos processos naturais: porque sorriem nessa dor quente?
A pergunta desiste: porque trocaram os mares?

The Cloud Room - Hey Now Now


Outra nação se alcança na tua travessia: todas as outras por ti são alcançadas e recolhem as suas bandeiras: as torres choram agora, brancas sobre as pedras negras.

As ruas da cidades tornam-se um absimo quando não sei em qual delas estás.

O fogo branco invade agora o céu negro: nunca a magnitude das cores universais esteve tão perto de gerar os passos cósmicos com que de mim te aproximas: como a ti estou tão entregue: apenas me vejo em ti na imponente escala atómica: negro simples: branco inteiro: a ocupação do espaço pelo objecto da tua dança nem se escuta: estes braços já não são meus.

Her Name is Calla - A Blood Promise

a canção que está a encher o dia : Cars Are Crashing . Turning The Wind Against Us



quando se contacta com uma boa surpresa, com uma sonoridade que se agarra à pele, não há nada a fazer, o modo de repetição impera, a inspiração dispara, o dia enche-se.

a ousadia da escuta, mais uma a dever ser posta à prova.

14 janeiro 2011

as canções que estão a encher o dia: The Chameleons . Second Skin e Elysian Fields . The Moment



One cold damp evening
The world stood still
I watched as I held my breath
A silhouette I thought I knew
Came through
And someone spoke to me
Whispered in my ear
This fantasy's for you
Fantasies are "in" this year

My whole life passed before my eyes
I thought
What they say is true
I shed my skin and my disguise
And cold, numb and naked
I emerged from my cocoon
And a half remembered tune
Played softly in my head

Then he turned smiling
And said
I realise a miracle is due
I dedicate this melody to you
But is this the stuff dreams are made of?
If this is the stuff dreams are made of
No wonder I feel like I'm floating on air
Everywhere
It feels like I'm everywhere

It's like you fail to make the connection
You know how vital it is
Or when something slips through your fingers
You know how precious it is
Well you reach the point where you know
It's only your second skin

Someone's banging on my door

Alternative Lyrics from Marks songbook (Dearest dead days):
One cold damp evening
The world stood still
I watched as I held my breath
A silhouette I thought I knew
Came through
And someone spoke to me
Whispered in my ear
This fantasy's for you
Fantasies are "in" this year

My whole life passed before my eyes
I thought
What they say is true
I shed my skin and my disguise
And cold, numb and naked
I emerged from my cocoon
And a half remembered tune
Played softly in my head

Then he turned smiling
And said
I realise a miracle is due
I dedicate this melody to you
But is this the stuff dreams are made of?
If this is the stuff dreams are made of
No wonder I feel like I'm floating on air
Everywhere
It feels like I'm everywhere
It's like you fail to make the connection
You know how vital it is
Or when something slips through your fingers
You know how precious it is
Well you reach the point where you know
It's only your second skin
Someone's banging on my door





I was lost
I was found
I was free
I was bound
The moment my eyes struck yours

I was old I awas new
I was born I was throught
The moment my eyes struck yours

I was strong I was weak
I was fearless meek
The moment my eyes struck yours

I was troubled
I was calmed
I was naked
I was armed
The moment my eyes struck yours

The moment my eyes struck yours
The moment my eyes struck yours

I was lit
I was dark
I was a flood
I was the ark
The moment my eyes struck yours

The moment my eyes struck yours
The moment my eyes struck yours
The moment my eyes struck yours
The moment my eyes struck yours
The moment

sobre os primeiros não há muito a dizer: sobre os segundos também não: haverá "tanto para escutar e tudo para sentir".

quanto à primeira canção é uma daquelas de uma vida: quanto à segunda também.

a primeira tem uma marca de água impressionante: a segunda impressiona pela simplicidade marcante.

a primeira tem uma letra inesquécivel e uma interpretação memorável: a segunda tem uma letra de desintegração desarmante, como todas as espécies de desintegração e uma interpretação magistral.

são ou não canções de devoção: são ou não canções de encher um dia?

12 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: edward sharpe & the magnetic zeros . home





a "troupe" de Alex Ebert, num "exemplar, exemplar" do seu registo de estreia em 2009, "Up from below": também dá para ouvir com repetições a gosto.

10 janeiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110110



- imagem de Crissant -

( com um agradecimento, daqueles, grandes, muito: grandes, à Cláudia Pedrosa )

"a rectidão da água; o crescimento
das avenidas, ao anoitecer, sob a nua
vibração dos faróis;

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
fadiga das coisas,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma: assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas,
em assustado bosque, em sombra
clareira,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos, desinscritos,
imóveis movendo

a luz do dia;
a margem recortada, aonde vivem
ausentes e seguros, os luminosos

animais do inverno;
assim são na verdade os muros claros;
assim respira o tempo, a terra intensa"
antónio franco alexandre


"Vimos do tempo da falta mínima
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem número ordenador como fantasma.

Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.

Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o útil)
as dunas darão lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?"
joão miguel fernandes jorge


"Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê."
mário cesariny


"A saudade é provavelmente o sentimento mais belo que se pode ter por alguém. Saudade significa sentir a falta, significa aquecer o coração com momentos simples vividos em par, em companhia. Com gestos, tiques, risos e sorrisos. Com zangas, discórdias, ira e frustração. Momentos íntimos, plurais. Comunicar por olhares, por meias-palavras. Chegar ao fim antes de estar a meio.

Dias nostálgicos trazem saudade. Saudade que de quem já cresceu, saudade de quem já foi novo, saudade de quem partiu, saudade de quem está longe.

Agarro-me a pequenas coisas. Gosto de recordar quando me sentava nos joelhos de quem já foi novo ou já partiu. Gosto de lembrar de quem já cresceu quando se sentava a meu colo a ouvir-me cantar. Gosto de evocar os momentos de silêncio partilhados com quem está longe de mim. “Saudade” é bom, mas fere a alma.

Hoje em especial tenho saudade de todos os que sinto meus. Saudade dos afectos trocados, dos mimos e carinhos que esbanjamos a troco de um sorriso. Do meu colo, do colo dos outros. Dos beijinhos repenicadinhos, excessivos. Dos abraços em conjunto. Dos meus meninos e meninas e de ser a menina deles e delas. Tenho saudades das manhãs, das tardes e das noites que passei e que passamos.

Tenho saudades de ter medo de os perder, saudades de saber que sãos meus para sempre. Saudades, saudades, puras saudades de sentir que o mundo pausou para nos ver brincar e recordar também as saudades que tem de nós.

Fico triste por esta distância espácio-temporal de uns e de outros, de quem nunca mais verei excepto nos desenhos que faço na mente, mas sou feliz por ser proprietária de tantos e bons momentos, de tantos e bons sorrisos, de tantos e bons carinhos, de tanto amor, calor, gratidão, compreensão, protecção, de tantos tiques e gestos que desmonto em duas pinceladas.

Estou agridoce."
cláudia pedrosa


00 genérico
01 Love And Rockets - Saudade
02 Lilium - Whitewashed
03 Bowebirds - Spring Song
04 Love Like Fire - Dust
05 The Savings And Loan - Catholic Boys In The Rain
06 António Emiliano - Procissão
07 The Wedding Present - What Have I Said Now
08 Yellow Ostrich - Libraries
09 Gem Club - Animals
10 The Radio Dept. - A Token Of Gratitude
11 Coma Cinema - Business As Usual
12 Willard Grant Conspiracy - Skeleton
13 Frightned Rabbit - Floating in the Forth



para outras escutas - se pretendido em MP3

para P

a canção que está a encher o dia: bodies of water . water here












Do álbum "A Certain Feeling", de 2008: uma composição que é uma máquina de viajar (no tempo) - (em que os caleidoscópios falavam).

Ousem.

09 janeiro 2011

( songs of devotion ) sophia . i left you

oh I left you
but you never really felt that far away
oh I left you
because it seemed to hurt us less than if I stayed
and yeah I left you
but you never really felt that far away
and yeah I left you
because it seemed to hurt us less than if I stayed

and if I will you closer
can you feel the presence of my thoughts
and you don't say much now
but what you say just tears
yeah tears my world apart
and are you waiting
are you waiting for the end before it begins
and are you waiting
are you waiting for the end

oh I left you
but you never really felt that far away
and yeah I left you
because it seemed to hurt us less than if I�d stayed
and yeah I left you
but how long will it take for you to forget this hate
and yeah I left you
but is "I'm sorry" too simple a thing to say now



and if I will you closer
can you feel the presence of my thoughts
and you don't say much now
but what you say just tears
yeah tears my world apart
and are you waiting
are you waiting for the end before it begins

a canção que está a encher o dia: Sons Of Perdition . Burial At The Sea



uma sonoridade descoberta hoje, com origem em 2007, no álbum The Kingdom Is On Fire.

não só para ser escutada sob fogo.

08 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: HRSTA . Beau Vilage



( em rascunho desde ontem por dificuldades técnicas, mantenho a data por motivos históricos )

a verdadeira razão eventualmente poderá ser o abalo telúrico que a execução desta canção provoca: conversores e servidores a perder o norte magnético: escutas temerárias.

Do álbum de 2007, Ghosts will Come and Kiss Our Eyes, um dos seus melhores exemplares: demasiado valioso para estar escondido, completamente arrebatador para ser mostrado.

07 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: The Savings And Loan . Met ( A Storm )



Graças a mãos de eleição [ P ] chegou-me esta sonoridade que está a encher o dia.

Para já sei-lhe o nome e o álbum do ano passado onde está incluída ( Today I Need Light ) e mais duas outras soberbas, apanhadas na blogosfera.

Uma canção de e para sons entrelaçados a um percurso de um rio: que vê gentes e se vê mergulhado por elas, nas imagens cruas, de sentidos; espaços; organismos emocionais e estações climáticas. génese alcançada ou alucinação súbita: escolher nunca foi um processo simples: capturar tem de ser inerente.

já agora um pouco de batota:

a maldade não se ficou por aqui :D ou satisfação de encomenda pelo poniexpressemocional

06 janeiro 2011

a canção que está encher o dia: Frightned Rabbit : The Modern Leper




Mais do que de uma sonoridade, passei talvez demasiado distante de uma corrente que felizmente voltei a contactar e, como todos os bons reencontros, sem contar que tal pudesse vir a ser possivel.

Nunca gostei de encaixar sons em redomas; prateleiras votadas ao abanono ou em gavetas e caixas que os escondessem ou tolhessem o seu desenvolvimento por clausura ou pressões claustrofóbicas, mas como referi, durante muito tempo os caminhos dos sons rasgados - muito diferente de "a rasgar" ou "rasganço" - foram demasiado paralelos às ruas que percorri.

De um álbum notável - Midnigt Organ Fight - os Frightned Rabbit com "The Modern Leper", não para uns breves minutos de tumulto mas para muitos mais segundos de agitação.

05 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: Spacemen 3 . How Does It Feel?

De um álbum de 1989, com um nome portentoso ( Playing With Fire ); de uma banda tremenda - para escutar com cuidados de exposição da alma e das dunas cerebrais.

Nem água pura deve ser adicionada ao percurso deste som, uma vez que se corre o risco de não chegar ao fim e/ou de lá não voltar.

Do tempo dos excessos fica a esperança, pela prova em vida da excelência que os Spiritaulized mostram: aquela merda deve fazer mal, mas se calhar quando depura, dá no que dá: em algo de “fantasmagorioso”.

04 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: António Emiliano . Viagem



(Num dia em que a uma certa forma de sonoridade perdida bateu de um modo quase absurdo, vou guardá-la para uma edição em chamas, para um fim-de-semana alucinante: tanto som insubmisso: a ser preparado a rasgar)

Porque de outro tipo de valores se trata aqui: música original de António Emiliano para uma "evocação da minha memória" de acordo com as palavras de Gagik Ismailian sobre Gahvoreh: uma obra-prima editada en 1988: agora do vinil, para quem ousar fazer a "Viagem".

03 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: Destroyer . Looter's Follies

As grandes canções também se escutam calcando a chuva que nos sobrevoa e se abate sobre a sombra que fazemos sobre a memória de um verão onde se exigiu a pele abandonada.

Há canções do fim do mundo, quando a sua extinção é a nossa ignição.

Looter's Follies, de Dan Bejar, aqui a.k.a. Destroyer, incluída no majestoso Destroyer's Rubies, de 2006 - o álbum que marcou o ano e vincou a excelência de um compositor predestinado - cresce aqui, sem limites, numa memorável sessão da canadiana Radio 3, até ao ponto onde o tumulto, a voragem se encerram no templo do apaziguamento: flow e resiliência no seu estado mais crú.



You can huff, You can puff,
But you'll never destroy that stuff.
Finally, I see why I suppose,
Kids, You better change your feathers,
You'll never fly with those... things.

These nights the boys sing, "Hello, Emptiness"
I heard you're alright.
I heard you're alright.
I've heard of you.

A body aching, fragile and pale.
Dark valleys, a house, its trail.
Why can't you see that a life in arms,
And a life of mimicry,
It's the same thing.

The room was crowded,
And though you couldn't care less about it.
That much was true, that much.
Another version of this miniature Rome to set fire to.
Why did we stop fucking around you?
Girls, like gazelles, graze.
Boys, wearing bells, blaze new trails in sound.

I looked up, I looked around.
A famous Toronto painter shot me down.
Oh, I've busted my ass on these streets too long,
He said "I set fire to the bed and tore, tore his gown".

Felt some mercurial presence hitherto unknown.
It was the sun.
It was a stone falling through blank space.
It was that jewel-encrusted roan getting in my face.

Looked across the way to the princess rooms.
I saw brides and their grooms.
Heard the sound of bells ringing.

Cinders look back fondly upon a house on fire.
When across an ocean.
We go.
We row, and we row, and we tire

Now, step out of the darkness and into the light.
Yeah, it's common knowledge: I've been doing alright.
No, I can't complain.
On the east side midwives' lives go down the drain.
All cause our babies are dying. (screaming)

I lifted the veil to see nature's trickery
Revealed as pure shit from which nothing ever rose,
Because nothing ever could.
I swear somewhere the truth lies within this wood.
And i swear looter's follies has never sounded so good.
And win or lose, what's the difference?

02 janeiro 2011

boas descobertas: não: muito boas descobertas de 2010

critério de aparição:

alphabetical order :)

a única regra é procurar: just dig: for fire.

mariana, a miserável

mica

ricardo magalhães

agora, dois pedidos: não continuem assim; exponenciem o talento.

A canção que está a encher o dia: The Poison Tree - My Only Friend

The Poison Tree . My Only Friend



Canção disponível neste hell of a place: onde podem saber mais e guardar para escutas de preferência em rípítemóde.

Faz parte de um álbum a editar nos vindos de março que se for do nível da amostra nem quero ver - só ouvir :)

Descubram e divulguem.

O álbum de 2010 que mais gostei



A dificuldade de referir um único nome para realçar o que um ano deu, em termos de edição musical, assenta numa pluralidade de aspectos, que muitas vezes provoca o aparecimento da vontade que leva à desistência de o fazer – ao simples acto de apontar.

Para além do terreno minado que é a base de escuta: por muitos discos conhecidos há quase uma infinidade que não se contactou, de áreas tão diversas quanto elencáveis.

Há quem se estreie com autênticos estrondos que felizmente têm sucessores, mas que demasiadas vezes se ficam por aí: ou a prova de que a genialidade é um merecimento e não uma dádiva.

Depois reaparece quem dá um salto espantoso, numa evolução adivinhada difícil; confirmada para gáudio de quem acredita que os dias fazem muito mais sentido com o crescimento através da aquisição de sabedoria, agarrada e absorvida para ignição do que somos, queremos ser e atingir.

Há as desilusões, mas essas por aqui só têm como solo fértil a omissão.

Somos também confrontados com quem segue uma linha coerente sublinhada pela excelência: música gerada por uma militância no que é valioso, arrebatador e que nos abala as estruturas, de um modo que de algumas vezes, ultrapassa a linha onde nos queremos perder de forma irreversível.

O factor surpresa, quase sempre é o elemento que eleva um excelente conjunto de canções a um memorável.

Depois há a avaliação qualitativa do nível da composição ou da execução irrepreensível – até mesmo virtuosa – dos instrumentos reunidos e postos à disposição da escuta, de quem tenha conhecimentos para o efectuar.
Não os possuindo, fico-me - mais que pelos sentidos despertados ou agitados por aceder a canções sem dimensão – pela opção da impossibilidade de não ficar rendido quando se ouve e vive um disco que inventa um novo sentido ou até mais alguns.

A grande característica que a música deve possuir, para quem não a domina nos parâmetros que a permitem classificar como arte e desfile de atributos técnicos, é o contacto com a sua matriz genética, que vai provocar o atropelamento emocional em qualquer dos caminhos onde se vai tentar decifrar um álbum: audição aleatória, descida escrupulosa pelo alinhamento rumo a um cume escalado na alucinação do choque frontal com cada uma das canções.

A marca de água de uma canção – quando a tem – sobrepõe-se ao tempo em que é gerada, confundindo-se com a era em que é escutada; contagia quando nos rapta a corrente sanguínea; quando passa de ser invasor a ente dominador.
Quando por auto-defesa ou por simples espírito de sobrevivência, queremos dar-lhe um nome; cartografar-lhe a forma orgânica; um componente ósseo; venoso; cutâneo: ou a base de tudo isso – respirador: já não conseguimos.

É quando somos tragados pelo turbilhão de quem inventa mundos dentro de uma canção: com interpretações decalcadas do espanto; com letras memoráveis atiradas por uma voz incessante do primeiro ao último sopro; numa sempre desigual luta ”corpo-a-corpo”, “rua-a-rua”, com os instrumentos apaziguados entre si, a respeitar cada partícula do espaço entre si.

Estas substâncias ganham um relevo dunar/cerebral, assentes em tecidos nervosos, da filigrana do som.

Não são decisivos para a constituição de uma canção ou de um álbum, a potência; o volume; a massa de que se compõem: mas quando o golpe de asa leva à tridimensionalidade emocional, arrasada pela aparição de um detalhe de imprevisibilidade absoluta, que nos leva a carne de surpresa; rouba o vento e nos mistura com os elementos que a Natureza abandonou à sua sorte.

Quando à desintegração pela audição de algo assim, não reunimos sequer forças para um “foda-se: o que é isto?” ou um ou outro “foda-se: de onde veio isto?”, caminhamos definitiva e decididamente por território eleito para ficarmos estuporados de todo: como mar contra rochas e rochas cuspidas pelas entranhas da Terra, por quantidade concreta de matéria incandescente, como só a música, como força intuitiva e cirurgia a cérebro aberto, a sabe alcançar; acompanhar e tocar, como mais nenhum elemento: ao magma dos dias.

Quando vamos nesse alvoroço, alicerçados em batimentos de órgãos, que são afinal os vitais, que abandonaram os seus sistemas solares de origem, para se nos alojarem entre os dedos, e os deixemos declinar sobre lágrimas, riso e rostos estilhaçados.

Experimentem agora estes factores alegóricos; esta geometria indecifrável; chamas que se vêem e sentem: que a deflagração torna perene, multiplicada por dezassete e dividida por três: acharam resto? Não pois não? – não somos seres divisíveis: somos fragmentáveis.

Em “Have One On Me”, Joanna Newsom, faz tudo isto, com o que é mais inverosímil: uma simplicidade tangente ao conceito de crime por posse excessiva.

Com canções escritas; interpretadas e produzidas por si, com a cumplicidade de Ryan Francesconi na elaboração da teia de onde nos recusamos a libertar, acrescentando colaborações de Neal Morgan, Greg e Thom Moore, TJ Doherty, Noah Geroseson, Dana Gumbiner, Jim’ O’ Rourke e Steve Rooke, ao nível da protecção sonora, interpretada por músicos que ofereceram chão a canções que o não chegam a tocar.

Foi com “sets” de bateria e percussão, flautas, violinos, trompetes, violoncelos, trombones, violas, pianos, oboés, harpas, “tambura búlgaras”, baixos, “timpanis”, banjos, clarinetes, koras, bandolins, que se gerou a sonoridade que é uma extensão do nosso corpo: o que sobra pouco importa.

Perguntar-me-ão: mas todos os componentes que levam à classificação de um disco como o mais representativo de um ano, não se desmoronam perante a subjectividade da opção? – Por ser uma má pergunta – porque é maior que a resposta óbvia ( mas não é de uma entrevista que se trata ) é também uma excelente questão: claro!

Para além do sim; para além da assumpção das escolhas, que existe para isso mesmo: para ser exercida: apenas acrescento que até no índice “estreia” Joanna Newsom pode ser incluída: porque para lá da evolução insofismável, aglutinou o prodígio da reinvenção: mais do isso, a refundação do que somos.

Mas a resposta já vai longa: como o tempo consumido e eventualmente gasto e desperdiçado, na leitura que poderá ser feita, mas deixem-me apenas acrescentar que é com a escuta deste disco e outros da mesma galeria, que se devem mover os dias: está comigo há perto de um ano e não me consigo ver sem o escutar uma vida ou o que possa restar dela: numa redefinição do tempo contínuo.