28 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110228



al berto
"apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter
aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos

(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar
mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou

vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo"

MP3 PARA GUARDAR



"pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes"

01 Sétima Legião - Partida
02 Moddi - Moonchild
03 Broken Social Scene - Ibi Dreams of Pavement (A Better Day)
04 The Jezabels - Into the Ink
05 Au Revoir Borealis - Waldorf Theft Song
06 Mazzy Star - Give You My Lovin
07 Zita Swoon - The Quiet Place In My City Mind
08 American Music Club - Apology For An Accident
09 Young Marble Giants - Searching For Mr. Right
10 Alpha - SomewhereNotHere
11 The Au Pairs - Come Again
12 Swell - Next To Nothing
13 Aztec Camera - Back On Board
14 Templo Diez - (Stay With Us) We'll Be Right Back

24 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110224


imagem de Jonhatan Carrol, daqui

a symbiotic session with Lala.



01 If These Trees Could Talk - Whats in the Ground Belongs to You
02 Rain Tree Crow - Blackwater
03 Ordo Rosarius Equilibrio - Who Stole The Sun From Its Place In My Heart
04 Moddi - Rubbles
05 The Golem - The Flower Song
06 DM Stith - Pity Dance
07 Templo Diez - See Me Walking
08 The Tree Ring - Wore It Deep
09 Okkervil River - Another Radio Song
10 The Go-Betweens - Spring Rain
11 Low - Over The Ocean
12 Calexico - Hair Like Spanish Moss

MP3 para guardar


imagem de crissant, daqui

20 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110220



a recorrência da generosidade de sérgio seixas.

( rescaldo
-derivação regressiva de rescaldar-
s. m.
1. Borralho ou cinza que ainda conserva brasas.
2. Cinza ou lava de vulcão.
3. Calor reflectido!refletido. = revérbero
4. Trabalho de prevenção para evitar que um incêndio mal extinto se reate)

2 anos num mar superior

( perante a impossibilidade temporal de terem chegado estes contributos há uma semana, nada como aplicar a definição de rescaldo a uma deflagração que ainda me consome e ameaça perdurar. porque nunca são demais: os agradecimentos sem dimensão a quem tornou tudo isto possível )

percorro-te-me.

MP3: para guardar.



D.
A escuridão bebeu de mim: apoderou-se com um punhado de sopros trucidantes e estendeu o manto sobre o nosso olhar.
Neguei a congelação das penas negras que me quiseram sucumbir; neguei a tua chegada; neguei aquela constelação que explodia sobre o meu corpo e o teu, ambos intactos, ambos plebeus.
Mas sabes como é a escuridão: procura sempre o que crê poder destruir.
E voltou a estender o manto, numa onda em bruto, como quem arranca a existência às goelas da loucura que trazes comigo.
Só. Só o segredo sabia dizer a verdade.
Só. Só os sulcos atravessados no tempo das risadas e dos afectos poderiam deter os quimiogramas desenhados pela lua: nas sardas da minha pele: na doçura da tua boca.
Gelados, juntámos o sal das nossas lágrimas até o pó do desejo formatar traços enlameados de suor.
A luz inverteu o teu orgasmo cintilante, esculpiu-nos sob a fonte do toque e derreteu o suco calcorreado pela ausência.
Caminhaste lento.
Esperei à sombra do vento.
E no meio, e no meio, amor, jazia um mar superior encorrilhado pela ânsia.
E no meio, toda a água se contraía e expandia libertando a procura das nossas mãos cruzadas.
E no meio, apenas no meio, elevei um braço e peguei na saia até ao joelho para que me pudesses ver o tornozelo.
Foi então, amor, que baixaste o queixo num jeito criança e acariciaste a face entre sons e cores que te moviam para além de mim.
Olhei-te de soslaio, por entre a nudez do meu ombro, e flutuei na suavidade profunda de um tornado já calmo, enquanto tu, todo tu, te afogavas para sempre no cheiro dessa distância que será para sempre nossa.

Cris³
mar superior: um lugar desterritorializado e em rede, identitário, produtor de
assícrona sociabilidade de imersão e evolução :)
um must feel :)

(olha, é o q se me apraz dizer, em very late time)

Nuno
"E as tuas dores caladas? Como falam elas no teu corpo?"

não conseguir ser (o) ouvinte que se me cola na pele: pôres(-me) fora dela ( da pele ) e dele ( o escutador ) e dessa forma um pouco de mim.

e isso é uma dor com voz, que não se cala; da qual me defendo
é uma voz de sempre que me desprotege
porque não me rouba na simbiose de que os roubos deviam de ser revestidos: ou se ergue e me esmaga ou declina e não voa comigo na dilaceração que busco
as dores não são caladas porque os seus murmúrios são gritos lacinantes
são indomáveis
apenas consigo dar-lhe sorrissos às cicatrizes que geraram: não precisam nem podem saber o que provocaram.
uma fuga? nem pensar: apenas uma forma de tornar ausente a sua presença.
um acto violento? não, tão somente o acto de circundá-las de dentes cerrados; em carne-viva: não há corpo para ela - a dor - porque se levou a pele, não se lhe permite a queima-roupa: dos sentidos.
esses inundaram os orgãos, que pararão, quando os outros se extinguirem -
e para isso só atiro o sorriso: as mãos já não serão minhas.

01 Love And Rockets - Saudade
02 Poetas e Herberto Helder - Minha Cabeça Estremece
03 Portishead - GloryBox
04 Anita Lane - The Next Man That I See
05 Joanna Newsom - Clam, Crab, Cockle, Cowrie
06 Cat Power - Good Woman
07 Destroyer - Looters Folies
08 Chris Eckman - Who Will Light Your Path
09 Lambchop - The Daily Growl
10 The Cinematic Orchestra And Patrick Watson - To Build A Home
11 Penguin Cafe Orchestra - Southern Jukebox Music
12 Barry Adamson and Nick Cave - The Sweetest Embrace
13 Lisa Germano - Sexy Little Girl Princess
14 Lisa Germano - A Guy Like You
15 Julia Stone - Lights Inside This Dream
16 Dark Dark Dark - Something For Myself
17 Craig Armstrong And Elizabeth Fraser - This Love
18 Tindersticks - All The Love
19 Sigur Rós - Untitled #8
20 This Mortal Coil - Another Day
21 David Sylvian - I Surrender

obrigado.

( )

14 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110214

2 anos num mar superior

( )

há dias que ficam na memória: estes, em que todos vós, fizeram chegar o que agora poderão aceder, ficam sob a pele.

para: todos os que até hoje por aqui passaram, para os que continuam e, para os que eventualmente o possam fazer a partir de agora.

aos que geraram o que aqui poderá ser vivido, uma palavra: obrigado (por serem)

Manuel Gusmão
De repente a noite rasga-se e surge uma praia
em que os corpos estonteados acordam
a boca encostada ao mar superior que folheia
o ar que a respirar obriga e bate e canta.

Dirty Three ft. Nick Cave - Sea Above, Sky Below


(o mar superior é uma plataforma cósmica que se envolve comutativamente com as correntes tumultuosas do eixo do mundo, sobrepondo-se e acolhendo os movimentos do arrebatamento que o empurram até ser sorvido e erguido até uma distância imperceptível de si mesmo. aí mergulham seres que colhem vida com mãos em alvoroço, por contactarem a reinvenção de uma génese, depois de cultivada com um "amor louco", num percurso interpolar que apenas a voragem do consumo e ignição dos sentidos sabem conter, para estar contida numa forma de assombro: como de um "efeito universal: eterno" se tratasse - que o faz existir "na medida em que este lhe é reversível")

para guardar em MP3



cartografia para conter e nomear as canções: de Liliana Pinto




Rita Faria
Era um oásis que buscava.
Um pedaço de sombra, um retalho de manto verde apaziguador, uma promessa de conforto. Os dias passavam ofuscantes e opressores, forçavam as gotas de sal numa pele já demasiado cansada. As noites traziam o espanto sob a auréola de uma lua sempre cheia e gélida. Movida pelo impulso da imaginável fantasia concretizada, caminhava ainda e nunca mais lentamente.
Num sonho tinha ouvido.
Cânticos, melopeias, sopros, batidas e palmas.
Tinha visto.
Mãos estendidas, corpos cadenciados, cabelos ondulantes e olhos tão profundos como estrelas.
Por isso avançava.
Até ao dia.
O dia em que ao longe um reflexo diferente se revelou. O dia em que a respiração acelerou.
O dia em que um odor novo a invadiu.
Os pés descalços voaram pela areia, os braços afastaram os arbustos recém-surgidos. À sua frente o inominável dominava tudo o resto.
O que havia sido deserto era agora um mar superior de ondas agitadas como cavalos selvagens.
O que havia sido solidão transformara-se em comunhão.
O que havia sido medo era finalmente libertação.
E cânticos.
E mãos estendidas.

Sérgio Seixas (saber mais)


P (saber mais)
24 meses por dentro de um alfabeto
:
Andávamos perdidos na estação
Branca do poema. ninguém perguntou para que lado ficava o mar [ : tu sabes?] e
Como o vento que acende a chama de todas as coisas aéreas
Devolvemos a profecia inversa dos dedos
Entrelaçados [ : nu singular] e os movimentos ficaram a percorrer o
Fogo que adoecia a esperança de uma nova primavera. errante
Gramática meridional [ : pensaste tu] : os meus dedos agora sem marés
Humedecendo o sal de encontro à superfície dos dias. esta sim! é a
Ilha ilegível com que o cartógrafo sonhou.
Julgo que poderia construir aqui a minha cidade [ : secretamente : à vista de todos]a
Língua abandonada que renuncia ao silêncio da claridade
Mar e terra e fogo e ar. tudo a
Nascer com n de existir
Ou a caligrafia presa na antecipação interminável que transcende a
Procura. é sempre o vazio : a essência
Que enche o espaço inscrito na palavra. o vazio [ : essa]
Rendição da cidade humana que se condena ao verbo
Solitário. [ : e disseste] : sou o mapa que ascende ferozmente pelo
Território vocal do poema
Um vocábulo fremindo dedo-a-dedo a largura imposta do ar. e atravessarei o
Voo nocturno da grafia de todas as mãos incompletas [ : sou] o início. o ponto
X onde te despenharás na vertigem da garganta intocada. os meus dedos o
Zénite precipitado:[fincando aqui: uma haste : um som : uma frase : um mar superior]

Vanessa


Vanessa (saber mais)
É preciso fazer de conta. Depois todas as palavras, lágrimas e soluços saíram da minha boca, dos meus olhos e ouvidos, do meu corpo. Até que por fim na minha cabeça já não havia silêncio - nem um pouco – porque alguma coisa o tinha levado de mim, talvez para sempre. A porta abriu-se e depois fechou-se, eu ali, prisioneira de um alvoroço que nunca me pertenceu. Na verdade, gostava de ficar com os olhos todos cheios de céu e de mar e de nuvens mas sinto-me demasiado pequena e quero voltar a pensar num céu menos azul recortado pelos telhados e pelas árvores, um céu onde me sinta mais eu. É assim que quero agarrar todo o céu que nos sobra – antes que ele segure a minha mão e a tape e eu comece a tremer. Juro: ficámos assim por mais tempo do que o tempo que ficámos assim. Quando fechei os olhos, sem dormir, a mão dele ficou na minha mão. Tenho uma dúvida: alguém disse que era impossível roubar os olhos de alguém mas eu ando com os olhos dele para todo o lado, todos os dias penso neles, estão dentro da minha cabeça como por magia. Não acredito. Alguém me disse que não sabia o que era o amor – eu também não sei – mas sonho constantemente com ele. Todos olham para mim em silêncio e já ninguém respira, o barulho é uma música interior só minha, que ninguém ouve. Tudo quanto era plausível perde-se como água nas mãos. Lábios vermelhos são sismos - eu dei-me a todas as pancadas, quis rebentar nas tuas mãos – e tu sem veres o mar que tento ser. És tão meu quanto a noite é dos poetas. A escuridão é gigante como de costume e dentro dos meus ouvidos descem aqueles suspiros sem nome. De olhos fechados o mundo parece menos pesado ou será impressão minha? Fico sempre calada quando ouço o vento ao longe, para o ouvir. Ouvir com a paz que têm as árvores. Sentei-me funda no tamanho do mar e chorei. Para todas as coisas é preciso fazer de conta e, só por isso, aproximei-me ainda mais de olhos fechados. Quando erguer as mãos, é por ti.
Sigo agora em direcção ao mar superior que me afogará. Sabes uma coisa?
Se eu sou uma concha, tu és o barulho do mar.

Ricardo Magalhães (saber mais)


Ricardo Magalhães (saber mais)
Hoje acordei sozinho, a teu lado, ainda vestido com a saudade do que sempre quis ser para ti. Ver-te ali, ainda, transformou o meu dia numa foto antiga e rasgada, que tento guardar na gaveta daquela cómoda velha, onde vivem as recordações que já ninguém quer recordar.
Só me levantei, porque é assim que as pessoas adultas fazem.
Só me levantei porque já não há daqueles cinco minutinhos mágicos na pele dos meus lençóis e, se os tivesse forçado, ter-me-ia agarrado a ti para sempre, mesmo sabendo que os teus abraços já não têm o meu nome. Ainda aqui, porquê?...
Amanhã não vou acordar a teu lado.
Saí e fui ver o Mar. O Mar é como os gatos, não preciso de lhe explicar nada. O Mar é como os gatos, é Superior.
Quis muitas vezes acreditar que não tinha que te explicar absolutamente nada, mas...mas amanhã já não acordarei a teu lado.
Comigo só fica o teu sorriso, meu Amor, e aquela música linda que sempre me fará chorar.

Crissant (saber mais)


Graça Barreto
A verdade é que acordei hoje com vontade de praia. Esperei pela tarde. Está um dia de chuva, mas prefiro assim. Sempre gostei mais do mar em dias escuros. São os dias em que o caminho entre o oceano e o céu se me torna mais visível.
Está a fazer dois anos que não o conhecia, mas era tudo o que um mar deve ser. Gigante.
Entrei e deixei-me perder tal era a imensidão. As ondas volumosas surgiam num compasso musical que eu não conhecia. Que formavam melodias que me eram completamente novas novas mas que tão bem me embalavam... tão bem me dançavam... tão bem me choravam. No meio das ondas revoltas, um sem número de espécies que nas suas viagens se assemelham a milhares de palavras conjugadas harmoniosamente para formar textos do fantástico! Que nos contam histórias. Que falam connosco. Que dizem de nós. E eu queria absorver tudo. Conhecer num mergulho tudo quanto perdi nestes dois anos que passaram. Queria saber de mim, de ti, dele, de todos. Nadar, nadar, nadar. Afogar-me neste mar superior que eu me deixei desconhecer.
Saí. Estava molhada. Encharcada, aliás. Todas as gotas coladas na pele, a preencher-me os poros. Nem me sequei de tanto que quis guardar pelo menos o sal.
Amanhã volto ao mar. Não posso voltar a passar tanto tempo sem sabê-lo.

Cristina Monteiro

(FAZER UM POEMA DADAÍSTA
Tesoura, um artigo com o comprimento que pretende dar ao seu poema.
Recorte cuidadosamente as palavras que compõem o artigo e coloque-as num saco.
Agite suavemente, retire os recortes uns a seguir aos outros.
Transcreva-os escrupulosamente pela ordem que eles saíram do saco.
O poema será DADA.
A ideia surgiu da necessidade de não fazer algo novo, mas algo que transcrevesse os sentidos de todos que deixam por aqui palavras. Aleatoriamente esta sopa de sentimento comum não foi feita com o propósito de fazer sentido mas de provocá-lo.)

Lala da Silva "O Navegante" de Robert & Shana ParkeHarrison.


Lala da Silva
Navegar, num mar superior.
Sentir o frio das nuvens e adivinhar-lhes o sal.
O som da brisa parece um canto que emerge da tristeza,
Envolvente e desorientador.
Não há rumo, dizes tu,
Não há caminho traçado.
E com esta certeza percebes o momento
De libertar as amarras e
Imaginar um mundo onde o caminho é teu.
Navegar.
Corajosamente, subir ao mastro.
Ouvir na brisa um outro som,
que te lembra que há um esteio que segura tudo o resto.
Prestas atenção...
É já uma melodia que te diz onde estás
E te guia pelos caminhos que te afastam da turbulência.
Na memória estão os monstros sagrados
Que guardam os caminhos e os bloqueiam.
Mas é também quando navegas melhor
Feliz por não ter rumo
Aprendendo uma e outra vez
Como construir o teu mundo.

Rosa (saber mais)


Cláudia Pedrosa
Baixinho, num murmúrio quase inaudível chamo por ti!
Tenho medo de te acordar, não quero que vás!
Assim, enquanto dormes eu posso falar-te baixinho…
Dizer que adoro os teus olhos de MAR SUPERIOR… intensos, profundos,
que me embalam nas ondas da tranquilidade do teu sono.
Beijaste-me o ombro esquerdo!
Antes de adormecer, beijaste-o de uma forma carinhosa
E elevaste-me a outra dimensão…
Um beijo teu equivale a um mar de felicidade!
E volto ao teu olhar… intenso e profundo.
Como me perco nesses teus olhos…
Neles revejo a felicidade de te ter, embora não tenha, eu sei!
Não sendo meu, não deixas de o ser. Tenho-te comigo,
no pensamento, na boca, no meu ombro esquerdo.
És o meu presente, e não sei de passado ou futuro.
És o meu sal, o meu azul, os peixes que teimam em nadar no meu corpo e me fazem sentir o rubor da adolescência.
Decidi que és meu! Mesmo que não queiras! Ou que não possas…
Não posso perder essa imensidão… esses lábios de fogo ardente.
Por isso te chamo... baixinho... por isso não quero que acordes.
Sei que ao acordares irei perder esses olhos de MAR SUPERIOR,
Irei perder o meu beijo no ombro esquerdo.
Baixinho… digo que te adoro!
Baixinho… digo que és meu!
Baixinho…. peço que me vejas!
Baixinho... te peço um beijo no ombro esquerdo!
Baixinho… Muito baixinho… e quase sem falar te quero para mim.

Inês Alvarez - imagem de Vania Zouravliov


Tindergirl (saber mais)
Acordo consumida por tudo o que me roubaste.
Acordo cheia do amor que me dás.
Ainda ouço o teu sussurrar no meu ouvido.
A tua voz é meiga e deseja-me.
A tua voz tem mãos que me tocam.
Tocam-me até às profundezas do meu eu que não conheces.
Não fico saciada porque quero tudo.
Misturo-me contigo e perco-me nos teus braços.
Encontro-me contigo e comigo todos os dias.
Espero por esse encontro (num mar superior).
Fazes-me.

Mica (saber mais)


Patricia Siza
Surgiu no panorama globosférico, há exactamente dois anos uma ilha musical recheada de mais-valias, que eleva qualquer lufada de água à categoria de Mar Superior.
Musicalmente globalizante, atordoadamente inebriante, enriquece-nos ainda com imagens e fotografias apetitosas.
Comentários e sugestões das mais variadas áreas e formas musicais; Rock , Post - rock, Indie, etc.
O remember está também , de quando em vez, presente, teletransportando-nos para excelentes bandas que valem a pena rever ou reciclar.
O estilo sóbrio deste blogue contrasta com o conteúdo explosivo de carácter musical que lhe está inerente; desde músicas com chavões à Bloco de Esquerda que lhe conferem uma piada irresistível, até às mais sérias das odes que fariam corar de inveja qualquer poeta morto clássico.
Vale pena continuar a seguir esta maré bloguista e, no seu segundo aniversário, dar-lhe os ParaBéns!!!
Para o que sendo hoje, um Mar Superior, cresça e evolua ainda mais e se venha a tornar um Oceano!!!

Teresa Mendes "Queria de ti um país de ondas e de bruma, queria de ti o mar duma rosa de espuma." Cesariny


Manuel Boga
Servi-me dos meus próprios pés para me arrastar nas areias desse Mar onde me afogava todos os dias e me cravavas um minuto da minha vida para pensar. Até que me servi da insensatez para te compreender por fim, pois bastava dizer-te olá, e tu responderes-me... como vais? Bastou um pouco do nada para te acalmares e me deixares, hoje, aqui estar.


Zi Mateus
Vencido o desafio de iniciar este blog, o Mar Superior é um testemunho real de que há pessoas que fazem a diferença!
Sobrevivendo à primeira impressão sobre a ida a um primeiro concerto em 2009 foram inúmeros os assuntos que por cá passaram.
O entusiasmo foi a tónica e portanto os “aplausos” são merecidos e estimulantes.
Cá estaremos para mais dois anos para ouvir os sons e as palavras!

Nuno (mar superior)
Sobreposta àquele chão de prodígios
- que acedia à sua presença por se desenhar ténue -
desejou o ombro em convulsão até aportar no outro contíguo:
invisível:
violinos tacteando o tempo e o espaço consumidos
no movimento de um olhar clandestino;
permitido em troca,
na noite que fluía.
As cordas soltavam-se agora, prendendo pedras
à respiração suspensa,
perante imagens das viagens que os dias declinaram,
projectadas nas quatro mãos abertas -
limites da desintegração entre elas.
Árvores de dorso do deslumbramento não o censuravam:
ao mar superior;
convocado por pianos que dançavam com a percussão
agora pertencente ao domínio da vertigem.
O rosto, inclinava-se para o espelho contido
na suavidade das palavras,
a tocar a madeira e, sorriam às labaredas cristalinas.
O fogo caminhava sobre ossos até ai entregues
a ventos de abandono e perda.
As quatro mãos aprisionadas,
entoavam a canção atirada ao fundo do que as engolia:
o mar invadido.

08 fevereiro 2011

a canção que enche um dia: dark dark dark . wild go



Across this land
Land once ruled by men
The wild would pull them
Maples grew and fell
Rivers turned back on themselves
The wave rolls in and with it takes the sand

Dragon flies with wings
Eyes so big would see
Children born without wings

Times are different now
The bricks that rose now fall
Branches push through the walls
To carry a path that we don�t see
Warm air lifts us free
A path we draw are gone
When we fall
And everything�s as it was
The world stands still without us
The paths we draw are gone
When we fall

Times are different now
Bricks that rose now fall
Rivers flow
Where they could not flow
Times are different now
The bricks that rose now fall
Willows grow
Where they could not grow
Rivers flow
Where they could not flow
The wild go
Where they could not go

06 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110206

na senda das colaborações directas e/ou indirectas, queria que acedessem a este texto da P (fôlego estancado). uma das pessoas que passou pelo mar superior, que lhe deu força e que agora é possivel ler aqui, para meu imenso agrado. o link com uma resposta que esmaga, fica, por dois motivos ou vinte: um local que gostava muito de ver reactivado: onde viviam imagens, canções e textos do absoluto fim do mundo. pode ser que por este meio se reacenda. conto também com os vossos eventuais comentários para avivar chamas.

sem imagens, sem mais palavras (exceptuando as da P ): canções, a anteceder um texto do reino do colapso.

para guardar em mp3

00 (genérico)
01 Tanya Tagaq Gillis - Qiujaviit
02 Emily Jane White - Dark Undercoat
03 Joy Division - Heart and Soul
04 Lisa Germano - From A Shell
05 Diamanda Galas - My World Is Empty Without You
06 PJ Harvey - A Girl Like Me ( Desert Sessions )
07 The World Of Skin - Everything At Once
08 Anita Lane - Next Man That I See
09 Yo La Tengo - Our Way To Fall
10 Woven Hand - Not One Stone
11 Kristin Hersh - Aching for you
12 The Circle Brothers - Hands At The Steel
13 Sétima Legião - Além Tejo
14 Sia- Moon
15 Benoit Pioulard - RTO
16 Lydia Lunch & Roland S. Howard- Some Velvet Morning
17 Nick Cave And The Bad Seeds - From Her To Eternity (live)



"era para escrever um texto sobre o som, ou melhor respirar; o sexo e a palavra. isto porque vi que colocaram por aí novamente a tanya tagaq. quando a ouvi pela primeira vez estava num fórum cheio de putos novos e que mesmo tendo informação de onde ela vinha, foram incapazes de chegar um pouco mais longe e isto para eles era apenas uma tipa (boa, claro) a fazer sons que lhes dava tesão. a mim também em certos momentos, confesso. não é lá por ser mulher que não a tenho e muito menos sou capaz de me abstrair de tudo o que é cultural nesse sentido: são muito poucas as alturas em que este tipo de vocalização nos chega sem ser em pleno acto sexual.

sempre achei que a palavra, ou a fala, tinha aparecido por causa do sexo. durante o sexo. não só porque duas coisas nos motivam mais que todas as outras como espécie, a sobrevivência e a reprodução – a chamada fitness – mas porque há inúmeros relatos em outros animais de vocalizações diferentes durante o acto sexual. bem vistas as coisas o meio de comunicação mais eficaz – ainda, não nos enganemos -, é o olhar e a postura corporal. é por isso que os olhos nos humanos ocupam um espaço imenso no cérebro, quase tão grande como a mão. vemos : tocamos, esta dicotomia é inseparável para nós. pois bem, em nós o sexo, tal como nos outros animais superiores, sempre foi basicamente à bobi (adoro esta expressão moçambicana, desculpem lá) embora o nosso comportamento aberto nos tenha permitido grandes variações. de costas para o macho, a fêmea não tem forma de dar informação sobre o estado da sua agressividade e, é sabido, que em muitos animais a agressividade da fêmea nestas alturas pode ser tanta, que suplanta fisicamente o macho acabando por o matar. assim, de um forma reducionista, eu sei, a respiração acelerada destas alturas terá muito bem podido evoluir para outro tipo de comunicação mais específica, que identifique precisamente o tipo de agressividade das fêmeas, beneficiando não só a percentagem de sobrevivência dos machos, bem como minimizando os danos feitos ao grupo, uma vez que na maioria das espécies gregárias apenas um ou outro macho tem a vantagem da cópula e assim propagar a espécie.

nas sociedades humanas a que chamamos primitivas, embora sabendo hoje que não o são no sentido evolucionista do termo, até há quem as denomine sociedades de abundância, a linguagem e a fala estão muito ligadas aos actos físicos, à sua imitação, como é o caso dos inuit na sua forma gutural (o caso da tanya), ou como diz o meu filho quando ouve mão morta “às vezes ele fala arrotês”, ou ainda outras na ásia do sudeste, onde a sua fala no som produzido, dizem eles, vem directamente dos sons dos pássaros, imitando assim qualquer coisa de físico compreensível para eles e numa espécie de gemidos, hummings, indissociáveis para nós.

o facto é que a fala, e as palavras para nós, são apenas possíveis de emitir em sons e serem ouvidas se tivermos os aparelhos físicos certos para que funcionarem. depois a escrita é outro nível. é o símbolo ligado à ideia, ao conceito, à sua essência . a escrita afinou todo um mundo por onde inventar sentimentos e sensações e ainda hoje somos capazes de o inventar, sempre diferente. e foi capaz de libertar a palavra para lugares que se formam apenas dentro de cada um de nós, onde a essência e a sua génese é tão pessoal que nos permite saber que somos diferentes de qualquer um outro.
o som da palavra a entrar em nós, o som da sua ideia dito por dentro do silêncio das nossas bocas, pode ser tão violento, é tão violento por vezes que nos rasga a pele. para mim sempre foi assim, embora agora digam que haja uma explicação para isso. não gosto que me digam que sou feita apenas de percentagens sanguíneas, como se o sangue apenas significasse o comportamento físico e não existisse qualquer tipo de significado pessoal, interno, que traduzido no meu entendimento do mundo me fizesse ser assim. mais que não gostar, não o aceito e digo aqui: sejam quais forem as consequências.

a beleza de termos atingindo este estado é podermos ser muito mais do que somos, sermos nós e todos os outros que se cruzam connosco, tomarmos para nós aquilo que a nossa limitada biologia nos permite. sem um outro não somos capazes de ser, somos nele : sou-me-te : sou-te-me. é preciso chegarmos a alguém para sabermos o que somos, é preciso deixarmos alguém chegar-nos para sabermos o que podemos ser. tão simples como o movimento das marés.

temos uma forma de o fazer, de o dizer, de o sentir, que pode ser a nossa própria impressão digital mas tem que ser tudo o que vivemos e fomos sendo até aqui. o nosso caminho somos nós também.
às vezes, muitas vezes, as pessoas dizem-me que digo demais, que escrevo demais. para mim, são duas coisas completamente diferentes, mas sei que podem, no geral ser o mesmo. penso sempre nisso. houve um tempo que pensei ser incapaz de sentir, nem era muito por sentir diferente dos outros mas era sobretudo por achar que não sabia sentir. era sempre demais, media o sentimento em comparação com o dos outros. nunca me importei com aquilo que me dão mas essa era a medida que me faziam passar: dar o mesmo, receber da mesma forma: imitar (se gemes então eu posso gemer, se falas então eu posso falar, se me amas então eu posso amar-te). como só assim se pudesse pertencer. chorei muito por pensar que amava sempre da forma errada, que gostava das pessoas da forma errada. nunca era capaz de lhes dar o que elas queriam, ou precisavam, sei lá, qualquer coisa assim. as pessoas diziam-me sempre que aquilo era muito, justificavam-se por vezes com a falta de retribuição numa de não podemos gastar as palavras os sentimentos. como se os estivessem a guardar para algum momento especial, como se só tivesse significado por serem ditos raras vezes, como se o pudessem dizer sem o sentir, como se para eles o meu excesso fosse isso: dizer sem o sentir. felizmente há camus no seu brilhante don juanismo e felizmente há a lydia lunch também, que o sabe dizer como ninguém na sua voz rouca e embalada pelo corpo fora a entrar pelo nosso, entre alguns outros.

talvez tenha demorado a perceber, que para mim o exagero esteja na forma como as palavras se dão em mim. posso imaginar-me foleiramente como um pedaço de terra fértil sempre pronta a brotar. cai uma palavra em mim e é sempre uma semente nova. e depois gosto de deixar o silêncio vazio para que o oiça crescer em mim, nas coisas, nos lugares. por vezes calamo-nos sobre o silêncio, enchê-mo-lo do peso da liberdade das palavras, ele torna-se pesado e escuro. e eu gosto do silêncio que me sabe atravessar em todas as palavras. talvez tenha sido essa a primeira razão para falar, para escrever o excesso. e se estou cheia, e tantas vezes o estou porque o que me rodeia é tão bonito, não consigo mais ficar assim. às vezes penso que as pessoas têm vergonha de perceber certas coisas, como os outros, um outro, como quando gostamos de um outro, o guardamos sempre para nós. tal como as palavras, tal como a substância que escorre delas. às vezes penso que sou doida por ser assim, há quem mo diga muitas vezes. depois basta o ar a passar por dentro da minha garganta, o estremecer do som de uma palavra na pele, e esqueço tudo isso.

sempre senti as palavras na pele. mas no início deste ano, elas começaram a doer-me a sério. por vezes diziam-me coisas que eu sei tão más, para me magoarem tanto, e o meu corpo adoecia. se estava sentada quando as ouvia, depois mal me conseguia levantar: tinha as pernas tão doridas como se tivesse corrido milhares de km para fugir dali, e nem sequer tinha saído do lugar. deixei de aguentar as calças a prenderem-me a pele, os sapatos nos pés. cheguei mesmo a imaginar que tinha emagrecido tanto para deixar a pele solta sobre a carne, para arranjar mais espaço, para não estar tão inchada, com tanta dor, não ser capaz de sentir. talvez tenha sido isso que aconteceu. agora a minha pele deixou de ter forma, a forma da minha carne, a minha forma. como se cada vez que eu seja eu, tudo o que sou desaparece de mim para um lugar que não conheço.

dizem que quem se droga com isto, muito, acaba por perder a memória, que dá cabo da cabeça. que as coisas se sentem cada vez mais fisicamente, toda a memória é física, como se isso fosse a consequência e não a causa. depois não sei porque lhe chamam amor. o amor não é nada disso, não para mim.

e eu sempre senti as palavras fisicamente, não é de agora. se te dissesse aqui há uns tempos atrás, sem provas claro de quem percebe e nas quais eu não acredito minimamente mas não consigo deixar de ponderar nesta demência que às vezes sou; se eu dissesse que cada vez que dizia o teu nome sentia a tua mão tocar-me no corpo? se eu te dissesse que não me conseguia lembrar de ti, que passava por ti e não te reconhecia mas que se me falasses, se me dissesses tu as palavras, que elas eram a tua mão a afastar-me o cabelo da cara, ou o teu respirar sobre o meu pescoço, ou o teu beijo a fazer-se no meu? como era possível eu dizer-te que mesmo tu não estando aqui me tocavas e o meu corpo estremecia por dentro e se contraía como se tu estivesses dentro dele, e eu estava tão cheia de ti que me fazia ter todas as idades, todos os lugares onde fui e onde ainda não sou, como se o tempo e o espaço se unissem num só ponto e tudo era ao mesmo tempo. como era possível dizer-te que estava (ou era) assim?

sabes, houve uma coisa que me entristeceu muito um dia. eu estava à beira rio a passear com alguém. estava sol mas o dia era frio, muito frio. a pessoa falava comigo e eu ouvia-a, estava a ouvi-la pela primeira vez. e o meu corpo mesmo sem lhe tocar ia de mão dada com ela e então, chegámos a um lugar e parámos. e ela disse-me qualquer coisa e depois sorriu-me e eu pensei naquele momento a coisa mais triste que já senti em alguém: ela teve que matar o amor. foi mesmo assim que senti. e senti a dor de ter de matar o amor. até ali nunca tinha pensado nisso e foi a pior coisa que senti na vida. e só quis abraçá-la muito e que o abraço lhe tirasse toda a dor que senti. e amei-a ali mesmo pela primeira vez, por inteiro, como se sempre a tivesse amado, como se nunca mais a fosse deixar de amar. e eu sei que nunca mais vou deixar de a amar, que sempre a amei: exactamente assim. entendes? às vezes é só assim. ela é uma pessoa vulgar, aparentemente igual a tantas outras que conheço, no entanto por talvez um milésimo de segundo, ela deixou que eu a visse e talvez por toda a sorte do mundo eu estava a olhá-la e vi. vi-a. e isso é amar, isso é o amor.

uma vez alguém perguntou uma coisa simples sobre o que era o amor, e se o amor fosse? e eu lembro-me de ter sorrido, porque sempre pensei que o amor era isso mesmo, nada mais. há o amor e depois há o amor pelas pessoas, que se faz diferente pelo que as pessoas são. às vezes só amamos as pessoas pelo que são, outras vezes, amamos o amor nas pessoas quando as amamos pelo que são. se me perguntares como o distingo não sei mas, se me perguntares se o vir sei distinguir, eu respondo sim, que sei. eu já o vi.
agora já te posso responder: já sei como se toca o amor.

eu sei que se deixar de escrever fica tudo normal. ninguém vê: então não existe. a escrita é um outro amor que nem sempre conseguimos ver.
têm-me dito muito ultimamente, que não posso existir e, no entanto estou cá. talvez eu seja como aquelas palavras inventadas para o que não existe – ou gostava muito de ser uma, que fosse só tua: como se eu não existisse e tu me pudesses inventar."