21 maio 2011

alinhamentos do fim do mundo

porque há alinhamentos do fim do mundo.

de que cor se pintam uns olhos do reino do assombro?

como se desenha um sorriso que perdura?

com a música: como apenas só ela o permite?

( )



















17 maio 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110517



( )

PARA GUARDAR EM MP3



01 Bernardo Sassetti - Passagens Pela Cidade - Parte II
02 Madrugada - Sister
03 Sétima Legião - Tão Só
04 Crystal Stilts - Shake the Shackles
05 Moon Duo - Stumbling 22nd St.
06 Jeffrey Lee Pierce - Love and Desperation
07 The Au Pairs - Come Again
08 Alan Vega - Jukebox Babe
09 The Gun Club - Sex Beat [Live]
10 Sonic Youth - Kool Thing
11 Willard Grant Conspiracy - Soft Hand
12 Smog - I Break Horses

"o brilho inapagável de um gesto suspenso
e depois a bruma no lugar do rosto que lá não está
não saberemos nunca como repetir tal brilho

nem como pedir-te essa metamorfose do terceiro corpo
que voa oblíquo no sobressalto destes dois nossos
e incandesce no passado que toda a morte não promete.

tens uns joelhos assim.
não há luz que chegue para nos dizer o que nos pode fazer
um mar atravessado nos ombros e caindo como a noite

dessa cabeça nocturna, em chamas.

ela levantou o joelho direito por entre as tuas coxas
escreveu-te a boca com o húmido sal da manhã
como se fosse uma deusa inesperada e furiosa

e cercou-te com a noite da última parede do labirinto.
Tu tinhas a dor erguida e os olhos choravam.
Chovia por entre as rochas e explodia-te nos rins

a cegueira que a olhava: dura e trémula.
Se fosses morrer logo a seguir a neve
não cairia dessa forma sobre a praia e o mundo.

mas tu morrias agora, ó amante no escuro do dia então.

estás diante do espelho e não tens nome
- é o espelho que to rouba? -

por isso podes olhar a pequena névoa da morte,
que faz um halo em redor da tua cara.
onde tens um vinco a direito, dividindo o quê?

Depois, a névoa cresce como o nevoeiro sobre um lago antigo
Sentes vagamente o arruído da água nesse espelho indeciso
e moroso como de um filme onde falam baixo.

O sopro sobrevivente faz crescer a névoa.
Escreves nela com um dedo o outro nome.
Então retiras-te longa e repetidamente como a maré

de um mar em branco

[ ... ]

tu apareces, chegas no limiar do mundo
acesa : mínima e múltipla : na sombra da música.

Que acontece agora às coisas da tarde quente
no pátio desta terra? Como
deflagra o sol sobre a multidão do santo nome
das coisas do mundo?

Uma corda azul e amarela : um hieróglifo suspenso
na parede do labirinto;
uma roseira sem a ausente, clara e perpétua;
uma palmeira como o A do nascimento

no solstício de inverno e na cantata.

Verdadeiramente o teu chamamento meu amor nu, me.
A música torna-se minuciosa e delicada, delirante
sobre os ossos que rodeiam o teu ventre rigoroso e evidente
na claridade que esta sombra esta música protege e expande."

manuel gusmão

13 maio 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110513





PARA GUARDAR EM MP3

01 Mogwai - Waltz For Aidan
02 Seabear - Cold Summer
03 Swell - Blackmilk
04 Madrugada - A Dead End Mind
05 Joanna Newsom - Go Long
06 Joy Division - Transmission
07 Beach House - RealLove
08 Efterklang - Mirror Mirror
09 Shearwater - Black Eyes
10 Get Well Soon - Aureate
11 Tom Waits - Goin Out West
12 LaliPuna - Everything Is Always
13 She And Him - Thieves
14 White Hinterland - Hung On A Thin Thread
15 Nick Cave - Loom Of The Land
16 Sparklehorse And PJ Harvey - Eyepennies
17 BRMC - Awake
18 Bill Callahan - Say Valley Maker

"Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
a minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um desespero .
fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente."

herberto helder

02 maio 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110502



( imagem daqui, de Miguel Marecos )

PARA GUARDAR EM MP3

00 (genérico)
01 Madrugada - Only when you're gone
02 Cassandra Wilson - Vietnam blues
03 Konstantin Gropper - Good Friday
04 Laura Veirs - Magnetized
05 Bill Callahan - River Guard (daytrotter session )
06 Jolie Holland - Old Fashioned Morphine
07 JBM - In A Different Time
08 Steve Adey Find The Way
09 Clogs - Last Song
10 Thomas Feiner- For Now
11 Okkervil River - So Come Back,I Am Waiting



A respiração da imagem está queimada mas os traços da alvorada dos sentidos mantém a densidade que a anatomia da intermitência invadida por vento não permite apagar.

Embalo o apaziguamento que as ideias resvalam e rendo-me ao alvoroço de uma cabeça a esbater-se num ombro para que os troncos se espraiassem escutando as vozes do apelo à suspensão das horas, ignoradas por murmúrios que o despertar adiado permitia à liberdade das estrelas que iriam mergulhar nos braços, onde a luz respira e há uma força que empurras e que tiro e movo para mim.

As tardes em que os contornos do teu rosto eram percorridos pelo s lábios a que virias a deixar de chamar teus, tornam-se perceptíveis, inundando memórias até à desejada exaustão: porosidade repleta: na exacta proporção em que cada ângulo formado pela sobreposição de olhos de fogo em contemplação.

Que elementos convocas quando observas a movimentação dos cenários devolvidos por espelhos de chuvas dos meses que te esperaram os passos? – há animais inverosímeis que repercutem ânsias de reencontros com o espanto que nunca voou de ti: reverbera-te o nome, reflecte-me a crença, perante o esbatimento de uma presença fátua, submissa à fertilidade da ausência.

Os sons, esses nunca serão de um outro tempo, porque a cartografia da cor de uns lábios gémeos de magnólias sob sóis alinhados, não será revelada, apenas para que sejamos detentores de um intervalo que contém um espaço onde a combustão se desenha pelo ponteado aleatório, por mãos cruzadas na fronteira de cada dedo, em incandescência, num tempo diferente.