30 agosto 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110830



( imagem de paula lagarto )

( palavras de sílvio matos )

( saber um pouco mais do muito que fica por descobrir sobre uma escrita de uma dimensão sem limites: just click )

"Se calhar estar fechado é melhor que estar aberto;
seja. Como for, perdi as chaves nas cópias das cópias do eu,
e sendo eu, sou tudo o que quis para mim.
Se calhar estar fechado é ter as persianas semi-abertas;
deixo o sol entrar e olho a lua de dentro, rindo-me e enrolado
nos cobertores; e sendo eu, sou tudo o que quero para mim.
Se calhar estar aberto é melhor que estar fechado,
para poder contar ao mundo da aventura de viver
dentro do corpo armadilhado, das chaves e das cópias, das
persianas que gostava de saber abertas, um dia, com a música
a fluir ao vento, e a minha voz, em bom tom, a dizer ao mundo,

perdi as chaves, perdi as chaves.
Se calhar estar fechado é melhor que ser aberto
à força. Seja. Dói-me a cabeça de pensar. Dói-me o peito de amar,
mas a aguarela tem de ser pintada: vermelho, amarelo, branco, preto.
E nos corredores, deitei-me mais que todos
a ver o tecto, do tecto, a ver-me a mim. Mas só eu sei das chaves,
das cópias das chaves, e das cópias de mim.

Gostava de rir como se ri quando a alegria é real,
mas só me sei rir como me rio quando fiz a cópia final.

Em certos terraços fechados, uma noiva ofereceu-me uma rosa de papel. Eu disse-lhe que a ela ficava melhor. Ela disse-me que ele já não a amava. Eu disse-lhe que não sabia se era verdade. Mas sabia. E eu amei-a mais do que ele alguma vez a amará; porque a deixei ficar com a flor. Porque a deixei em paz. Porque nunca lhe fiz mal.

Gostava de me rir como se ri quando a loucura é total,
mas só sei sorrir quando ninguém pensa em me fazer mal."


De miúdos que querem ver o mar.
"Um torrão de açúcar-amarelo, começarei assim esta conversação de mim a mim.

O meu mundo rodopia sem eixo, as mãos bem fora do corpo como uma bailarina tonta a tentar encontrar o pé no chão.
O meu mundo rodopia sem nexo, as vontades bem fora da cabeça, como um louco que termina as ruas quando começa a voltar para trás.

Sim, tudo isto é medíocre. A vontade de escrever. A vontade de contar. De contar o porquê de morrer, o porquê da dor não poder existir,

porque
toda a gente dói.
Toda a gente sofre.
Toda a gente quebra.
Toda a gente morre.

Mas os mundos rodopiam em eixos, bailarinas que, mal ou bem, bailam as suas canções, os seus silêncios, os seus amores e paixões, os seus desalentos.
Os mundos rodopiam com nexo, as ruas terminam, dão curvas abertas, apertadas, cruzamentos, decisões, saltos de fé.

Um torrão de açúcar-amarelo. Comecei assim esta conversação de mim a mim. Tomei-o na boca e o mundo teve um eixo; derreteu-se. Soube-me a doce. Soube-me a vida. Soube-me a este universo e ao outro. Mas derreteu-se. E terminei a conversa.

Não me digo o que não me digo, não, não me digo o que não me digo porque se me disser o que me quero dizer a dor
pára-me este sofrer. Rodopio mais que noventa, mais que mil, salto duma ponte sem fim, salto de dentro de mim, parto estes olhos de brincar ao faz-de-conta, ao que diz mais que não-diz. Não, não me digo o que me quero dizer. Não posso dizer-vos o que me ia acontecer. Nunca me pode acontecer. Há amores de mais ao lume. Há lume a mais nos amores. Há falta a mais noutros eixos. Há açúcar-amarelo que sou eu.

E toda a gente dói.
E toda a gente sofre.
Mas ninguém morre senão eu.

Tenho a doce imagem da torre, prateada, com a lua ao fundo.
A torre tem duas janelas; numa a luz entra, noutra a luz sai.
O som de mim a cair pelas escadas não treme terra alguma.
O som de mim a cair pelas janelas só geme quem não me é.
O som de mim é nulo. A cor de mim é nula. A torre não existe.
A luz entra e sai do mundo e a torre de mim ruiu.

Tenho a doce imagem de mim, sombreado, contra uma parede qualquer
a sorrir a uma estranha, doce torrão de açúcar-amarelo. Tudo se dissolve,
tudo se gasta. No meu livro escrevo o seu nome: não sei. Nada sei. Nada nunca saberei.
Ignoro todo o universo por culpa de ser uma torre
que ruiu cedo demais,
oh música, toca mais alto.
Oh palavras, saiam em ordem!
Oh! Mãos! Agarrem alguém! Agarrem a eles como eles me agarraram a mim quando eu rodei para o meu fim...
As forças são as locomotivas, dentro da linha, espaçadas, a velocidades moderadas,
as forças são as cortinas, abertas, para deixar a luz entrar,
as forças aqui não existem, nem cortinas, nem quem puxe a carruagem deserta. A força é o saltar.
A força é eu não querer dizer
que não quero acreditar.

Oh, palavras, saiam-me ordenadas, façam-me maior
que as estrelas que vejo além da minha janela, por entre a persiana aberta, ainda que com ela fechada; que olhos estes, que fechados veem, que abertos não querem espelhos para lembrar a dor...
Oh, versos, saiam em rima, para a música ser tua e a minha, e minha, e minha... que nada é meu, senão o sofrer.
Mas toda a gente sofre.
Toda a gente quebra.
Toda a gente ama.
Toda a gente. Sente falta. De ter duas mãos assim. Capazes de dizer
coisas
sem fim.
Sem fim."

para guardar



01. Mogwai - Does this always happen?
02. Jack The Ripper - From my veins to the sea
03. Soulsavers - Will you miss me when i burn
04. Marissa Nadler - Baby i will leave you in the morning
05. Sharon Van Etten - Love more
06. Cranes - Adoration
07. T E Morris - Almost a whole person
08. Band Of Horses - The funeral
09. Mark Lanegan - One hundred days
10. The For Carnation - Moonbeans
11. Josh T Pearson - Wish you were her
12. Grant-Lee Philips - The eternal
13. Death Cab For Cutie - Transatlanticism