15 setembro 2012

espaço raro, ou a letra que arde no som da geometria indecifrável






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Surface of Atlantic Tea Garden
Dark Dark Dark  Daydreaming
Sharon Van Etten  All I Can
Anita Lane Next Man I See
Czars Killjoy
Decemberists Sons And Daughters
Wovenhand A Wool
Morphine I'm freee
Blonde Redhead The Dress
Richard Hawley Ocean
Cowboy Junkies Sweet Jane
Thirteen Moons Undercurrent
Calexico  Hair Like Spanish Moss


espaço raro, ou a letra que arde no som da geometria indecifrável

- Queria que pudesse ser mais claro para mim o que vejo quando ficas assim.

- Assusta-te?

- Também. E…

- Que mais te provoca, porque te impede a limpidez?

- Ia acrescentar. Organizava a resposta, interrompeste e auxiliou: ficar por perto; sim, sinto ter que o fazer. Como uma certeza que se intui.

- Sabes que sempre soubeste ocupar o espaço à volta do que é imperioso ser o meu? Dás-lhe nitidez. Alias desenho, deslocação e agitas elementos, numa aritmética em que redefines as fronteiras que o preenchem, onde habita uma operação única, uma divisão impossível da respiração pelo silêncio que se deitou com a idade e se apaixonou por um tempo que acordou com a fracção de uma forma de felicidade com gente bonita dentro.
Não asfixias; não sobrepões camadas que levam a inexpugnabilidade dos sentidos, onde não pretendo pensamentos que me fortaleçam os medos.
Fazes-me ter palavras, que se sucedem; erguem e crescem sem nada que as amarre: como estas. Sinto-as comigo apesar de as ouvires: mantém-se na minha posse por as escutares e as levares. Não têm amo nem senhora no percurso que fazem. Não necessitam de migrações, perdas de pátria, de descobrir rua; atravessar pontes; mares, atingir dimensões distintas ou presença de confins, para se verem a viajar.
Perco a noção de tempo quando as observo a ecoar nas ideias que geras de modo tão natural.
Tal como elas, as palavras, os pensamentos ramificam-se e florescem, sustentando-se, abraçam-se aos terrenos férteis arados pelas tuas mãos que questionam, pelo movimento que se desencadeia, por respostas que se desintegram concluindo não o ser: tornam-se consequência quando se julgavam causa, são a rotação do tempo quando eram levadas a crer ser dominadas por ele.

- Translacções do espanto?

- Aqui não receio a falta de respostas, porque não as anseio.
Há imagens, como a que contavas um dia. A do rio que ama. Porque não tem divisões: um leito único, sem braços que o tornam perdido, permitindo a conservação do que contém até o entregar numa mão que me tece o rosto. Onde as lágrimas ficam presas: questionando-se.
Passo e posso ser mais, aí: tudo aumenta com o descontrolo dos expoentes, nasce; desenvolve-se, não num só estádio, não por imposições ou obrigações imprescindíveis, mas apenas por conceitos que se estilhaçam.
Há uma geometria indecifrável onde tudo perde forma, abandona massa e despedaça volume. Em que sou detentora da chave que me beija o peito e não preciso de a usar, porque sou espreitada por ti e te vejo mesmo quando dirijo a cabeça à janela que mostra lugares inexistentes.

- Há sempre um local sem posse que pode ser um domínio nosso, mesmo que o desconheçamos, rejeitemos ou dissimuladamente o desejemos.
Há um ponto incluído no espaço que te chama, acenando, até se vestido de invisibilidade.

- Não acreditas na aridez, na destituição da presença, na prevalência do nada?

- Espreitado por ti, não!

- Sabes que aqui não me pesam os gestos nem a sedição de sentidos. Não me importa nem perturba se avanço sem perguntas e ausência de respostas, se há solo para pisar ou se vale a pena perdê-lo. Se compensa a vertigem, ter medo da queda, se o voo começa ou se te vejo.
Se as dúvidas assaltam as durações e lhe queimam a letra.
Não recordo, não é importante que tudo tenha de significar ou ter significado: esteja rodeado por algo concreto ou forçosamente exista.
O espaço é raro.

30 agosto 2012

serra

Sabes do espanto que prevalece quando a transparência da água é mais poderosa que a inatingível sabedoria inscrita na alquimia da inocência de sonhos sem delimitações de memória. Aguardas para conhecer a forma dos contornos, a que as minhas mãos recorrem para definir a escultura dos teus dias e, rendilhar os passos das noites que armadilham o tacto que te respira o negro ameixa do veludo dos olhos. Queria uma deflagração de cores apenas para que a desejasse quase tanto pelo branco que me permites encher ou mergulhar para te espreitar o brilho. Vou colocando pedaços de madeira entrelaçados em fragmentos de pedra, que fui colhendo nos passeios onde a tua face me capturava as recordações, como o caçador furtivo que se apaixona pela presa, onde o curso do rio lava a poeira dos sentidos que se espalhou na pele, onde perigosamente escrevias o choro do beijo e arquitectavas o relevo do céu nocturno.

31 julho 2012

alfa


(c) Dorothea Lange



Expandes os passos e o som pede-te aliança na vontade de lentidão.

Tal como ao tempo, precisa-te na suspensão das imagens que quer projectadas na cidade que esconde, para que nela sejas a vida que percorre.

Desfrutará a descobrir que o espreitas quando guardava o clarão que te conquistou a face, decalcado da movimentação entre a altitude da ânsia e a profundidade do medo?

Omitem-se os pontos que tornam lendário o encontro das curvas do rio com a indiferença à velocidade de aproximação da celebração dos lugares distantes.

A diversidade das feridas dos espaços primitivos, une-se à coerência da expressão que sublimava os intervalos, onde os silêncios demoram os céus e exorcizam os montes onde as vozes suaves também morrem.

Aperta-se o equilíbrio do velho candeeiro que pondera o confronto entre o vento e o exotismo da escuridão e a protecção com que o alpendre cala a humidade e afasta a noite.

- Sou agora o que procurava. As tuas cartas sempre foram lidas com as mãos a viajar para o rosto onde se recolheram as tuas.

02 julho 2012

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 2012.07.02


(c) Miguel Marecos

Há um caos que por vezes prevalece, vagueia dentro de si próprio ou está aprisionado em rituais de causas desconhecidas, imune a questões, ignorando contornos voláteis

- sempre que subo lentamente as escadas de ferro para o sótão, escuto ainda as teclas do piano a afastar o pó do abandono.

- consegues regressar lá? Voltas muitas vezes?

- não se contam repetições de sonhos.

- sabes: apenas sonhava com o tempo atravessado por canções que não se limitavam a rodeá-lo nas noites em que partias: prolongava horas no presente: não distinguia o solo que percorria – não via fronteiras entre o que era real e a ilusão de um desenho em que os traços era lidos por dedos lentos.

- o som cercava-te mais? De olhos fechados dançavas entre as horas que libertavam cada minuto que incluíam? Eu não conseguia recordar a tua voz. Tudo se sobrepunha. O desejo de a voltar a escutar era tão grande que se apagava em fracções de tempo tão mínimas. Todas as imagens, cada um dos sons e a quantidade inesgotável de luz diluíam palavra por palavra, o que me dizias com o olhar que não perdi.

- aquele topo da casa era a elevação geográfica onde queria atingir um estado inventado: estava sempre bem lá: quanto te esperava, quando chegavas; ficavas; ias: quando saías, deixava-me por lá a percorrer cada milímetro que tinhas ocupado: queria levar cada um desses recantos, distribui-lo por cada dia que espreitava por ti: ordenar o caos: dar-lhe olhos em brilho num ritual sem contornos: arredondar e implodir a saudade que feria: volatilizar a ausência.

- as conversas voavam, eram espécies sem épocas migratórias: cantar contigo as palavras que ainda davam os primeiros passos após serem geradas: com pouco tempo de vida davam-me as sensações de viagens desde tempos milenares, eu vagueava por ti e queria-me num espaço cativado por gesto que o enchesses.

- agora que caminhamos para lá, o tempo está cada vez mais suspenso. A tua mão retira vento à minha e no entanto ela voa como nunca e o colapso da respiração torna-a ainda mais leve. Há memórias que se realizam, materializam e cristalizam o que pareciam esboços à espera que lhes percorresses a alargasses os traços para que se tornassem invisíveis a partir dai.

- conseguiremos voltar a entrar?

- nunca de lá saímos. Prevalece o que seremos.



1 Sigur Rós - Fjögur píanó
2 The Czars - Song To The Siren
3 Calexico - The Black Light
4 Morphine - You Look Like Rain
5 Chris & Carla ft.Tindersticks -Take Me
6 Lambchop - Kind Of
7 The Go-Betweens - When She Sang About Angels
8 The Triffids - Burry Me Deep In Love
9 Jack the Ripper - Old Stars

01 julho 2012

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 2012.07.01


(C) Miguel Marecos

A lua espreita escondida e ri-se.

Tal como o seu estado, natureza ou elemento influenciador, o seu riso é ambíguo.

Dos reinos da simbiose ou dos domínios do parasitismo?

Devolve à noite o brilho que rouba ao sol, ou tal como nós, relecte a alma quando não tem medo de um espelho que aconchega?

A magia com que atenua ou amplia o recorte num céu negro ou numa tela com elementos que cintilam - como os olhares espalhados a que se dão a profundeza dos sentidos deslocados - altera-lhe a forma ou apenas expõe o que não receia?

Hoje tem um som diferente, mas sob um manto que é o de sempre.

É uma textura que desenhamos e que toco, quando deixo a praia e caminho para o exterior da cidade, atravessando o rio que a une, e te vejo em cada cor incluída na geometria de um beijo que me chama.

( para guardar )



01 - Beirut - A Candle's Fire
02 - Beach House - On The Sea
03 - Richard Buckner - Home
04 - The For Carnation - Emp. Man's Blues
05 - Sivert Høyem - Long Slow Distance
06 - Catherine Wheel - Fripp
07 - Danger Mouse And Sparklehorse - Revenge
08 - Mojave 3 - In Love With A View
09 - Blonde Redhead - The Dress

25 abril 2012

"Caminharás até que os passos fiquem mudos, perante a iminência da suprema afeição a que renuncio."

as ruas revestiam-se de estrelas a estourar e devolviam a simplicidade aos gestos quando as mãos se intersectavam, no paralelismo dos meus passos que chamavam os teus para mais perto.

olhavas-me e soava a canção da distância num rádio onde nada havia a mudar, o aroma do café fazia adivinhar o calor que se tocaria na porcelana onde desenhaste o sorriso do ultimo barco que te trouxe e dividíamos agora o cuidado para que não caísse.

Sentia-te mais próxima e atiraste-me o rosto para que te encontrasse os lábios. as luzes apagavam-se e aproximavam-te como a lua afaga as marés para as modificar: o alvoroço era um sonho realizado com olhos abertos quando os pés alargavam o chão para que desaparecesse ao abraçar-te.

não os escutei quando fugiram. não os vi porque me chamaram quando o vento soprou alto e decidi que a verdade de um mundo atravessado de azul me levasse onde as constelações vivem dias diferentes.

Pale Saints - A Thousand Stars Burst Open

28 fevereiro 2012

guardo-te


(c) duarte belo

Em qualquer elemento que me envolve os movimentos deparo com cada segundo que respirámos os gestos, que elevou mergulhos nuns olhos que nos guiavam em viagens que terminavam nas explosões suspensas, quando os mares ousam alcançar o decalque dos céus.

Amar-te contém dizer-te a configuração dos esboços de jogos de luzes que soa nas canções que sonhei escrever-te: levar-te as mãos ao meu peito para que alcance o teu e ler-te a tua voz, que povoa o espaço onde a alquimia de ventos redefine os limites onde te levo e, me trazes a lenta aproximação da dança que estilhaça os espelhos dos sentidos e rasga as janelas onde as pradarias te alcançam e as cordilheiras são os braços que extingue.

Nina Nastasia & Jim White ~ How Will You Love Me

leve

o sol afastou-se mais hoje e os meus passos adquiriram maior ruído por não serem consumidos pelos teus, quando ontem deslizavam. Os olhos conquistaram um movimento de embalo que os vestiram de cores que caminham ao lado do espaço que o brilho arou e cedeu para as realçar. Conquisto e avanço sobre o dia como se palmilhasse montanhas para que me lembre de todas essas sementes de tempo ausente que florescerão quando os nossos braços receberem rostos da migração de olhares que soaram até à exaustão, o caótico cântico em chamas do reencontro onde nos desejamos. Toco agora o aroma que em crescendo prevaleceu na tua voz que regulava a nitidez da aproximação dos lábios que guardaram o vento para atirar ao sol fragmentos de estações reinventadas.

14 fevereiro 2012

mar superior ano III

7 songs of devotion

# 1 / 7 Explosions In The Sky - Your Hand In Mine

mar superior ano III

7 songs of devotion

# 2 / 7 Smog - Blood Red Bird

mar superior ano III

7 songs of devotion

# 3 / 7 Destroyer - Looters Follies

mar superior ano III

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# 4 / 7 Thomas Feiner & Anywhen - For Now

mar superior ano III

7 songs of devotion

# 5 / 7 Mazzy Star - Flowers In December

mar superior ano III

7 songs of devotion

# 6 / 7 Cowboy Junkies - Sweet Jane

mar superior ano III

7 songs of devotion

#7 / 7 Nick Cave & The Bad Seeds - Your Funeral My Trial