31 julho 2012

alfa


(c) Dorothea Lange



Expandes os passos e o som pede-te aliança na vontade de lentidão.

Tal como ao tempo, precisa-te na suspensão das imagens que quer projectadas na cidade que esconde, para que nela sejas a vida que percorre.

Desfrutará a descobrir que o espreitas quando guardava o clarão que te conquistou a face, decalcado da movimentação entre a altitude da ânsia e a profundidade do medo?

Omitem-se os pontos que tornam lendário o encontro das curvas do rio com a indiferença à velocidade de aproximação da celebração dos lugares distantes.

A diversidade das feridas dos espaços primitivos, une-se à coerência da expressão que sublimava os intervalos, onde os silêncios demoram os céus e exorcizam os montes onde as vozes suaves também morrem.

Aperta-se o equilíbrio do velho candeeiro que pondera o confronto entre o vento e o exotismo da escuridão e a protecção com que o alpendre cala a humidade e afasta a noite.

- Sou agora o que procurava. As tuas cartas sempre foram lidas com as mãos a viajar para o rosto onde se recolheram as tuas.

02 julho 2012

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 2012.07.02


(c) Miguel Marecos

Há um caos que por vezes prevalece, vagueia dentro de si próprio ou está aprisionado em rituais de causas desconhecidas, imune a questões, ignorando contornos voláteis

- sempre que subo lentamente as escadas de ferro para o sótão, escuto ainda as teclas do piano a afastar o pó do abandono.

- consegues regressar lá? Voltas muitas vezes?

- não se contam repetições de sonhos.

- sabes: apenas sonhava com o tempo atravessado por canções que não se limitavam a rodeá-lo nas noites em que partias: prolongava horas no presente: não distinguia o solo que percorria – não via fronteiras entre o que era real e a ilusão de um desenho em que os traços era lidos por dedos lentos.

- o som cercava-te mais? De olhos fechados dançavas entre as horas que libertavam cada minuto que incluíam? Eu não conseguia recordar a tua voz. Tudo se sobrepunha. O desejo de a voltar a escutar era tão grande que se apagava em fracções de tempo tão mínimas. Todas as imagens, cada um dos sons e a quantidade inesgotável de luz diluíam palavra por palavra, o que me dizias com o olhar que não perdi.

- aquele topo da casa era a elevação geográfica onde queria atingir um estado inventado: estava sempre bem lá: quanto te esperava, quando chegavas; ficavas; ias: quando saías, deixava-me por lá a percorrer cada milímetro que tinhas ocupado: queria levar cada um desses recantos, distribui-lo por cada dia que espreitava por ti: ordenar o caos: dar-lhe olhos em brilho num ritual sem contornos: arredondar e implodir a saudade que feria: volatilizar a ausência.

- as conversas voavam, eram espécies sem épocas migratórias: cantar contigo as palavras que ainda davam os primeiros passos após serem geradas: com pouco tempo de vida davam-me as sensações de viagens desde tempos milenares, eu vagueava por ti e queria-me num espaço cativado por gesto que o enchesses.

- agora que caminhamos para lá, o tempo está cada vez mais suspenso. A tua mão retira vento à minha e no entanto ela voa como nunca e o colapso da respiração torna-a ainda mais leve. Há memórias que se realizam, materializam e cristalizam o que pareciam esboços à espera que lhes percorresses a alargasses os traços para que se tornassem invisíveis a partir dai.

- conseguiremos voltar a entrar?

- nunca de lá saímos. Prevalece o que seremos.



1 Sigur Rós - Fjögur píanó
2 The Czars - Song To The Siren
3 Calexico - The Black Light
4 Morphine - You Look Like Rain
5 Chris & Carla ft.Tindersticks -Take Me
6 Lambchop - Kind Of
7 The Go-Betweens - When She Sang About Angels
8 The Triffids - Burry Me Deep In Love
9 Jack the Ripper - Old Stars

01 julho 2012

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 2012.07.01


(C) Miguel Marecos

A lua espreita escondida e ri-se.

Tal como o seu estado, natureza ou elemento influenciador, o seu riso é ambíguo.

Dos reinos da simbiose ou dos domínios do parasitismo?

Devolve à noite o brilho que rouba ao sol, ou tal como nós, relecte a alma quando não tem medo de um espelho que aconchega?

A magia com que atenua ou amplia o recorte num céu negro ou numa tela com elementos que cintilam - como os olhares espalhados a que se dão a profundeza dos sentidos deslocados - altera-lhe a forma ou apenas expõe o que não receia?

Hoje tem um som diferente, mas sob um manto que é o de sempre.

É uma textura que desenhamos e que toco, quando deixo a praia e caminho para o exterior da cidade, atravessando o rio que a une, e te vejo em cada cor incluída na geometria de um beijo que me chama.

( para guardar )



01 - Beirut - A Candle's Fire
02 - Beach House - On The Sea
03 - Richard Buckner - Home
04 - The For Carnation - Emp. Man's Blues
05 - Sivert Høyem - Long Slow Distance
06 - Catherine Wheel - Fripp
07 - Danger Mouse And Sparklehorse - Revenge
08 - Mojave 3 - In Love With A View
09 - Blonde Redhead - The Dress